Antinatalismo

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Antinatalismo ou anti-natalismo é uma posição filosófica que atribui um valor negativo ao nascimento. Antinatalistas argumentam que as pessoas devem se abster de procriar pois é um ato moralmente ruim (alguns também reconhecem a procriação de outros seres sencientes como moralmente ruim). Em escritos acadêmicos e literários, vários fundamentos éticos foram aduzidos para o antinatalismo.[1] Algumas das primeiras formulações da ideia de que seria melhor não ter nascido vêm da Grécia Antiga.[2] O termo "antinatalismo" é em oposição ao termo "natalismo" ou "pró-natalismo", e provavelmente foi usado pela primeira vez como o nome dessa posição por Théophile de Giraud (nascido em 1968) em seu livro L'art de guillotiner les procréateurs: Manifeste anti-nataliste.[3]

Nas religiões[editar | editar código-fonte]

O ensinamento de Buda (c. 400 A.C.) é interpretado por Hari Singh Gour (1870-1949) da seguinte maneira:

Buda declara suas proposições no estilo pedante de sua idade. Ele as apresenta em uma forma de sorites; Mas, como tal, é logicamente defeituoso, e tudo o que ele deseja transmitir é o seguinte: Alheio ao sofrimento a que a vida é sujeita, o homem gera filhos e, portanto, é a causa da velhice e da morte. Se ele apenas percebesse o sofrimento que ele acrescentaria com o seu ato, ele desistiria da procriação de crianças; e assim pararia a operação da velhice e da morte.[4]

Os marcionistas acreditavam que o mundo visível é uma criação maligna de um demiurgo bruto, cruel, ciumento e raivoso, Yahweh. De acordo com este ensinamento, as pessoas devem se opor a ele, abandonar o seu mundo, não criar pessoas e confiar no bom Deus da misericórdia, estrangeiro e distante.[5][6][7]

Os Encratitas observaram que o nascimento leva à morte. Para dominar a morte, as pessoas devem desistir da procriação: "não produzir forragem fresca para a morte".[8][9][10]

Os Maniqueus,[11][12][13] os Bogomilos[14][15][16] e os Cátaros[17][18][19] acreditavam que a procriação condena a alma ao aprisionamento na matéria má. Eles viram a procriação como um instrumento de um Deus mau, um demiurgo, ou de Satanás, que aprisiona o elemento divino na matéria e, assim, faz com que o elemento divino sofra.

Peter Wessel Zapffe[editar | editar código-fonte]

Peter Wessel Zapffe (1899-1990) via os humanos como um paradoxo biológico. A consciência tornou-se excessivamente evoluída nos seres humanos, tornando-nos incapazes de funcionar normalmente como os outros animais: a cognição nos dá mais do que podemos carregar. A aparente falta de propósito do cosmos e nossa insignificância nele são visíveis para nós. Queremos viver, porém por causa de como evoluímos, somos a única espécie cujos membros estão conscientes de que estão destinados a morrer. Através de sentimentos de compaixão, temos os meios para estar profundamente cientes do sofrimento de outros seres humanos e de outros seres vivos. Nós ansiamos por justiça e significado em um mundo onde nenhum dos dois ocorre. Isso garante que a vida dos indivíduos conscientes seja trágica. Temos desejos: necessidades espirituais que a realidade é incapaz de satisfazer, e nossa espécie ainda existe apenas porque limitamos a nossa consciência do que essa realidade realmente implica. A existência humana equivale a uma rede emaranhada de mecanismos de defesa, que podem ser observados individualmente e socialmente, em nossos padrões de comportamento diários. De acordo com Zapffe, a humanidade deve cessar esse auto-engano, e a consequência natural seria a sua extinção ao abster-se da procriação.[20][21][22]

Ética negativa[editar | editar código-fonte]

Julio Cabrera propõe um conceito de "ética negativa" em oposição ao que ele vê como éticas "afirmativas", que afirmam o ser.[23][24][25][26][27] Ele descreve a procriação como um ato manipulador e prejudicial que equivale a enviar um ser humano para uma situação dolorosa e perigosa sem o seu consentimento. Para Cabrera, essa situação, a vida humana, é "estruturalmente negativa", na medida em que seus componentes constitutivos são inerentemente adversos. Estes componentes são, segundo ele, pelo menos os seguintes: A) No nascimento, o ser humano "ganha" um ser decrescente (ou "cadente") no sentido de um ser que começa a acabar desde seu mero surgimento, seguindo uma direção única de desgaste e declínio e cujo total acabamento pode consumar-se a qualquer momento. B) O ser humano é afetado, desde o início do seu surgimento, por três tipos de atrito: dor física (em forma de doenças, acidentes e catástrofes às quais está desde sempre exposto); desânimo (categoria que abrange fenômenos como a falta de vontade, cansaço, falta de forças, sensação de falta de sentido, desmotivação, tédio e depressão); e a exposição à ação agressiva de outros humanos (em forma de discriminações, fofocas, calúnias, exclusões, perseguições, injustiças, tortura física e psicológica, e mesmo extermínio), também eles submetidos aos três tipos de atrito. C) O ser humano está equipado de mecanismos de criação de valores positivos (morais, estéticos, religiosos, científicos, eróticos, artísticos, etc) que funcionam como defesa contra A e B, mecanismos que o humano deve manter constantemente ativos contra os avanços do surgimento decrescente e seus três tipos de atrito. Cabrera denomina o conjunto dessas características A-C de "terminalidade do ser". Segundo Cabrera, todos os valores positivos que aparecem dentro da vida são reativos e paliativos; eles são introduzidos pela luta permanente, ansiosa e esforçada contra o ser decrescente e atritado ganho no nascimento, para sermos finalmente derrotados pela sua plena consumação. Cabrera aponta que um enorme número de humanos em todo o mundo não consegue suportar essa luta íngreme contra a a estrutura terminal do seu ser e escolhe fugas destruidoras de si mesmo ou de outros: suicídios, doenças nervosas de maior ou menor gravidade ou agressões em massa. Ele aceita que a vida pode, em circunstâncias normais e mesmo em circunstâncias anormais e dramáticas, ser suportável (embora, na doença grave ou na injustiça social imensa, ela possa tornar-se insuportável). Mas não parece haver muito sentido, na sua opinião, produzir um ser para que "suporte", para que reaja, aguente, oculte, para tentar depois "salvá-lo". Também se pode conceder que os humanos sejam capazes, pelo seu próprio mérito e esforço, de tornar a vida não apenas suportável, mas muito agradável (embora não para todos, pois o agrado sempre paga preços), mas também é problemático procriar alguém para que tente tornar a sua vida agradável contra a resistência da situação difícil e opressiva que lhe damos ao gerá-lo. Parece mais razoável, segundo Cabrera, simplesmente não colocá-lo na situação à qual terá que reagir com resultados tão incertos. E conclui que: "tudo o que dissermos para nós podermos continuar vivendo não tem sentido para aquele que ainda não é".

Além de prejudicar o nascituro, Cabrera afirma que a procriação é um ato unilateral em que um dos principais envolvidos não é consultado, mas trazido à força por intermédio da ação de outros que decidem seu nascimento em função de seus próprios interesses e benefícios ou em decorrência de descaso. Na visão de Cabrera, isso é uma manipulação ontológica e total: o próprio ser do humano é manufaturado e usado, e portanto, em contraste com casos intra-mundanos onde alguém é colocado em uma situação prejudicial, no caso da procriação não há alguma chance de defesa contra esse ato. Ele concorda que não é possível consultar quem vai nascer, mas enfatiza que é perfeitamente possível não procriar e, nesse caso, não se transgride qualquer regra moral. De acordo com Cabrera, na ética, e também nas éticas afirmativas, há um conceito abrangente que ele chama de "Articulação Ética Fundamental", em suma "AEF": a consideração dos interesses dos outros, não manipular e não prejudicar. A procriação é para ele uma violação óbvia da AEF. Em sua opinião, os valores incluídos na AEF já são amplamente aceitos pelas éticas afirmativas e, se abordados radicalmente, devem levar à recusa da procriação.

No problema moral da procriação, Cabrera atribui muita importância ao que ele descreve como "inabilitação moral". De acordo com a ética negativa, os humanos são "moralmente desqualificados". Não somos capazes de agir moralmente para com todos: ter em conta os interesses de alguém e agir moralmente para com esse alguém, sempre coincide com não levar em conta os interesses de muitos outros e não ser moral em relação a eles. Essa inabilitação não ocorre por causa de um "maldade" intrínseca da natureza humana, mas por conta da situação estrutural em que nos encontramos desde sempre. Dada a nossa condição terminal, a criação de valores positivos, longe de ser produto da liberdade, constitui uma premente necessidade de sobrevivência: ou criamos valores positivos ou desaparecemos (não conseguiríamos viver muito tempo sem uma constante e boa alimentação da nossa autoestima e da nossa necessidade de segurança). Mas, precisamente, pelo fato de os valores positivos serem construídos em espaços estreitos de manobra, dentro de uma complicada rede holística de ações, acabam prejudicando outros projetos humanos, os de outros seres tão desesperados por viver como nós. A inabilitação moral é para Cabrera a pior coisa na vida humana e na procriação: ao procriar, gera-se outro humano que não poderá viver moralmente.

Imperativo kantiano[editar | editar código-fonte]

Julio Cabrera,[28] David Benatar[29] (nascido em 1966), e Karim Akerma[30] argumentam que a procriação é contrária ao imperativo prático de Immanuel Kant (de acordo com Kant, um homem nunca deve ser usado como um meio para um fim, mas sempre como um fim em si mesmo). Eles argumentam que uma pessoa pode ser criada para o bem de seus pais ou de outras pessoas, mas que é impossível criar alguém pelo seu próprio bem; e que portanto, seguindo a recomendação de Kant, nós não devemos criar novas pessoas. Heiko Puls argumenta que as considerações de Kant em relação a deveres parentais e procriação humana em geral implicam argumentos para um antinatalismo eticamente justificado. Kant, porém, de acordo com Puls, rejeita essa posição em sua teleologia por razões meta-éticas.[31]

Utilitarismo negativo[editar | editar código-fonte]

O utilitarismo negativo argumenta que minimizar o sofrimento possui maior importância moral do que maximizar a felicidade.

Hermann Vetter (nascido em 1933) concorda com os pressupostos de Jan Narveson (nascido em 1936):[32]

1. Não há obrigação moral de ter um filho, mesmo que tivéssemos garantia de que ele seria muito feliz ao decorrer de sua vida.

2. Há uma obrigação moral de não ter um filho caso fosse previsto que ele seria infeliz.

Porém, ele discorda com a conclusão de Naverson:

3. Em geral – se não pode ser previsto nem que o filho será infeliz ou que trará desutilidade para os outros – não há dever para ter ou não o filho.

Em vez disso, ele apresenta a seguinte matriz teórica de decisão:

o filho será mais ou menos feliz o filho será mais ou menos infeliz
gerar o filho nenhum dever cumprido ou violado dever violado
não gerar o filho nenhum dever cumprido ou violado dever cumprido

Baseado nisso, ele conclui que não devemos criar pessoas:[33][34]

É imediatamente visto que o ato "não gerar o filho" domina o ato "gerar o filho" pois nele há consequências igualmente boas como o outro ato em um caso e melhores consequências no outro caso. Então é preferível ao outro ato desde que não possamos excluir com certeza a possibilidade do filho ser mais ou menos infeliz; e nós nunca podemos. Então temos, ao invés de (3), a consequência de longo alcance: (3') De qualquer modo, é moralmente preferível não gerar o filho.


Karim Akerma afirma que devemos parar de procriar pois as coisas boas na vida não compensam as coisas más. Primeiramente, as melhores coisas não compensam as piores coisas, como por exemplo, a experiência de dor indescritível, as agonias dos feridos, doentes ou moribundos.[35][36]

Bruno Constestabile cita a história "Aqueles que se afastam de Omelas", de Ursula K. Le Guin. Nesta história, a existência da cidade utópica de Omelas e o estado favorável de seus habitantes dependem do sofrimento de uma criança torturada em um lugar isolado e que não pode ser ajudada. A maioria aceita esta situação e permanece na cidade, mas há aqueles que não concordam, que não querem participar dela e que "se afastam de Omelas". Constestabile traça um paralelo aqui: para que Omelas exista, a criança deve ser torturada e, da mesma forma, a existência do nosso mundo está relacionado ao fato de alguém ser constantemente machucado. Segundo o autor, os antinatalistas podem ser vistos como “aqueles que afastam-se de Omelas", que não aceitam tal mundo, e que não querem colocar sua mãos nele. Ele coloca a questão: será que toda a felicidade é capaz de compensar o sofrimento extremo de mesmo uma só pessoa?[37]

David Benatar[editar | editar código-fonte]

David Benatar argumenta que há uma assimetria crucial entre prazer e dor:

  1. a presença de dor é ruim;
  2. a presença de prazer é boa;
  3. a ausência de dor é boa, mesmo se esse bem não for aproveitado por ninguém;
  4. a ausência de prazer não é ruim ao menos que haja alguém para quem essa ausência é uma privação.[38][39]
Cenário A (X existe) Cenário B (X nunca existe)
(1) Presença de dor (Ruim) (3) Ausência de dor (Bom)
(2) Presença de prazer (Bom) (4) Ausência de prazer (Não é ruim)

Em relação à procriação, o argumento segue que vir a existir gera ambas sensações boas e ruins, dor e prazer, enquanto não vir a existir não implica nem em dor ou prazer. A ausência de dor é boa, enquanto a ausência de prazer não é ruim. Portanto, a escolha ética é pesada em favor da não-procriação.

Benatar explica a assimetria acima usando quatro outras assimetrias que considera bastante plausíveis:

  1. Temos uma obrigação moral de não gerar pessoas infelizes, e não temos uma obrigação moral de gerar pessoas felizes. A razão pela qual há uma obrigação moral de não gerar pessoas infelizes é que acreditamos que a presença de dor é ruim para aqueles que sofrem, e a ausência de dor também é boa quando não há alguém que esteja experimentando este bem. Em contrapartida, a razão pela qual não há obrigação moral para gerar pessoas felizes é que embora a sensação de prazer seja boa para elas, a ausência de prazer quando elas não virem a existir não será ruim, porque não haverá ninguém que será privado desse bem.
  2. É estranho mencionar os interesses de um filho potencial como uma razão pela qual decidimos gerá-lo, e não é estranho mencionar os interesses de um filho potencial como uma razão pela qual decidimos não gerá-lo. O filho poder ser feliz não é uma razão moralmente importante para gerá-lo. Em contraste, o filho poder ser infeliz é uma razão moral importante para não gerá-lo. Se a ausência de prazer é ruim mesmo que alguém não exista para experimentar a sua ausência, então teríamos uma razão moral significativa para gerar um filho e para gerar a maior quantidade possível de filhos. Se, no entanto, a ausência de dor não fosse boa mesmo que alguém não experimentasse este bem, então não teríamos uma razão moral significativa para não gerar um filho.
  3. Algum dia podemos nos arrepender pelo bem de um homem cuja existência estava condicionada à nossa decisão, e que o criamos – um homem pode ser infeliz e a presença de sua dor seria ruim. Mas nunca nos sentiremos arrependidos pelo bem de um homem cuja existência esteja condicionada à nossa decisão, e que não o criamos – um homem não será privado da felicidade, porque ele nunca existirá e a ausência de felicidade não será ruim, porque não haverá ninguém que será privado desse bem.
  4. Sentimos tristeza pelo fato de que, em algum lugar, pessoas nascem e sofrem, e não sentimos tristeza pelo fato de que algumas pessoas não vieram à existência num lugar onde há pessoas felizes. Quando sabemos que em algum lugar pessoas nasceram e sofreram, sentimos compaixão. O fato de que pessoas não nasceram e sofreram em alguma ilha ou planeta deserto é bom. Isso ocorre porque a ausência de dor é boa, mesmo quando não há alguém que está experimentando este bem. Por outro lado, não sentimos tristeza pelo fato de que, em alguma ilha ou planeta deserto, pessoas não vieram à existência e não estão felizes. Isso ocorre porque a ausência de prazer é ruim apenas quando alguém existe para ser privado desse bem.[40]

De acordo com Benatar, ao gerar um filho, nós somos responsáveis não só pelo sofrimento desse filho, mas nós também podemos ser co-responsáveis pelo sofrimento dos descendentes posteriores deste filho:

Supondo que cada casal tenha três filhos, os descendentes cumulativos de um casal original em dez gerações totalizam 88.572 pessoas. Isso constitui muito sofrimento inútil e evitável. Certamente, a responsabilidade total por tudo isso não é do casal original, pois cada nova geração enfrenta a escolha de continuar com essa linha de descendentes. No entanto, eles têm alguma responsabilidade pelas gerações que se seguem. Se alguém não desiste de ter filhos, dificilmente pode-se esperar que seus descendentes assim o façam.[41]


Benatar cita estatísticas, mostrando onde a criação de pessoas leva. Estima-se que:

  • mais de quinze milhões de pessoas morreram de desastres naturais nos últimos 1.000 anos,
  • cerca de 20 000 pessoas morrem de fome todos os dias,
  • um número estimado de cerca de 840 milhões de pessoas sofrem de fome e desnutrição,
  • entre 541 EC e 1912, estima-se que mais de 102 milhões de pessoas morreram da peste,
  • a epidemia de gripe de 1918 matou 50 milhões de pessoas,
  • 11 milhões de pessoas morrem a cada ano de doenças infecciosas,
  • as neoplasias malignas levam mais de de 7 milhões de vidas a cada ano,
  • cerca de 3,5 milhões de pessoas morrem por ano em acidentes,
  • cerca de 56,5 milhões de pessoas morreram em 2001, o que é mais de 107 pessoas por minuto,
  • antes do século XX, mais de 133 milhões de pessoas foram mortas em assassinatos em massa,
  • nos primeiros 88 anos do século XX, 170 milhões (e possivelmente 360 milhões) de pessoas foram baleadas, espancadas, torturadas, esfaqueadas, queimadas, morreram por inanição, congeladas, trituradas, ou trabalharam até à morte; enterradas vivas, afogadas, enforcadas, bombardeadas, ou mortas em qualquer outra das inúmeras maneiras que os governos têm infligido morte em desarmados, cidadãos indefesos, e estrangeiros,
  • houve 1,6 milhão de mortes relacionadas a conflitos no século XVI, com 6,1 milhões no século XVII, 7 milhões nos séculos XVIII, 19,4 milhões no século XIX, e 109,7 milhões no século XX,
  • acidentes relacionados a guerras causaram 310,000 mortes em 2000,
  • cerca de 40 milhões de crianças são maltratadas a cada ano,
  • mais de 100 milhões de mulheres e crianças foram sujeitas à mutilação genital
  • 815 000 pessoas cometeram suicídio em 2000[42] (atualmente, estima-se que alguém comete suicídio a cada 40 segundos, mais de 800 000 pessoas por ano).[43]

Além dos argumentos filantrópicos que "surgem de uma preocupação com os humanos que serão trazidos à existência", Benatar também coloca que outro caminho para o antinatalismo é o argumento misantrópico,[44] que pode ser descrito da seguinte forma:

De acordo com esse argumento, humanos são uma espécie profundamente falha e destrutiva que é responsável pelo sofrimento e morte de bilhões de outros humanos e animais não-humanos. Se esse nível de destruição fosse causado por outra espécie, nós recomendaríamos rapidamente que novos membros dessa espécie não fossem trazidos à existência.[45]


Danos a outros animais[editar | editar código-fonte]

David Benatar,[46][47] Gunter Bleibohm (nascido em 1947),[48] Gerald Harrison e Julia Tanner,[49] são atentos aos danos causados a outros seres sencientes por humanos. Eles diriam que bilhões de animais não-humanos são desrespeitados e abatidos a cada ano por nossa espécie para a produção de produtos de origem animal, para a experimentação e após os experimentos, quando eles não forem mais necessários, como resultado da destruição de habitats ou de outros danos ambientais e para o prazer sádico. Eles tendem a concordar com pensadores dos direitos dos animais que o sofrimento que causamos a eles é imoral. Eles consideram a espécie humana a mais destrutiva do planeta, argumentando que, sem novos seres humanos, não haverá nenhum dano causado aos outros seres sencientes por novos seres humanos.

Alguns antinatalistas são também vegetarianos ou veganos por razões morais, e postulam que tais pontos de vista devem se complementar mutuamente como tendo um denominador comum: não causar sofrimento a outros seres sencientes.[50][51] Essa atitude já estava presente no Maniqueísmo e no Catarismo.[52]

Impacto sobre o meio ambiente[editar | editar código-fonte]

Voluntários do Movimento de Extinção Humana Voluntária argumentam que a atividade humana é a principal causa de degradação ambiental, e portanto, se abster de procriar é "a alternativa humanitária para desastres humanos".[53][54][55]

Adoção ao invés de procriação[editar | editar código-fonte]

Herman Vetter,[33] Théophile de Giraud,[56] Tina Rulli[57] e Karim Akerma[58] argumentam que, atualmente, ao invés de se envolver no ato moralmente problemático da procriação, pode-se fazer o bem por adotar crianças que já existem. De Giraud enfatiza que, em todo o mundo, existem milhões de crianças que precisam de cuidados.

Realismo[editar | editar código-fonte]

Alguns antinatalistas acreditam que a maioria das pessoas não avalia a realidade de maneira precisa, o que afeta o desejo de ter filhos.

Petter Wessel Zapffe identifica quatro mecanismos repressivos que usamos, de maneira consciente ou não, para restringir a nossa consciência da vida e do mundo.

  • isolamento – Uma rejeição arbitrária da nossa consciência e da consciência dos outros sobre todos os pensamentos e sentimentos negativos associados aos fatos desagradáveis de nossa existência. No dia a dia, isso se manifesta como um acordo tácito para manter o silêncio em certos assuntos – especialmente em torno de crianças, para evitar incutir nelas um medo do mundo e do que as espera na vida, antes de poderem aprender outros mecanismos.
  • ancoragem – a criação e uso de valores pessoais para garantir a nossa ligação à realidade, como nossos pais, nossa casa, a rua, a escola, Deus, a igreja, o Estado, a moralidade, o destino, as leis da vida, o povo, o futuro, a acumulação de bens materiais ou autoridade, etc. Isso pode ser caracterizado como criar uma estrutura defensiva, "uma fixação de pontos internos, ou construção de paredes ao redor, a briga líquida da consciência", e defender a estrutura contra ameaças.
  • distração – mudar o foco para novas impressões para fugir de circunstâncias e ideias que consideramos prejudiciais ou desagradáveis. 
  • sublimação – reorientar as partes trágicas da vida em algo criativo ou valioso, normalmente através de uma confrontação estética para o propósito de cartase. Nós focamos no imaginário, no dramático, no heroico, no lirico ou nos aspectos cômicos da vida, para permitir a nós mesmos e aos outros uma fuga do seu verdadeiro impacto.

De acordo com Zapffe, desordens depressivas são frequentemente "mensagens de uma percepção mais profunda e imediata da vida, frutos amargos de uma genialidade do pensamento".[20] Alguns estudos parecem confirmar isso, fala-se sobre o fenômeno do realismo depressivo, e Colin Feltham escreve sobre o antinatalismo como uma das possíveis consequências.[59]

David Benatar, citando numerosos estudos, enumera três fenômenos descritos por psicólogos, que, segundo ele, são responsáveis pelo fato de nossas auto-avaliações não serem confiáveis:

  1. Tendência ao otimismo – nós temos uma perspectiva positivamente distorcida de nossas vidas no passado, no presente, e no futuro.
  2. Adaptação (ou acomodação, habituação) – nós nos adaptamos a situações negativas e ajustamos nossas expectativas de acordo com elas.
  3. Comparação – Para as nossas auto-avaliações, mais importante do que como as nossas vidas estão indo é como nossas vidas estão indo comparadas às vidas dos outros. Um dos efeitos disso é que os aspectos negativos da vida que afetam a todos não são levados em consideração ao avaliar nosso próprio bem-estar. Também somos mais propensos a nos comparar com aqueles que estão em uma situação pior do que aqueles que estão em uma situação melhor.

Benatar conclui:

Os fenômenos psicológicos acima não são surpreendentes a partir de uma perspectiva evolutiva. Eles militam contra o suicídio e são a favor da reprodução. Se as nossas vidas são tão ruins quanto eu ainda sugiro que elas sejam, e se as pessoas estivessem propensas a ver essa verdadeira qualidade de suas vidas pelo que ela é, elas poderiam estar muito mais inclinadas a se matar, ou pelo menos a não produzir mais tais vidas. O pessimismo, então, tende a não ser selecionado naturalmente.[60]


Thomas Ligotti (nascido em 1953) chama atenção para a similaridade entre a filosofia de Zapffe e terror management theory. Terror management theory argumenta que os humanos estão equipados com habilidades cognitivas únicas além do necessário para a sobrevivência, o que inclui pensamento simbólico, autoconsciência, e percepção de si mesmos como seres temporais cientes da finitude de sua existência. O desejo de viver juntamente com a inevitabilidade da morte causa terror em nós. A oposição a esse medo é uma das nossas principais motivações. Para escapar dele, nós construímos estruturas defensivas ao nosso redor para garantir a nossa imortalidade simbólica ou literal, para nos sentirmos como membros valiosos num universo significativo, e para focar em nos proteger de ameças externas imediatas.[61]

Aborto[editar | editar código-fonte]

O antinatalismo pode levar a uma posição específica sobre o aborto.

David Benatar defende o aborto e ele chama sua posição de "pró-morte". De acordo com Benatar, uma pessoa começa a existir – não como um organismo no sentido biológico, mas como um ser no sentido ético (como entidade com interesses morais importantes) - quando surge a consciência, quando um feto é senciente, e até aquele ponto, um aborto é moral, enquanto a gravidez contínua seria imoral. Benatar refere-se a estudos cerebrais EEG e estudos sobre a percepção da dor do feto, que afirma que a consciência fetal não ocorre antes de vinte e oito semanas de gravidez, antes da qual é incapaz de sentir dor.[62] Contrariamente a isso, o último relatório da Royal Academy of Obstetrics and Gynecology no Reino Unido (2010) mostrou que o feto ganha consciência nunca antes da vigésima quarta semana da gravidez.[63] Alguns pressupostos deste relatório sobre a senciência do feto após o segundo trimestre foram criticados.[64]

Julio Cabrera acredita que o problema moral do aborto é significativamente diferente do problema moral da procriação, porque no caso do aborto, já existe um ser em algum ponto de seu processo de desenvolvimento, e não mais um não-ser. Ele enfatiza que é difícil determinar se matamos alguém quando temos um aborto, mas ele acredita que, em seu aspecto estritamente manipulador, o aborto está mais próximo da procriação do que da abstenção da procriação e, na opinião dele, o aborto de um feto saudável equivale a matar um ser humano e, portanto, é moralmente injustificável. De acordo com Cabrera, o aborto é uma violação de autonomia e é imoral pelo mesmo motivo que a procriação.[65]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. K. Akerma, Antinatalismus – Ein Handbuch, epubli, 2017.
  2. W. Tatarkiewicz, O szczęściu (On Happiness), Warszawa: Państwowe Wydawnictwo Naukowe, 1979, páginas 420–421.
  3. K. Akerma, Antinatalismus – Ein Handbuch, epubli, 2017, página 301.
  4. H. Singh Gour, The Spirit of Buddhism, Whitefish, Montana: Kessinger Publishing, 2005, páginas 286–88.
  5. H. Jonas, The Gnostic Religion: The Message of the Alien God and the Beginnings of Christianity, Boston: Beacon Press, 1958, páginas 144–45.
  6. Clement of Alexandria, Stromateis, Books 1–3 (The Fathers of the Church, volume 85), Washington D.C.: CUA Press, 2010, páginas 263–271
  7. P. Karavites, Evil, Freedom, and the Road to Perfection in Clement of Alexandria, Leiden: Brill, 1999, página 94.
  8. P. Brown, The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity, New York: Columbia University Press, 1988, página 96.
  9. Clement of Alexandria, Stromateis, op. cit., páginas 295–96.
  10. G. Quispel, Gnostica, Judaica, Catholica: Collected Essays of Gilles Quispel, Leiden: Brill, 2008, página 228.
  11. H. Jonas, The Gnostic..., op. cit., páginas 228 e 231.
  12. Gardner and S.N.C. Lieu, Manichaean Texts from the Roman Empire, New York: Cambridge University Press, 2004, páginas 7 e 22.
  13. S.G. Kochuthara, The Concept of Sexual Pleasure in the Catholic Moral Tradition, Rome: Gregorian Biblical BookShop, 2007, página 165.
  14. D. Obolensky, The Bogomils: A Study in Balkan Neo-Manichaeism, New York: Cambridge University Press, 2004, página 114.
  15. F. Curta, Southeastern Europe in the Middle Ages, 500–1250, New York: Cambridge University Press, 2006, página 236.
  16. J. Lacarrière, The Gnostics, London: Owen, 1977, página 116.
  17. M.J. Fromer, Ethical issues in Sexuality and Reproduction, St. Louis: Mosby, 1983, página 110.
  18. S. Runciman, The Medieval Manichee: A Study of the Christian Dualist Heresy, New York: Cambridge University Press, 1947, páginas 151–152.
  19. D. Elliott, Spiritual Marriage: Sexual Abstinence in Medieval Wedlock, Princeton: Princeton University Press, 1995, páginas 133–134.
  20. a b P.W. Zapffe, The Last Messiah, Philosophy Now, 2004, número 45, páginas 35–39.
  21. P.W. Zapffe, Om det tragiske, Oslo: Pax Forlag, 1996.
  22. P.W. Zapffe, H. Tønnessen, Jeg velger sannheten: En dialog mellom Peter Wessel Zapffe og Herman Tønnessen, Oslo: Universitets forlaget, 1983.
  23. [1] J. Cabrera, Projeto de Ética Negativa, São Paulo: Edicões Mandacaru, 1989 (segunda edição: A Ética e Suas Negações, Não nascer, suicídio e pequenos assassinatos, Rio De Janeiro: Rocco, 2011).
  24. J. Cabrera, Crítica de la moral afirmativa: Una reflexión sobre nacimiento, muerte y valor de la vida, Barcelona: Gedisa, 1996 (segunda edição em 2014). [2] J. Cabrera, A critique of affirmative morality (A reflection on death, birth and the value of life), Julio Cabrera Editions, Brasília 2014 (edição inglesa).
  25. J. Cabrera, Ética Negativa: problemas e discussões, Goiânia: UFG, 2008.
  26. [3] J. Cabrera, T. Lenharo di Santis, Porque te amo, Não nascerás!: Nascituri te salutant, Brasília: LGE, 2009.
  27. J. Cabrera, Mal-estar e moralidade: situação humana, ética e procriação responsável, Brasília: UNB, 2018.
  28. [4] J. Cabrera, T. Lenharo di Santis, Porque..., op. cit, páginas 52–67.
  29. D. Benatar, Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence, Oxford: Clarendon Press, 2006, páginas 129–131.
  30. [5] K. Akerma, Theodicy shading off into Anthropodicy in Milton, Twain and Kant, Tabula Rasa. Die Kulturzeitung aus Mitteldeutschland, 2010, número 49.
  31. H. Puls, Kant’s Justification of Parental Duties, Kantian Review 21 (1), 2016, páginas 53–75.
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  39. D. Benatar, Better..., op. cit., páginas 30–40.
  40. D. Benatar, Better..., op. cit., páginas 30–57.
  41. D. Benatar, Better..., op. cit., páginas 6–7.
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  45. [6] "We Are Creatures That Should Not Exist": The Theory of Anti-Natalism, The Critique, julho 15, 2015.
  46. D. Benatar, Better..., op. cit., página 109.
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  51. [9]V. Pelley, This Extreme Sect of Vegans Thinks Your Baby Will Destroy the Planet, Marie Claire, 29 de janeiro de 2018.
  52. K. Akerma, Antinatalismus – Ein Handbuch, epubli, 2017, página 305.
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  54. [10] Uma entrevista da NBC com Les U. Knight.
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  56. [12] T. de Giraud, L'art de guillotiner les procréateurs: Manifeste anti-nataliste, Nancy: Le Mort-Qui-Trompe, 2006, página 51.
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  61. T. Ligotti, The Conspiracy against the Human Race: A Contrivance of Horror, New York: Hippocampus Press, 2010, páginas 112-113.
  62. D. Benatar, Better..., op. cit., páginas 132-162.
  63. [13] Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, Fetal Awareness – Review of Research and Recommendations for Practice, London: RCOG Press, 2010.
  64. [14] M.W. Platt, Fetal awareness and fetal pain: the Emperor's new clothes, Archives of Disease in Childhood, 2011, volume 96, edição 4.
  65. [15] J. Cabrera, T. Lenharo di Santis, Porque..., op. cit, páginas 68-69, 77.

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