Uirapuru-verdadeiro

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Ilustração de Keulemans, 1881

Ilustração de Keulemans, 1881
Estado de conservação
Status iucn3.1 LC pt.svg
Pouco preocupante (IUCN 3.1)
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Passeriformes
Família: Troglodytidae
Género: Cyphorhinus
Espécie: C. aradus
Nome binomial
Cyphorhinus arada
(Hermann, 1783)
Sinónimos
  • Cyphorhinus salvini
  • Cyphorhinus modulator

O uirapuru-verdadeiro (Cyphorhinus aradus) é uma ave canora conhecida pelo seu canto particularmente elaborado, o que justifica que também seja conhecido vulgarmente como músico ou corneta. É reconhecido, também, apenas por uirapuru ou arapuru, guirapuru, rendeira, tangará ou virapuru. O termo é originário da língua Tupi-guarani "wirapu 'ru" e aplica-se ainda a outros trogloditíneos e pipríneos amazônicos. É famoso pelo seu canto e pelas lendas que o envolvem. É usado como talismã para trazer sorte na vida e no amor, sendo empalhado ou utilizado a sua pele.

Morfologia[editar | editar código-fonte]

Tem uma plumagem simples, pardo-avermelhada com desenhos brancos pintados de preto em cada lado da cabeça, garganta e peito vermelho-vivo, que não alcança a exuberância do seu canto. Possui um bico forte e pés grandes e mede, em média, 12,5 cm.

Habitat e distribuição geográfica[editar | editar código-fonte]

O seu habitat preferencial é o estrato inferior da floresta úmida, tanto em terra firme como, principalmente, em florestas de várzea. É nativo da América do Sul - Guianas, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, - podendo ser encontrado em quase toda a Amazónia brasileira, excepto no alto Rio Negro e na região oriental do Rio Tapajós.

Alimentação[editar | editar código-fonte]

Come, principalmente, insetos, mas também se alimenta de frutas. Acredita-se que o uirapuru, como vários outros pássaros amazônicos, alimenta-se mais ativamente durante as estações chuvosas, quando formigas taocas saem dos formigueiros e passam a atacar animais rasteiros próximos, provocando movimentação que atrai os pássaros. Igualmente, crê-se que o uirapuru tenha o hábito de esperar até que outras espécies deixem o local para se alimentar, inspirando o ditado de que "enquanto os outros comem, o uirapuru canta".

Comportamento[editar | editar código-fonte]

O uirapuru locomove-se rapidamente no solo ou no meio das folhagens. Pode formar casais ou ficar em conjunto com outras espécies de pássaros. Há uma lenda que diz que ele atrai bandos de aves com a sua bela melodia; entretanto, ele apenas integra bandos em busca de alimento. Seus voos são curtos e sussurrantes em movimentos de vai-e-vens (voa e volta para o mesmo lugar), em área limitada.

O canto do uirapuru[editar | editar código-fonte]

No folclore do norte do Brasil, o uirapuru é conhecido por ter um dos mais belos cantos entre as aves, fazendo com que todos os outros pássaros param de cantar para ouvi-lo. Também se diz que, por lembrar um flautim, flauta ou clarinete, o canto do uirapuru inspiraria poetas.

O compositor Villa-Lobos compôs em 1917 o poema sinfônico "Uirapuru", baseado em material do folclore coletado em viagens pelo interior do Brasil. Na lenda que inspirou a obra, o pássaro encantado - "rei do amor" - é flechado no coração por uma moça embevecida com a suave canção e transforma-se em um bonito jovem.

O canto do uirapuru pode ser curto e forte, quando pretende demonstrar domínio do território; ou longo e melodioso, quando sua intenção é a atração sexual. Dura de 10 a 15 minutos ao amanhecer e ao anoitecer, na época da construção do ninho, e canta apenas cerca de quinze dias por ano. Ao todo, foram registrados sete cantos diferentes desta ave.

Johan Dalgas Frisch, famoso ornitólogo dinamarquês-brasileiro que liderou a criação do Parque Nacional Tumucumaque, gravou os sete cantos do uirapuru-verdadeiro e os lançou no álbum Vozes da Amazônia.

Lendas[editar | editar código-fonte]

Algumas lendas sobre o uirapuru:

  • "Um pássaro de canto perfeito é atingindo por uma flecha de uma moça apaixonada e se transforma em um belo guerreiro. Cheio de inveja, um perverso feiticeiro toca uma bela canção em sua flauta encantada e faz com que o rapaz suma. A partir daí, só a maravilhosa voz do guerreiro permaneceu na mata. É raro observar o uirapuru, entretanto frequentemente seu canto é ouvido na mata."
  • "O homem que obtiver uma pena, terá sorte nos negócios e com as mulheres. A mulher que conseguir um pedaço do ninho terá a pessoa que ama apaixonada e fiel pelo resto da vida. Quem ouvir o canto deverá fazer um pedido, que será rapidamente realizado."
  • " Havia uma tribo de índios, onde duas índias lindas amavam o cacique. Com dúvida em qual escolher, o cacique prometeu casar-se com aquela que tivesse melhor pontaria, então propôs um desafio: a índia que acertasse a flecha no alvo seria sua amada. Apenas uma das índias acertou a flecha no alvo, e foi a que casou-se com o cacique, a outra, triste, pediu ao deus dos índios, Tupã, que a transformasse em um pássaro para poder observá-los discretamente e hoje, dizem que o homem que obtiver uma pena terá sorte nos negócios e com as mulheres. A mulher que conseguir um pedaço do ninho terá a pessoa que ama apaixonada e fiel pelo resto da vida. Quem ouvir o canto deverá fazer um pedido, que será rapidamente realizado."

Referências[editar | editar código-fonte]

  • BARROS, Carlos; PAULINO, Wilson Roberto. Os seres vivos. 64° edição, totalmente reformulada. São Paulo: Ática, 2000.