VAR-Palmares

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
VAR-Palmares
Datas das operações 19691972
Motivos Combate à ditadura militar
Instalação de um Estado socialista
Área de atividade Brasil Brasil
Ideologia Marxista-leninista
Principais ações Assaltos, atentados e sequestros
Ataques célebres Roubo do cofre do Adhemar
Status extinta

A Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) foi uma organização brasileira de esquerda que combateu o regime militar de 1964. Surgiu em julho de 1969, como resultado da fusão do Comando de Libertação Nacional (Colina) com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) de Carlos Lamarca.

Tinha como objetivo a instalação de uma ditadura comunista de inspiração soviética no Brasil. Em declaração ao jornalista Elio Gaspari, Daniel Aarão Reis, ex-militante do MR-8, professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense e autor de Ditadura Militar, Esquerda e Sociedade, disse:

Ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial. Pretendia-se implantar uma ditadura revolucionária. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentassem como instrumento da resistência democrática.1

No mesmo ano, a organização realizou a maior de todas as ações de guerrilha urbana voltadas para a obtenção de fundos no Brasil: o roubo do mítico "cofre do Adhemar", contendo pouco mais de 2,8 milhões de dólares, em espécie, o equivalente a 16,2 milhões de dólares de 2007. O tal cofre encontrava-se na residência de Anna Gimel Benchimol Capriglione, secretária e suposta amante do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros – conhecido popularmente pelo bordão "rouba, mas faz". Supunha-se que o dinheiro mantido no cofre seria portanto, produto da corrupção do ex-governador.2 3

Já em setembro de 1969, um de seus grupos dissidentes reconstitui a VPR e outra fracção cria a DVP, mais tarde rebatizada como Grupo Unidade.

Desmantelada a partir de 1971 devido à forte repressão dos militares, a VAR-Palmares teve duas de suas principais lideranças presas e assassinadas pelo regime: Carlos Alberto Soares de Freitas, um dos fundadores do Comando de Libertação Nacional (Colina), e Mariano Joaquim da Silva, o Loyola, veterano das Ligas Camponesas, "desaparecido" nos cárceres clandestinos do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) no Rio de Janeiro.

Nenhum dos assaltantes foi condenado pelo suposto roubo dos dólares, sendo que uma dos integrantes do bando teria sido a ministra Dilma Rousseff.

Roubo do "cofre do Adhemar"[editar | editar código-fonte]

A ação mais conhecida da organização foi a "expropriação" do "cofre do Adhemar", contendo pouco mais de 2,5 milhões de dólares, em espécie, realizada em 18 de julho de 1969.[1] Esse cofre encontrava-se na residência de Anna Gimel Benchimol Capriglione, conhecida nos meios políticos pelo codinome "Dr. Rui",[2] secretária e amante do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros. A informação havia sido dada por um seu sobrinho, Guilherme Schiller Benchimol, que havia aderido à organização na faculdade. Supunha-se que o dinheiro mantido no cofre seria produto da corrupção do ex-governador, conhecido pelo lema "rouba mas faz", o que é uma sacanagem..[3] [4]

A ação se deu na mansão do irmão de Anna Benchimol em Santa Teresa, onde ela se encontrava, com o comando se passando inicialmente por policiais federais, num total de treze guerrilheiros na ação direta e outros na segurança externa, comandados por Juares de Brito. Os moradores, inclusive a dona, foram amarrados, telefones tiveram fios cortados e os automóveis existentes os pneus esvaziados. O cofre, muito pesado, foi retirado dela por meio de pranchas de rolamento e roldanas e arrastado até uma Veraneio Chevrolet C-14 estacionada na frente das escadas de granito da entrada da casa.[1] Levado a um "aparelho" no subúrbio carioca, foi aberto com maçarico e serra elétrica ao mesmo tempo em que se jogava água pela abertura para evitar queimar o dinheiro, que acabou ficando boa parte molhado e as notas de dólares postas para secar num varal.[5] O cofre foi cortado em pedaços e suas partes jogadas nos rios da Barra da Tijuca e do costão da Avenida Niemeyer.

Participaram da ação, entre outros, além do comandante Juares de Brito e do dirigente Antonio Espinosa, Sônia Lafoz, a única guerrilheira importante da luta armada – participante de assalto a bancos e sequestros de diplomatas, famosa por ser exímia atiradora e ter as mais belas pernas da guerrilha – que jamais foi presa,[1] Darcy Rodrigues, ex-militar e braço direito de Lamarca, Reinaldo José de Mello, Wellington Moreira Diniz, o ex-sargento do exército José de Araújo Nóbrega, João Marques de Aguiar, o ex-açougueiro-guerrilheiro João Domingues, Fernando Borges e Jesus Paredes Soto. [1]

Carlos Minc, hoje político ligado ao meio-ambiente, foi um dos integrantes da VAR-Palmares que participou do assalto, então com 18 anos. Dilma Rousseff também participava da organização, mas não integrou a ação mais conhecida do grupo. Minc garante que ela não tinha qualquer papel destacado nos grupos de ação, atuando apenas na retaguarda.[6] Segundo outras versões, Dilma organizou toda a operação[7] Segundo Maurício Lopes Lima, um integrante de buscas da Oban (Operação Bandeirante), estrutura do serviço de inteligência das Forças Armadas e notório local de torturas a presos políticos, Dilma Rousseff era o "cérebro" da organização clandestina.[8] Antonio Espinosa, entretanto, participante da ação e um dos comandantes da VAR-Palmares, explica que Rousseff não teve qualquer participação no assalto, nem de seu planejamento, pois deixou de participar do comando nacional quando houve a fusão entre a VPR e o COLINA que originou a Palmares, algumas semanas antes da ação.[5]

Depois do assalto, Carlos Lamarca, um dos comandantes da organização, emitiu o seguinte comunicado em nome da VAR-Palmares à agência France Press:

"Depois de uma longa investigação, localizamos uma parte da famosa ‘caixinha’ do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, enriquecido por anos e anos de corrupção. Conseguimos US$ 2,5 milhões. Esse dinheiro, roubado do povo, a ele será devolvido."[1]


Outras ações planejadas[editar | editar código-fonte]

A VAR-Palmares teria também planejado em 1969 o sequestro de Delfim Neto, símbolo do milagre econômico e, à época, o civil mais poderoso do governo federal. O suposto sequestro, que deveria ocorrer em dezembro daquele ano, foi referido no livro Os Carbonários, de autoria de Alfredo Sirkis, em 1981. Antonio Roberto Espinosa, ex-comandante da Vanguarda Popular Revolucionária e da VAR-Palmares, reconheceu que coordenou o plano - do qual tinham conhecimento cinco membros da cúpula da organização. Segundo a publicou o jornal Folha de S. Paulo, Espinosa teria dito que Dilma Rousseff era integrante dessa cúpula. Espinosa, porém, desmentiu a informação, dizendo que Dilma nunca participou de ações ou de planejamento de ações militares, tendo sempre tido uma militância exclusivamente política. [9] [10] [11] [12] [13] O sequestro não teria chegado a ser realizado porque os membros do grupo começaram a ser capturados semanas antes. Dilma nega peremptoriamente que tivesse conhecimento do plano e duvida que alguém realmente se lembre, declarando que Espinosa fantasiou sobre o assunto.[14] [15]

Em 5 de fevereiro de 1972 militantes da VAR-Palmares, ALN e do PCBR[16] assassinaram a tiros o marinheiro inglês David Cuthberg, que se encontrava no país juntamente com uma força-tarefa da Marinha Britânica para as comemorações dos 150 anos de independência do Brasil. Após o atentado foram arremessados dentro do táxi onde ele se encontrava panfletos que informavam que o ato teria sido decisão de um "tribunal", como forma de solidariedade à luta do Exército Republicano Irlandês contra o domínio inglês.[17] Quase dois meses depois, três integrantes da organização, Lígia Maria Salgado Nóbrega – participante da execução de Cuthberg – Maria Regina Lobo Leite Figueiredo e Antônio Marcos Pinto de Oliveira foram mortos no Rio de Janeiro no que ficou conhecido como Chacina de Quintino.[18]

Desmantelada devido à forte repressão dos militares, a VAR-Palmares teve duas de suas principais lideranças presas e assassinadas pelo regime: Carlos Alberto Soares de Freitas, um dos fundadores do Comando de Libertação Nacional (Colina), e Mariano Joaquim da Silva, o Loyola, veterano das Ligas Camponesas, "desaparecido" nos cárceres clandestinos do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) no Rio de Janeiro.

Relatório secreto da Aeronáutica indicando intenções da VAR-Palmares de assassinar "os elementos mais reacionários do Exército".

Em 13 de abril de 2011, após três décadas de sigilo, o Arquivo Nacional tornou público um documento, até então em poder da Aeronáutica, que revela que a organização guerrilheira VAR-Palmares determinara o "justiçamento", ou seja, o assassinato de oficiais do Exército e de agentes de outras forças tidas como reacionárias, nos anos da ditadura militar. O documento (um relatório de cinco páginas, denominado "A Campanha de Propaganda Militar"), redigido por líderes do grupo, avalia que a eliminação de agentes da repressão seria uma forma de sair do isolamento. O texto foi apreendido em um esconderijo da organização e encaminhado em caráter confidencial ao então Ministério da Aeronáutica. Sobre o justiçamento de militares, o documento recomendava: "Deve ser feito em função de escolha cuidadosa [trecho incompreensível] elementos mais reacionários do Exército." O documento classifica as ordens como uma resposta aos "crimes" do regime militar contra a esquerda: "O justiçamento punitivo visa especialmente paralisar o inimigo, eliminando sistematicamente os cdf da repressão, os fascistas ideologicamente motivados que pressionam os outros." A VAR-Palmares tinha definido como alvos prioritários o delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS, e seu subordinado "Raul Careca", acusados de comandarem a máquina da tortura em São Paulo, e pessoas ligadas à CIA. Na época da redação do texto (entre 1969 e 1970), certos setores da ditadura falavam sobre o completo extermínio dos subversivos. Em dezembro de 1968, o governo havia baixado o AI-5, que suprimia direitos civis e coincidia com o início de uma política de Estado para eliminar grupos de esquerda.

Referências

  1. a b c d e A verdadeira história do cofre do Dr. Rui. IstoÉ. Página visitada em 19/05/2013.
  2. A verdadeira história do cofre do Dr. Rui. Istoé, nº 1555, 21 de julho de 1999.
  3. Luxo, política e intrigas. Espólio de Ana Capriglione é leiloado no Rio
  4. A Ação grande ou o roubo do cofre do Adhemar
  5. a b O cofre do Dr. Rui. Brasileiros. Página visitada em 19/05/2013.
  6. Minc: Dilma não roubou 'cofre do Ademar' em 1969. O Globo (18/02/2009). Página visitada em 02/08/2009.
  7. O cérebro do roubo ao cofre. Veja (15/01/2003). Página visitada em 02/08/2009.
  8. (05/04/2009) "Ex-guerrilheira é elogiada por militares e vista como "cérebro" do grupo". Folha de S. Paulo (29.222): Caderno A - Brasil.
  9. (08/04/2009) "Painel do Leitor: "Dilma" (carta de Antonio Roberto Espinosa)". Folha de S. Paulo (29.225): Caderno A - Opinião.
  10. (12/04/2009) "Para ficar ao abrigo de desmentidos". Folha de S. Paulo (29.229): Ombudsman.
  11. Nassif, Luis (06/04/2009). Fonte acusa Folha de manipulação. Último Segundo. Página visitada em 13/08/2009.
  12. Espinosa denuncia fraude da “Folha” contra Dilma. Jornal Hora do Povo. Página visitada em 13/08/2009.
  13. A fraude da Folha(*) e o sequestro de Delfim: Dilma não sabia de nada e não tem do que se defender. Conversa Afiada (06/04/2009). Página visitada em 13/08/2009.
  14. (05/04/2009) "Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim". Folha de S. Paulo (29.222): Caderno A - Brasil.
  15. (05/04/2009) "Aos 19, 20 anos, achava que eu estava salvando o mundo". Folha de S. Paulo (29.222): Caderno A - Brasil.
  16. Carlos Alberto Brilhante Ustra. Rompendo o Silêncio. Editora Laudelino Amaral de Oliveira. ISBN 0002295105, 9780002295109.
  17. Alessandro Meiguins. Ditadura X esquerda explosiva. Aventuras na História.
  18. Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura. comunistas.spruz.com. Página visitada em 21/05/2013.

Veja Também[editar | editar código-fonte]