Ebionismo

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Ebionismo (do hebraico אביונים, Evyonim, "pobres") é o nome de uma das ramificações do Cristianismo primitivo, que pregava que Jesus de Nazaré não teria vindo abolir a Torá como prega a doutrina paulina. Desta forma, pregavam que tanto judeus como gentios convertidos deveriam seguir os mandamentos da santa Torá, o que levou a um choque com outras ramificações do Cristianismo e do Judaísmo.

As informações sobre os ebionitas ficaram registradas nos escritos dos pais da igreja.

Pelas informações que constam nos escritos dos pais da igreja, vemos que os ebionitas diziam que é necessário obedecer a todos os mandamentos da Lei de Moisés, inclusive ao mandamento de fazer a circuncisão, e que os gentios que se convertem a Deus devem fazer a circuncisão, e devem obedecer a todos os mandamentos da Lei, e que Jesus Cristo é o Messias, mas não é Deus, e que Jesus Cristo não nasceu de uma virgem, mas sim foi gerado por José, e que Paulo de Tarso foi um apóstata da Lei e não foi um verdadeiro apóstolo de Jesus Cristo, e que as Escrituras Sagradas são somente o Antigo Testamento, e que eles usavam um único evangelho (chamado de Evangelho dos Ebionitas), que era considerado como sendo o Evangelho segundo Mateus, e era escrito em hebraico, e era menor do que o Evangelho segundo Mateus em grego que é usado pelos católicos, pois os católicos o consideravam como sendo incompleto e truncado.

Origens[editar | editar código-fonte]

As origens do ebionismo ainda são obscuras. Crê-se no entanto que o ebionismo é o cristianismo original, ou uma das ramificações primitivas do cristianismo. Em oposição à doutrina paulina, o ebionismo deve ter surgido entre os seguidores de Jesus e Tiago, o Justo, que buscavam conciliar a crença messiânica com o cumprimento das leis da Torá. O choque entre os dois grupos : judaizantes e antijudaizantes já é aparente no livro de Atos, onde a discussão entre os dois grupos obriga à convocação da assembléia dos apóstolos (Atos 15 ), e em Atos 21:17-26, onde consta que havia na Terra de Israel dezenas de milhares de judeus que criam em Jesus Cristo e eram zelosos observadores da Lei (Atos 21:20), e que houve uma situação de confronto entre eles e Paulo, considerado por eles como apóstata, pois haviam sido informados de que Paulo pregava a desobediência aos mandamentos da Lei. Embora os judeus cristãos mencionados em Atos 15:1 e Atos 21:20 não fossem ainda chamados ebionitas, pois esta denominação somente começou a ser usada mais tarde, eles eram ebionitas, pois sua crença e prática era igual à dos ebionitas.

O confronto entre os judaizantes e os antijudaizantes aparece também em Gálatas 2:11-21, onde consta que Cefas ( Pedro), seguindo orientação de Tiago, obrigava os gentios a judaizarem, e Paulo não concordava com isso.

O movimento ebionita enfatizaria a natureza humana de Jesus, como filho carnal de Maria e José, que teria se tornado Filho de Deus quando de seu batismo, e sendo descendente de David, tornar-se-ia o rei do povo de Israel e seu último grande profeta.

Desprezado por cristãos e judeus, o ebionismo constituiu uma ramificação separada e organizou sua própria literatura religiosa.

Literatura ebionita[editar | editar código-fonte]

Consta nos escritos dos pais da igreja que os ebionitas usavam somente um evangelho, o qual era escrito em hebraico, e era considerado como sendo o Evangelho segundo Mateus, mas era menor do que o Evangelho segundo Mateus em grego, que é usado pelos católicos, pois os católicos o consideravam como sendo incompleto e truncado, e que este evangelho era também chamado de "Evangelho segundo os Hebreus" (Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, 3:27[1] , e Epifânio de Salamina, Panarion, 30:3:7 e 30:13:1-2).

No entanto, é necessário distinguir entre o Evangelho segundo os Hebreus usado pelos ebionitas e o Evangelho segundo os Hebreus usado pelos nazarenos, pois, embora ambos fossem considerados como sendo o Evangelho segundo Mateus em hebraico, o Evangelho segundo os Hebreus usado pelos nazarenos era uma versão expandida, que continha todos os trechos que são encontrados no Evangelho segundo Mateus em grego usado pelos católicos, e continha mais alguns trechos que não são encontrados no Evangelho segundo Mateus em grego usado pelos católicos, enquanto que o Evangelho segundo os Hebreus usado pelos ebionitas, ao contrário, era menor do que o Evangelho segundo Mateus em grego usado pelos católicos (Epifânio, Panarion, 30:13:2).

O Evangelho segundo os Hebreus usado pelos nazarenos é citado várias vezes por Jerônimo.

O Evangelho segundo Mateus contém a doutrina ebionita, principalmente em Mateus 5:17-19, onde consta que Jesus Cristo disse que não veio abolir a Lei nem os Profetas, mas sim cumprir, e que a Lei nunca será abolida, e que devemos obedecer a todos os mandamentos da Lei, e em Mateus 7:21-23, onde consta que Jesus Cristo disse que nem todos os que crêem nele entrarão no Reino de Deus, mas sim somente aqueles que fazem a vontade de Deus, e que muitos que pregam o evangelho e fazem milagres em nome dele não entrarão no Reino de Deus, porque praticam a iniqüidade.

Isto explica por que este evangelho era o único que era aceito pelos ebionitas.

Os pais da igreja escreveram que Mateus escreveu o seu evangelho em hebraico, e que cada um o traduzia como podia (Eusébio, História Eclesiástica, 3:24:6 e Papias, citado por Eusébio, em História Eclesiástica, 3:39:16 e Ireneu, em Contra as Heresias, 3:1:1 e Orígenes, citado por Eusébio em História Eclesiástica 6:25:4 e Epifânio, em Panarion, 30:3:7 e Jerônimo, Epístolas, 20:5 e Comentários sobre Mateus 12:13 e Vidas de Homens Ilustres, capítulo 3).

As duas seitas[editar | editar código-fonte]

Na época dos pais da igreja, segundo relata Orígenes e Eusébio de Cesareia, existiam dois grupos de Ebionitas. [2] Estes dois grupos se diferenciavam um do outro devido a determinadas praticas e em função de sua aparição. A palavra 'ebionitas' significa literalmente "pobres" do hebraico evion, e aparece pela primeira vez através dos escritos dos pais da igreja. Conforme a informação encontrada nos escritos dos pais da igreja, este nome designava ao grupo de judeus que tinha reconhecimento de Jesus (Yeshua ha Netzaret) como a figura messiânica do judaísmo, e que não acreditavam na divindade de Jesus. Desta forma, os pais da igreja diziam que estes tinham pensamentos "pobres" a respeito de Cristo, e possivelmente surgiu desta palavra hebraica 'evion | pobres', que estes judeus passaram a serem chamados de ebionitas.

No decorrer dos tempos parte dos ebionitas criaram a seita dos "ebionitas-gnósticos", no que consistia em aderir ao ebionismo ensinamentos dos Elchasitas, discípulos de Elshai (Elchasai). Os elchasitas, na qual possuíam ensinamentos vegetarianos, assim como os Essênios, tinham a sua religião como uma mistura de ensinamentos dos gentios, cristãos e de judeus.[3] O surgimento dos chamados "ebionitas-gnósticos" era paralelo com a outra seita ebionita que não aderia estes ensinamentos. A seita dos ebionitas-gnósticos também poderia ser chamada de "Ebionitas-Elchasitas" visto ter tido sua aparição sob influência de Elshai (Elchasai). [4]

Ebionismo moderno[editar | editar código-fonte]

Há atualmente diversos movimentos religiosos que em maior ou menor grau compartilham a visão ebionita. Dentre elas, podemos mencionar o movimento criado por Shemayah Phillips,que em 1985 fundou o movimento conhecido como a Ebionite Jewish Community. Esta comunidade, estritamente monoteísta, reconhece Jesus como um profeta justo, e defende uma interpretação judaica do Tanakh e que tal sirva como meio de união entre judeus e gentios para implantação de uma sociedade justa.

Citações[editar | editar código-fonte]

Os trechos dos livros dos Padres da Igreja que falam sobre os ebionitas são os seguintes:
1. Inácio de Antioquia, Epístola aos Filadélfos, capítulo VI
2. Ireneu, Contra Heresias:

  • 1:26:1-2
  • 3:11:7
  • 3:21:1
  • 4:33:4
  • 5:1:3

3. Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica 3:27
4. Tertuliano, Apêndice, Contra Todas as Heresias, capítulo III
5. Hipólito de Roma, Contra Heresias 7:22
6. Orígenes, Filocalia 1:24
7. Orígenes, Comentário sobre Mateus 11:12
8. Orígenes, Contra Celso:

  • 5:61
  • 5:6

9. Jerónimo de Estridão, Carta para Agostinho:

  • 4:13
  • 4:16

10. Agostinho de Hipona, Carta para Jerônimo, 3:16
11. Epifânio, Panarion:

  • 30:3:7
  • 30:13:1,2

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica: The Heresy of the Ebionites. (em ). [S.l.: s.n.]. Capítulo: 27. vol. III.
  2. Orígenes, Contra Celso V 61,65.
  3. Catholic Encyclopedia: Elcesaites.
  4. Epifânio de Salamis, em Panarion XXX 17:5.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Geral[editar | editar código-fonte]

Ebionismo moderno[editar | editar código-fonte]