Alexandre O'Neill

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Estátua no Parque dos Poetas.

Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill de Bulhões GOSE nasceu em (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 — e faleceu em Lisboa, 21 de Agosto de 1986) foi um importante poeta do movimento surrealista português. Era descendente de irlandeses.

Autodidacta, O’Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens A Ampola Miraculosa, mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba. As influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias. Não conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua acção à publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e voltar». Foi várias vezes preso pela polícia política, a PIDE.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Os começos[editar | editar código-fonte]

Em 1943, com dezassete anos, publicou os primeiros versos num jornal de Amarante, o Flor do Tâmega. Apesar de ter recebido prémios literários no Colégio Valsassina, esta actividade não foi grandemente incentivada pela família.[1]

Datam do ano de 1947 duas cartas de Alexandre O'Neill que demonstram o seu interesse pelo surrealismo, dizendo numa delas (de Outubro) possuir já os manifestos de Breton e a Histoire du Surrealisme de M. Nadeau. Nesse mesmo ano, O'Neill, Mário Cesariny e Mário Domingues começam a fazer experiências a nível da linguagem, na linha do surrealismo, sobretudo com os seus Cadáveres Esquisitos e Diálogos Automáticos, que conduziam ao desmembramento do sentido lógico dos textos e à pluralidade de sentidos.[2]

Por volta de 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José-Augusto França, António Domingues, Fernando Azevedo, Moniz Pereira, António Pedro e Vespeira. As primeiras reuniões ocorreram na Pastelaria Mexicana. As posições antineorealistas eram frontais e provocatórias, tal como as atitudes contra o regime: em Abril, o Grupo retira a sua colaboração da III Exposição Geral de Artes Plásticas, por recusar a censura prévia que a comissão organizadora decidira impor. Com a saída de Cesariny, em Agosto de 1948, o grupo cindiu-se em dois, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente (que integrou, além do próprio Cesariny, personalidades como António Maria Lisboa e Pedro Oom).

Em 1949, tiveram lugar as principais manifestações do movimento surrealista em Portugal, como a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa (em Janeiro), onde expuseram Alexandre O'Neill, António Dacosta, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Vespeira. Nessa ocasião, Alexandre O'Neill publicou A Ampola Miraculosa como um dos primeiros números dos Cadernos Surrealistas. A obra, constituída por 15 imagens e respectivas legendas, sem nenhum nexo lógico entre a imagem e legenda, poderá ser considerada paradigmática do surrealismo português.[3]

A estreia[editar | editar código-fonte]

Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos surrealistas (1950-52) e a extinção de ambos os grupos, o surrealismo continuou a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O'Neill. Em 1951, no "Pequeno Aviso do Autor ao Leitor", inserido em Tempo de Fantasmas, ele demarcou-se como surrealista. Nessa mesma obra, sobretudo na primeira parte, Exercícios de Estilo (1947-49), a influência deste corrente manifesta-se em poemas como "Diálogos Falhados", "Inventário" ou "A Central das Frases" e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a bicicleta e a máquina de costura.[3]

Política[editar | editar código-fonte]

Neste primeiro livro de poesia inclui o poema que o tornou célebre, "Um Adeus Português", originado num episódio biográfico que o próprio viria a contar, muitos anos mais tarde: no início de 1950, estivera em Lisboa Nora Mitrani, enviada do Surrealismo francês para fazer uma conferência. Conheceu O’Neill e apaixonaram-se. Meses mais tarde, querendo juntar-se-lhe em Paris, O’Neill foi chamado à PIDE e interrogado. Por pressão de uma pessoa da família, foi-lhe negado o passaporte. Coagido a ficar em Portugal, não voltaria a ver Nora Mitrani.

Não foi, de resto, a única vez que Alexandre O’Neill foi confrontado com a polícia política. Em 1953, esteve preso vinte e um dias no Estabelecimento Prisional de Caxias, por ter ido esperar Maria Lamas, regressada do Congresso Mundial da Paz em Viena. A partir desta data, passou a ser vigiado pela PIDE. No entanto, sendo um oposicionista, não militou em nenhum partido político, nem durante o Estado Novo, nem a seguir ao 25 de Abril – conhece-se-lhe uma breve ligação ao MUD juvenil, na altura em que abandona o Grupo Surrealista de Lisboa. A partir desta época, O’Neill foi-se distanciando de grupos ou tertúlias, demasiado irónico e cioso do seu individualismo para se envolver seriamente em qualquer militância partidária.[1]

A obra literária[editar | editar código-fonte]

Em 1958, com a edição de No Reino da Dinamarca, Alexandre O’Neill viu-se reconhecido como poeta. Na década de 1960, provavelmente a mais produtiva literariamente, foi publicando livros de poesia, antologias de outros poetas e traduções.

A poesia de Alexandre O'Neill concilia uma atitude de vanguarda, (surrealismo e experiências próximas do concretismo) — que se manifesta no carácter lúdico do seu jogo com as palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do real, ou nos típicos «inventários» surrealistas — com a influência da tradição literária (de autores como Nicolau Tolentino e o abade de Jazente, por exemplo).[2]

Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal e aos portugueses, destruindo a imagem de um proletariado heróico criada pelo neorealismo, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista no entanto sem dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor.

Temas como a solidão, o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a morte, conduzem ao medo (veja-se "O Poema Pouco Original do Medo", com a sua figuração simbólica do rato) e/ou à revolta, de que o homem só poderá libertar-se através do humor, contrabalançado por vezes por um tom discretamente sentimental, revelador de um certo desespero perante o marasmo do país — "meu remorso, meu remorso de todos nós". Este humor é, muitas vezes, manifestado numa linguagem que parodia discursos estereotipados, como os discursos oficiais ou publicitários, ou que reflecte a própria organização social, pela integração nela operada do calão, da gíria, de lugares-comuns pequeno-burgueses, de onomatopeias ou de neologismos inventados pelo autor.

A vida privada e profissional[editar | editar código-fonte]

Alexandre O’Neill, apesar de nunca ter sido um escritor profissional, viveu sempre da sua escrita ou de trabalhos relacionados com livros. Em 1946, tornou-se escriturário, na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio. Permaneceu neste emprego até 1952. A partir de 1957, começou a escrever para os jornais, primeiro esporadicamente, depois, nas décadas seguintes, assinando colunas regulares no Diário de Lisboa, n’A Capital e, nos anos 1980, no Jornal de Letras, escrevendo indiferentemente prosa e poesia, que reeditava mais tarde em livro, à maneira dos folhetinistas do século XIX.[1]

Em 1959 iniciou-se como redactor de publicidade, actividade que se tornaria definitivamente o seu ganha-pão. Ficaram famosos no meio alguns slogans publicitários da sua autoria, e um houve que se converteu em provérbio: "Há mar e mar, há ir e voltar". Tinha entretanto abandonado definitivamente a casa dos pais, casando com Noémia Delgado, de quem teve um filho, Alexandre. Nesta época, instalou-se no Príncipe Real, bairro lisboeta onde haveria de decorrer grande parte da sua vida, e que levaria para a sua escrita. Neste bairro, encontraria Pamela Ineichen, com quem manteve uma relação amorosa durante a década de 1960. Mais tarde, em 1971, casará com Teresa Gouveia, mãe do seu segundo filho, Afonso, nascido em 1976.[4]

Fez ainda parte da redacção da revista Almanaque (1959-61), publicação arrojada com grafismo de Sebastião Rodrigues onde colaboravam, entre outros, José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira e João Abel Manta.

A sua atracção por outros meios de comunicação, que não a palavra escrita, é testemunhada pela letra do fado "Gaivota" destinada à voz de Amália, com música de Alain Oulman, tal como a colaboração, nos anos 1970, em programas televisivos (fora, aliás, crítico de televisão sob o pseudónimo de A. Jazente), ou em guiões de filmes e em peças de teatro. Em 1982 recebeu o prémio da Associação de Críticos Literários.

Mas a doença começava a atormentá-lo. Em 1976, sofre um ataque cardíaco, que o poeta admitiu dever-se à vida desregrada que sempre tinha sido a sua, e que, apesar de algum esforço em contrário, continuou a ser. No início dos anos 1980, já divorciado de Teresa Gouveia, repartia o seu tempo entre a casa da Rua da Escola Politécnica e a vila de Constância. Em 1984, sofreu um acidente vascular cerebral, antecipatório daquele que, em Abril de 1986, o levaria ao internamento prolongado no hospital.

Alexandre O'Neill morreu em Lisboa a 21 de Agosto de de 1986 em Lisboa.

A 10 de Junho de 1990, a título póstumo, foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.[5]

Obras[editar | editar código-fonte]

Poesia[editar | editar código-fonte]

Edições originais[3]

  • 1948 – A Ampola Miraculosa, Lisboa, Cadernos Surrealistas.
  • 1951 – Tempo de Fantasmas, Cadernos de Poesia, nº11.
  • 1958 – No Reino da Dinamarca, Lisboa, Guimarães.
  • 1960 – Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães.
  • 1962 – Poemas com Endereço, Lisboa, Moraes.
  • 1965 – Feira Cabisbaixa, Lisboa, Ulisseia.
  • 1969 – De Ombro na Ombreira, Lisboa, Dom Quixote.
  • 1972 – Entre a Cortina e a Vidraça, Lisboa, Estúdios Cor.
  • 1979 – A Saca de Orelhas, Lisboa, Sá da Costa.
  • 1981 - As Horas Já de Números Vestidas (Em Poesias Completas (1951-1981))
  • 1983 - Dezanove Poemas (Em Poesias Completas (1951-1983))

Antologias feitas ao longo da vida[3]

  • 1967 – No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1965), 2.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Guimarães.
  • 1974 – No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1969), 3.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Guimarães.
  • 1981 – Poesias Completas (1951-1981), Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982.
  • 1983 – Poesias Completas (1951-1983), 2.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984.
  • 1986 – O Princípio de Utopia, O Princípio de Realidade seguidos de Ana Brites, Balada tão ao Gosto Popular Potuguês & Vários Outros Poemas, Lisboa, Moraes.

Antologias póstumas[3]

  • 2000 – Poesias Completas, com inclusão de dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim.
  • 2005 – anos 1970. Poemas Dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim.

Prosa[editar | editar código-fonte]

[3]

  • 1970 - As Andorinhas não Têm Restaurante, Lisboa, Dom Quixote. (crónicas)
  • 1980 - Uma Coisa em Forma de Assim, 2ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Presença. (contos e crónicas)

Traduções feitas por O'Neill[editar | editar código-fonte]

[3]

  • 1950 – Nora Mitrani, A Razão Ardente (Do Romantismo ao Surrealismo), Cadernos Surrealistas, Lisboa.
  • 1959 – Maiakovski, O Percevejo, Lisboa, Editorial Gleba.
  • 1960 – Dostoievski, O Jogador, Lisboa, Guimarães.
  • 1961-63 – Bertolt Brecht, Teatro I e II, (em colaboração com Ilse Losa), Lisboa, Portugália Editora.
  • 1962 – Alfred Jarry, Mestre Ubu, (em colaboração com Luís de Lima), Lisboa, Minotauro

Antologias feitas por O’Neill[editar | editar código-fonte]

[3]

  • 1959 – Gomes LealAntologia Poética (em colaboração com F. da Cunha Leão), Lisboa, Guimarães.
  • 1962 – Teixeira de PascoaesAntologia Poética (em colaboração com F. da Cunha Leão), Lisboa, Guimarães.
  • 1962 – Carl SandburgAntologia Poética, Lisboa, Edições Tempo.
  • 1963 – João Cabral de Melo NetoPoemas Escolhidos, Lisboa, Portugália.
  • 1969 – Vinicius de MoraesO Poeta Apresenta o Poeta, Lisboa, D. Quixote.
  • 1977 – Poesía Portuguesa Contemporánea / Poesia Portuguesa Contemporânea (em colaboração com a Secção de Literatura da Direcção Geral de Acção Cultural), edição bilingue, Lisboa, Secretaria de Estado da Cultura.

Discos de poesia[editar | editar código-fonte]

[3]

  • Alexandre O’Neill diz poemas da sua autoria – colecção «A Voz e o Texto», Discos Decca, PEP 1010.
  • Os Bichos também são gente – colecção «A Voz e o Texto», Discos Decca, PEP 1278.

Filmografia[editar | editar código-fonte]

Guionista[6]

  • 1962 – Dom Roberto
  • 1963 – Pássaros de Asas Cortadas
  • 1967 – Sete Balas Para Selma
  • 1969 – Águas Vivas
  • 1970 – A Grande Roda
  • 1975 – Schweik na Segunda Guerra Mundial (TV)
  • 1976 – Cantigamente (3 episódios da série)
  • 1978 – Nós por cá Todos Bem
  • 1979 - Ninguém (TV)
  • 1979 - Lisboa (TV)

Actor (Narrador)[3]

  • 1933 – Las Hurdes, tierra sin pan
  • 1969 – Águas Vivas
  • 1971 – Sever do Vouga. Uma Experiência
  • 1976 – Máscaras

Traduções das suas obras[editar | editar código-fonte]

  • 1966 - Portogallo, Mio Rimorso, tradutor: Joyce Lussu, Turin, Editora Einaudi.
  • 1978 – Made in Portugal, tradutor: Antonio Tabucchi, Milan, Guanda.

Bibliografia passiva[editar | editar código-fonte]

Livros
  • Freitas, Manuel de, Make it real, Cadernos. Centro de Estudos do Surrealismo, nº 2 (número especial sobre Alexandre O’Neill), Vila Nova de Famalicão, Fundação Cupertino de Miranda, 2002.
  • Oliveira, Maria Antónia, A Tristeza Contentinha de Alexandre O’Neill, Lisboa, Caminho, 1992.
  • Oliveira, Maria Antónia, Alexandre O’Neill. Uma Biografia Literária, Lisboa, Dom Quixote, 2007.
  • Relâmpago nº 13 – Alexandre O’Neill, Outubro 2003.
Artigos
  • Bom, Laurinda, "Alexandre O'Neill : elementos para uma biografia (1924-1953), 3 poemas de 1942 e poemas inéditos", in: Revista Colóquio/Letras, n.º 113/114, Jan. 1990, p. 13-30.
  • Cabrita, António, "A Arca de O'Neill", Phala — Um Século de Poesia, Lisboa, Assírio, 1988.
  • Cuadrado, Perfecto E., ""Um Adeus Português’ como pretexto para una primera aproximación a la poesia de Alexandre O’Neill, A Palavra sobre a Palavra, Porto, Portucalense, 1972.
  • Martins, Fernando Cabral, "Esperar o Inesperado", posfácio a: Alexandre O’Neill, anos 1970. Poemas Dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005.
  • Martinho, Fernando J. B., "Alexandre O'Neill e Pessoa", in: Revista Colóquio/Letras , n.º 97, Maio 1987, p. 48-56.
  • Moser, Gerald, "A Surrealist of Portugal: Alexandre O'Neill", in: Journal of General Education, n.º 27, Primavera 1975, p. 83-87.
  • Rocha, Clara, prefácio a: O'Neill, Alexandre, Poesias Completas 1951-1981, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982.
  • Rosa, António Ramos, "Alexandre O'Neill ou a dialéctica do sonho e do real", in: Revista Colóquio/Letras, n.º 93, Set. 1986, p. 124-126.

Referências

  1. a b c Biobibliografia da página do Instituto Camões, feita por Maria Antónia Oliveira
  2. a b A biografia no portal As Tormentas, feita por Luís Rodrigues
  3. a b c d e f g h i j Ibid.
  4. Biografia do portal Vidas Lusófonas, feita por Fernando Correia da Silva
  5. Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas Presidência da República Portuguesa. Visitado em 2014-06-08. "Resultado da busca de "Alexandre Neill"."
  6. Internet Movie Database

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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