Alice Moderno

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Alice Moderno
Retrato fotográfico.
Nome completo Alice Augusta Pereira de Melo Maulaz Moderno
Pseudónimo(s) Da Janela do Levante, Dominó Preto, Ecila, Eurico, O Secular, Gavroche, Gil Diávolo, Gyp ou Veritas
Nascimento 11 de agosto de 1867
Paris, França
Morte 20 de fevereiro de 1946 (78 anos)
Ponta Delgada, Portugal
Residência Ponta Delgada
Nacionalidade Portuguesa
Ocupação Professora, escritora, publicista, poetisa e activista feminista e dos direitos dos animais
Magnum opus Na véspera da incursão: peça em um acto

Alice Augusta Pereira de Melo Maulaz Moderno (Paris, 11 de Agosto de 1867Ponta Delgada, 20 de Fevereiro de 1946), conhecida por Alice Moderno, foi uma professora, escritora, tradutora, jornalista, publicista e poetisa, que se distinguiu como feminista e activista dos direitos dos animais. Fundou a Sociedade Micaelense Protectora dos Animais, pioneira na protecção destes no arquipélago dos Açores.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Primeiros Anos[editar | editar código-fonte]

Nascida em Paris, França, a 11 de agosto de 1867, Alice Augusta Pereira de Melo Maulaz Moderno era filha de João Rodrigues Pereira Moderno, médico homeopata, e de Celina Pereira de Melo Maulaz, sendo ambos portugueses, de origem açoriana, emigrados em França.[1] Nos primeiros meses de idade viveu durante alguns meses na ilha Terceira, a fim de ser baptizada e conhecer os seus avós, e pouco depois, regressou novamente a França. Nove anos depois, em 1876, voltou novamente com os pais à Terceira, onde a família permaneceu até 1883, ano em que o seu pai emigrou para os Estados Unidos e Alice se fixou em Ponta Delgada.[2]

Desafiando os costumes conservadores da época, apesar de ter tido a sua formação inicial em casa, falando fluentemente francês e português e sendo ensinada a ler e escrever pela sua mãe, logo no ano em que se fixou em Ponta Delgada publicou o poema "Morreu!" no periódico Açoriano Oriental a 18 de setembro de 1883, seguindo-se em 1886 a publicação do seu primeiro livro de poemas, intitulado "Aspirações",[3] o qual foi saudado publicamente por Camilo Castelo Branco, João de Deus[4] e Teófilo Braga[5] após lerem a sua obra. Um ano depois, Alice Moderno tornou-se na primeira jovem do sexo feminino a frequentar o ensino liceal em Ponta Delgada, durante o ano lectivo de 1887/1888, revelando não estar atrás dos seus colegas do sexo masculino ao se classificar como a melhor aluna da sua turma em várias disciplinas. Assumindo-se desde muito cedo como uma mulher emancipada, ficando conhecida como uma das primeiras activistas feministas nos Açores, usava cabelo curto, roupas associadas ao sexo masculino, como calças, e terá sido uma das primeiras mulheres a fumar em público na ilha de São Miguel.[6]

Anos mais tarde, em 1892 publicou o seu primeiro romance, "O Dr. Luís Sandoval",[7] três peças de teatro e um ensaio literário, chegando ainda a participar e ser premiada em vários concursos de poesia, sendo alguns dos seus poemas traduzidos internacionalmente.[8]

Carreira Profissional e Literária[editar | editar código-fonte]

Após completar os seus estudos, começou a dar explicações particulares e trabalhar como professora de instrução primária e secundária, ensinando português e francês,[9] enquanto também se dedicava aos negócios da família, trabalhando como comerciante e agente de seguros, o que lhe permitia viajar frequentemente para onde tinha parentes e interesses comerciais. Interessada em expandir os seus negócios, em 1903 adquiriu uma tipografia na Rua Fonte da Velha e posteriormente na Rua do Castilho, onde começaram a ser impressos os primeiros números do jornal anarquista Vida Nova de Francisco Soares Silva e do jornal O Proletário da Federação Operária e do Operariado, ligado ao Partido Socialista Português, para além de em 1909 ter adquirido uma propriedade em Fajã de Baixo, onde começou a cultivar ananases, e a representar outros produtores e firmas comerciais que exportavam produtos hortícolas, tornando-se fundadora do Sindicato Agrícola Micaelense.[10]

Com grande gosto pela escrita e pelo jornalismo, escreveu e publicou vários livros de poemas, romances e peças de teatro, fundou os jornais O Recreio das Salas (1888) e A Folha (1902-1917), colaborou com diversos outros periódicos, como o Diário de Anúncios, de que foi directora entre 1892 e 1893,[11] Diário dos Açores, A Pátria, Açoriano Oriental, Almanaque Micaelense, Correio dos Açores, Viagem, O Primeiro de Janeiro ou a Revista Pedagógica, entre muitos outros, escrevendo artigos originais ou traduções do francês, e após ganhar reconhecimento a nível nacional e internacional, foi aceite como sócia em diversas agremiações cientificas e literárias, destacando-se a Società Luigi Camoens de Itália, a Sociedade Literária Almeida Garrett, a Sociedade de Geografia de Lisboa,[12] o Grémio Literário Funchalense e o Instituto de Coimbra.

Activismo Republicano e Feminismo[editar | editar código-fonte]

Convertida aos valores e ideais republicanos e à causa dos direitos das mulheres, em 1909, Alice Moderno participou no movimento de apoio aos estudantes do liceu que foram presos por se manifestarem contra a proibição do teatro de revista "Ou vai... ou racha" e cantarem nas ruas a música A Menina Rosa. Um ano depois, com a implantação da República Portuguesa, a jovem autora açoriana começou a participar activamente na vida social e política da cidade de Ponta Delgada, aderindo também a diversas organizações feministas nacionais e internacionais, como o International Council of Women e a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, apoiada pelo Partido Republicano Português, participando ainda na campanha a favor da aprovação da lei do divórcio e no movimento de contestação pelo fuzilamento do pedagogo espanhol e criador da Escola Moderna Francisco Ferrer.[13] Pouco após a demissão de Ana de Castro Osório da organização feminina portuguesa em 1911, Alice Moderno seguiu a activista e escritora e tornou-se numa das primeiras sócias da então recém criada Associação de Propaganda Feminista. Anos depois, no seguimento das constantes desilusões provocadas pelo governo português que não só não aprovou a lei de voto para as mulheres, como ainda alterou o código eleitoral para este ser exclusivamente para o sexo masculino, Alice Moderno aderiu em 1915 à Associação Feminina de Propaganda Democrática, apoiada pelo Partido Democrático e pela acção política de Afonso Costa.[14]

Defesa dos Direitos dos Animais[editar | editar código-fonte]

Em 1911, na sequência de vários artigos publicados sobre maus tratos a animais, Alice Moderno fundou a Sociedade Micaelense Protectora dos Animais, a primeira associação dedicada ao bem-estar animal nos Açores, apostando em várias iniciativas para a criação de postos veterinários na ilha, programas de educação para os mais novos e várias petições para banir as touradas de morte, que apesar de proibidas desde 1928, ainda persistiam em Monsaraz e Barrancos.

Vida Amorosa[editar | editar código-fonte]

Nunca casou, mas durante a sua juventude esteve noiva do poeta Joaquim de Araújo, com o qual viveu um namoro à distância e por correspondência. Foram trocadas, entre os anos de 1888 e 1911, 71 cartas entre Alice Moderno e o poeta e escritor penafidelense que muito divulgou a cultura portuguesa pelo estrangeiro, nomeadamente em Itália.[15] Sendo ambos poetas e jornalistas, fundadores de jornais e revistas, absorvidos por interesses culturais, ocupados em actividades intelectuais, criadores e difusores de literatura, as suas cartas de namoro contemplavam assuntos que ultrapassavam largamente a vida sentimental, ocupando um vasto espaço sobre a vida cultural portuguesa daquela época.

Anos mais tarde, Alice Moderno manteve uma longa relação com a jornalista e professora primária Maria Evelina de Sousa, com a qual partilhava casa, e que faleceu apenas oito dias após a sua morte. O seu relacionamento, apesar de muito discreto, causou alguma especulação na sociedade micaelense que desconhecia o teor da sua relação mas estranhava o facto das duas mulheres viverem juntas.[16]

Fim de Vida[editar | editar código-fonte]

Alice Moderno faleceu a 20 de fevereiro de 1946, com 78 anos de idade. Legou os seus bens a diversas causas de beneficência, tendo em 1948 sido construído o Hospital Veterinário Alice Moderno, destinado a acolher animais maltratados, e em 1956, com o dinheiro da arrematação dos seus bens, sido comprado o imóvel das Capelas destinado à Casa do Gaiato.

Homenagens[editar | editar código-fonte]

  • Após o seu falecimento, o seu nome foi atribuído a uma rua na freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada, pela Câmara Municipal.
  • Em Agosto de 2014, foi criado um roteiro turístico e educacional sobre a vida e trabalho de Alice Moderno na cidade de Ponta Delgada.

Obras[editar | editar código-fonte]

Muitas das suas obras foram publicadas sobre pseudónimos. Alguns destes são: Da Janela do Levante, Dominó Preto, Ecila, Eurico, O Secular, Gavroche, Gil Diávolo, Gyp ou ainda Veritas.[17]

Obras desaparecidas[editar | editar código-fonte]

Obras impressas[editar | editar código-fonte]

  • Adeus! Despedida da actriz Chrimilda Augusta da Silva Gomes. Ao publico michaelense,;Ponta Delgada, typ. Açoriano oriental, 1885
  • Aspirações, Primeiros versos;1883-1886, Ponta Delgada, typ. Popular 1886
  • "Tributo Singelo";In Memoriam Antero de Quental,;1887
  • Trillos. Poesias,;Ponta Delgada, typ. Popular, 1888
  • O Dr. Luis Sandoval. Romance,;Ponta Delgada, typ. e lith. Minerva, 1892
  • Os Martyres do Amor,;Lisboa, typ. da Companhia Nacional Editora, 1894
  • No Adro, 1899
  • Os Martyres, 1904
  • Mater Dolorosa. Monólogo, sl., 1909
  • Versos da Mocidade 1888-1911, Ponta Delgada, A. Moderno, 1911
  • Açores, Pessoas e Coisas, Ponta Delgada, Tip. Popular, 1901;
  • "Coroa de Saudades oferecida a Teófilo Braga e sua esposa para a sepultura de seus filhos"
  • Na véspera da incursão (peça em um acto),;Ponta Delgada, Tip. A. Moderno, 1913;
  • Trevos,;1930

Tradução[editar | editar código-fonte]

  • Auguste Méquignon,;O Romantismo em França, Ponta Delgada, Minerva, 1894

Colaborações[editar | editar código-fonte]

  • Carteira do Viajante,;1882
  • Correio Micaelense
  • Revista Pedagógica
  • Diário dos Açores
  • A Persuasão
  • A Madrugada
  • Novidades
  • O Século
  • Revista de Portugal
  • Bouquet Literário;1885
  • A Alvorada;1887
  • A Apoteose;19/10/1887
  • Gazeta das Salas;(30/1/1890)
  • A Festa das Crianças;(18/10/1891)
  • Nova Alvorada 1891-1903
  • Almanaque das Senhoras;1896, 1899, 1903, 1904, 1913-1919, 1923
  • Almanaque Micaelense;1928-1934
  • Almanaque Anuário Micaelense;1940
  • A Crónica;1900-1906
  • O País;1901-1904
  • Revista de Lisboa 1901-1909
  • Folha da Saudação 1902
  • A Sociedade Futura 1902-1904
  • Álbum Açoriano 1903
  • Jornal das Senhoras 1904-1905
  • Alma Feminina 1907-1908
  • O Domingo;(1909-1911)
  • Comédia;1910
  • Límia;1910-1911
  • Atlântico ;1916-1920
  • Revista Micaelense;1918-1921
  • Os Açores;1922-1924, 1928
  • O Despertar de Angeja;1924-1927
  • O Instituto Coimbra
  • Portugal Feminino
  • A Leitura;1932
  • Ínsula;(c. 1930)
  • Viagem. Revista de turismo, divulgação e cultura,;1942
  • O Primeiro de Janeiro;1943

Publicações que dirigiu[editar | editar código-fonte]

  • O Recreio das Salas;(1888-1889)
  • Diário dos Açores
  • A Folha;(5/10/1902-15/4/1917)
  • Diário de Anúncios, Ponta Delgada (1892-?)

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • AIRES, Fernando,;Alice Moderno – A Mulher e a Obra, separata da revista;Insulana, vol. XLI, 1985
  • LEAL, Gomes, "Alice Moderno";Sociedade Futura,;nº 7,;1902;
  • VILHENA, Maria da Conceição,;Alice;Moderno. A Mulher e a Obra,;Angra do Heroismo, SREC, 1987
  • VILHENA, Maria da Conceição,;Alice Moderno e a Inovação, Editorial Ilha Nova, 1988

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Cardoso, Nuno Catharino (1917). Poetisas portuguesas: antologia contendo dados bibliograficos e biograficos àcêrca de cento e seis poetisas. [S.l.]: Edição e propriedade do auctor 
  2. «Alice Moderno». "Escritoras em Português" - Projeto FLUL 
  3. Moderno, Alice (1886). Aspirações, primeiros versos, 1883-1886. [S.l.]: Typ. popular 
  4. Cunha, Alfredo da; Coelho, Trindade (1894). Campo de flores por João de Deus: exame da chamada edição authentica e definitiva, pelos directores da Revista nova. [S.l.]: Typographia e stereotypia moderna 
  5. Braga, Teófilo (1892). As modernas ideias na litteratura portugueza. [S.l.]: E. Chardron; Lugan & Genelioux 
  6. Vilhena, Maria da Conceição (1987). Alice Moderno: a mulher e a obra. [S.l.]: Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Secretaria Regional da Educação e Cultura 
  7. Moderno, Alice (1892). O Dr. Luiz Sandoval: romance. [S.l.]: Typo-Lyth. Minerva 
  8. O Occidente: revista ilustrada de Portugal et do estrangeiro. [S.l.: s.n.] 1893 
  9. Nóvoa, António (2003). Dicionário de educadores portugueses. [S.l.]: Edições ASA 
  10. Soares de Braga, Teófilo José (2018). Alice Moderno (1867 1946): Apontamentos sobre a Vida e a Obra. [S.l.: s.n.] 
  11. Pacheco, Eugenio (1893). Carta á Sr.a D. Alice Moderno ácerca da "autonomia dos Açores": (Diario de Annuncios de 1 de dezembro de 1893). [S.l.]: Typ. Minerva 
  12. Lisboa, Sociedade de Geografia de (1893). Boletim. [S.l.: s.n.] 
  13. Esteves, João (1998). As origens do sufragismo português: a primeira organização sufragista portuguesa, a Associação de Propaganda Feminista (1911-1918). [S.l.]: Editorial Bizâncio 
  14. Vilhena, Maria da Conceição (2001). Uma mulher pioneira: ideias, intervenção e acção de Alice Moderno. [S.l.]: Edições Salamandra 
  15. Araújo, Joaquim de (2008). Joaquim de Araújo diálogo epistolar com Alice Moderno: da literatura ao amor frustrado. [S.l.]: Edições Cão menor 
  16. Braga, Paulo Drumond (28 de fevereiro de 2012). Filhas de Safo. [S.l.]: Leya 
  17. Antología das mulheres poetas portuguesas. [S.l.]: Delfos. 1962