Grande Expurgo

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O Grande Expurgo (português brasileiro) ou Grande Purga (português europeu) (em russo: Большая чистка, transl. Bolshaya tchistka) foi uma ação persecutória violenta movida pelo ditador soviético Josef Stalin (1879-1953) contra seus opositores políticos entre os anos de 1934 e 1939.[1] [2]

Na luta pela consolidação do poder Stalin liquidou cerca de dois terços dos quadros do Partido Comunista da URSS,[2] [3] ao menos 5.000 oficiais do Exército acima da patente de major, 13 de 15 generais de cinco estrelas do Exército Vermelho[1] – criado durante a Revolução Russa por Leon Trotsky, seu dissidente mais conhecido – e inúmeros civis, considerando-os todos "inimigos do povo". Dos 139 membros dirigentes do Partido Comunista 98 foram executados.[3]

Vitor Serge[editar | editar código-fonte]

No prefácio de 1938 à sua obra O ano I da Revolução Russa, o revolucionário russo-belga Victor Serge sintetiza o que, na altura desse ano, era o resultado das perseguições políticas de Stalin:

Cquote1.svg "Dentre os homens cujos nomes serão encontrados nas páginas seguintes deste livro, apenas um sobrevive, Trotsky, perseguido há dez anos e refugiado no México. Lenin, Dzerjinski e Tchitcherin morreram antes, evitando assim a prostração. Zinoviev, Kamenev, Rykov e Bukharin foram fuzilados. Entre os combatentes da insurreição de 1917, o herói de Moscou, Muralov, foi fuzilado; Antonov-Ovseenko, que dirigiu o assalto ao Palácio de Inverno, desapareceu na prisão; Krylenko, Dybenko, Chliapnikov, Gliebov-Avilov, todos os membros do primeiro Conselho dos Comissários do Povo, tiveram a mesma sorte, assim como Smilga, que dirigia a frota do Báltico, e Riazanov; Sokolnikov e Bubnov, do Bureau político da insurreição estão presos, se é que ainda vivem;

Karakhan, negociador em Brest-Litovsk, foi fuzilado; dos dois primeiros dirigentes da Ucrânia soviética, um Piatakov, foi fuzilado, e o outro, Racovski, velho alquebrado, está na prisão; os heróis das batalhas de Sviajsk e do Volga, Ivan Smirnov, Rosengoltz e Tukhatchevski foram fuzilados; Raskolnikov, posto fora da lei, desapareceu; dos combatentes dos Urais, Mratchkovsky foi fuzilado, Bieloborodov desapareceu na prisão; Sapronov e Viladimir Smirnov, combatentes de Moscou, desapareceram na prisão; o mesmo aconteceu com Preobrajenski, o teórico do comunismo de guerra; Sosnovski, porta-voz do Partido Bolchevique no primeiro Executivo Central dos sovietes da ditadura, foi fuzilado; Enukidze, primeiro secretário desse Executivo, foi fuzilado. A companheira de Lenin, Nadejda Krupskaia, terminou seus dias não se sabe em qual cativeiro… Dentre os homens da revolução alemã, Yoffe suicidou-se, Karl Radek está preso; Krestinski, que continuou atuando na Alemanha, foi fuzilado.[1] Da oposição socialista-revolucionária de 1918, Maria Spiridonova,[1] Trutovski, Kamkov, Karelin, provavelmente sobrevivam, porém na prisão já há 18 anos. Blumkin, que aderiu ao Partido Comunista, foi fuzilado.

Entre os homens que, no Ano II, asseguraram a vitória da revolução, pequeno número ainda vive: Kork, Iakir, Uborevitch, Primakov, Muklevitch, chefes militares dos primeiros exércitos vermelhos, foram fuzilados; fuzilados os defensores de Petrogrado, Evdokimov e Okudjava, Eliava; fuzilado Fayçulla Khodjaev, que teve papel de grande importância na sovietização da Ásia Central; desaparecido na prisão, o presidente do Conselho dos Comissários dos Sovietes da Hungria, Bela-Kun"[4]

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Sistemática de uma perseguição[editar | editar código-fonte]

Analisando-se o perfil das vítimas de Stalin, e os acontecimentos noticiados pela imprensa oficial da época, pode-se chegar a traçar um comportamento-padrão do Grande Expurgo. Mestre na intriga política, ele tratava de acusar políticos de médio ou alto escalão por crimes imaginários[3] ; as acusações eram cercadas de imensa publicidade, e o julgamento imposto à vítima não era de forma alguma justo. Frequentemente, os expurgados eram exilados para trabalhos forçados na Sibéria, onde morriam de fome, frio, doenças – ou de uma combinação destes três males.[3]

Após silenciar a oposição no campo político, Stalin atacou o Exército Vermelho. A tropa criada por Trotsky para fortalecer a Revolução era agora uma potencial fonte de intrigas dentro do país, e o ditador soviético raciocinava que quaisquer conspirações destinadas a derrubá-lo passariam, direta ou indiretamente, pelos homens de quepe.[1] Ao fim do expurgo, o alto comando do Exército Vermelho estava dilacerado, carente de oficiais competentes para comandar a defesa da URSS contra a Wehrmacht de Adolf Hitler.

Expurgo do exército[editar | editar código-fonte]

Os cinco marechais da União Soviética, em novembro de 1935: Mikhail Tukhachevsky, Semyon Budyonny, Kliment Voroshilov, Vasily Blyukher e Aleksandr Yegorov. Destes apenas Voroshilov e Budyonny sobreviveram ao Grande Expurgo.

O expurgo do Exército Vermelho e da Marinha Soviética afetou pesadamente a alta hierarquia militar,[5] removendo três dos cinco marechais (então equivalente a generais de cinco estrelas), 13 dos 15 comandantes do exército (então equivalente a generais de três e quatro estrelas), oito dos nove almirantes (o expurgo caiu pesadamente sobre a Marinha, que era suspeita de explorar as suas oportunidades de contatos com estrangeiros),[6] 50 dos 57 comandantes de corpo do exército e 154 dos 186 comandantes de divisão.[7] em dois anos 45.000 oficias e comissários políticos militares foram presos sendo quinze mil deles executados[8] resultando em um alto número de execuções.[5]

Devido principalmente à invasão nazista, trinta por cento dos militares expurgados em 1937-9 foram autorizados a retornar ao serviço.[9]

Mikhail Tukhachevsky era general-de-divisão na época do Grande Expurgo. Foi acusado – injusta e falsamente – de ser colaborador do Estado-Maior alemão.[1] A afirmação é suportada pelos fatos, como no momento em que os documentos foram supostamente criados, duas pessoas dos oito no grupo Tukhatchévski já tinham sido presas e, no momento em que o documento chegou até Stalin, o processo de purga já estava em andamento. As evidências introduzidas no processo foram obtidas a partir de confissões forçadas.[10] Sua morte foi a mais notável entre os generais do Exército Vermelho, por ser ele um veterano e bem reputado oficial.

Intelectuais e cientistas[editar | editar código-fonte]

Nas décadas de 1920 e 1930, 2.000 escritores, intelectuais e artistas foram presos e 1.500 morreram em prisões e campos de concentração. Após a pesquisa de desenvolvimento de manchas solares ter sido julgada não-marxistas, vinte e sete astrônomos desapareceram entre 1936 e 1938. O Escritório de Meteorologia foi fechado em 1933 por não prever o tempo correto para a agricultura.[11]

Reações ocidentais[editar | editar código-fonte]

Embora os julgamentos de ex-líderes soviéticos foram amplamente divulgados, as centenas de milhares de outras prisões e execuções não foram. Estas se tornaram conhecidas no Ocidente apenas quando alguns ex-detentos do Gulag chegaram ao Ocidente com suas histórias.[12] Não só os correspondentes estrangeiros do Ocidente deixaram de informar sobre os expurgos, mas em muitos países ocidentais, especialmente a França, foram feitas tentativas para silenciar ou desacreditar as testemunhas, de acordo com Robert Conquest, Jean-Paul Sartre assumiu a posição de que as provas dos campos deviam ser ignoradas a fim de que o proletariado francês não desanimasse.[13] Somente após uma série de ações judiciais, em que provas foram apresentadas, e que se aceitou a validade dos depoimentos dos antigos presos dos campo de trabalho forçados.[14]

Consequências[editar | editar código-fonte]

A diplomacia ocidental ficou estarrecida com a dimensão da matança; em pelo menos uma ocasião, analistas militares britânicos afirmaram que a Polônia seria um aliado muito mais útil ao Reino Unido do que a Rússia stalinista.[2]

Percebendo que os britânicos permaneciam indiferentes a suas propostas de aliança para conter o avanço nazista Stalin concordou em fazer um tratado com a Alemanha de Hitler. O acordo, conhecido como Pacto Ribbentrop-Molotov (uma referência aos ministros das Relações Exteriores de ambos países) ou Pacto de Não-Agressão, foi assinado entre a União Soviética e o Terceiro Reich em 23 de agosto de 1939,[15] com validade de cinco anos. Mas Hitler atacou a URSS menos de dois anos depois, em 22 de junho de 1941.[16]

Reabilitação[editar | editar código-fonte]

Reabilitado postumamente, em 1963, Tukhatchévski em um selo postal da União Soviética

Grande Expurgo foi denunciado pelo líder soviético Nikita Khrushchev após a morte de Stalin.[17] Em seu discurso secreto no XX congresso do PCUS em fevereiro de 1956 (que foi tornado público um mês depois), Khrushchev se referiu aos expurgos como um "abuso de poder" por Stalin, que resultou em prejuízo enorme para o país.[17] No mesmo discurso, ele reconheceu que muitas das vítimas eram inocentes e foram condenados com base em falsas confissões extraídas mediante tortura.[17]

Referências

  1. a b c d e f Martin McCauley. "The Soviet Union 1917-1991". England: Longman Group Limited, 1994. Capítulo: 3. p. 100-108. ISBN 0-582-01323-2.
  2. a b c Peter Kenez. "A History of the Soviet Union from the Beginning to the End ". Cambridge: Cambridge University Press, 1999. Capítulo: 5. p. 103-108. ISBN 0-521-31198-5.
  3. a b c d Martin McCauley. "Stalin and Stalinism". England: Longman Group Limited, 1993. Capítulo: 2. p. 34-35. ISBN 0-582-27658-6.
  4. Serge, Victor. O ano I da Revolução Russa, Paris, Setembro de 1938
  5. a b Anne Applebaum. "Gulag – A History". London: Penguin Books Ltd, 2003. Capítulo: 6. p. 104. ISBN 13:978-0-14-028310-5.
  6. Conquest 2008, p. 211.
  7. Courtois 1999, p. 198.
  8. Dmitri Volkogonov. "The rise and fall of Soviet Empire". Londres: HarperCollins, 2010. Capítulo: The second leader: Joseph Stalin. p. 109. ISBN 13:978-000-6388180.
  9. Lee, Stephen.. "European Dictatorships 1918-1945". [S.l.]: Routledge, 2008. p. 56. ISBN 978-0-4154-5485-9. Visitado em 18 de agosto de 2013.
  10. Conquest 2008, p. 200–2.
  11. Conquest 2008, p. 295.
  12. Conquest 2008, pp. 472–3.
  13. Conquest 2008, p. 472.
  14. Conquest 2008, p. 472–4.
  15. Martin McCauley. "The Soviet Union 1917-1991". [S.l.: s.n.], 1994. Capítulo: 3. p. 136. ISBN 0-582-01323-2.
  16. Martin McCauley. "The Soviet Union 1917-1991". [S.l.: s.n.], 1994. Capítulo: 4. p. 145. ISBN 0-582-01323-2.
  17. a b c Khrushchev's speech struck a blow at the totalitarian system (em en) BBC. Visitado em 18 de agosto 2013.