Omurtag da Bulgária

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Omurtag da Bulgária
Grande cã do Império Búlgaro
Omurtag1.jpg
Iluminura de Omurtag no Escilitzes de Madrid.
Governo
Reinado 814- 831
Antecessor Krum
Sucessor Malamir
Dinastia "Dinastia de Krum" (possivelmente Dulo)
Vida
Nome completo Омуртаг
Morte 831
Filhos Enravota
Zvinitsa
Malamir
Pai Krum

Omurtag ou Omortag (em búlgaro: Омуртаг; original em grego: Μορτάγων[1] e Ομουρτάγ[2] ) foi um kanasubigi[3] da Bulgária entre 814 e 831. Ele é conhecido como "o Construtor".

Bem no começo de seu reinado, Omurtag firmou um tratado de paz de 30 anos com o vizinho Império Bizantino que permaneceu vigente durante toda a sua vida. Ele conseguiu lidar com sucesso com a política agressiva do Império Franco, que pretendia tomar o noroeste da Bulgária e sufocou as revoltas entre as diversas tribos eslavas. Omurtag também realizou reformas administrativas que aumentaram o poder e a autoridade do governo central. Seu reinado foi marcado por um forte desenvolvimento da arquitetura búlgara por conta das diversas obras patrocinadas pelo cã.

Ascensão ao trono[editar | editar código-fonte]

Depois da morte do Krum, o país passou por num breve período de instabilidade. Algumas fontes mencionam que a Bulgária foi governada por três nobres - Dukum, Ditseng e Tsog - que perseguiram os cristãos, segundo as bizantinas. Diversas teorias existem para explicar os eventos deste período. De acordo com elas, os três nobres ou eram generais de Krum com posições de poder no governo, mas que nunca chegaram ao trono, ou regentes do jovem Omurtag. Os historiadores geralmente aceitam uma solução de compromisso proposta pelo professor Vasil Gyuzelev de que Omurtag sucedeu ao pai depois de alguns poucos distúrbios.

Política externa[editar | editar código-fonte]

Território da Bulgária na época de Omurtag.

Primeiros anos de Omurtag[editar | editar código-fonte]

Depois da morte súbita do cã Krum, muitas tropas búlgaras estavam na Trácia bizantina defendendo diversas posições estratégicas. O imperador bizantino Leão V, o Armênio, aproveitou-se da crise sucessória no verão de 814 e marchou contra os búlgaros. Na batalha que se seguiu perto da cidade de Burtodizos (provavelmente a moderna Babaeski), os bizantinos se saíram vitoriosos. Omurtag só escapou com vida por causa de um cavalo muito veloz. Porém, a batalha não foi um golpe decisivo contra o poderio búlgaro, embora certamente tenha tido seu efeito deletério.

Além do assalto, os bizantinos também tomaram algumas precauções contra os búlgaros. no início de 814, eles enviaram emissários ao imperador franco Luís, o Piedoso, propondo uma aliança contra a Bulgária. Não se sabe se algum acordo foi alcançado, mas é muito provável que Luís não tenha concordado com nada importante. Porém, quando as notícias de uma possível aliança entre os dois impérios alcançaram a corte búlgara em Pliska, Omurtag decidiu buscar a paz. Além disso, os búlgaros precisavam de tempo para consolidar sua autoridade nas terras que haviam acabado de conquistar. O surgimento do novo estado franco e agitações renovadas entre as tribos das estepes eram assuntos que precisavam de atenção antes de qualquer nova campanha contra o Império Bizantino. Omurtag então firmou um tratado de paz de 30 anos com os bizantinos em 815 e cujo texto parcial foi encontrado numa coluna na vila de Seltsi, na província de Shumen. O tratado discorria sobre:

  • Os eslavos que permanecem em Bizâncio. Os búlgaros propuseram uma troca de prisioneiros bizantinos pela população eslava da Trácia.

Os dois governantes juraram manter os termos do tratado utilizando cada um seus próprios ritos, o que escandalizou a corte bizantina. O tratado era muito favorável aos bizantinos por que a Bulgária precisava desta paz. O exército estava exausto, a capital, Pliska, ainda estava em ruínas depois de ter sido arrasada por Nicéforo I, o Logóteta em 811 e os bizantinos já não eram mais uma ameaça significativa para os búlgaros. O tratado foi honrado por ambos os lados e foi renovado depois da ascensão do novo imperador bizantino Miguel II, o Amoriano, ao trono em 820. Em 821, Tomás, o Eslavo, se rebelou contra o imperador bizantino e cercou Constantinopla para tentar usurpar o trono. O cã Omurtag enviou um exército que atacou os rebeldes na Batalha de Kedouktos no verão de 822 ou na primavera de 823. Apesar de os relatos bizantinos darem conta que Tomás fora completamente destruído, os acadêmicos modernos consideram que esta batalha foi uma vitória - bastante custosa, é certo - de Tomás.

Relações com o Império Franco[editar | editar código-fonte]

Reinado de Omurtag
Omurtag envia emissários ao imperador Miguel II, o Amoriano.
Omurtag envia emissários ao imperador Miguel II, o Amoriano.
Cavalaria de Omurtag contra Tomás, o Eslavo.
Cavalaria de Omurtag contra Tomás, o Eslavo.
Omurtag assiste à execução do bispo Manuel durante sua perseguição aos cristãos.
Omurtag assiste à execução do bispo Manuel durante sua perseguição aos cristãos.

Em 818, as tribos eslavas dos timočani, abodritas e braničevci (que habitavam as terras ao longo do Médio Danúbio, terras antigamente ocupadas pelos ávaros) se revoltaram contra uma cada vez mais centralizada suserania búlgara no ocidente e buscaram ajuda do imperador Luís, o Piedoso. Entre 824 e 826, Omurtag tentou se aproximar da corte franca para tentar uma saída diplomática para o problema, mas, sem sucesso, acabou dando um ultimato em 826. No ano seguinte, ele enviou frotas ao longo dos rios Danúbio e Drava e conseguiu retomar o controle do sudeste da Panônia. Os francos foram derrotados em diversas escaramuças menores. Depois deste breve conflito, as relações entre os dois países melhorou e Omurtag conseguiu substituir diversos chefes eslavos por seus aliados. Eventos similares ocorreram novamente em 829, com o mesmo resultado. O relato destes fatos aparece numa inscrição em memória do zera-tarkhan Onegavon, que se afogara no rio Tisza. A vitória búlgara se deu, em larga medida, pela falta de uma reivindicação justa dos francos às terras búlgaras. Além disso, havia uma grande zona tampão entre o Danúbio e o Tisza que separava as duas potências. Os problemas quase sempre eram causados pelas tentativas das tribos eslavas de conseguirem maior autonomia, o que conflitava com a política búlgara de centralização do controle sobre eles até sua incorporação final.

Outra inscrição memorial, esta em homenagem ao kopan Okorsis, que se afogou no Dnieper, testemunha as atividades militares ao longo da fronteira nordeste já no início de 824. Porém, não se sabe ao certo contra quem lutavam os búlgaros. Acredita-se geralmente que eram os magiares, mas, recentemente, a opinião do professor Ivan Bozhilov - de que seria os cazares - vem ganhando cada vez mais popularidade. Embora não haja evidências diretas do resultado destes combates, assume-se que terminaram com vitória búlgara por causa das rápidas e enérgicas medidas de Omurtag.

Política interna[editar | editar código-fonte]

A longa paz foi uma época propícia para uma política interna ativa na consolidação do nascente estado búlgaro, inclusive a eliminação das ameaças internas à estabilidade e um intensivo programa de obras.

Administração[editar | editar código-fonte]

Depois de várias tentativas fracassadas de escapar do controle búlgaro pelas tribos eslavas, Omurtag concluiu que era necessário eliminar completamente a autonomia delas em seu vasto domínio. Ele promoveu então uma reforma administrativa e subdividiu o estado em grandes províncias chamadas comitati (singular comitat), cujos governadores eram nomeados diretamente pelo grande cã e tinham autoridade civil e militar. Os comitati foram, por sua vez, subdivididos em regiões menores chamadas zhupi (singular zhupa). A área no entorno da capital tinha um status especial. O exército foi integrado e unificado, eliminando a dependência de uma infantaria eslava separada da cavalaria búlgara. A importância dos principais ministros do grande cã, o kavkhan e o ichirgu-boil, cresceu. Como resultado das reformas, a Bulgária se consolidou e se centralizou ainda mais.

Programa de obras[editar | editar código-fonte]

...mesmo que um homem viva bem, ele morre e outro passa a existir. Que o que chega depois, ao ver esta inscrição, se lembre de quem a fez. E seu nome é Omurtag, kanasubigi.
 

Em casa, Omurtag iniciou um enorme programa de obras com o objetivo tanto de restaurar sua capital, Pliska, que fora destruída pelos bizantinos em 811 quanto fomentar o desenvolvimento de vários centros regionais, palácios e fortalezas. Suas obras deram grande contribuição para o desenvolvimento da chamada cultura Pliksa-Preslav. Muitas fontes (Inscrição de Chatalar e a de Omurtag em Tarnovo) e inscrições memoriais foram preservadas e dão testemunho das atividades de reconstrução de Pliska, da construção de um novo palácio com uma grande sala do trono até um novo templo de Tangra. A cidade também passou a contar com uma avenida de colunas de pedra com os nomes das cidades conquistadas pelos búlgaros na Trácia. Diversos palácios e fortalezas foram construídas ao longo do Danúbio, além de novas residências para o grande cã em Tarnovo e Chepelare. Todo este programa demonstra que a Bulgária detinha uma robusta economia na época.

Perseguição aos cristãos[editar | editar código-fonte]

Omurtag reprimiu ativamente os cristãos em seu reino, em particular os prisioneiros de guerra bizantinos que foram assentados por Krum na Bulgária, a norte do Danúbio. Esta política pode ter sido motivada em parte pela invasão bizantina de 811 ou pela atividade proselitista de uma parte dos cristãos cativos. Omurtag também deserdou seu filho mais velho, Enravota, por ser cristão (ele seria posteriormente assassinado pelo herdeiro de Omurtag, Malamir, seu irmão mais novo, e canonizado como mártir).

A compilação do século XVII dos búlgaros do Volga, Ja'far Tarikh, uma obra cuja autenticidade é disputada, apresenta Amurtag ou Yomyrčak (Omurtag) como sendo filho de Korym (Krum).

Ver também[editar | editar código-fonte]

Omurtag da Bulgária
Nascimento:  ? Morte: 831
Precedido por:
Krum
Cã búlgaro
814–831
Sucedido por:
Malamir

Referências

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • Jordan Andreev, Ivan Lazarov, Plamen Pavlov, Koj koj e v srednovekovna Bălgarija, Sofia 1999.
  • John V. A. Fine Jr., The Early Medieval Balkans, Ann Arbor, 1983.
  • (fonte primária), Bahši Iman, Džagfar Tarihy, vol. III, Orenburg 1997.