Rosa Egipcíaca

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Rosa Egipcíaca (Costa da Mina, 1719 - 1778), ou Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, foi autora de Sagrada Teologia do Amor Divino das Almas Peregrinas, o mais antigo livro escrito por uma mulher negra na história do Brasil.[1]

Os dons espirituais levaram Rosa Egipcíaca a ter devotos, inclusive do clero católico, motivo que a levou aos "olhos" da Inquisição.[1]

A vida dela inspirou a produção dos livros Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil, uma biografia de 750 páginas escrita por Luiz Mott, e Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz: a incrível trajetória de uma princesa negra entre a prostituição e a santidade, um romance ficcional escrito por Heloisa Maranhão.[1] A biografia também foi citada e inspirou a produção de vários trabalhos acadêmicos.

Vida[editar | editar código-fonte]

Rosa nasceu em Costa da Mina.[1] Em 1725, aos seis anos de idade, após ser capturada pelo tráfico negreiro, desembarcou em São Sebastião do Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1733.[1] [2]

Em seguida, foi levada para Minas Gerais pelo Frei José de Santa Rita Durão, onde viveu como meretriz durante 15 anos, após o anterior "desonestá-la e tratar torpemente com ela".[1] [2]

Durante o período em Minas, aos 30 anos, foi acometida por um estranho inchaço e por uma enfermidade no estômago, período coincidente com o de visões místicas, o que a levaria a deixar o meretrício e a se tornar "beata".[1] [2] Em 1748, vendeu jóias e roupas conseguidas durante o metrício, distribuindo tudo aos pobres. [2]

Nesse período, passou a frequentar os ofícios divinos e liturgias. Em um deles, conheceu o padre Francisco Gonçalves Lopes, vigário da freguesia de São Caetano, famoso pelo uso de exorcismos, quando disse estar possuída por sete demônios e ter sentido um caldeirão de água fervente despejado sobre seu corpo. [2] No primeiro exorcismo de Rosa Egipcíaca, ela caiu no chão desacordada, "partindo a cabeça na pedra debaixo do altar de São Benedito".[2]

Em outro momento, o casal Durão disse que Rosa "era uma possessa especial, pois, quando vexada, fazia sermões edificantes, sempre preocupada que todos mantivessem perfeita compostura nos templos" e que falava grosso quando possuída por Satanás, além de ter visões como a de Nossa Senhora da Conceição.

O nome Egipcíaca foi dado em referência à Santa Maria Egipcíaca, também ex-prostituta.[3]

As visões de Rosa levam sua fama a ser conhecida em Mariana, Vila Rica e São João del-Rei.[2]

Certa vez, na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei, Rosa Courana interrompeu a pregação de um missionário ao gritar que ela era o próprio Satanás ali presente.[2]

Levada à sede do bispado, em Mariana, foi avaliada pela Igreja que a considerou "embusteira", sendo, pois, açoitada, em 1749, no pelourinho de Mariana.[1] [2] Conseguiu sobreviver aos castigos, mas ficou com o lado direito do corpo semiparalisado pelo resto da vida.[2]

Em seguida, procurou o bispo da Diocese, D. Frei Manoel da Cruz, quando, após uma série de provas (uma delas envolvendo a resistência de 5 minutos à chama de uma vela), o grupo conclui que tudo não passava de fingimento, o que levou o povo a chamá-la de feiticeira.[2]

Em São Sebastião do Rio de Janeiro, para onde fugiu em 1751 e permaneceu até 1763, aprendeu a ler e escrever motivada por inspiração espiritual.[1] [2]

Nesse período, ela revelou detalhes de sua vida e dons sobrenaturais ao Provincial dos Franciscanos, Frei Agostinho de São José, que passou a ser seu mentor espiritual, período também que leva os franciscanos a admirá-la pelos jejuns prolongados, autoflagelação, uso de cilício e comunhão frequente.[2] Essas características levaram os franciscanos a chamá-la de "flor do Rio de Janeiro".[2]

Foi fundadora em 1751, no São Sebastião do Rio de Janeiro, do Recolhimento do Parto, um local destinado a receber ex-prostitutas e de cultos que serviam biscoito de farinha feito com a saliva de Rosa.[1] [2] No mesmo local, ela recebeu dezenas de famílias após convencê-las de que um dilúvio só pouparia quem lá se escondesse.[2]

Madre Rosa foi adorada por fiéis que a procuravam de joelhos, beijando-lhe os pés e venerando suas relíquias.[2] Os cerimonais celebrados pela santa africana misturavam elementos católicos com ritos africanos, como o hábito de pitar cachimbo.[2]

Escreveu Sagrada Teologia do Amor Divino das Almas Peregrinas, um livro de cerca de 250 páginas posteriormente qualificado como heresia e parcialmente destruído pelo confessor, ex-exorcista e coproprietário, o padre Francisco Gonçalves Lopes, conhecido como Xota-Diabos, a fim de preservá-la da Inquisição.[1]

Ao se indispor com o clero que conversava durante cerimônias e com uma mulher na igreja de Santo Antônio, foi denunciada ao bispo, processo que reuniria outros desatinos de Rosa, como os de "dizer-se mãe de Deus, redentora do universo, superior a Santa Teresa, objeto de verdadeira e herética idolatria em seu recolhimento, além de capitanear rituais sincréticos igualmente suspeitos".[2]

Em certo momento, chegou a dizer que o Menino Jesus diariamente ia penteá-la sua dura carapinha e, em agradecimento, dava-lhe de mamar.[4]

Em 1763, a escrava foi tida pela Igreja Católica como herege e falsa santa[1] , o que a levou ser presa nos Cárceres do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa, onde não desmentiu suas visões e experiências sobrenaturais.[2]

A morte de Rosa é uma mistério, pois o processo inquisitorial foi interrompido em 1765 não sendo identificada a pena aplicada.[2]

Relevância acadêmica[editar | editar código-fonte]

Além de livros, a vida de Rosa Egipcíaca motivou a produção de artigos em revistas acadêmicas, especialmente a partir da pesquisa de Luiz Mott na Torre do Tombo, em Lisboa, cujo levantamento a torna a personagem negra do século XVIII de maior volume documental disponível.[2]

Assim, de acordo com o antropólogo, Rosa Egipcíaca "é certamente a mulher negra africana do século XVIII, tanto em África como na diáspora afro-americana e no Brasil, sobre quem se dispõe mais detalhes documentais sobre sua vida, sonhos, escritos e paixão".[2]

A pesquisadora Rosely Santos Guimarães analisa que Rosa Egipcíaca "aprendeu a ler e a escrever na língua do dominador e teve a coragem de se colocar como o sujeito de um discurso que busca mudanças na cultura vigente".[1]

O historiador John Russell-Wood avalia que "Rosa Egipcíaca abre uma janela para a história das mentalidades de uma sociedade escravocrata e também dá identidade e individualidade a uma mulher africana, escrava e depois livre, no mar de anonimidade conferido aos escravos e aos indivíduos de ascendência africana livres no Brasil".[5]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m GUIMARÃES, Rosely Santos. Corpo negro: entre a história e a ficção. O caso de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz. Revista Em Tese, UFMG, Belo Horizonte, v. 6, p. 1–253, ago. 2003
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w MOTT, Luiz. Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil - resumo do livro. Rio de Janeiro, Editora Bertrand do Brasil, 1993, 750 p., resumo disponível na página do autor, acesso em 2 de fevereiro de 2011
  3. CYMBALISTA, Renato. Cidade dos Vivos: arquitetura e atitudes perante a morte nos cemitérios do Estado de São Paulo. 1ª ed. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2002., p.177
  4. MOTT, Luiz. Cotidiano e Vivência Religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA, Laura de Mello e (Org.). Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa. Coleção História da Vida Privada no Brasil. São Paulo. Cia das Letras, 1999, vol.I.
  5. RUSSELL-WOOD, A. J. R. Escravos e libertos no Brasil colonial. Tradução de Maria Beatriz Medina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p.330
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