Relação entre aborto e saúde mental

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A relação entre o aborto induzido e a saúde mental é um tópico de controvérsia política.[1][2] Embora em algumas mulheres o aborto esteja associado a sentimentos negativos e perturbações clinicamente significativas, problemas semelhantes a estes também estão associados a situações em que se leva uma gravidez indesejada a termo.[3][4] Dadas estas duas alternativas, as melhores evidências científicas sugerem que um único aborto induzido durante o primeiro trimestre em mulheres adultas não apresenta maiores riscos de saúde mental do que levar uma gravidez indesejada a termo.[3][5] As evidências são menos claras em situações de abortos sucessivos e interrupções tardias da gravidez após a 20ª semana devido a anormalias do feto.[3]

A American Psychological Association's Task Force on Mental Health and Abortion norte-americana concluiu que os problemas de saúde mental após o aborto estão muito provavelmente associados a fatores de risco pré-existentes. Entre estes fatores de risco estão terminar uma gravidez que é desejada, a pressão de terceiros para terminar a gravidez, a oposição ao aborto dos parceiros, família ou amigos, a falta de apoio de outros e vários traços de personalidade (como falta de auto-estima e pessimismo) e antecedentes de problemas de saúde mental anteriores à gravidez.[6] Uma vez que estes fatores de risco também predispõem algumas mulheres a reações negativas após o parto, a Task Force concluiu que a maior prevalência de perturbações mentais entre mulheres com antecedentes de aborto é muito provavelmente causada por estes outros fatores, e não pelo aborto em si.[6] O melhor indicador de problemas de saúde mental na sequência de um aborto são antecedentes de problemas de saúde mental anteriores à gravidez.[6][5]

O National Collaborating Centre for Mental Health britânico concluiu igualmente que um único aborto durante o primeiro trimestre não aumenta o risco de problemas de saúde mental, quando comparado com os riscos associados a levar uma gravidez a termo.[5][7] Uma revisão sistemática da literatura de 2008 sobre o aborto e saúde mental cincluiu que os estudos de maior qualidade demonstravam consistentemente que existiam poucas ou nenhumas consequências negativas do aborto, enquanto os estudos de pouca qualidade eram mais suscetíveis a relatar consequências negativas.[8]

Apesar do consenso médico de que um único aborto durante o primeiro trimestre não aumenta o risco de problemas de saúde mental,[9] alguns grupos anti-aborto têm continuado a alegar a existência de uma associação entre o aborto e problemas de saúde mental.[10] Alguns destes grupos usam o termo "síndrome pós-abrto" para se referir aos efeitos psicológicos negativos que associam ao aborto. No entanto, este "síndrome pós-aborto" não é reconhecido como síndrome pela comunidade médica.[11][12] Os médicos e os grupos pró-escolha têm alegado que o esforço por popularizar a noção de um "síndrome pós-aborto" é uma tática usada por grupos pró-vida com objetivos políticos.[1][10][13][14] Alguns estados dos Estados Unidos têm obrigado a que os pacientes sejam informados de que o aborto aumenta o risco de depressão e suicídio, apesar das evidências científicas que contrariam estas alegações.[8][15]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Bazelon, Emily (21 de janeiro de 2007). «Is There a Post-Abortion Syndrome?». New York Times Magazine. Consultado em 11 de janeiro de 2008.. Cópia arquivada em 24 de abril de 2009 
  2. «Post-Abortion Politics». NOW with David Brancaccio. PBS. 20 de julho de 2007. Consultado em 18 de novembro de 2008.. Cópia arquivada em 20 de outubro de 2008 
  3. a b c Major B, Appelbaum M, Beckman L, Dutton MA, Russo NF, West C. (2008). Report of the APA Task Force on Mental Health and Abortion. Washington, DC: American Psychological Association. pp. 4–5, 11–12 
  4. Fergusson, David M; Horwood, L John; Boden, Joseph M (3 de abril de 2013). «Does abortion reduce the mental health risks of unwanted or unintended pregnancy? A re-appraisal of the evidence». Australian & New Zealand Journal of Psychiatry (em inglês). 47 (9): 819–827. doi:10.1177/0004867413484597 
  5. a b c «Induced Abortion and Mental Health: A systematic review of the evidence» (PDF). National Collaborating Centre for Mental Health. Dezembro de 2011. Cópia arquivada em 25 de março de 2012 
  6. a b c Major B, Appelbaum M, Beckman L, Dutton MA, Russo NF, West C. (2008). Report of the APA Task Force on Mental Health and Abortion. Washington, DC: American Psychological Association. pp. 4–5, 11–12 
  7. Dreaper, Jane (9 de dezembro de 2011). «Abortion 'does not raise' mental health risk». BBC. Consultado em 18 de abril de 2012. 
  8. a b Charles VE, Polis CB, Sridhara SK, Blum RW (2008). «Abortion and long-term mental health outcomes: a systematic review of the evidence». Contraception. 78 (6): 436–50. PMID 19014789. doi:10.1016/j.contraception.2008.07.005 
  9. «Abortion Surveillance -- United States, 2008». Centers for Disease Control. 2011. Consultado em 17 de setembro de 2015.. Among the 42 areas that reported the number of previous abortions for 2008, the majority of women (55.6%) had not previously had an abortion... 
  10. a b Stotland NL (2003). «Abortion and psychiatric practice». J Psychiatr Pract. 9 (2): 139–49. PMID 15985924. doi:10.1097/00131746-200303000-00005  "Currently, there are active attempts to convince the public and women considering abortion that abortion frequently has negative psychiatric consequences. This assertion is not borne out by the literature: the vast majority of women tolerate abortion without psychiatric sequelae."
  11. Cohen, Susan A. (2006). «Abortion and Mental Health: Myths and Realities». Guttmacher Policy Review. Guttmacher Institute. Consultado em 4 de novembro de 2014. 
  12. «Q&A: Abortion and mental health». Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. Agosto de 2008. Consultado em 5 de novembro de 2014. 
  13. Mooney, Chris (outubro de 2004). «Research and Destroy: How the religious right promotes its own 'experts' to combat mainstream science». Washington Monthly. Arquivado do original em 4 de abril de 2008 
  14. Stotland NL (outubro de 1992). «The myth of the abortion trauma syndrome». JAMA. 268 (15): 2078–9. PMID 1404747. doi:10.1001/jama.268.15.2078 
  15. Lazzarini Z (novembro de 2008). «South Dakota's Abortion Script – Threatening the Physician-Patient Relationship». N. Engl. J. Med. 359 (21): 2189–2191. PMID 19020321. doi:10.1056/NEJMp0806742. The purported increased risks of psychological distress, depression, and suicide that physicians are required to warn women about are not supported by the bulk of the scientific literature. By requiring physicians to deliver such misinformation and discouraging them from providing alternative accurate information, the statute forces physicians to violate their obligation to solicit truly informed consent.