Vira-lata

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Vira-Lata
País de origem Brasil
Características
Classificação e padrões
Federação Cinológica Internacional
Grupo 3
Seção 3 - Cães de companhia
Estalão #10 de janeiro de 1996

Vira-lata (português brasileiro) ou rafeiro (português europeu) é a denominação dada aos cães ou gatos sem raça definida, SRD (Sem Raça Definida), como são geralmente referenciados em textos veterinários.

O termo vira-lata deriva do fato de muitos desses animais, quando abandonados, serem comumente vistos andando famintos pelas ruas revirando latas de resíduos em procura de algum alimento.

Geralmente os cães e gatos considerados sem raça definida são mestiços, descendentes de diferentes raças.

Os SRD, por outro lado, são todos os cães e gatos que não têm origem definidas em um pedigree que é um certificado emitido por entidades oficiais atestando a ascendência do animal. Para obter um pedigree o animal tem que ter pais com o mesmo certificado. Entidades certificadoras exigem verificação de ninhada e mais recentemente a aplicação de microchips por veterinários. O animal pode ter a aparência de um cão de raça mas só o certificado atesta. Hoje, com o avanço dos exames de DNA, provavelmente há possibilidade de se definir se um cão é de uma determinada raça ou não, mas são exames ainda caros. Se houver qualquer mistura de raça (incluindo a cruza de dois animais de raça ou um de raça e um vira-lata) esse animal já será considerado um SRD.

Variedade[editar | editar código-fonte]

Outro cão SRD típico
Outro cão SRD típico

Um dos aspectos mais interessantes do vira-lata é a sua variedade. Encontram-se SRDs de todas as cores e tipos, de todos os temperamentos. Ainda existem algumas características, como o fato de que costumam ser muito inteligentes e afetuosos, variando de acordo com as características herdadas. Normalmente o SRD resgatado das ruas tem um temperamento mais dócil, companheiro e vigilante que os outros cães.

Em termos de aparência, como estes animais se cruzam livremente, a prole resultante tende a ser muito variada em termo de tamanho, forma e cor, tendo-se exemplos de cães de portes diversificados, aptos a viver em interiores ou como animais de sítio ou vigilância. Embora o cruzamento não obedeça a uma ordem, necessariamente, observa-se que após várias gerações os cães mestiços exibam características grosseiramente similares. Eles tendem a ser cor caramelo ou preto, e pesar em torno de 18 kg, tipicamente tendo de 38 a 57 cm de altura.

Acredita-se que a aparência de um cão mestiço seja muito parecida com a de seus ancestrais Canis lupus familiaris, de onde as raças puras foram selecionadas.

Variedades de cruzamento[editar | editar código-fonte]

A maioria das raças existentes é resultado de seleção humana. Raças hoje catalogadas e reconhecidas começaram como raças mestiças, geradas por aleatoridade ou através de cruzamentos ordenados de raças então existentes. Encorajando traços desejáveis e desencorajando outros, criadores procuraram criar um padrão ideal de aparência ou comportamento, ou os dois, para cães e gatos, para garantir que os animais resultantes dos cruzamentos subsequentes apresentassem os mesmos padrões de aparência ou comportamento.

Cachorro vira-lata em uma chácara no interior do estado do Maranhão, Brasil.

É possível dividir, grossamente, os cães sem raça definida em quatro tipos:

  • Cães mestiços que mostram características marcantes de duas ou mais raças. Um cão mestiço pode ter ancestrais de raça pura, ou podem vir de uma longa linha de cães mestiços. Estes cães são geralmente identificados pela raça com a qual mais se assemelham, como "Lab mix" ou "Collie-Shepherd", mesmo que a ancestralidade seja desconhecida.
  • Cão "vira-lata" genérico, onde a criação não selecionada ocorreu durante tantas gerações que já é impossível distinguir características particulares de uma ou outra espécie. Dentre estes, incluem-se também os cães párias, originalmente uma designação de cães selvagens da Índia. Análises de DNA destes cães indicam um "pool" genético muito antigo quando comparado a raças modernas.
  • Raças funcionais, que são cães criados com determinado propósito, ainda que seus ancestrais não sejam puro-sangue, mas selecionados de acordo com seu desempenho em tarefas particulares de serviço ou companhia. Exemplos incluem o Alaskan Husky, o Eurohound, os Pointer/Greyhound mixes, conhecidos como Greysters. Embora não sejam raças reconhecidas, eventualmente elas podem assim ser classificadas.
  • Cães híbridos, que são misturas conhecidas de duas raças puras. Algumas raças cruzadas se tornaram populares o suficiente para seu cruzamento se tornar desejável, como o Cockapoo - cruzamento entre um Poodle e um Cocker Spaniel. Estes cruzamentos tem objetivo de adicionar ou reforçar características desejáveis de ambas as espécies, para finalidades diversas como companhia, guarda, caça, etc.

Saúde[editar | editar código-fonte]

Cão sem raça definida de aproximadamente 1 ano

Muito importante para quem procura um cão ou gato para adotar e ter como companhia, é saber que os vira latas (SRD) são fruto de genes que já foram provados, testados e sobreviveram as condições precárias de alimento e abrigo nas ruas, razão pela qual, costumam ser muito resistentes e saudáveis.

A teoria do vigor híbrido sugere que como um grupo, cães ou gatos de ancestralidade variada serão mais saudáveis que seus ancestrais de pedigree. Em animais de raça definida, o cruzamento de cães com aparência muito similar através de várias gerações produzem animais que podem carregar os mesmos alelos, alguns dos quais são indesejáveis. Isto é ainda mais verdadeiro quando considera-se animais de parentesco próximo. Este cruzamento próximo tem exposto muitos problemas de saúde de natureza genética não tão aparentes em populações menos uniformes. Espécimes sem raça definida são mais diversificados geneticamente devido a natureza casual do encontro entre os pais. A descendência desses encontros tende a expressar menos algumas deficiências genéticas, em virtude da diferença genética natural entre os pais. No entanto, algumas doenças recessivas ocorrem entre muitas raças não relacionadas, e deste modo meramente a mistura de raças não é garantia de saúde genética.

"Cães híbridos tem uma chance muito menor de exibir as deficiências que são comuns às raças de origem", porém o cruzamento não necessariamente garante que a descendência resultante será mais saudável que os pais, pois há uma probabilidade dos filhotes herdarem as piores características de ambos os pais. Esta é uma das razões pelas quais muitos criadores preferem cães de linhagem conhecida. No entanto, é notável que muitos criadores dêem preferência à aparência e conformidade dos cães, ignorando fatores intrínsecos ao cão, como a saúde e sua disposição física.

Cães de raça pura e SRD são igualmente susceptíveis à maioria das doenças não relacionadas à genética, como raiva e infestação por parasitas.

Muitos estudos demonstraram que cães sem raça definida tem uma natural vantagem de saúde. Um estudo feito na Alemanha conclui que "cães mestiços necessitam menos de tratamento veterinário".[1] Estudos na Suécia encontraram que "cães mestiços tem menor tendência a desenvolver muitas doenças em relação a um cão normal de raça definida".[2] Dados da Dinamarca também sugeriram que a mistura de raças produz cães com maior longevidade, se comparados a cães de raça definida.[3] Um estudo britânico demonstrou resultados similares, porém concluiu que algumas raças são em geral mais lôngevas que cães SRD (em especial Jack Russell Terrier, Poodle miniatura e Whippets).[4]

Em outro estudo, o efeito da raça na longevidade dos cães foi analisado utilizando dados da mortalidade de 23.535 animais. Os dados foram obtidos de hospitais veterinários de ensino nos Estados Unidos. Ao comparar a mortalidade de cães de raça definida com os híbridos foi concluído que aqueles sem raça definida viveram em média 1,8 anos a mais nas condições estabelecidas, considerando animais doentes de diferentes pesos e condições clínicas.[5]

Vira-lata no Brasil[editar | editar código-fonte]

Embora tenham no passado recebido má-fama entre os criadores, comparados aos cães de raça pura, há uma tendência crescente para a popularização do vira-lata no Brasil.

Segundo uma pesquisa realizada pelo Datafolha, esse é o cão doméstico mais comum na cidade de São Paulo. O levantamento entrevistou 613 pessoas, numa amostra representativa da população paulistana com 16 anos ou mais. De acordo com a matéria publicada na Folha de São Paulo,[6] a adoção dos cães sem raça definida cresce sobretudo nas classes mais altas, onde os cães hoje dividem espaço com animais de raça definida.

Os criadores veem benefícios na melhor saúde e resistência dos animais, pelo fato da mistura gerar um cão com "competências mais equilibradas". Porém, o principal fator que motiva hoje a adoção de cão mestiço está na questão social da adoção. A maior parte destes animais vem de organizações não-governamentais encarregadas de cuidar e doar os animais, recolhidos das ruas ou de donos incapazes de fornecer os cuidados adequados. Especialistas relembram que, embora resistente e adaptável, o vira-lata ainda assim precisa de cuidado veterinário e alimentação correta, para uma saúde mais forte e um desenvolvimento adequado.

Referências

  1. R. Beythien, Tierarten- und Hunderassenverteilung, Erkrankungshäufigkeit und prophylaktische Maßnahmen bei den häufigsten Hunderassen am Beispiel einer Tierarztpraxis in Bielefeld in den Jahren 1983-1985 und 1990-1992, 1998, Diss., Tierärztl. Hochschule Hannover
  2. A. Egenvall, B.N. Bonnett, P. Olson, Å. Hedhammar, Gender, age, breed and distribution of morbidity and mortality in insured dogs in Sweden during 1995 and 1996, The Veterinary Record, 29 de abril de 2000, p. 519-57
  3. H.F. Proschofsky et al, Mortality of purebred and mixed breed dogs in Denmark, Preventive Veterinary Medicine, 2003, 58, 53-74 "Higher average longevity of mixed breed dogs (grouped together). Age at death mixed breeds (Q1 Q2 Q3 mixed breeds 8,11,13, purebreds 6, 10, 12)"
  4. A. R. Michell, Longevity of British breeds of dog and its relationship with sex, size, cardiovascular variables and disease, Vet. Rec., 27 de Novembro de 1999, S. 625-629 "There was a significant correlation between body weight and longevity. Crossbreeds lived longer than average but several pure breeds lived longer than cross breeds, notably Jack Russell, miniature poodles and whippets" (S. 627 - thus only small and toy breeds, as to be expected)
  5. G.J. Patronek, D.J. Walters, L.T. Glickman, Comparative Longevity of Pet Dogs and Humans: Implications for Gerontology Research, J. Geront., BIOLOGICAL SCIENCES, 1997, Vol 52A, No.3, B171-B178 quote (p. B173) PMID 9158552
  6. [1]. Folha.com.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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