Dictablanda
Dictablanda ou ditabranda (portmanteau em espanhol, que junta dictadura, "ditadura", com blanda, "branda") é um termo que foi cunhado de maneira popular na Espanha em 1930 quando o general Dámaso Berenguer substituiu o general Primo de Rivera à frente do governo ditatorial. Dámaso Berenguer governou por decretos e tratou de pacificar os ânimos após a queda da Bolsa de 1929 e as revoltas sociais, derrogando parte das medidas adotadas durante a ditadura de Primo de Rivera. Paradoxalmente, a denominada «dictablanda» executou mais sentenças de morte por motivos políticos do que a ditadura a que sucedera.
[editar] Uso posterior
Posteriormente também foi usado o termo «dictablanda» em outros contextos. Em Setembro de 1983, Augusto Pinochet, em resposta às críticas que se realizavam à ditadura militar chilena, expressou que «Esta não é uma ditadura, é uma dictablanda».
O escritor peruano Mario Vargas Llosa, enquanto realizava uma das suas visitas ao México em Agosto de 1990, utilizou a denominação «ditadura perfeita» para se referir ao sistema político imperante nesse país, enquanto estava o PRI que ostentava o Governo. Tais palavras supuseram-lhe uma expulsão do país, pois a lei mexicana proíbe aos estrangeiros a participação na vida política mexicana. Posteriormente veio uma correção feita pelo escritor e ensaísta mexicano Octavio Paz (ganhador do Prêmio Nobel), mudando o termo para «dictablanda».
Na Argentina, após o golpe de estado perpetrado pelo general Juan Carlos Onganía, em alguns setores da opinião pública chamava-se ao governo como dictablanda, por não terem noção das atrocidades desta administração. Também utilizaram este termo alguns detratores do primeiro governo de Juan Domingo Perón (1946–1955), apesar de ele ter chegado ao poder por meio da vontade popular.
O termo também foi usado no Uruguai para designr o regime de Alfredo Baldomir.
[editar] Controvérsia com a Folha de S. Paulo
No Brasil, o jornal Folha de São Paulo usou do termo "ditabranda" em editorial do dia 17 de fevereiro de 2009 chamado "Limites a Chávez", criticando o que o jornal percebeu como um endurecimento do governo de Hugo Chávez na Venezuela. Nele, o jornal argumenta que a ditadura militar brasileira teria sido mais "amena" do que outras instituídas no mesmo período na América Latina, pois preservou "formas controladas de disputa política e acesso à Justiça", o que, de acordo com a visão do jornal, o governo de Chávez não estaria mantendo na Venezuela.
Por ser a Folha de S. Paulo o jornal de maior circulação do país, a reação à utilização do termo foi quase imediata.
Entre os primeiros a se manifestarem estavam leitores do próprio jornal, que enviaram várias cartas à redação do jornal. Dentre eles, os professores da Universidade de São Paulo (USP) Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato enviaram ao jornal cartas de repúdio ao editorial. Em resposta, a redação da Folha de S. Paulo publicou que "respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro". O jornal, entretanto, fez ressalvas às cartas de Benevides e Comparato, pois "até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba", o que tornaria a indignação deles "cínica e mentirosa".[1]
O jornal foi criticado por outros veículos de imprensa, como as revistas Fórum, Caros Amigos (que publicaram matéria de capa sobre a utilização do termo), CartaCapital e a emissora de televisão Rede Record, que veiculou no Domingo Espetacular reportagem mostrando as supostas ligações entre o Grupo Folha e os órgãos de repressão da ditadura. A Folha de S. Paulo rechaçou a crítica da Record, o que fez a emissora veicular a reportagem novamente, no Jornal da Record, e postá-la em seu canal no YouTube.[2]
Em protesto contra o editorial da Folha de São Paulo o blogueiro Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, dirigente da ONG Movimento dos Sem Mídia, convocou ato público de protesto diante daquele jornal, realizado no dia 7 de março de 2009. Segundo matéria da Folha publicada no dia seguinte (08.03.2009), cerca de 300 pessoas se manifestaram. Nessa matéria, o jornal reconhece que errou ao usar o termo "ditabranda" para qualificar a ditadura militar oriunda do golpe de 31 de março de 1964. Abaixo, a matéria
Folha de São Paulo
8 de março de 2009
Caderno Brasil Manifestação contra Folha reúne 300 pessoas em frente ao jornal
Militantes fazem desagravo a professores, que não comparecem a evento
DA REPORTAGEM LOCAL
Cerca de 300 pessoas participaram ontem pela manhã de manifestação contra a Folha em frente à sede do jornal, na região central de São Paulo.
O ato público tinha o duplo objetivo de protestar contra editorial publicado pelo jornal no dia 17 de fevereiro, que usou a expressão "ditabranda" para caracterizar o regime militar brasileiro (1964-1985), e prestar solidariedade aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato. Nenhum dos dois estava presente.
A Folha publicou no "Painel do Leitor" 21 cartas sobre o assunto, 18 delas críticas aos termos do editorial, entre as quais as assinadas por Benevides e Comparato. Segundo escreveu este último, o autor do editorial e o diretor de Redação que o aprovou "deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro".
Em resposta, o jornal classificou a indignação dos professores de "cínica e mentirosa", argumentando que, sendo figuras públicas, não manifestavam o mesmo repúdio a ditaduras de esquerda, como a cubana.
Desde então, além de cartas, o jornal vem publicando artigos a respeito da polêmica, alguns dos quais com críticas ou reparos à própria Folha.
O protesto de ontem foi organizado pelo Movimento dos Sem-Mídia, idealizado pelo blogueiro Eduardo Guimarães. O público era composto na sua maioria por familiares de vítimas da ditadura, estudantes e sindicalistas ligados à CUT.
Abaixo-assinado
Um abaixo-assinado de repúdio ao editorial da Folha e solidariedade a Benevides e Comparato circulou pela internet nas últimas semanas. Entre seus signatários estão o arquiteto Oscar Niemeyer, o compositor e escritor Chico Buarque, o crítico literário Antonio Candido e o jurista Goffredo da Silva Telles Jr.
Niemeyer disse que "o convite para assinar veio de um amigo muito querido, que foi preso e torturado. Fiquei muito chateado, porque gosto do pessoal da Folha. Fiquei constrangido, mas não podia dizer que não". O arquiteto disse não ter lido o editorial. Na sua versão eletrônica, o abaixo-assinado contava com mais de 7.000 adesões, cuja autenticidade, porém, não há como comprovar.
Segue a íntegra do texto:
"Ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repúdio à arbitrária e inverídica revisão histórica contida no editorial da Folha de S.Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009.
Ao denominar ditabranda o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país. Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história política brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ditabranda é, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-1964.
Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota da Redação, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro em resposta às cartas enviadas ao "Painel do Leitor" pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fábio Konder Comparato.
Sem razões ou argumentos, a Folha de S.Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis à atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal.
Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro."
Folha avalia que errou, mas reitera críticas
DA REDAÇÃO
O diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, divulgou ontem as seguintes declarações:
"O uso da expressão "ditabranda" em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis.
Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena -ou que a ditadura cubana, de esquerda.
A nota publicada juntamente com as mensagens dos professores Comparato e Benevides na edição de 20 de fevereiro reagiu com rispidez a uma imprecação ríspida: que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, "de joelhos", a uma autocrítica em praça pública.
Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam."
Otavio Frias Filho
Referências
- ↑ FEIL, Cristóvão. "A Folha e a ditabranda". Vi O Mundo por Luiz Carlos Azenha, 21 de fevereiro de 2009. Acessado em 23 de maio de 2009.
- ↑ Canal da Rede Record no YouTube, enviado em 7 de abril de 2009.. Página visitada em 23 de maio de 2009..