Thema Opsiciano

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Ásia Menor por volta de 717, mostrando o Thema Opsiciano próximo a Constantinopla (nº 8).

O Thema Opsiciano (em grego: θέμα Ὀψικίου - thema Opsikiou) ou simplesmente Opsikion (em grego: [θέμα] Ὀψίκιον, do em latim: obsequium) foi um thema bizantino (uma província civil-militar) localizada no noroeste da Ásia Menor. Criado a partir de um destacamento do exército, o Thema Opsiciano era o maior e o mais prestigioso dos primeiros themata também por ser o mais próximo de Constantinopla. Envolvido em diversas revoltas no século VIII, ele foi dividido após ca. 750 e perdeu muito de sua proeminência e sobreviveu com uma importância intermediária até a Quarta Cruzada.

História[editar | editar código-fonte]

O Thema Opsiciano foi um dos primeiros quatro themata e teve sua origem no exército "presencial" do Império Romano do Oriente[a]. O termo Opsikion deriva do latim obsequium ("séquito") que, já pela metade do século VII, passou a designar as unidades que escoltavam o imperador quando em campanha.[1] . É possível que, num primeiro momento, o Opsikion estivesse aquartelado na própria capital imperial[2] . Na década de 640, porém, após as desastrosas derrotas sofridas durante a primeira onda das conquistas muçulmanas, os restos dos exércitos foram recuados para a Ásia Menor e passaram a guarnecer grandes distritos chamados de "thema" ("themata" no plural)[3] . Assim, o Thema Opsiciano seria a região onde o Opsikion imperial foi aquartelado, que abrangia todo o noroeste da Ásia Menor (Mísia, Bitínia, partes da Galácia, Lídia e Paflagônia) do Dardanelos até o rio Hális, com a capital em Ancira. A data exata da fundação do thema é desconhecida; a referência mais antiga aponta para a criação ainda em 626, mas a primeira ocorrência confirmada foi em 680[4] [5] [6] . É possível que ele também incluísse uma área na Trácia, que parece ter sido administrada juntamente com o Opsikion no final do século VII e início do VIII[4] [7] .

A origem peculiar do Thema Opsiciano aparece em diversos aspectos da organização do thema. Assim, o título de comandante não era estratego como em todos os outros, mas comes ("conde")[4] . Além disso, ele não era dividido em turmas, mas em domesticados formados pelas tropas de elite do exército, como os Optimatoi e os Boukellarioi, ambos termos que datam da época do recrutamento dos federados godos nos séculos IV e VI[8] . Seu prestígio é ainda ilustrado pelos selos de seus comandantes, nos quais o thema é chamado de "Opsikion imperial guardado por Deus" (em grego: θεοφύλακτον βασιλικόν ὀψίκιον; em latim: a Deo conservandum imperiale Obsequium)[6] .

Sendo um dos themata mais próximos da capital Constantinopla e sendo o mais proeminente deles, os condes do Opsikion geralmente eram tentados a se revoltarem contra o imperador. Já em 668, com a morte de Constante II na Sicília, o conde Mecécio tentou um golpe[9] . Sob o patrício Barasbacúrio, o thema era a base de poder principal do imperador Justiniano II (r. 685-695 e 705-711)[6] . Justiniano também assentou muitos eslavos capturados na Trácia ali numa tentativa de aumentar o poderio militar do thema. A maioria deles, porém, desertou para os árabes na primeira batalha que travaram[10] . Em 713, o exército opsiciano se levantou contra Filípico Bardanes (r. 711-713), o assassino de Justiniano, e alçou Anastácio II (r. 713-715) ao trono, apenas para também derrubá-lo em 715 para colocar Teodósio III (r. 715-717) no trono[11] . Em 716, os opsicianos apoiaram a ascensão de Leão III, o Isáurio (r. 716-740) ao trono mas, em 718, o conde local, o patrício Isoes tentou sem sucesso se revoltar contra ele[6] . Em 741-742, o curopalata Artabasdo utilizou os opsicianos como base para sua breve tentativa de usurpar o trono de Constantino V (r. 741-775). Em 766, outro conde foi cegado após um motim fracassado contra Constantino[5] . Neste período, as revoltas do Thema Opsiciano não eram apenas resultado da ambição de seus condes: os opsicianos eram fervorosos iconódulos e se opunham às políticas iconoclastas dos imperadores isaurianos[12] . Consequentemente, Constantino V Coprônimo buscou enfraquecer o thema dividindo-o nos novos themata, chamados de Bucelário e Optimatoi[13] [14] . Em paralelo, o imperador recrutou um novo regimento de guarda de elite, ferozmente iconoclasta, os Tagmata[13] [15] .

Assim, o já reduzido Opsikion foi rebaixado de uma formação de guarda para um thema comum de cavalaria: suas forças foram divididas em turmas e seus comes caíram para o sexto lugar na hierarquia dos governantes dos themata, chegando a ser renomeado ao título ordinário de estratego no final do século IX[6] [16] [17] . Neste século, o governante aparece recebendo 15 quilos de ouro e comandando 6 000 homens (a comparar com os 18 000 do antigo Opsikion)[16] [18] . A capital se mudou para Niceia e o imperador Constantino VII, em seu De Thematibus, menciona outras nove cidades no thema: Cotieu, Dorileia, Midaion, Apameia, Mirleia, Lampasco, Parion, Cízico e Abidos.[6] .

Na grande Revolta de Tomás, o Eslavo, no início da década de 820, o Opsikion permaneceu leal ao imperador Miguel II, o Amoriano (r. 820-829)[19] . Em 866, o estratego opsiciano, Jorge Peganes, se revoltou, juntamente com o Thema Tracesiano, contra Basílio I, o Macedônio (r. 867-886), então o co-imperador júnior de Miguel III, o Ébrio (r. 842-867) e, em ca. 930, Basílio Chalkocheir se revoltou contra o imperador Romano I Lecapeno (r. 920-944). Ambas as revoltas, porém, foram facilmente sufocadas e foram as últimas das revoltas golpistas do século VIII[6] .

O thema persistiu durante todo o período comneno[20] e foi fundido com o Egeu em algum momento do século XII[21] . Ele, aparentemente, sobreviveu como parte do Império de Niceia; Jorge Acropolita relata que, em 1234, o Thema Opsiciano caiu frente aos "italianos" (Império Latino)[6] [16] .

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^  Os exércitos presenciais eram forças comandadas por dois magistri militum praesentalis, os "mestres dos soldados na presença [do imperador]". Eles estavam estacionados nas redondezas de Constantinopla, na Trácia e na Bitínia, e formavam o centro das várias expedições militares imperiais no século VI e no início do VII.

Referências

  1. Haldon 1984, pp. 443–444.
  2. Haldon 1984, p. 178.
  3. Haldon 1997, pp. 214–216.
  4. a b c Treadgold 1995, p. 23.
  5. a b Kazhdan 1991, p. 1528.
  6. a b c d e f g h Lampakis & Andriopoulou 2003.
  7. Kazhdan 1991, p. 2079.
  8. Lounghis 1996, pp. 28–32.
  9. Haldon 1997, p. 313.
  10. Treadgold 1995, p. 26.
  11. Treadgold 1995, p. 27; Haldon 1997, pp. 80, 442.
  12. Lounghis 1996, pp. 27–28.
  13. a b Lounghis 1996, pp. 28–31.
  14. Treadgold 1995, pp. 29, 71.
  15. Treadgold 1995, pp. 71, 99, 210.
  16. a b c Kazhdan 1991, p. 1529.
  17. Lounghis 1996, p. 30.
  18. Haldon 1999, p. 314.
  19. Treadgold 1995, p. 31.
  20. Haldon 1999, p. 97
  21. Ahrweiler 1966, p. 79.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]