Aspiração uterina a vácuo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Aspiração uterina a vácuo ou apenas aspiração a vácuo é um método de aborto que consiste na aspiração do conteúdo uterino através de sonda acoplada a um dispositivo que faz a sucção.[1] Pode ser utilizado como um método de indução ao aborto, um procedimento terapêutico aplicado após o aborto, ou um processo de obtenção de uma amostra de biópsia do endométrio. A taxa de infecção de 0,5% é inferior a qualquer outro procedimento cirúrgico abortivo.[2] Algumas fontes podem usar os termos dilatação e evacuação[3] ou dilatação e curetagem[4] para se referir a aspiração a vácuo, embora esses termos sejam normalmente utilizados para se referir a processos distintos.

História[editar | editar código-fonte]

Aspirar como um meio de remover o conteúdo uterino, ao invés do uso prévio de uma cureta dura de metal, foi algo pioneiro em 1958 lançado pelos Drs. Wu e Wu Yuantai Xianzhen na China,[5] mas seus trabalhos só foram traduzidos para o inglês no quinquagésimo aniversário do estudo, que concluiu essa técnina como "o procedimento obstétrico mais comum e mais seguro do mundo".[6]

No Canadá, o método foi introduzido e melhorado por Henry Morgentaler, atingindo uma taxa de complicação de 0,48% sem mortes em mais de 5.000 casos.[7] Ele foi o primeiro médico na América do Norte a usar a técnica, treinando outros médicos a usá-la.[8]

Dorothea Kerslake introduziu o método no Reino Unido em 1967, e publicou um estudo nos Estados Unidos que disseminou ainda mais a técnica.[6][9]

Harvey Karman, nos Estados Unidos, refinou a técnica no início dos anos 1970 com o desenvolvimento da cânula Karman, uma cânula macia, flexível que evitava a necessidade de dilatação cervical inicial, reduzindo assim o risco de perfuração do útero.[6]

Usos clínicos[editar | editar código-fonte]

A aspiração a vácuo pode ser utilizada como método indutor ao aborto; como processo terapêutico após o aborto; para auxiliar na regulação menstrual; e para se obter uma amostra de biópsia endometrial.[10] É também utilizada para interromper a gravidez molar.[11]

Quando usada como tratamento para aborto ou método de aborto, a aspiração pode ser realizada sozinha ou com dilatação cervical a qualquer momento no primeiro trimestre (até 12 semanas de idade gestacional). Para gestações mais avançadas, a aspiração a vácuo pode ser usada como etapa para o precedimento de dilatação e evacuação. [12] A aspiração a vácuo é o procedimento utilizado por quase todos os abortos de primeiro trimestre em muitos países.[10]

Procedimento[editar | editar código-fonte]

A diagram of a vacuum aspiration abortion procedure at 8 weeks gestation.
1: saco amniótico
2: Embrião
3: revestimento do útero
4: espéculo
5: Vacureta
6: Ligado a uma bomba de sucção

A aspiração a vácuo é um procedimento ambulatorial que geralmente envolve a permanência por várias horas em uma clínica.[13] O procedimento em si geralmente leva menos de 15 minutos.[2] A aspiração é criada com uma bomba elétrica (aspiração a vácuo elétrica ou EVA) ou com uma bomba manual (aspiração manual ou MVA). Ambos os métodos utilizam o mesmo nível de sucção, podendo ser considerados equivalentes em termos de eficácia e segurança.[14]

O médico pode usar primeiro um anestésico para entorpecer o colo do útero. Em seguida, pode utilizar instrumentos chamados "dilatadores" para abrir o colo do útero, ou, por vezes, pode induzir a dilatação por meio de medicamentos. Por fim, uma cânula esterilizada é inserida no útero. Essa cânula se liga a uma bomba que cria vácuo, esvaziando o conteúdo uterino.[2]

Após o procedimento de aborto induzido, ou após usar o procedimento para tratar o aborto natural, o tecido removido do útero é examinado, finalizando o procedimento.[2] Dentre o conteúdo esperado, encontram-se o embrião ou feto, bem como decídua, vilosidades coriónicas, líquido amniótico, membrana amniótica e outros tecidos.

Vantagens sobre dilatação e curetagem[editar | editar código-fonte]

Já houve um tempo em que a dilatação e curetagem (D&C), também conhecida apenas por "curetagem", representou o padrão de atendimento em situações exigindo evacuação uterina. No entanto, a aspiração a vácuo possui muitas vantagens em relação à D&C, em grande parte substituindo-a em muitos contextos.[15]

A aspiração a vácuo pode ser utilizada mais cedo durante a gravidez do que a dilatação e curetagem (D&C). A aspiração a vácuo manual é o único procedimento de aborto cirúrgico disponível em estágio anterior à 6ª semana de gravidez.[2] A aspiração a vácuo possui menores taxas de complicações quando comparadas às da D&C.[14]

A aspiração a vácuo, principalmente a aspiração manual, é significativamente mais barata do que a D&C. O equipamento necessário para a aspiração custa menos do que um conjunto de cureta. Ao contrário da D&C, a aspiração a vácuo não requer anestesia geral, permitindo que seja realizada como um procedimento ambulatorial em uma clínica, em vez de em um ambiente hospitalar cirúrgico. Embora a D&C geralmente seja realizada apenas por médicos, a aspiração a vácuo pode ser realizada por clínicos práticos como assistentes e parteiros.[16]

A aspiração a vácuo manual não requer eletricidade, podendo ser fornecida em locais com serviço elétrico pouco confiável ou sem eletricidade. A aspiração também tem a vantagem de ser silenciosa, sem o ruído de uma bomba de vácuo eléctrica.[16]

Complicações[editar | editar código-fonte]

Quando utilizado para evacuação uterina, a aspiração a vácuo é 98% eficaz na remoção de todo o conteúdo do útero.[14] Produtos da concepção retidos requerem um segundo procedimento de aspiração. Isso é mais comum quando o procedimento é realizado muito cedo na gravidez, antes de 6 semanas de idade gestacional.[2]

Outras complicações ocorrem a uma taxa menor do que 1 em 100 procedimentos e incluem: perda excessiva de sangue, infecção, ferimentos ao colo do útero ou no útero,[14] incluindo perfuração e aderências uterinas.[17]

Referências

  1. Antonio Carlos Lopes. Diagnóstico e tratamento. Manole; 2006. ISBN 978-85-204-2278-6. p. 185.
  2. a b c d e f «Manual and vacuum aspiration for abortion». A-Z Health Guide from WebMD. 2006. Consultado em 18 de fevereiro de 2006 
  3. «Miscarriage». EBSCO Publishing Health Library. Brigham and Women's Hospital. 2007. Consultado em 7 de abril de 2007 
  4. «What Every Pregnant Woman Needs to Know About Pregnancy Loss and Neonatal Death». The Unofficial Guide to Having a Baby. WebMD. 7 de outubro de 2004. Consultado em 29 de abril de 2007 
  5. Wu Y and Wu X (1958). «A report of 300 cases using vacuum aspiration for the termination of pregnancy» (PDF). Chinese Journal of Obstetrics and Gynaecology (em English translation from BMJ): 447–9 
  6. a b c Coombes R (2008). «Obstetricians seek recognition for Chinese pioneers of safe abortion». BMJ. BMJ. 336 (7657): 1332–3. PMC 2427078Acessível livremente. PMID 18556303. doi:10.1136/bmj.39608.391030.DB 
  7. Morgentaler H H (1973). «Report on 5641 outpatient abortions by vacuum suction curettage». CMAJ. 109(12): 1202–5. PMID 4758593 
  8. Morgentaler H (1989). «Alan F. Guttmacher lecture». Am J Gynecol Health: 38–45. PMID 12284999 
  9. Kerslake D, Casey D (1967). «Abortion induced by means of the uterine aspirator». Obstet Gynecol. 30 (1): 35–45. PMID 5338708 
  10. a b Baird, Traci L. and Susan K. Flinn (2001). «Manual Vacuum Aspiration: Expanding women's access to safe abortions services» (PDF). Ipas: 3. Consultado em 28 de janeiro de 2008 , que cita:
    Greenslade, Forrest; Janie Benson, Judith Winkler, Victoria Henderson and Ann Leonard (1993). «Summary of clinical and programmatic experience with manual vacuum aspiration». Advances in Abortion Care. 3 (2) 
  11. «Managing complications in pregnancy and childbirth: A guide for doctors and midwives». World Health Organization. 2003. Consultado em 14 de setembro de 2006 
  12. Baird (2001), pp 4-5,14 (laterais e caixa de informações).
  13. Baird (2001), p. 10 (tabela).
  14. a b c d Baird (2001), pp. 4-6.
  15. Baird (2001), p. 2.
  16. a b Baird (2001), pp. 5,8-13.
  17. Dalton, VK; Saunders NA, Harris LH, Williams JA, Lebovic DI (2006). «Intrauterine adhesions after manual vacuum aspiration for early pregnancy failure». Fertility and Sterility. 85 (6): 1823.e1–3. PMID 16674955. doi:10.1016/j.fertnstert.2005.11.065