Isaac Comneno do Chipre

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Isaac Comneno do Chipre
Ἰσαάκιος Κομνηνός;
Isaakios Komnēnos
Conhecido(a) por Governante do Chipre, auto intitulado imperador
Nascimento ca. 1155
Morte 1195 (40 anos) ou 1196
Nacionalidade Império Bizantino
Progenitores Mãe: Irene Comneno
Pai: Ducas Kamateros
Ocupação nobre
Isaak Comnenus of Cyprus flag.svg

Bandeira de Isaac Comneno do Chipre
Causa da morte Envenenamento

Isaac Comneno (em grego: Ἰσαάκιος Κομνηνός; transl.: Isaakios Komnēnos) ou Isaac Ducas Comneno (ca. 11551195 ou 1196) foi o governante do Chipre entre 1184 e 1192, antes da conquista da ilha por Ricardo I de Inglaterra durante a Terceira Cruzada.[1]

Ascendência[editar | editar código-fonte]

Isaac era um membro menor da influente família bizantina dos Comnenos. Era filho dum desconhecido de nome Ducas Camatero e de Irene Comnena. Os seus avôs maternos eram o sebastocrator Isaac Comneno e da sua primeira esposa Teodora. O avô materno de Isaac, seu homónimo, era o filho mais velho do imperador João II Comneno e da sua esposa Irene da Hungria, mas o seu irmão mais novo Manuel logrou clamar o trono para si.[2]

Tanto Isaac do Chipre como o seu avô não devem ser confundidos com o imperador Isaac Comneno (r. 1057–1059), o qual foi tio-avô de João II.

Biografia[editar | editar código-fonte]

A relato que se segue é baseado principalmente nas obras do historiador bizantino Nicetas Coniates (ca. 1155 – 1215 ou 1216).

O tio-avô de Isaac, o imperador Manuel I nomeou-o governador da Isáuria e da cidade de Tarso, no que é atualmente o sudeste da Turquia, onde iniciou uma guerra com o Reino Arménio da Cilícia, tendo sido capturado pelos inimigos. Como entretanto Manuel I morreu (em 1180), ninguém parece ter-se preocupado muito com a sorte de Isaac,[3] que continuou prisioneiro dos Arménios durante muito tempo. Dado que casou com uma princesa arménia durante o seu cativeiro no Chipre, a sua vida de cativo não deve ter sido muito dura.

Finalmente, a sua tia Teodora Comnena, amante do novo imperador Andrónico I Comneno (r. 1183–1185), convenceu este a contribuir para o resgate de Isaac. Outros contribuintes do resgate foram o padrasto Constantino Macroducas e Andrónico Ducas, outro familiar e amigo de infância, um sodomita e um debochado nas palavras de Niceta Coniates.[necessário esclarecer] Estranhamente, os Templários (a que Nicetas chama Phreri) também contribuíram para o resgate.

Quando Isaac foi libertado, em 1185, era evidente que ele se tinha cansado do serviço imperial, pelo que usou o dinheiro que lhe restava para contratar um corpo de mercenários e dirigiu-se ao Chipre. Ali apresentou cartas imperiais falsas onde se ordenava à administração local que lhe obedecesse em tudo e estabeleceu-se como governante da ilha.[4]

Ilustração da morte de Andrónico I Comneno numa obra de Guilherme de Tiro publicada no século XV

Constantino Macroducas e Andrónico Ducas foram obrigados a garantir a fidelidade de Isaac ao imperador e quando este se recusou a abandonar o Chipre, o imperador mandou prendê-los por traição, apesar de Constantino ter sido sempre um dos seus mais fiéis apoiantes. Andrónico Comneno receava que Isaac tentasse usurpar-lhe o trono, pois o oráculo de água conduzido pelo cortesão Estêvão Hagiocristoforita tinha indicado que a letra inicial do nome do imperador seguinte era "I" (iota). Quando os prisioneiros saíram da prisão para serem julgados, Hagiocristoforita começou a atirar-lhes pedras e forçou outros a juntarem-se a ele. Andrónico Ducas e Constantino Macroducas foram depois empalados em frente ao palácio de Mangana. Nesse período foram mortos todos os amigos de Isaac.[2] Outro oráculo indicou a data em que o imperador seguinte começaria a reinar, e Andrónico I ficou muito aliviado por saber que Isaac não teria tempo de vir do Chipre.

Entretanto Isaac tinha chamado muitos "Romanos" (bizantinos) para o seu serviço. Nomeou um patriarca independente no Chipre, que o coroou como basileu (imperador bizantino) em 1185.[2] Mandou também cunhar moedas com a sua efígie e nome.[5] Segundo Nicetas Coniates, rapidamente começou a pilhar a ilha, violando mulheres e desflorando virgens, impondo punições extremamente cruéis para crimes e roubando as posses dos cidadãos. «Cipriotas de alta estima, comparáveis a e riquezas eram agora vistos a mendigar nas ruas, nus e esfomeados, se não tinham sido trespassados pela espada pelo seu irascível tirano.» Além disso, Isaac mandou cortar os pés ao seu velho professor Basílio Pentacenos, o que Nicetas achou ainda mais desprezível.

Ainda em 1185, Isaac II Ângelo tornou-se imperador depois duma revolta popular em Constantinopla[6] na qual o seu antecessor foi morto.[7] O novo imperador reuniu uma frota de 70 navios para reconquistar o Chipre. A frota era comandada por João Contostefano[8] e Aleixo Comneno, mas nenhum destes comandantes parece ter sido muito eficaz, pois João era bastante idoso e Aleixo tinha sido cegado por ordem de Andrónico I. As tropas imperiais desembarcaram no Chipre, mas Margarido de Brindisi, um corsário ao serviço do rei Guilherme II da Sicília (r. 1166–1189) capturaram os navios depois das tropas os terem abandonado.[8] Isaac, ou mais propriamente Margarido, derrotaram as tripas bizantinas e prenderam os comandantes, que foram levados para a Sicília, enquanto os marinheiros permaneceram no Chipre, deixados à sua sorte e sobrevivendo como podiam. «Só muito depois regressaram a casa, aqueles que não tinham perecidos.»

Cabo Apostolos Andreas, local onde, segundo a tradição, Isaac Comneno foi capturado pelos Cruzados de Ricardo de Inglaterra

Em 1192 (ou 1191 segundo outras fontes), a noiva e a irmã do rei inglês Ricardo Coração de Leão naufragaram no Chipre e foram feitos prisioneiros de Isaac. Em retaliação, Ricardo (a quem Nicetas chama "Rei dos Inglines") conquistou a ilha quando se dirigia para Tiro. Isaac foi capturado perto do cabo Apostolos Andreas, na península de Karpas, o ponto mais a norte da ilha.[2] De acordo com a tradição, Ricardo prometeu a Isaac não o pôr a ferros, por isso prendeu-o com cadeias de prata. Isaac foi depois entregue aos Cavaleiros de São João (Hospitalários), que o prenderam em Margat,[2] perto de Trípoli (atualmente no Líbano). Após o regresso de Ricardo à Europa, Isaac passou a ser prisioneiro de Leopoldo V, Duque da Áustria e de Henrique VI, Sacro Imperador Romano-Germânico, conforme ficou acordado no acordo de resgate de Ricardo, devido ao facto de Leopoldo ser filho de Teodora Comnena, tia de Isaac.[9]

Posteriormente Isaac viajou para o Sultanato de Rum, onde tentou obter apoio contra o novo imperador bizantino Aleixo III Ângelo (r. 1195–1203). Contudo, as ambições de Isaac fracassaram, pois morreu envenenado em 1195 ou 1196.

Isaac é descrito como alguém intratável e violento, «fervendo de raiva como uma chaleira ao lume», mas é evidente que Nicetas não gostava dele. Em certa medida, as crueldades que lhe são atribuídas são poucas comparadas com as do imperador Andrónico I. Parece ter sido aliado de Guilherme II da Sicília, o qual era um poderoso espinho para os Bizantinos e que o ajudou a conservar a ilha, e tinha igualmente relações próximas com o sultão aiúbida Saladino.

A filha de Isaac[editar | editar código-fonte]

A filha de Isaac, de cujo nome não se conhece registo (usualmente é chamada "Donzela do Chipre" nas fontes), juntou-se à corte de Ricardo Coração de Leão quando o seu pai morreu. Foi para Inglaterra por mar com outras damas da sua corte, incluindo a irmã de Ricardo, Joana Plantageneta, ex-rainha consorte da Sicília, e a esposa de Ricardo, Berengária de Navarra. Em 1194, como parte do acordo de resgate de Ricardo, a princesa cipriota foi libertada e posta à guarda de Leopoldo V, Duque da Áustria, seu familiar distante.[9]

Mais tarde viveu na Provença, onde em 1199 encontrou o conde Raimundo VI de Toulouse e, mais uma vez, Joana Plantageneta, que era então esposa de Raimundo e estava grávida do seu segundo filho. O casal separou-se inesperadamente e Raimundo iniciou uma relação amorosa (ou casou-se, segundo outros) com a filha de Isaac. Esta relação acabou circa 1202, quando ela casou com Thierry, um filho ilegítimo de Balduíno, conde da Flandres. O casal embarcou em Marselha em 1204, com um comboio de tropas que se iam juntar à Quarta Cruzada, mas não foram para Constantinopla. Ao chegar ao Chipre, o casal tentou reclamar a ilha como herdeiros de Isaac, mas a tentativa falhou e fugiram para a Armênia.[10]

Notas e referências

  1. Lilie 2005, p. 401
  2. a b c d e Ostrogorsky 1968, p. 360
  3. Lilie 2005, p. 394
  4. Norwich 2000, p. 320
  5. www.wildwinds.com
  6. Ostrogorsky 1968, p. 361
  7. Norwich 2000, p. 322-323
  8. a b Berruti
  9. a b Boyle 2005, p. 83, 182
  10. Boyle 2005, p. 268

Bibliografia

  • Boyle, David (2005) (em inglês), The Troubador's Song: The Capture and Ransom of Richard I, Walker Publishing Company 
  • Brudndage, J.A. (1970), "Richard the Lion-Heart and Byzantium" (em inglês), Studies in Medieval Culture: 63-70 
  • Brudndage, J.A. (1991), "The Crusades, Holy War and Canon Law" (em inglês), Variorum (IV): 63-70 
  • Coureas, Nicolas (1992), "To what extent was the crusaders’ capture of Cyprus impelled by strategic considerations" (em inglês), Epetêris (19): 197-202 
  • Edbury, P.W. (1991) (em inglês), The Kingdom of Cyprus and the Crusades, 1191-1374, Cambridge University Press 
  • Harris, Jonathan (2003) (em inglês), Byzantium and the Crusades, Hambledon and London, p. 141-143 
  • Harris, Jonathan (em inglês), Collusion with the infidel as a pretext for military action against Byzantium, Lambert, S.; Nicholson, H., eds. (2012), Clash of Cultures: the Languages of Love and Hate, Brepols, p. 99-117  
  • Kazhdan, Alexander, ed. (1991) (em inglês), Oxford Dictionary of Byzantium, Oxford University Press 
  • Lilie, Ralph-Johannes (2005) (em italiano), Bisanzio la seconda Roma, Roma: Newton & Compton, ISBN 88-541-0286-5 
  • Rudt de Collenberg, W.H. (1968), "L'empereur Isaac de Chypre et sa fille (1155–1207)" (em francês), Byzantion (38): 123–177