Isaac Babel

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Isaac Babel
Issac Emmanuilovitch Babel
Nascimento 13 de julho de 1894
Odessa, Império russo
Morte 27 de janeiro de 1940
Prisão Butyrka, Moscou, URSS
Nacionalidade soviético
Ocupação escritor
Magnum opus Konarmiia (“Cavalaria Vermelha”)

Isaac Emmanuilovich Babel (Odessa, Império Russo, 13 de julho de 1894 - Moscou, URSS, 27 de janeiro de 1940) foi um jornalista e escritor soviético, de origem judaica".[1] Apesar de ter sido um idealista defensor do marxismo e leninismo, foi preso, torturado e executado durante o Grande Expurgo de Stálin.[2]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Babel nasceu em uma família ortodoxo-judaica em Odessa, durante o período do êxodo de judeus no Império Russo. Apesar de ter sobrevivido com a ajuda da vizinha Rússia Ortodoxa, seu tio Shoyl foi um dos 300 judeus assassinados.[3]

Na adolescência, Babel entrou no Nicolas I Odessa Commercial School. Além das matérias normais da escola, estudou também o Talmud e música. Após o insucesso em ingressar na Universidade de Odessa, ingressou no Kiev Institute of Finance and Business, onde conheceu Yevgenia Borisovna Gronfein, sua futura esposa.

Em 1915, Babel se formou e mudou para Petrogrado (atualmente São Petersburgo); encontrou então o escritor russo Maxim Gorky, que publicou algumas de suas histórias na revista Letopis' ("Летопись", "Chronicle"). Gorky orientou o aspirante a escritor para que buscasse mais experiência de vida, e posteriormente Babel escreveu em sua autobiografia: “… I owe everything to that meeting and still pronounce Alexey Maksimovich (Gorky's) name with love and admiration[4] ”. Um de seus mais famosos contos autobiográficos, "The Story of My Dovecot" ("История моей голубятни"), é dedicado a Gorky.

A história "The Bathroom Window" foi considerada obcena pela censura, e Babel foi enquadrado como violador do código criminal. Nos próximos sete anos, Babel lutou pelo lado comunista na Guerra civil russa, trabalhando em Cheka como tradutor do service de inteligênciano Odessa Gubkom (comitê regional bolchevique), no Narkompros (Comissariado de Educação), em uma tipografia, e como repórter de jornal em Petersburgo e Tiflis.

Isaac Babel casou com Yevgenia Gronfein em 1919, em Odessa, e tiveram a filha Nathalie Babel Brown. Em 1925, Yevgenia Babel, desgostosa pela infidelidade do marido e pela desilusão com o comunismo, emigrou para a França. Babel, apesar de visitar sua esposa em Paris, simultaneamente começou a se relacionar com Antonina Pirozhkova, com quem teve, também, uma filha.

Em 1920, Babel ingressou no Exército Vermelho, interrompendo sua produção literária; documentou os horrores da Guerra em 1920 Diary (Konarmeyskiy Dnevnik 1920 Goda), que mais tarde usaria para escrever Cavalaria Vermelha[2] (Конармия), uma coleção de histórias curtas. A lendária violência da Cavalaria Vermelha era contrastante com a natureza gentil de Babel.[2]

Diversas histórias mais tarde incluídas em Cavalaria Vermelha foram publicadas no LEF ("ЛЕФ") magazine, de Vladimir Maiakovski, em 1924. A descrição brutal da realidade da guerra lhe angariou alguns inimigos, tais como Marshall Budyonny. Contudo, a influência de Gorky garantiu sua publicação, e foi traduzido para muitas línguas.

Voltando a Odessa, Babel escreveu Odessa Tales (“Contos de Odessa”), uma série de histórias curtas de inspiração autobiográfica, narrando sua infância na comunidade judaica, no gueto de Moldavanka, e narrando fatos anteriores e posteriores à Revolução de Outubro.

Em 1930, Babel trabalhou na Ucrânia, testemunhando a brutalidade das forças soviéticas de coletivização, e o resultado do Holodomor. Como Stalin havia imposto seu poder sobre a intelligentsia soviética e ordenado que todos os escritores e artistas deveriam viver conforme o realismo socialista, Babel se afastou ainda mais da vida pública. Durante a campanha de oposição, o Formalismo russo, Babel foi denunciado publicamente por baixa produtividade. No primeiro congresso da União dos Escritores Soviéticos (1934), Babel observou ironicamente, que estava se tornando "the master of a new literary genre, the genre of silence".[5]

A peça de 1935, Maria, um retrato da sordidez viulnerável da sociedade soviética, fez com que fosse repreendido por Maxim Gorky pela sua baudelaireana predileção pela "miséria humana". Gorky procurou prevenir seu amigo sobre as “consequências políticas”, que lhe seriam “prejudiciais”.[6] Quando foi programada para ser encenada em Moscou, no Vakhtangov Theatre, a peça foi cancelada pela NKVD em 1935.

Em 1932, após várias tentativas, foi permitida uma visita à sua esposa Yevgenia em Paris. Enquanto visitava sua esposa e a filha Nathalie, Babel sofreu ante a dúvida de voltar ou não à Rússia Soviética. Em conversas e cartas aos amigos, expressava o desejo de ser um “homem livre”, enquanto também expressava medo de não ser capaz de viver apenas escrevendo. Em 27 de julho de 1933, Babel escreveu uma carta a Yuri Annenkov, pedindo que fosse convocado para Moscou, e partiu imediatamente.[7]

Após seu retorno, Babel começou a viver ao lado de Antonina Pirozhkova, com quem teve uma filha, Lidya Babel. Ele também colaborou com Sergei Eisenstein no filme Bezhin Meadow, sobre o informante Pavlik Morozov, e trabalhou em roteiros para diversos filmes de propaganda soviética.

Relacionamento com os Yezhovs[editar | editar código-fonte]

Durante uma visita a Berlim, Babel começou um relacionamento com Yevgenia Feigenberg, que na época era tradutora da embaixada soviética. Yevgenia, conforme Simon Sebag Montefiore, começou a sedução de Babel com as palavras: “You don't know me, but I know you well”.[8] Mesmo após o casamento de Yevgenia com o chefe da NKVD, Nikolai Yezhov, o relacionamento continuou, e Babel frequentemente presidia as reuniões literárias de Mrs. Yezhov, muitas vezes incluindo celebridades tais como Solomon Mikhoels, Leonid Utesov, Sergei Eisenstein e Mikhail Koltsov.

Em retaliação pelo relacionamento de Babel com sua esposa, Yezhov ordenou que o escritor ficasse sob vigilância cosntante pela NKVD. Após a morte de Gorky, em 1936, Yezhov percebeu que Babel tinha dúvidas sobre a causa official sobre a morte, ao dizer, “Now they will come for me”. Durante o Grande Expurgo, porém, Lavrenti Beria designou um assistente para Yezhov, usurpando sorrateiramente sua liderança na NKVD.

Sequestro e morte[editar | editar código-fonte]

Foto de Babel, da NKVD após seu sequestro

Em maio de1939, Isaac Babel foi sequestrado de sua “dacha” em Peredelkino, e imediatamente avisou Antonina, "Please see our girl grows up happy" (“Por favor, deixe a nossa garota crescer feliz”).[9] De acordo com Peter Constantine, seu nome foi removido das enciclopédias e dos dicionários literários; quando o diretor de cinema Mark Donskoi fez a trilogia de Gorky, Babel, que tinha trabalhado no roteiro, teve o seu nome retirado dos créditos.[10]

Interrogado sob tortura em Moscou, na prisão Lubyanka (KGB), Babel confessou ter sido membro da organização de Trotsky e sido recrutado pelo escritor francês André Malraux para espionar para a França.[2]

De acordo com a versão oficial soviética, Isaac Babel morreu em Gulag em 17 de março de 1941. Seus arquivos e manuscritos foram confiscados pela NKVD e destruídos. Peter Constantine, que traduziu os escritos de Babel para o inglês, descreveu a execução de Babel como "one of the great tragedies of twentieth century literature" (“uma das grandes tragédias da literatura do século XX”).[11]

Reabilitação e legado[editar | editar código-fonte]

Carta de Beria para Politburo Resolução de Stalin Decisão de Politburo
Esquerda: Carta de Beria, em janeiro de 1940 para Stálin, pedindo permissão para executar 346 "inimigos da CPSU e da autoridade soviética, que conduziram contra-revolucionários, partidários de Trotsky e espiões". O número 12 da lista era Isaac Babel
Centro: Stálin escreve: "da" ("sim").
.Direita: A decisão de Politburo está assinada pela Secretaria de Stálin.

Em 23 de dezembro de 1954, durante a abertura de Khrushchev, Babel foi oficialmente absolvido de seu “crime”.[12]

Após seu marido voltar a Moscou em 1935, Yevgenia Gronfein Babel não tinha conhecimento de sua outra família, com Antonina Pirozhkova. Eventualmente, porém, ela foi cruelmente informada por Ilya Ehrenburg durante os anos 1950. Enfurecida, bateu na face de Ehrenberg e então desmaiou. Sua filha, Nathalie Babel Brown, acredita que Ehrenburg estava sob ordens da KGB.

Com duas potenciais candidatas para o papel de viúva de Babel, o estado soviético deu preferência a Antonina, e não a Yevgenia, que havia emigrado para o oeste.

Apesar de a peça Maria ter sido muito popular nos anos 60 na Europa, ela não foi encenada na terra de Babel até 1994. A primeira tradução inglesa apareceu em 2002, por Peter Constantine e foi editada por Nathalie Babel Brown. A première americana de Maria', dirigida por Carl Weber, teve lugar na Stanford University dois anos depois.[13]

Apesar de ser muito jovem na época para ter lembranças de seu pai, Nathalie Babel Brown se tornou uma das principais estudiosas da vida e do trabalho de Babel. Quando uma antologia da W. W. Norton & Company publicou seus trabalhos em 2002, Nathalie editou o volume e providenciou um prefácio. Ela morreu em Washington DC em 2008.[14]

Lidya Babel, a filha de Isaac e Antonina Pirozhkova, também emigrou para os EUA e atualmente reside em Silver Spring, Maryland.[15]

Notas e referências

  1. Neither and Both; anthology. Joshua Cohen. The Forward Arts & Culture; Pg. B2. July 6, 2007
  2. a b c d Brent, Jonathan. "Inside the Stalin Archives" (em inglês). Nova Iorque, USA: Atlas & Co. Publishers, 2008. 177-194 p. ISBN 978-0-9777433-3-9
  3. Odessa Pogroms. Center of Jewish Self-Education "Moria" and the American Jewish Joint Distribution Committee.
  4. “… Eu devo tudo a esse encontro com Alexey Maksimovich Gorky e pronuncio o seu nome com amor e amiração”
  5. ”O mestre de um novo gênero literário, o gênero do silêncio”
  6. The Complete Works of Isaac Babel, page 754.
  7. The Complete Works of Isaac Babel, page 25.
  8. Simon Sebag Montefiore, Stalin: Court of the Red Tsar, page 171.
  9. Ibid, p.287
  10. The Complete Works of Isaac Babel, page 29.
  11. The Complete Works of Isaac Babel, page 29
  12. The Complete Works of Isaac Babel, page 27.
  13. Michelle Keller: Babel’s ‘Maria’ makes U.S. debut at Pigott The Stanford Daily, 27 February 2004.
  14. Título ainda não informado (favor adicionar).
  15. Ibid.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Конармейский дневник 1920 года, English translation: 1920 Diary, ISBN 0-300-09313-6
  • Конармия, (1926), English translation: Red Cavalry, ISBN 0-393-32423-0 (pt: “Cavalaria Vermelha”)[1]
  • Одесские рассказы (1924), Odessa Tales (pt: “Contos de Odessa”)
  • Закат, Sunset, play (1926)
  • Benya Krik, screenplay (1926) (filmed in Ukraine and available on DVD from National Center for Jewish Film)
  • Мария, Maria,[2] peça (1935)
  • You Must Know Everything, Stories 1915-1937, Translated from Russian by Max Hayward. Edited, and with notes by Nathalie Babel, Farrar Straus and Giroux, New York, 1966.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui imagens e outros ficheiros sobre Isaac Babel

Curiosidades[editar | editar código-fonte]

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  • Isaac Babel and Nathalie Babel Brown, Isaac Babel: The Lonely Years 1925-1939 : Unpublished Stories and Private Correspondence, David R Godine, 1995.
  • Jerome Charyn, Savage Shorthand: The Life and Death of Isaac Babel, Random House, 2005.
  • Antonina N. Pirozhkova, At His Side: The Last Years of Issac Babel, Steerforth Press, 1998.
  • VÁRIOS, P. 453 (2004), Contos Russos - Os Clássicos, Rio de Janeiro, Ediouro. ISBN Antologias
  • VÁRIOS, P. 266 (2000), Nova Enciclopédia Barsa, São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda. ISBN Macropédia, v. 2
  • BABEL, Isaac (1967), Cavalaria Vermelha, Porto: Portugália Editora. ISBN Colecção Contemporânea, V. 102


  1. No Brasil, sua obra Cavalaria Vermelha foi traduzida diretamente do russo para o português por Aurora Bernardini e Homero F. de Andrade, e recuperou o título original "O Exército de Cavalaria", Editora Cosac Naify, 2006. Em Portugal, traduzido em 1967, por Armando Pereira da Silva, pela Portugália Editora, foi publicada com o nome "Cavalaria Vermelha".
  2. No Brasil foi publicado o livro Maria - uma peça e cinco histórias, que reúne cinco de seus contos e uma peça