SN Álvaro Alberto (SN-10)

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SN Álvaro Alberto
Alvaro Alberto SSN.svg
 Brasil
Operador Marinha do Brasil
Fabricante Itaguaí Construções Navais
Homônimo Álvaro Alberto da Mota e Silva
Estaleiro Complexo Naval Industrial de Itaguaí
Batimento de quilha 2018
Número de registro SN-10
Estado em construção
Características gerais
Tipo de navio submarino nuclear
Deslocamento 6 000 t[1]
Comprimento 100 m[1]
Propulsão Reator nuclear PWR
Velocidade c. 24–26 nós
Autonomia ilimitado[1]
Profundidade 350 m[1]
Tripulação 100[1]

O SN Álvaro Alberto (SN-10) é um submarino nuclear brasileiro de ataque em construção para a Marinha do Brasil pela empresa Itaguaí Construções Navais (ICN). A construção faz parte da parceria estratégica firmada entre a França e o Brasil em 2009, que também incluiu a transferência total de tecnologia e o apoio à construção de quatro submarinos da classe Scorpène.[2]

O nome do submarino será uma homenagem ao vice-almirante e cientista da Marinha Álvaro Alberto da Motta e Silva, responsável pela implantação do Programa Nuclear Brasileiro.[3] Motta e Silva também foi presidente do Comitê de Energia Atômica das Nações Unidas entre 1946-47 e presidente da Academia Brasileira de Ciências por dois mandatos, de 1935 a 1937 e de 1949 a 1951.[4]

O Brasil é o sétimo país do mundo, depois dos Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China e Índia, a desenvolver a tecnologia necessária para a construção de submarinos nucleares.[5][6]

História[editar | editar código-fonte]

O projeto do submarino nuclear da Marinha data da década de 1970, mais praticamente entre 1976 e 1978. Foi decidido então que o país deveria obter os três processos vitais.[7] O primeiro ponto foi o domínio do ciclo do combustível nuclear, conhecido internamente como o projeto Ciclone. Em segundo lugar, o desenvolvimento de um reator nuclear para uso nos submarinos, o projeto Remo. Como terceiro ponto, o desenvolvimento do conhecimento para projetar e construir um casco para acomodar o reator em desenvolvimento, o projeto Costado.[7][8]

Domínio do ciclo de combustível[editar | editar código-fonte]

Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, no estado do Rio de Janeiro

O início do projeto para o domínio do ciclo do combustível e reator nuclear ocorreu em 1979: neste ano, a Marinha ingressou no IPEN-SP (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares de São Paulo) onde passou a atuar num dos mais ambiciosos programas no país até ao momento. Em 1982 a Marinha conquistou a sua primeira grande vitória ao adotar a técnica de ultracentrifugação para enriquecimento e conhecer a tecnologia do hexafluoreto de urânio na cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais . No mesmo ano, os pesquisadores do projeto realizaram o enriquecimento isotópico de urânio com centrífugas totalmente construídas no Brasil.[7][8]

Para apoiar as atividades experimentais do programa de pesquisa e desenvolvimento do ciclo do combustível e reatores nucleares, foi construído no estado de São Paulo o Centro Experimental Aramar (CEA).[7] O centro abriga instalações de teste e laboratórios de validação experimental. Também é responsável pelo enriquecimento de urânio em pequena escala industrial, mas suficiente para abastecer reatores nucleares de pesquisa existentes no país. Num período de aproximadamente 20 anos o país adquiriu o ciclo do combustível nuclear e pôde iniciar a construção do reator nuclear naval.[7][8]

Reator nuclear naval[editar | editar código-fonte]

Presidente Bolsonaro durante uma visita ao protótipo do reator nuclear naval, outubro de 2020

Em 2014, após muitos anos e uma série de problemas, atrasos no financiamento federal e congelamentos de programas, o primeiro reator naval de testes nucleares foi construído em terra no Centro Experimental de Aramar, com o objetivo de viabilizar os processos tecnológicos, industriais e operacionais da energia nuclear em instalações aplicáveis à propulsão de embarcações.[9][10] Em 2018 foi lançado o protótipo do reator nuclear naval do Álvaro Alberto, conhecido como Reator Multiuso Brasileiro.[11]

Casco de submarino[editar | editar código-fonte]

Primeiro submarino Scorpène brasileiro

No início do projeto, em 1979, a Marinha desconhecia os processos de construção de casco de um submarino. Primeiro foi necessário adquirir novos e modernos submarinos que pudessem ser construídos no Brasil. Os primeiros submarinos eram da classe Type 209 de origem alemã (que seria no Brasil a classe Tupi). Em 1982 o país assinou contratos para a construção de cinco novos submarinos da Marinha, quatro deles em território brasileiro, no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro. O país também investiu na modernização das suas instalações e na capacitação da indústria nacional, bem como na qualificação humana.[8]

Em 2009 o Brasil comprou à França quatro submarinos ampliados da classe Scorpène com propulsão convencional por um valor de US $ 10 bilhões, com um acordo total de transferência de tecnologia, dando ao país o conhecimento para o projeto e construção de modernos cascos de submarinos.[12] O primeiro submarino brasileiro da classe, o S Riachuelo (S-40), foi lançado no dia 14 de dezembro de 2018.[13][14]

O projeto foi iniciado em 2012 aravés do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), tendo a base de Itaguaí, no Rio de Janeiro, como ponto de desenvolvimento e fabricação de submarinos. De 2010 a 2012 um grupo de 31 engenheiros, 25 oficiais e 6 funcionários civis, recebeu treino e instrução teórica pela DCNS em Cherbourg. Em 2018, mais de 400 engenheiros brasileiros trabalharam na equipe do projeto do submarino nuclear, originalmente formado pelo grupo que recebeu treinamento na França.[14][15]

Racional estratégico[editar | editar código-fonte]

Zona econômica exclusiva brasileira

O programa de modernização da Marinha do Brasil prevê o desenvolvimento e construção de seis submarinos SSN.[16] Na doutrina brasileira, a razão de ser da estratégia de defesa nacional é o desenvolvimento da capacidade de dissuasão estratégica contra "qualquer força hostil" ao território nacional terrestre ou marítimo.[17] O país entende que, com a sua futura frota nuclear, pelo menos algumas das suas armas serão capazes de sobreviver ao primeiro ataque (nuclear ou não nuclear) de um inimigo e evitar novas tentativas de agressão.[18]

Outra justificativa é apoiar a defesa da chamada Amazônia Azul,[19] uma área rica em recursos que cobre cerca de 4,500,000 km2 (1,700,000 sq mi) ao largo da costa brasileira. Esta área é a zona econômica exclusiva do país, lar de uma enorme diversidade de espécies marinhas, valiosos minerais metálicos e outros recursos minerais, petróleo e a segunda maior reserva de terras raras do mundo.[20][21]

Política nuclear brasileira[editar | editar código-fonte]

O país tem uma política de não armas nucleares desde a década de 1990.[22] No entanto, especialistas do Laboratório Nacional de Los Alamos concluíram que o Brasil desenvolveu capacidade tecnológica para colocar em campo armas nucleares, caso essa política mude,[23] usando centrífugas como a Resende para produzir urânio altamente enriquecido para esse tipo de armamento.[24][25] Em vez disso, o país optou por trabalhar no desenvolvimento de uma frota de submarinos nucleares.[7][26]

Características[editar | editar código-fonte]

O Álvaro Alberto tem muitas semelhanças com o seu antecessor convencional da classe Scorpène. O primeiro submarino nuclear brasileiro terá uma boca de 9.8 m (32 ft) para acomodar o reator nuclear de água pressurizada (PWR).[7] Tem ainda 100 m (330 ft) comprimento e um deslocamento de 6.000 toneladas, que serão impulsionados por um sistema de propulsão totalmente elétrico com uma potência de 48 MW (64,000 hp).[27]

As vantagens de um SSN em relação a um SSK com propulsão convencional são uma durabilidade muito mais longa (um submarino nuclear pode ficar submerso por meses e não precisa de ser reabastecido) e maior velocidade. Ao contrário da maioria dos SSKs, os SSNs não precisam emergir periodicamente para a superfície, o que comprometeria sua furtividade.[28][29]

As suas funções incluem plataformas de coleta de inteligência, inserção e extração de equipes de forças especiais, além das funções SSN tradicionais de caça e ataque. O papel mais proeminente dos SSNs é a capacidade de lançar mísseis de cruzeiro, dando uma sobreposição significativa entre submarinos de mísseis de cruzeiro (SSGN) e submarinos de ataque tradicionais.[28][29]

Programa de construção[editar | editar código-fonte]

Nome No. Construtor Batimento Lançamento Comissionamento Custo Estado
Álvaro Alberto SN10 ICN, Ilha da Madeira 2018[14] 2029[30] 2032 a 2034[31][32] US $ 7,4 bilhões[31][33] Em construção[14]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e Marinha do Brasil. Programa Nuclear da Marinha. Acesso em 20 de novembro de 2016
  2. «Base de submarino nuclear começará a ser construída em fevereiro». Terra. 30 de janeiro de 2010 
  3. «Um cientista, uma história, Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva». Defesa Aérea & Naval. 10 de dezembro de 2015 
  4. «Álvaro Alberto da Mota e Silva». Academia Brasileira de Ciências. Consultado em 5 de agosto de 2019 
  5. «Brazil launches first of five navy attack submarines». EFE. 14 de dezembro de 2019 
  6. «Brazil take first step in program to join nuclear-powered sub club». Reuters. 14 de dezembro de 2018 
  7. a b c d e f g «Programa Nuclear da Marinha | Bem Vindo ao CTMSP». www.marinha.mil.br. Consultado em 4 de outubro de 2021 
  8. a b c d «O mais longo de todos os programas – parte 1». Poder Naval. 2 de dezembro de 2009 
  9. «Primeiro submarino nuclear brasileiro será usado em 2023». Revista Galileu. Consultado em 5 de agosto de 2019 
  10. «Quem somos». CTMSP. Consultado em 5 de agosto de 2019 
  11. «LABGENE: Conhecendo a planta nuclear do Submarino de propulsão Nuclear brasileiro». Defesa Aérea & Naval. 30 de agosto de 2018 
  12. «Novos submarinos da MB: Senado aprova o empréstimo de 4,32 bilhões de euros». 2 de setembro de 2009 
  13. «Com Temer e Bolsonaro, Marinha lança submarino Riachuelo». Veja. 14 de dezembro de 2019 
  14. a b c d «O Prosub e o submarino nuclear brasileiro SN-BR». Poder Naval - Navios de Guerra, Marinhas de Guerra, Aviação Naval, Indústria Naval e Estratégia Marítima. 20 de fevereiro de 2018. Consultado em 4 de outubro de 2021 
  15. «O Prosub». Consultado em 3 de agosto de 2019 
  16. «Brazilian Navy - Marinha do Brasil - Modernization». GlobalSecurity.org. Consultado em 7 de maio de 2019 
  17. «Estratégia Nacional de Defesa». Ministério da Defesa do Brasil. Consultado em 7 de setembro de 2019 
  18. «Brazilian Navy - Marinha do Brasil - Modernization». GlobalSecurity.org. Consultado em 5 de março de 2020 
  19. «Brazilian nuclear policy under Bolsonaro: no nuclear weapons, but a nuclear submarine». The Bulletin. 12 de abril de 2019 
  20. Redacción LA NACION (14 de dezembro de 2018). «Brasil lanzó al mar un ultramoderno submarino para vigilar sus aguas». Buenos Aires. La Nación (em espanhol). ISSN 0325-0946. Consultado em 4 de outubro de 2021 
  21. «Brasil tem segunda maior reserva mundial de terras raras, mas não aparece entre os maiores produtores». O Globo. 30 de maio de 2019 
  22. «Presidency of the Republic, Deputy Chief of Legal Affairs - Decree No. 2864 from 7 December 1998». Presidency of the Republic. 7 de dezembro de 1998 
  23. Brazil and the Bomb Arquivado 2010-06-01 no Wayback Machine German Council on Foreign Relations.
  24. How Brazil Spun the Atom Arquivado 2009-08-22 no Wayback Machine Institute of Electrical and Electronics Engineers.
  25. Weapons of Mass Destruction (WMD): Resende Nuclear Fuel Factory (FCN) Globalsecurity.org.
  26. «Brazilian nuclear policy under Bolsonaro: no nuclear weapons, but a nuclear submarine». The Bulletin. 12 de abril de 2019 
  27. «Submarino Nuclear Brasileiro Alvaro Alberto (SN 10)». Defesa Aérea & Naval. 7 de dezembro de 2012 
  28. a b «Nuclear versus diesel-electric: the case for conventional submarines». The Strategist. 11 de julho de 2017 
  29. a b «How do nuclear-powered submarines work? A nuclear scientist explain». Science AU. Consultado em 20 de setembro de 2021 
  30. «Projeto para construção de submarino nuclear brasileiro está adiantado", diz Chefe do Estado-Maior da Armada na ACSP». Defesa Aerea e Naval. 2 de julho de 2021 
  31. a b «Programas da MB em 2019: PROSUB». Poder Naval - Navios de Guerra, Marinhas de Guerra, Aviação Naval, Indústria Naval e Estratégia Marítima. 12 de janeiro de 2020. Consultado em 4 de outubro de 2021 
  32. «Brazilian SSN Alvaro Alberto to be commissioned in 2034». Navy Recognition. 4 de junho de 2021 
  33. Jasper, Fernando. «Submarino nuclear já recebeu R$ 21 bilhões, mas crise atrasou cronograma». Gazeta do Povo. Consultado em 4 de outubro de 2021