Melito de Cantuária

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São Melito de Cantuária
Gravura de São Melito
Arcebispo de Cantuária; Bispo de Londres
Nascimento  ? em Itália
Morte 24 de abril de 624 em Cantuária?
Veneração por Igreja Católica, Igreja Ortodoxa[1] [2] e Comunhão Anglicana[3]
Festa litúrgica 24 de abril[3]
Padroeiro dos afligidos pela gota
Gloriole.svg Portal dos Santos

Melito de Cantuária foi o primeiro bispo de Londres durante o período anglo-saxônico, o terceiro arcebispo de Cantuária e um membro da Missão gregoriana, enviada à Inglaterra para cristianizar os anglo-saxões de seu nativo paganismo. Ele chegou em 601 d.C. junto com um grupo de clérigos enviados para aumentar a missão e foi consagrado bispo logo em 604 d.C. Melito também foi o recipiente de uma famosa carta de Gregório, o Grande conhecida como Epistola ad Mellitum, preservada numa obra posterior pelo cronista medieval Beda, que sugeria que a conversão dos anglo-saxões deveria ser um processo gradual, com a incorporação dos rituais e costumes pagãos. Em 610 d.C., Melito retornou à Itália para comparecer a um concílio de bispos, seguindo de volta para a Inglaterra em seguida com cartas para alguns dos missionários.

Melito foi exilado de Londres pelos sucessores pagãos de seu patrono, o rei de Essex Seberto (Sæberht), logo após a morte do rei. O rei Etelberto de Kent, outro patrocinador do cristianismo, morreu por volta da mesma época, forçando-o a se refugiar na Gália. Melito retornou à Inglaterra no ano seguinte, quando o sucessor de Etelberto, Eadbaldo, se converteu também, mas ele jamais conseguiu retornar para Londres, cujos habitantes permaneceram pagãos. Melito foi apontado arcebispo de Cantuária em 619 d.C. Durante seu episcopado, alega-se que tenha salvado milagrosamente a catedral e grande parte da cidade de um incêndio. Após a sua morte ele passou a ser reverenciado como um santo.

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

O cronista medieval Beda descreveu Melito como sendo de nascimento nobre[4] [5] . Nas cartas, o Papa Gregório I o chama de abade, mas é incerto se Melito teria sido previamente um abade de um mosteiro em Roma ou se este foi apenas um status dado a ele para facilitar a viagem até a Inglaterra, algo que o faria o líder da expedição[4] . O registro papal, uma lista de cartas enviadas pelos papas, descreve-o como sendo um "abade na Frância" em sua descrição da correspondência, mas a carta em si cita apenas "abade"[6] . A primeira vez que Melito é mencionado na história é nas cartas de Gregório e nada mais se sabe sobre seu passado[4] . Parece provável que ele seja um nativo da Itália, assim como todos os demais bispos consagrados por Agostinho[7] .

Viagem para a Inglaterra[editar | editar código-fonte]

O Papa Gregório I enviou Melito à Inglaterra em junho de 601 d.C.[8] como resposta a um apelo de Agostinho, o primeiro arcebispo de Cantuária. Ele precisava de mais clérigos para se juntar à Missão gregoriana que estava convertendo o Reino de Kent, governado por Etelberto, do paganismo para o cristianismo.[9] Os novos missionários trouxeram com eles uma grande doação de livros e "todas as coisas necessárias para a liturgia e o ministério da Igreja"[10] [11] . Um cronista de Cantuária do século XV, Thomas de Elmham, afirmou que ainda existiam diversos destes livros em Cantuária em sua época, embora ele não os tenha nomeado. Uma investigação sobre os manuscritos sobreviventes de Cantuária mostra que um possível candidato seja o Evangelho de Santo Agostinho, atualmente em Cambridge (Corpus Christi College, Manuscript (MS) 286.[4] [nota a]

Junto com a carta para Agostinho, os missionários trouxeram uma carta para Etelberto, urgindo-o a agir mais como o imperador romano Constantino I, forçando a conversão dos seus seguidores ao cristianismo. O rei também foi encorajado a destruir todos os templos pagãos.[12]

O historiador Ian Wood sugeriu que a viagem de Melito através da Gália provavelmente o fez passar pelas sés episcopais de Vienne, Arles, Lyon, Toulon, Marselha, Metz, Paris e Ruão, como evidenciado pelas cartas que Gregório enviou para estes bispos pedindo-lhes apoio para o grupo de Melito. Gregório também escreveu para os reis francos Clotário II, Teoderico II, Teodeberto II e para Brunhilda da Austrásia, que era a avó dos dois últimos e a regente. Wood acredita que este amplo pedido de ajuda ao episcopado e à realeza franca foi um esforço para assegurar apoio para a Missão gregoriana.[13] Ainda no caminho para a Inglaterra, Melito recebeu uma carta de Gregório autorizando Agostinho a converter hofs pagãos em igrejas e a as blóts (sacríficios animais pagãos) em festas cristãs, tudo para facilitar a transição para o cristianismo.[4] A carta de Gregório marca uma mudança enorme na estratégia missionária aplicada até então[14] e foi posteriormente incluída na Historia ecclesiastica gentis Anglorum de Beda[15] . Geralmente conhecida como Epistola ad Mellitum,[16] ela conflita com a carta enviada para Etelberto, que o historiador R. A. Markus vê também como um ponto de virada na história missionária, quando a conversão forçada cedeu espaço para a persuasão.[12] Esta visão tradicional de que a Epistola representa uma contradição com a carta a Etelberto tem sido disputada por George Demacopoulos, que argumenta que a carta ao rei tinha por objetivo principal encorajá-lo em assuntos espirituais, enquanto que a Epistola foi enviada para tratar unicamente de assuntos práticos e, assim, não existiria contradição entre as duas.[17]

Bispos de Londres[editar | editar código-fonte]

São Melito
Vitral na Igreja de Santa Maria em Prittlewell.

Exatamente quando Melito e seu grupo chegaram na Inglaterra não se sabe, mas ele estava certamente lá em 604 d.C.[4] , quando Agostinho consagrou-o como bispo[18] na província dos saxões orientais, fazendo de Melito o primeiro bispo de Londres após a partida dos romanos (Londres era a capital da Ânglia Oriental[19] ). A cidade era também a escolha mais lógica para um novo bispado, pois era um centro de distribuição para a malha rodoviária do sul da ilha. Era também uma antiga cidade romana (Londínio) e muitos dos esforços da Missão gregoriana se concentraram em lugares assim. Antes de sua consagração, Melito batizou Seberto, o sobrinho de Etelberto, que então permitiu que um novo bispado fosse estabelecido. A igreja episcopal construída em Londres foi provavelmente inaugurada por Etelberto ao invés de Seberto. Embora Beda relate que Etelberto é que dera as terras para o sustento da nova sé, os documentos que alegam ser a doação de terras de Etelberto a Melito são falsificações posteriores[4] .

Embora Gregório tenha tido como objetivo que Londres fosse a sede do arcebispado para o sul da ilha, Agostinho jamais transportou a sua sé para lá e, ao invés disso, consagrou Melito como um bispo comum para lá[nota b]. Após a morte de Agostinho, em 604 d.C., Cantuária continuou a ser a sede do arcebispado do sul e Londres continuou sendo um episcopado. É possível que o rei de Kent não desejasse que uma autoridade episcopal existisse fora de seu reino na época[4] .

Melito compareceu a um concílio de bispos realizado na Itália em fevereiro de 610 d.C., convocado pelo Papa Bonifácio IV[4] . O historiador N.J. Higham especula que uma das razões para o seu comparecimento parece ter sido o de reafirmar a independência da Igreja da Inglaterra frente a Igreja Franca[20] . Bonifácio deu a Melito duas cartas papais para que ele levasse de volta para a Inglaterra, uma para Etelberto e seu povo e outra para Lourenço, o sucessor de Agostinho[21] . Ele também levou consigo os decretos do concílio[22] . Nenhuma carta ou documentação autêntica deste sínodo sobreviveu, embora algumas tenham sido falsificadas nas décadas de 1060 e 1070 em Cantuária[4] . Durante seu período como bispo, Melito se juntou a Justo, o bispo de Rochester, subscrevendo uma carta que Lourenço escreveu para os bispos celtas urgindo a Igreja Celta a adotar o método romano de cálculo da data da Páscoa (veja controvérsia da Páscoa). Esta carta também mencionava o fato de que os bispos missionários irlandeses, como Dagão, se recusavam a fazer suas refeições com os missionários romanos[23] .

Tanto Etelberto quando Seberto morreram por volta de 616 ou 618 d.C., provocando uma crise na missão[4] . Os três filhos de Seberto não tinham se convertido e expulsaram Melito de Londres[24] . Beda afirma que Melito foi exilado por ter se recusado a permitir que os irmãos experimentassem da hóstia consagrada, tida por eles como algo mágico[4] [nota c]. Se isto ocorreu imediatamente após a morte de Seberto ou depois, é impossível de determinar a partir da cronologia de Beda, que coloca os dois eventos no mesmo capítulo, mas não apresenta nenhuma referência e nem um espaço de tempo entre os dois eventos[25] . O historiador N. J. Higham faz uma relação entre este episódio com uma mudança no "senhorio", do cristão Etelberto de Kent para o anglo oriental pagão Redevaldo, que Higham acredita ter acontecido após a morte de Etelberto. Em sua visão, os filhos de Seberto expulsaram Melito de Londres por que eles tinham passado de uma subordinação ao Reino de Kent para uma a Ânglia Oriental e, assim, não precisavam mais manter Melito, que tinha fortes relações com Kent, no posto[26] .

Melito primeiro fugiu para Cantuária, mas o sucessor de Etelberto, Eadbaldo, também era um pagão e Melito, acompanhado por Justo, se refugiou na Gália[4] . Melito foi reconvocado para a Britânia por Lourenço após a conversão de Eadbaldo[27] . Quanto tempo ele permaneceu exilado é incerto. Beda alega que foi apenas um ano, mas é possível que tenha sido mais[25] . Porém, Melito não retornou para Londres[27] por que os saxões orientais permaneceram pagãos[4] . Embora Melito tenha fugido, não há razões para crer que tenha ocorrido uma perseguição aos cristãos no Reino de Wessex (de West Saxons - saxões orientais)[28] . A sé ali só seria novamente ocupada quando Cedd foi consagrado como bispo, por volta de 654 d.C.[29] .

Arcebispado e morte[editar | editar código-fonte]

Lápide sobre o túmulo de Melito, na Abadia de Santo Agostinho.

Melito sucedeu a Lourenço como o terceiro arcebispo de Cantuária após a morte deste último em 619 d.C.[30] . Durante o seu tempo na função, Melito supostamente realizou um milagre em 623 d.C., desviando um incêndio que se iniciara em Cantuária e ameaçava a igreja. Ele foi carregado para meio das chamas e o vento então mudou de direção, salvando assim o edifício[31] . Beda elogia a mente sã de Melito, mas, à parte o milagre, nada mais aconteceu durante o seu episcopado[32] . Beda também menciona que Melito sofria de gota[22] . Bonifácio escreveu para Melito, encorajando-o em sua missão, talvez instigado pelo casamento de Etelburga de Kent (Æthelburh), filha de Etelberto, com o rei Eduíno da Nortúmbria. Se Melito recebeu um pálio, o símbolo da autoridade do arcebispo vinda do papa, não se sabe[4] .

Melito morreu em 24 de abril[30] e foi enterrado na Abadia de São Pedro e São Paulo, em Cantuária, no mesmo dia[4] . Ele passou a ser reverenciado como um santo após a sua morte, com uma festa celebrada no aniversário de sua morte[2] . O Missal de Stowe, do século IX, comemora a sua festa juntamente com a de Justo e de Lourenço[33] . Ele ainda era venerado na abadia em 1120, juntamente com diversos outros santos locais[34] . Havia também um santuário dedicado a ele na Antiga Catedral de São Paulo, em Londres[35] . Logo após a conquista normanda da Inglaterra, Goscelin escreveu uma Vita de Melito, a primeira de diversas que apareceram por volta desta época, mas que não contém nenhuma informação além das já incluídas nas obras anteriores de Beda. Estas biografias medievais, porém, revelam que durante a vida de Goscelin, pessoas que sofriam de gota eram incentivadas a rezar sobre o túmulo de Melito[4] . Goscelin relata também que o santuário de Melito estava ao lado do de Agostinho, junto com o de Lourenço, na capela central da parede leste do presbitério[36] .

Ver também[editar | editar código-fonte]

Melito de Cantuária
(619 - 624)
Precedido por: Angl-Canterbury-Arms.svg
Arcebispos de Cantuária
Sucedido por:
Lourenço 3.º Justo


Notas[editar | editar código-fonte]

[nota a] ^ Outro possível sobrevivente é a Regra de São Bento, hoje MS Oxford Bodleian Hatton 48.[37] . Outro Evangelho, em estilo italiano e intimamente relacionado aos Evangelhos de Santo Agostinho, é oMS Oxford Bodelian Auctarium D.2.14, atualmente na Biblioteca Britânica como parte da MS Cotton Titus C e pode também ter chegado com os missionários[38]
[nota b] ^ Embora o historiador S. Brechter argumente que Agostinho tenha de fato se mudado para Londres e que Melito seria o seu sucessor lá ao invés de Lourenço, já se demonstrou que isso é improável[39] .
[nota c] ^ O historiador James Campbell afirma que os irmãos podem ter tentando experimentar a hóstia por entenderem que ela seria mágica ou por conta de o pão utilizado ser branco, o que era muito raro na época[40]

Referências

  1. St. Mellitus of Canterbury (em inglês) Catholic Online. Página visitada em 10/07/2011.
  2. a b Walsh New Dictionary of Saints p. 420
  3. a b Holford-Strevens and Blackburn Oxford Book of Days p. 170
  4. a b c d e f g h i j k l m n o p q Brooks "Mellitus (d. 624)" Oxford Dictionary of National Biography
  5. Bede Ecclesiastical History p. 111, ou em outras edições de Beda, no final do capítulo 6, livro 2.
  6. Church "Paganism in Conversion-age Anglo-Saxon England" History p. 164
  7. Higham Convert Kings p. 96
  8. Mayr-Harting Coming of Christianity p. 64
  9. Brooks Early History of the Church of Canterbury p. 9
  10. Bede History of the English Church and People pp. 85–86
  11. Mayr-Harting Coming of Christianity p. 62
  12. a b Markus "Gregory the Great and a Papal Missionary Strategy" Studies in Church History 6 pp. 34–37
  13. Wood "Mission of Augustine" Speculum p. 6
  14. Markus "Gregory the Great's Europe" Transactions of the Royal Historical Society p. 26
  15. Bede History of the English Church and People pp. 86–87
  16. Spiegel "'Tabernacula' of Gregory the Great" Anglo-Saxon England 36 pp. 2–3
  17. Demacopoulos "Gregory the Great and the Pagan Shrines of Kent" Journal of Late Antiquity pp. 353–369
  18. Fryde, et al. Handbook of British Chronology p. 219
  19. Brooks Early History of the Church of Canterbury pp. 11–13a
  20. Higham Convert Kings p. 115
  21. Brooks Early History of the Church of Canterbury p. 13
  22. a b Blair World of Bede pp. 86–87
  23. Stenton Anglo-Saxon England p. 112
  24. Hindley Brief History of the Anglo-Saxons p. 36
  25. a b Higham Convert Kings p. 137
  26. Higham English Empire pp. 202–203
  27. a b Lapidge "Mellitus" Blackwell Encyclopedia of Anglo-Saxon England
  28. Higham Convert Kings pp. 135–136
  29. Higham Convert Kings pp. 234–237
  30. a b Fryde, et al. Handbook of British Chronology p. 213
  31. Brooks Early History of the Church of Canterbury p. 30
  32. Hindley Brief History of the Anglo-Saxons p. 43
  33. Farmer Oxford Dictionary of Saints p. 366
  34. Hayward "Absent Father" Journal of Medieval History p. 217 footnote 72
  35. Nilson Cathedral Shrines of Medieval England p. 36
  36. Gem "Significance of the 11th-century Rebuilding of Christ Church and St Augustine's, Canterbury" Medieval Art and Architecture at Canterbury p. 8
  37. Colgrave "Introduction" Earliest Life of Gregory the Great pp. 27–28
  38. Lapidge Anglo-Saxon Library pp. 24–25
  39. Wallace-Hadrill Bede's Ecclesiastical History of the English People p. 39
  40. Campbell "Observations on the Conversion of England" Essays in Anglo-Saxon History pp. 77–78

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Melito de Cantuária
  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em inglês, cujo título é «Mellitus», especificamente desta versão.
  • Mellitus – Uma lista das menções conhecidas a Melito na literatura contemporânea ou quase contemporânea, inclusive algumas falsificações] (em ingês) From the Prosopography of Anglo Saxon England Entry project. Página visitada em 10/07/2011.
  • Epistola ad Mellitum (em latim) Wikisource. Página visitada em 10/07/2011.
  • Epistola ad Mellitum (em ingês) libertyfund.org. Página visitada em 10/07/2011.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]