Thema Opsiciano

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Ásia Menor por volta de 717, mostrando o Thema Opsiciano próximo a Constantinopla (nº 8).

O Thema Opsiciano (em grego: θέμα Ὀψικίου; transl.: thema Opsikiou) ou simplesmente Opsício (em grego: , Opsikion, do em latim: obsequium) foi um thema bizantino (uma província civil-militar) localizada no noroeste da Ásia Menor. Criado a partir de um destacamento do exército, o Thema Opsiciano era o maior e o mais prestigioso dos primeiros themata também por ser o mais próximo de Constantinopla. Envolvido em diversas revoltas no século VIII, ele foi dividido após ca. 750 e perdeu muito de sua proeminência e sobreviveu com uma importância intermediária até a Quarta Cruzada.

História[editar | editar código-fonte]

O Thema Opsiciano foi um dos primeiros quatro themata e teve sua origem no exército "presencial" do Império Romano do Oriente[a]. O termo opsício deriva do latim obsequium ("séquito") que, já pela metade do século VII, passou a designar as unidades que escoltavam o imperador quando em campanha.[1] É possível que, num primeiro momento, o opsício estivesse aquartelado na própria capital imperial.[2] Na década de 640, porém, após as desastrosas derrotas sofridas durante a primeira onda das conquistas muçulmanas, os restos dos exércitos foram recuados para a Ásia Menor e passaram a guarnecer grandes distritos chamados de "thema" ("themata" no plural).[3] Assim, o Thema Opsiciano seria a região onde o opsício imperial foi aquartelado, que abrangia todo o noroeste da Ásia Menor (Mísia, Bitínia, partes da Galácia, Lídia e Paflagônia) do Dardanelos até o rio Hális, com a capital em Ancira. A data exata da fundação do thema é desconhecida; a referência mais antiga aponta para a criação ainda em 626, mas a primeira ocorrência confirmada foi em 680.[4] [5] É possível que ele também incluísse uma área na Trácia, que parece ter sido administrada juntamente com o Opsício no final do século VII e início do VIII.[6] [7]

A origem peculiar do Thema Opsiciano aparece em diversos aspectos da organização do thema. Assim, o título de comandante não era estratego como em todos os outros, mas conde.[6] Além disso, ele não era dividido em turmas, mas em domesticados formados pelas tropas de elite do exército, como os Optimates e os Bucelários, ambos termos que datam da época do recrutamento dos federados godos nos séculos IV e VI.[8] Seu prestígio é ainda ilustrado pelos selos de seus comandantes, nos quais o thema é chamado de "Opsício imperial guardado por Deus" (em grego: θεοφύλακτον βασιλικόν ὀψίκιον; em latim: a Deo conservandum imperiale Obsequium).[5]

Sendo um dos themata mais próximos da capital Constantinopla e sendo o mais proeminente deles, os condes do Opsício geralmente eram tentados a se revoltarem contra o imperador. Já em 668, com a morte de Constante II na Sicília, o conde Mecécio tentou um golpe.[9] Sob o patrício Barasbacúrio, o thema era a base de poder principal do imperador Justiniano II (r. 685-695 e 705-711).[5] Justiniano também assentou muitos eslavos capturados na Trácia ali numa tentativa de aumentar o poderio militar do thema. A maioria deles, porém, desertou para os árabes na primeira batalha que travaram.[10] Em 713, o exército opsiciano se levantou contra Filípico Bardanes (r. 711–713), o assassino de Justiniano, e alçou Anastácio II (r. 713–715) ao trono, apenas para também derrubá-lo em 715 para colocar Teodósio III (r. 715–717) no trono.[11] [12] Em 716, os opsicianos apoiaram a ascensão de Leão III, o Isáurio (r. 716–740) ao trono mas, em 718, o conde local, o patrício Isoes tentou sem sucesso se revoltar contra ele.[5] Em 741-742, o curopalata Artabasdo utilizou os opsicianos como base para sua breve tentativa de usurpar o trono de Constantino V (r. 741–775). Em 766, outro conde foi cegado após um motim fracassado contra Constantino.[4] Neste período, as revoltas do Thema Opsiciano não eram apenas resultado da ambição de seus condes: os opsicianos eram fervorosos iconódulos e se opunham às políticas iconoclastas dos imperadores isaurianos.[13] Consequentemente, Constantino V Coprônimo buscou enfraquecer o thema dividindo-o nos novos themata, chamados de Bucelário e Optimates.[14] [15] Em paralelo, o imperador recrutou um novo regimento de guarda de elite, ferozmente iconoclasta, os tagmata.[16] [17]

Assim, o já reduzido Opsício foi rebaixado de uma formação de guarda para um thema comum de cavalaria: suas forças foram divididas em turmas e seus conde caíram para o sexto lugar na hierarquia dos governantes dos themata, chegando a ser renomeado ao título ordinário de estratego no final do século IX.[5] [18] Neste século, o governante aparece recebendo 15 quilos de ouro e comandando 6 000 homens (a comparar com os 18 000 do antigo Opsício).[19] [20] A capital se mudou para Niceia e o imperador Constantino VII, em seu De Thematibus, menciona outras nove cidades no thema: Cotieu, Dorileia, Midaion, Apameia, Mirleia, Lampasco, Parion, Cízico e Abidos.[5]

Na grande Revolta de Tomás, o Eslavo, no início da década de 820, o Opsício permaneceu leal ao imperador Miguel II, o Amoriano (r. 820–829).[21] Em 866, o estratego opsiciano, Jorge Peganes, se revoltou, juntamente com o Thema Tracesiano, contra Basílio I, o Macedônio (r. 867–886), então o co-imperador júnior de Miguel III, o Ébrio (r. 842–867) e, em ca. 930, Basílio Chalkocheir se revoltou contra o imperador Romano I Lecapeno (r. 920–944). Ambas as revoltas, porém, foram facilmente sufocadas e foram as últimas das revoltas golpistas do século VIII.[5]

O thema persistiu durante todo o período comneno[22] e foi fundido com o Egeu em algum momento do século XII[23] . Ele, aparentemente, sobreviveu como parte do Império de Niceia; Jorge Acropolita relata que, em 1234, o Thema Opsiciano caiu frente aos "italianos" (Império Latino).[5] [19]

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ Os exércitos presenciais eram forças comandadas por dois mestres dos soldados na presença (magistri militum praesentalis). Eles estavam estacionados nas redondezas de Constantinopla, na Trácia e na Bitínia, e formavam o centro das várias expedições militares imperiais no século VI e no início do VII.

Referências

  1. Haldon 1984, p. 443–444
  2. Haldon 1984, p. 178
  3. Haldon 1997, p. 214–216
  4. a b Kazhdan 1991, p. 1528
  5. a b c d e f g h Lampakis 2003
  6. a b Treadgold 1995, p. 23
  7. Kazhdan 1991, p. 2079
  8. Lounghis 1996, pp. 28–32
  9. Haldon 1997, p. 313
  10. Treadgold 1995, p. 26
  11. Treadgold 1995, p. 27
  12. Haldon 1997, p. 80, 442
  13. Lounghis 1996, p. 27–28
  14. Lounghis 1996, p. 28–31
  15. Treadgold 1995, p. 29, 71
  16. Lounghis 1996, p. 28–31
  17. Treadgold 1995, p. 71, 99, 210
  18. Lounghis 1996, p. 30
  19. a b Kazhdan 1991, p. 1529
  20. Haldon 1999, p. 314
  21. Treadgold 1995, p. 31
  22. Haldon 1999, p. 97
  23. Ahrweiler 1966, p. 79.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Ahrweiler, Hélène. Byzance et la mer: la marine de guerre, la politique et les institutions maritimes de Byzance aux VIIe-XVe siècles (em francês). Paris: Presses universitaires de France, 1966.
  • Haldon, John F.. Byzantine Praetorians: An Αdministrative, Ιnstitutional and Social Survey of the Opsikion and the Tagmata, c. 580-900 (em inglês). Bona, Alemanha: R. Habelt, 1984. vol. 3. ISBN 3-7749-2004-4.
  • Haldon, John F.. Byzantium in the Seventh Century: The Transformation of a Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. ISBN 978-0-521-31917-1.
  • Haldon, John F.. Warfare, State and Society in the Byzantine World, 565-1204. Londres: University College London Press, 1999. ISBN 1-85728-495-X.
  • Kazhdan, Alexander Petrovich. The Oxford Dictionary of Byzantium. Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1991. ISBN 0-19-504652-8.
  • Pertusi, A.. Constantino Porfirogenito: De Thematibus (em italiano). [S.l.]: Biblioteca Apostolica Vaticana, 1952.
  • Treadgold, Warren. Byzantium and Its Army (284-1081). Stanford (Califórnia): Stanford University Press, 1995. ISBN 0-8047-3163-2.