Ana de Castro Osório

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Ana de Castro Osório
Ana de Castro Osório
Nascimento 18 de junho de 1872
Mangualde, Mangualde, Portugal
Morte 23 de março de 1935 (62 anos)
Setúbal, Portugal
Nacionalidade Portugal Português
Cônjuge Paulino de Oliveira (1864-1911)
Ocupação Escritora, jornalista, pedagoga, feminista e activista republicana
Prémios Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1919)

Comendadora da Ordem Civil do Mérito Agrícola e Industrial Classe Agrícola (1931)

Ana de Castro Osório OSEComMAI (Mangualde, Mangualde, 18 de Junho de 1872Setúbal, 23 de Março de 1935) foi uma escritora, especialmente no domínio da literatura infantil, jornalista, pedagoga, feminista e activista republicana portuguesa.[1]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nascida em Mangualde, a 18 de Junho de 1872, Ana de Castro Osório era filha de João Baptista de Castro (1845-1920), um reputado bibliófilo, notário e magistrado, natural de Eucísia (Alfândega da Fé), e de Mariana Adelaide Osório de Castro Cabral de Albuquerque Moor Quintins, natural de São Jorge de Arroios (Lisboa). Sobre o seu pai, sabe-se ainda que publicou um livro sobre "Questões Jurídicas" (1868) durante a sua estadia universitária em Coimbra, quando este era companheiro de casa de Teófilo Braga, e que viria em 1911 a julgar e aprovar o pedido de Carolina Beatriz Ângelo para ser incluída nas listas de recenseamento eleitoral. Ana era também a irmã mais nova do juiz, maçon e poeta português Alberto Osório de Castro.[2]

Em 1895, residindo em Setúbal, e tomando como interesse o jornalismo, Ana começou a publicar os seus primeiros artigos e crónicas no jornal Mala da Europa, sendo elogiada publicamente pelo político, poeta e escritor ultra-romântico português Thomaz Ribeiro. Para além das peças de carácter jornalístico, começou também a escrever, em 1898, diversas obras didácticas, romances, novelas, contos e peças infantis, incluindo a colecção de 18 volumes "Para as Crianças" (1897-1935) que lhe conferiu um lugar cimeiro como criadora da literatura infantil em Portugal [3]. Nesse mesmo ano, com 26 anos, casou-se com o poeta, publicista e membro do Partido Republicano Francisco Paulino Gomes de Oliveira, na igreja paroquial de Nossa Senhora da Anunciada, em Setúbal. Anos antes, tinha recusado veementemente o pedido de casamento de Camilo Pessanha, contudo, a amizade manteve-se até à morte do poeta, em 1926.

Com o virar do século, e o clima de instabilidade político-social existente na Europa, Ana de Osório Castro começou a focar os seus esforços na luta pela causa republicana e a igualdade de direitos entre homens e mulheres, reflectindo muitas vezes esses mesmo ideais nas suas obras literárias, e assim tornando-se numa das mais reconhecidas pioneiras activistas feministas em Portugal.

Activismo Republicano e Feminismo[editar | editar código-fonte]

Revista mensal "A Mulher e a Criança", publicada pela Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, 1909

Em 1905 escreveu "As Mulheres Portuguesas", o primeiro manifesto feminista português, seguindo-se a criação da revista A Sociedade Futura, o Jornal dos Pequeninos, a sua integração no Grupo Português de Estudos Feministas e ainda, em 1908, com o apoio do político republicano António José de Almeida, a fundação da organização e associação política Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP), no 2º andar do nº 6 da Rua dos Castelinhos, em Lisboa, juntamente com as médicas e sufragistas Carolina Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete, entre outras proeminentes mulheres da sociedade portuguesa de então.

Durante esse prolífero período, a escritora e activista publicou diversas obras e artigos de carácter politico e social, nomeadamente sobre o direito ao voto, à educação, ao trabalho e à importância da independência económica da mulher em caso de abandono ou viuvez, entre outros temas, não só na revista mensal da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas "A Mulher e a Criança", como também escreveu e fez distribuir, gratuitamente, folhetos de divulgação de normas educativas e de higiene para jovens mães, com o título "A Bem da Pátria". Desempenhou ainda um papel de destaque no jornal setubalense O Radical de 1910 a 1911, fundou a Escola Liberal de Setúbal, as Edições Lusitânia, e tornou-se membro do Grande Oriente Lusitano [1], integrando a Loja Humanidade e adoptando como nome simbólico maçon Leonor Fonseca Pimentel, em homenagem à revolucionária portuguesa do século XVIII.

Suplemento do jornal O Século sobre as sufragistas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, publicado a 12 de Maio de 1910. 5 - Ana de Castro Osório; 6 - Maria Velela; 7 - Beatriz Paes Pinheiro de Lemos; 8 - Maria Clara Correia Alves; 13 - Sofia Quintino; 14 - Adeleide Cabete; 15 - Carolina Beatriz Ângelo; 16- Maria do Carmo Joaquina Lopes.

Durante a Primeira República, imediatamente após a implantação, colaborou com Afonso Costa, então Ministro da Justiça, na elaboração da lei do divórcio.

Pouco tempo depois, devido a conflitos internos na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, nomeadamente com Maria Velela, sobre a proposta apresentada ao Governo para se alterar o Código Eleitoral, demite-se do cargo de presidente e funda a Associação de Propaganda Feminista.

Em 1911, viajou para o Brasil quando o seu marido foi nomeado cônsul em São Paulo. Tornou-se professora e escreveu vários livros, entre os quais "Lendo e Aprendendo" e "Lição de História", dois manuais utilizados pelas escolas brasileiras e portuguesas. Três anos mais tarde, Paulino de Oliveira faleceu, vitimado pela tuberculose. Após enviuvar, Ana de Castro Osório regressou a Portugal com os seus dois filhos João de Castro Osório e José Osório de Oliveira, e fixou residência em Lisboa, na Rua do Arco do Limoeiro.

Atenta ao clima de tensão, e subsequente guerra, presente na Europa, cria em 1914, a Comissão Feminina Pela Pátria, juntamente com Ana Castilho, Antónia Bermudes e Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinto. Esta seria a primeira instituição organizada em Portugal com o objectivo de mobilizar as mulheres para o esforço de guerra. Anos mais tarde, com a participação das forças militares portuguesas na Primeira Grande Guerra, Elzira Dantas Machado, ao tempo Primeira Dama, viria a remodelar a comissão e fundar a Cruzadas das Mulheres Portuguesas, um movimento de beneficência que prestava assistência aos soldados mobilizados e suas famílias.

Assume ainda, em Junho de 1916, a pedido de António Maria da Silva, ministro do Trabalho, o cargo de Subinspectora dos Trabalhos Técnicos Femininos. Ao seu desempenho foram-lhe feitas várias críticas e acusações graves, nomeadamente através da jornalista Adelaide Abrantes, no jornal A Voz, questionando a utilidade do cargo, sendo no seu ponto de vista um favorecimento do ministro às suas "afilhadas", que viviam em conivência com a classe dos patrões, ao não aplicarem no terreno certas leis de trabalho decretadas pelo governo da República, tais como a abolição dos serões das costureiras.

Nos anos seguintes, Ana de Castro Osório continuou a escrever e afirmou-se como uma escritora reconhecida a nível nacional e no Brasil, regressando a este país, em 1922, para proferir uma série de conferências no Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Sobre essas conferências, escreveu o livro "A Grande Aliança" (1924).

No fim da Primeira República, Ana de Castro Osório mostra­‑se "desiludida" e reduz a sua intervenção pública ao trabalho na Cruzada das Mulheres Portuguesas e à escrita.

Obra Literária[editar | editar código-fonte]

Ana de Castro Osório em sua casa (1928)

Da sua imensa obra literária, que conta com mais de cinquenta títulos, incluindo ensaios, romances e contos, algumas obras de destaque são: "Em Tempo de Guerra" (1918), "A Verdadeira Mãe" (1925), "Viagens Aventurosas de Felício e Felizarda" (1923), "A Grande Aliança" (1924), "Mundo Novo" (1927), "A Capela das Rosas" (1931), "O Príncipe das Maçãs de Oiro" (1935), e "Histórias Maravilhosas da Tradição Popular Portuguesa" (2 volumes, compilada somente em 1952); assim como várias publicações periódicas de destaque onde colaborou como: "A Ave azul" [4] (1899-1900), "Branco e Negro" [5] (1896-1898), "Brasil-Portugal" [6] (1899-1914), "A Leitura" [7] (1894-1896), "Serões" [8] (1901-1911), "A Farça" [9] (1909-1910) e "Terra portuguesa" [10] (1916-1927).

Para além dessas obras, e de o título de criadora da literatura infantil portuguesa, é lhe reconhecida uma extensa e intensiva recolha dos contos da tradição oral do país, e a tradução e publicação de vários contos dos irmãos Grimm assim como muitos outros autores estrangeiros de literatura para crianças. A Ana de Castro Osório ainda se deve a compilação, organização, edição e publicação de "Clepsidra", o único livro de Camilo Pessanha, em 1920, na editora por ela criada, Lusitânia.

A 17 de Maio de 1919 foi feita Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada e a 5 de Outubro de 1931 foi feita Comendadora da Ordem Civil do Mérito Agrícola e Industrial Classe Agrícola.[11]

Faleceu a 23 de Março de 1935. Contudo, sobre a sua morte, pouca informação parece ser exacta, atribuindo-se dois distintos lugares: Lisboa e Setúbal.

Encontra o seu descanso final no jazigo de família, no cemitério do Alto de São João, Lisboa.

Homenagem[editar | editar código-fonte]

Em 1976, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou a escritora dando o seu nome a uma rua na zona da Quinta dos Condes de Carnide, em Carnide.[12]

Na Biblioteca de Belém (Lisboa), existe uma Biblioteca especializada Ana de Castro Osório.[13]

Lista de Obras[editar | editar código-fonte]

  • Livro "O Príncipe das Maçãs de Oiro" de Ana de Castro Osório, publicado em 1935
    Para as Crianças (1897-1935):
    • Contos tradicionais portugueses, 10 volumes
    • Contos, Fábulas, Facécias e Exemplos da Tradição Popular Portuguesa [14]
    • Contos de Grimm (tradução do alemão)
    • Alma infantil
    • Animais, 1903
    • Boas crianças
    • Branca-Flor e outros contos
    • Branca-Flor e outras histórias
    • O Príncipe Luís e outras Histórias, 1897
    • O Esperto: e outras histórias
    • Os Dez Anõezinhos Da Tia Verde-Água, 1897
    • Histórias escolhidas (tradução do alemão)
    • Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Polo Norte, 1920
  • Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil, 1923 [15]
  • Teatro Infantil
    • A comédia da Lili, 1903
    • Um sermão do sr. Cura, 1907
Livro " Mundo Novo" de Ana de Castro Osório, publicado em 1927
  • Infelizes: histórias vividas, 1892 (eBook)
  • A Garrett no seu primeiro centenário, 1899
  • Ambições: romance. Lisboa, Guimarães Libânio, 1903.[16]
  • Bem prega Frei Tomás (comédia), 1905
  • A Bem da Pátria
    • As mães devem amamentar seus filhos
    • A educação da criança pela mulher
  • A nossa homenagem a Bocage, 1905
  • Às mulheres portuguesas, 1905 [17]
  • A minha Pátria, 1906
  • Quatro Novelas: A vinha, A feiticeira, Diário duma criança, Sacrificada, 1908 (eBook)
  • A boa mãe, 1908 [18]
  • A mulher no casamento e no divórcio, 1911.[19]
  • Em tempo de Guerra, 1918 [20]
  • De como Portugal foi chamado à Guerra : Histórias para Crianças, 1919 [21]
  • A Capela das Rosas, 1920
  • Dias de Festa, 1921 [22]
  • A Princeza muda, 1921
  • Casa de Meu Pai, 1922
  • A Grande Aliança: A Minha Propaganda no Brasil. Lisboa: Ed. Lusitania, 1922.[23]
  • Esperteza dum Sacristão, 1922
  • O Livrinho Encantador, 1924
  • O direito da mãe, 1925 [24]
  • A verdadeira Mãe, 1925
  • Mundo Novo, 1927
  • O Príncipe das Maçãs de Oiro, conto infantil, 1935

Referências

  1. a b Marques 1986, pp. 1065-1066
  2. Revista COLÓQUIO/Letras n.º 52 (Novembro de 1979). Cartas inéditas de Aquilino Ribeiro, pág. 47.
  3. Mateus 2003, pp. 169-170
  4. Rita Correia (26 de Março de 2011). «Ficha histórica: Ave azul : revista de arte e critica (1899-1900)» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 23 de Junho de 2014 
  5. Rita Correia. «Ficha histórica: Branco e Negro : semanario illustrado (1896-1898)» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 21 de Janeiro de 2015 
  6. Rita Correia (29 de Abril de 2009). «Ficha histórica: Brasil-Portugal : revista quinzenal illustrada (1899-1914).» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 26 de Junho de 2014 
  7. {{citar web | url=http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/ALeitura/ALeitura.htm | título=A Leitura: magazine litterario (1894-1896) |notas=cópia digital, Hemeroteca Digital]}
  8. Rita Correia (24 de Abril de 2012). «Ficha histórica: Serões, Revista Mensal Ilustrada (1901-1911).» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 23 de Setembro de 2014 
  9. João Alpuim Botelho. «Ficha histórica: A Farça» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 17 de fevereiro de 2016 
  10. Alda Anastácio (30 de outubro de 2017). «Ficha histórica:Terra portuguesa : revista ilustrada de arqueologia artística e etnografia (1916-1927)» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 13 de dezembro de 2017 
  11. «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Ana de Castro Osório". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 21 de março de 2016 
  12. https://www.facebook.com/423215431066137/photos/pb.423215431066137.-2207520000.1448277902./880850861969256/?type=3&theater
  13. http://blx.cm-lisboa.pt/noticias/detalhes.php?id=825
  14. «Bibliotrónica Portuguesa onde pode encontrar uma reedição deste livro e lê-lo gratuitamente» 
  15. Osório, Ana de Castro; Jourdain, A. (1923). Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil: contos para crianças livro de leitura aprovado oficialmente. Lisboa: Lusitania Ed 
  16. Disponível na Biblioteca Nacional de Portugal em versão digital.
  17. Disponível na Biblioteca Nacional de Portugal em versão digital.
  18. «A boa mãe: livro de premios escolares, Setubal, 1908 - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  19. Disponível na Biblioteca Nacional de Portugal em versão digital.
  20. «Em tempos de guerra, Lisboa, 1918 - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  21. Osório, Ana de Castro (1919). De como Portugal foi chamado à guerra: história para crianças 2a ed. Lisboa: Para as Crianças 
  22. «Dias de festa, Lisboa, [ca 1921] - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  23. Conferências realisadas no Brasil, no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pelotas, Porto Alegre, anta Maria, Curitiba e São Paulo. Disponível na Biblioteca Nacional de Portugal em versão digital.
  24. «O direito da mãe: novela, Porto, 1925 - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. Consultado em 21 de novembro de 2018 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]