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Chuva de animais

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Ilustração humorística com chuva de cães, gatos e garfos

A chuva de animais é um fenômeno lendário relativamente raro que sucedeu em algumas cidades ao longo da história. Os animais que costumavam cair do céu eram peixes e sapos, e por vezes pássaros. Em certas ocasiões os animais sobreviviam à queda, principalmente os peixes. Em muitos casos, no entanto, os animais morriam congelados e caiam completamente encerrados em blocos de gelo. Isto demonstra que foram transportados a grandes altitudes, onde as temperaturas são negativas. A violência deste fenômeno é palpável quando caem apenas pedaços de carne, e não animais inteiros.

Chuvas de animais são um assunto recorrente na literatura e cinema. Por exemplo, uma famosa seqüência com uma "chuva de sapos" é apresentada no final do filme Magnolia, de Paul Thomas Anderson.

Ocorrências registradas e lendas[editar | editar código-fonte]

Textos e lendas anteriores à Idade Média[editar | editar código-fonte]

Na literatura antiga abundam os testemunhos de chuva de animais ou de chuvas de diversos objectos, alguns deles orgânicos.

Poder-se-ia remontar ao Antigo Egito se se der crédito ao papiro egípcio de Alberto Tulli (cuja própria existência é controversa)[1] e do qual se diz que registaria fenómenos estranhos, como o surgimento daquilo que a literatura sobre fenómenos paranormais interpreta como um OVNI. De modo particular, regista-se também a queda de peixes e pássaros do céu.[2]

Na Bíblia narra-se como Josué e o seu exército foram auxiliados por uma chuva de pedras que cai sobre o exército amorita. A Bíblia evoca outras intervenções celestiais deste tipo, como o surgimento de rãs, numa das dez pragas do Egipto (Êxodo 8:5,6).[3] No século IV a.C., o autor grego Ateneu menciona uma chuva de peixes que durou três dias na região de Queronea, no Peloponeso.[4] No século I, o escritor e naturalista Plínio, o Velho descreveu a chuva de pedaços de carne, sangue e outras partes animais, como rãs.[5] Finalmente, na Idade Média, a frequência do fenómeno em certas regiões levou as pessoas a crerem que os peixes nasciam já adultos nos céus, e de seguida caíam no mar.[6]

Testemunhos na época moderna[editar | editar código-fonte]

Nota: Esta lista não pretende ser exaustiva. Simplesmente exemplifica alguns dos eventos mais significativos relacionados com este fenômeno.
Gravura de O. Magnus, de 1555, representando uma chuva de peixes.
Chuva de peixes em Singapura (fevereiro de 1861), como foi descrita pelos habitantes locais.

Graças à imprensa escrita, na época moderna produziam-se muitos testemunhos, proferidos por um número cada vez maior de pessoas, o que lhes aumenta sua plausibilidade. De seguida indicam-se alguns exemplos:

  • Em 1578, grandes ratos amarelos caíram sobre a cidade norueguesa de Bergen.[4]
  • Segundo um tal John Collinges, uma chuva de sapos fustigou a aldeia inglesa de Acle, em Norfolk. O taverneiro do lugar retirou-os às centenas.[4]
  • Numa cidade do Essex, Inglaterra, aconteceu uma chuva de peixes como salmões, arenques e pescadas. Os peixes foram vendidos pelos comerciantes locais.
  • Em 11 de Julho de 1836, um professor de Cahors enviou uma carta à Academia de Ciências Francesa, que dizia:

Explicações do fenômeno[editar | editar código-fonte]

Teorias científicas[editar | editar código-fonte]

Um tornado pode ser o responsável pela captura de animais e a posterior queda a grandes distâncias do seu lugar de origem.

Contrariamente à generalidade dos seus colegas contemporâneos, o físico francês André-Marie Ampère considerou que os testemunhos de chuva de animais eram verdadeiros. Ampère tentou explicar as chuvas de sapos com uma hipótese que depois foi aceita e refinada pelos cientistas. Perante a Sociedade de Ciências Naturais, Ampère afirmou que em certas épocas os sapos e as rãs vagabundeiam pelos campos em grande número, e que a ação dos ventos violentos pode capturá-los e dispersá-los a grandes distâncias.[13]

Mais recentemente, surgiu uma explicação científica do fenômeno, que envolve trombas marinhas. Os ventos que se acumulam são capazes de capturar objetos e animais, graças a uma combinação de depressão na tromba, e da força exercida pelos ventos dirigidos no seu sentido.

Em conseqüência, estas trombas, ou mesmo tornados, poderão transportar animais a alturas relativamente grandes, percorrendo grandes distâncias. Os ventos são capazes de recolher animais presentes numa área relativamente extensa, e deixam-nos cair, em massa e de maneira concentrada, sobre pontos localizados..[14]

Mais especificamente, alguns tornados e trombas poderiam secar completamente um pequeno lago, para deixar cair mais longe a água e a fauna contida nesta, na forma de chuva de animais.[15]

Esta hipótese aparece reafirmada pela natureza dos animais destas chuvas: pequenos e leves, geralmente surgidos do meio aquático, como batráquios e peixes.[16] Também é significativo o facto de que, com frequência, a chuva de animais seja precedida por uma tempestade. No entanto, há alguns pormenores que não puderam ser explicados. Por exemplo, que os animais por vezes estejam vivos mesmo depois da queda, e alguns em perfeito estado. Outro aspecto é o de que normalmente cada chuva de animais se manifeste com uma só espécie de cada vez, quase nunca as misturando nem incluindo algas ou outras plantas. Como nota William R. Corliss:

Imagem Doppler de um radar meteorológico no Texas que mostra a colisão de uma tempestade com um bando de morcegos em voo. A cor vermelha indica que os animais se dirigem para a nuvem.

Esta aparente anomalia se poderia explicar no caso dos pássaros, se a tromba atravessa um bando em particular que se encontre em pleno voo, especialmente em épocas de migração.

A imagem da direita mostra um exemplo específico onde um grupo de morcegos é vítima de uma tormenta.[18] A imagem foi capturada por um radar meteorológico do National Weather Service em Del Rio, Texas, e ilustra como se pode prever o fenómeno em certos casos. Na imagem, os morcegos estão na zona de cor vermelha, que corresponde aos ventos que se afastam do radar (o radar é o ponto branco no canto inferior direito), e entram no mesociclone associado a um tornado (em cor verde). Este tipo de eventos ocorrem frequentemente com pássaros de modo inevitável. Em contraste, é mais difícil dar uma explicação plausível para os animais terrestres; uma parte do enigma persiste apesar dos estudos científicos.

Em alguns casos, certas explicações científicas negam a existência de chuvas de peixes. Por exemplo, no caso da chuva de peixes em Singapura de 1861, o naturalista francês Francis de Laporte de Castelnau explica que o aguaceiro ocorreu durante uma migração de peixes-gato, e que estes animais são capazes de se arrastar sobre a terra, para ir de um charco a outro; como as enguias, que podem percorrer vários quilómetros nos prados húmidos, ou os lúcios que vão reproduzir-se nos campos inundados.[19] Além disso, explica que o facto de ter visto os peixes no solo imediatamente após a chuva não é mais que uma coincidência, já que normalmente estes animais se deslocam sobre o solo húmido rastejando, depois de uma chuvada ou de uma inundação.

Rãs e sapos se deslocam pulando, em meio a um tornado esse comportamento pode tornar mais fácil a "captura" destes animais pelos fortes ventos, o que não ocorreria por exemplo com mamíferos que se escondem das tempestades em tocas. Quanto ao fato das chuvas serem sempre restritas a uma determinada espécie de animal e de não ser acompanhada pela queda de outros organismos aquáticos, dois fatores devem ser levados em consideração. O primeiro que muitas espécies de uma mesma família taxonômica (ranidae por exemplo) competem entre sí, não habitando uma mesma área, onde porventura ocorreria a captura. O segundo que animais de espécies muito diferentes teriam densidades e aerodinâmicas também muito diferentes o que faria com que, caso fossem capturadas juntas por fortes ventos ou trombas dágua, seria grande a possibilidade de que caíssem sobre a terra em pontos diferentes.

Explicações antigas[editar | editar código-fonte]

Desde há muito tempo, a ciência tem descartado muitas das explicações que são dadas; são consideradas exageradas, pouco viáveis ou não comprováveis. Em 1859, um testemunho de uma chuva de peixes na aldeia de Mountain Ash, em Gales,[20] enviou uma espécie ao Jardim Zoológico de Londres. J. E. Gray, director do Museu Britânico, declarou que "a luz dos factos, o mais provável é que se trate de uma partida: um dos empregados de Mr. Nixon lhe esvaziou em cima um balde cheio de peixes, e este último pensou que caíam do céu".[21]

Logicamente, as chuvas de animais estiveram sem explicação científica durante muito tempo, enquanto se desenvolviam hipóteses que iam desde as tentativas lógicas de explicar o fenómeno, até às mais absurdas. No século IV a.C., o filósofo grego Teofrasto negou a existência de chuvas de sapos, explicando simplesmente que os sapos não caem durante a chuva, mas esta última os faz sair da terra. No século XVI, Reginald Scot aventurou-se a dar uma hipótese. Segundo ele, "é certo que algumas criaturas são geradas de maneira espontânea, e não necessitam de pais. Por exemplo, (....) estas rãs não vinham de nenhuma parte, foram transportadas pela chuva. Estas criaturas nascem dos aguaceiros....".[22] No século XIX pensava-se que a evaporação da água levava os ovos de rã para as nuvens, onde eclodiam e caíam à terra num aguaceiro.[23]

Explicações contemporâneas alternativas[editar | editar código-fonte]

Entre as explicações não científicas do fenómeno, se encontram as interpretações sobrenaturais. Ainda assim persistem as que alegam intervenções de seres extraterrestres.[24] Nas hipóteses sobrenaturais, que podem ser de natureza religiosa, dependendo do tipo de objeto ou animal que cai na terra, o fenómeno é perceptível e seria um castigo, como o caso das pedras que caíram sobre o exército amorita no Antigo Testamento, ou como um sinal providencial de bondade divina, quando se trata de animais comestíveis.

Algumas das hipóteses, impossíveis de provar, são sobre a intervenção de entes extraterrestres, e descrevem estes visitantes reconhecendo grandes quantidades de animais como lastro, para depois os deixar cair antes de abandonar o nosso planeta. As chuvas de sangue e carne estariam vinculadas a uma seleção feita pelos visitantes, para aligeirar os seus armazéns.

Igualmente esotéricas, há hipóteses baseadas na existência de várias dimensões e planos espaço-temporais. Estas hipóteses aceitam a priori a possibilidade do teletransporte, para tentar explicar o porquê dos animais se encontrarem ali onde não deveriam estar. O jornalista Charles Hoy Fort propôs algumas destas hipóteses.[25] Segundo Fort, existiu no passado uma força capaz de transportar os objetos de modo instantâneo, que já não se manifesta senão em ações desordenadas, como as chuvas de peixes. Outra hipótese com força tem por base a suposta existência de um "mar superior dos Sargaços",[26] uma espécie de reservatório celestial que aspira e esculpe os objetos terrestres.

Referências a chuvas de animais na linguagem e arte[editar | editar código-fonte]

« It's raining cats and dogs »[editar | editar código-fonte]

A referência mais conhecida do fenómeno é a expressão em língua inglesa it's raining cats and dogs (chove gatos e cães) que se encontra pela primeira vez na forma escrita na obra de Jonathan Swift, A Complete Collection of Polite and Ingenious Conversation, publicada em 1738 mas cuja origem permanece incerta.[27] Uma explicação será dada pelo francês arcaico catadoupe (queda de água, cascata). Outra explicação será a de que na Idade Média, as fortes chuvas varriam os corpos de gatos e cães mortos no cimo dos telhados, fazendo-os cair na rua..[27]

Muitas línguas possuem igualmente expressões deste tipo,[28] mas nada prova que estas expressões sejam inspiradas na realidade. Mesmo assim, o galês tem uma expressão que se pode traduzir por chovem velhas e paus, em alemão há chuva de cachorros e em polaco de rãs.

Literatura e cinema[editar | editar código-fonte]

A documentação mais completa de chuvas de animais deve-se ao jornalista Charles Hoy Fort (natural dos Estados Unidos) que consagrou a sua vida de jornalista aos fenómenos inexplicados. A Biblioteca nacional de Nova Iorque conserva mais de 60 000 fichas feitas por este autor, das quais muitas sobre casos de chuva de animais. A Fortean Society, criada em sua homenagem, continua a busca de des fenómenos estranhos de se explicar.

No cinema, Paul Thomas Anderson levou ao ecrã uma chuva de sapos no seu filme Magnolia. Assiste-se igualmente a uma chuva de peixes na primeira longa metragem do realizador francês Luc Besson, Le Dernier Combat, e na adaptação cinematográfica de Chapeau melon et bottes de cuir de Jeremiah Chechik.

No seu livro Sido, a romancista Colette conta-nos uma chuva de rãs, esquentadas:

Em Le Capitaine Pamphile de Alexandre Dumas, a evocação da chuva de sapos nos jornais suscita um delírio imaginativo de uma das personagens:

No seu romance intitulado Kafka à beira-mar, publicado em 2002, o escritor japonês Haruki Murakami utiliza o fenómeno da chuva de peixes num contexto romanceado misturando Bildungsroman e sobrenatural.

Outros fenômenos meteorológicos[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. O próprio Tulli alegou tê-lo perdido, e o único testemunho da sua existência é a palavra do seu tradutor, o príncipe Boris de Rachelwitz. Existe muita especulação em torno do tema: veja-se, por exemplo, o artigo de Nacho Ares Existirá na realidade o Papiro Tulli? [1]
  2. « The Tulli Papyrus », Larry Orcutt, Catchpenny Mysteries, 2001 (em inglês).
  3. Marseille, J., Laneyrie-Dagen, N. Les Grandes énigmes. Larousse, ISBN 2-03-505300-5 p. 222-223, «Pluie de poissons à Singapour».
  4. a b c d e f g Marseille, J. op. cit.
  5. Plínio. História natural, Livro II.
  6. Marseille, J., op. cit.
  7. «Mysterious Falls from the Sky. It's Raining Fish & Frogs !» (em inglês).
  8. Omedes, Anna; Senar, Juan Carlos; Uribe, Francesc. Animais de nossa cidades. Planeta, 1997.
  9. «Mysterious Falls from the Sky. It's Raining Fish & Frogs !»
  10. «Vecinos de la pedanía de El Rebolledo asisten atónitos a una lluvia de ranas diminutas» (em castelhano). Levante-EMV. 27 de maio de 2007. Consultado em 26 de janeiro de 2011 
  11. «Autoridades do Arkansas já recolheram cerca de três mil aves mortas - Ecosfera - PUBLICO.PT». Consultado em 4 de janeiro de 2011 
  12. «Fogo-de-artifício terá causado pânico e morte a milhares de aves no Arkansas - Ecosfera - PUBLICO.PT». Consultado em 4 de janeiro de 2011 
  13. «Les pluies de crapauds» (em francês).
  14. Artigo no Supernatural World que utiliza esta explicação para narrar uma chuva de peixes ocorrida em Norfolk a 8 de Agosto de 2000 (em inglês).
  15. Orsy Campos Rivas ilustra esta explicação de forma gráfica (A ciência contra o mito), no artigo Lo que la lluvia regala a Yoro, que narra una chuva de peixes que ocorre anualmente em Yoro, Honduras. Disponível online na página Hablemos online.
  16. Angwin, Richard, em Wiltshire weather - BBC, Inglaterra. 15 de Julho de 2003 (em inglês).
  17. Corliss, W. R., Handbook of unusual natural phenomena, 1995.
  18. Bat-eating Supercell, pelo National Weather Service dos Estados Unidos (19 de Março de 2006) (em inglês).
  19. Comptes Rendus hebdomadaires des séances de l’Académie des sciences 52:880-81, 1861 (em francês).
  20. Registrada na Annual Register, 101:14-15, 1859, online na revista X-Project (em inglês).
  21. Fort, Charles Hoy. O livro dos condenados. Capítulo 7. ISBN 84-96129-35-7
  22. Scot, Reginald. The Discoverie of witchcraft, 1584, ISBN 0-486-26030-5.
  23. «Explication sur les pluies de grenouille», Les Mystères de la Terre (em francês).
  24. «Mysterious Falls from the Sky. It's Raining Fish & Frogs!» (em inglês).
  25. Fort, Charles Hoy. Op. cit.
  26. Em referência ao mar dos Sargaços no Atlântico norte, que pega as suas algas a um grande número de navios.
  27. a b (em inglês) « Raining cats and dogs », na página The Phrase Finder
  28. « It's raining cats and dogs, Idioms for heavy rain in many languages »
  29. ver o texto integral da obra de Alexandre Dumas (em francês)