Emmy Noether

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Emmy Noether
Matemática
Emmy Noether, ca. 1905
Dados gerais
Nome de nascimento Amalie Emmy Noether
Nacionalidade Alemanha Alemã
Nascimento 23 de março de 1882
Local Erlangen, Reino da Baviera, Alemanha
Morte 14 de abril de 1935 (53 anos)
Local Bryn Mawr, Pennsylvania, Estados Unidos
Atividade
Campo(s) Matemática
Instituições Universidade de Göttingen, Bryn Mawr College
Alma mater Universidade de Erlangen-Nuremberga
Tese 1907: Über die Bildung des Formensystems der ternären biquadratischen Form
Orientador(es) Paul Gordan[1]
Orientado(s) Max Deuring, Hans Fitting, Grete Hermann, Zeng Jiongzhi, Jacob Levitzki, Hans Reichenbach, Otto Schilling, Ernst Witt
Conhecido(a) por Teorema de Noether

Amalie Emmy Noether (pronunciado em alemão [ˈnøːtɐ], (Erlangen, Baviera, Alemanha, 23 de março de 1882Bryn Mawr, Pensilvânia, Estados Unidos, 14 de abril de 1935) foi uma matemática alemã de nascimento, conhecida pelas suas contribuições de fundamental importância aos campos de física teórica e álgebra abstrata. Considerada por David Hilbert, Albert Einstein, Hermann Weyl e outros como a mulher mais importante na história da matemática,[2][3][4] ela revolucionou as teorias sobre anéis, corpos e álgebra. Em física, o teorema de Noether explica a conexão fundamental entre a simetria na física e as leis de conservação.[5][6]

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Emmy cresceu em Erlangen, aqui em um cartão postal de 1916

Emmy nasceu em numa família judia na cidade bávara de Erlangen, na região da Francônia, em 23 de março de 1882, a primeira de quatro filhos[7]. Seu pai era o matemático Max Noether, descendente de uma família de mercadores de lã. Aos 14 anos, ele ficou paralisado devido à polio. Ele voltou a ganhar mobilidade, ficando deficiência em uma perna. Autodidata, ele recebeu um doutorado pela Universidade de Heidelberg, em 1868. Depois de lecionar por sete anos, ele foi para Erlangen, onde conheceu e se casou com Ida Amalia Kaufmann, filha de um grande comerciante[8].

O primeiro nome de Emmy era "Amalie", em homenagem à mãe e à avó paterna, mas adotou Emmy ainda muito nova. Era uma criança muito querida, muito inteligente e esperta. Como muitas meninas da época, Emmy aprendeu a cuidar da casa, cozinhar e limpar, além de ter aulas de piano, mesmo não se interessando por isso[9].

Emmy tinha três irmãos. O segundo, Alfred, nasceu em 1883, tendo doutorado em química em 1909 e faleceu nove anos depois. Fritz Noether, nascido em 1884, é lembrado por diversos feitos acadêmicos, tendo estudado em Munique e feito carreira na área de matemática aplicada. O mais novo, Gustav Robert, nascceu em 1889 e pouco se sabe sobre ele, que sofria de uma doença crônica e veio a falecer em 1928[8].

Emmy Noether e seus irmãos Alfred, Fritz, e Robert, antes de 1918

Carreira[editar | editar código-fonte]

Emmy continuou sendo um dos membros mais importantes do departamento de matemática de Göttingen até 1933; seus alunos por vezes eram chamados de "os meninos de Noether". Em 1924 o matemático holandês B. L. van der Waerden uniu-se a seu círculo matemático e logo começou a ser o principal expositor das idéias de Noether: o trabalho dela foi a base do segundo volume de seu influente livro didático, publicado em 1931, Moderne Algebra. Quando discursou na sessão plenária de 1932 do Congresso Internacional de Matemáticos em Zürich, suas obras algébricas já eram conhecidas mundialmente. Nos anos seguintes, o governo nazista da Alemanha expulsou os judeus que ocupavam postos em universidades, e Noether teve que emigrar aos Estados Unidos, onde trabalhou no Bryn Mawr College, na Pensilvânia.

O trabalho de Noether em matemática se divide em três épocas:[10]Na primeira (1908–1919), efetuou contribuições significativas à teoria dos invariantes e dos corpos numéricos. Seu trabalho sobre os invariantes diferenciais em cálculo das variações, chamado teorema de Noether foi chamado de "um dos teoremas matemáticos mais importantes já provados dentre os que guiaram o desenvolvimento da física moderna".[11] Na segunda época, (1920–1926), iniciou trabalhos que "mudaram a face da álgebra abstrata".[12]

Em seu clássico artigo Idealtheorie in Ringbereichen (Teoria de ideais nos domínios dos anéis, 1921) Noether transformou a teoria dos ideais em anéis comutativos em uma poderosa ferramenta matemática com diversas aplicações. Utilizou de forma elegante a condição da cadeia ascendente, e os objetos que a satisfazem são hoje denominado noetherianos em homenagem a ela. Na terceira época, (1927–1935), publicou seus principais trabalhos sobre álgebras não comutativas e números hipercomplexos e realizou a união entre a teoria das representações dos grupos com a teoria dos módulos e ideais. Além de suas próprias publicações, Noether foi generosa em relação a suas idéias e permitiu que várias de suas ideias e linhas de investigação fossem publicadas por outros matemáticos, isto afetou inclusive campos bastante distantes de seu trabalho principal, como a topologia algébrica[10].

Magistério[editar | editar código-fonte]

Universidade de Erlangen[editar | editar código-fonte]

Paul Gordan, orientador de doutorado de Emmy Noether.

Emmy era fluente em francês e em inglês. Na primavera de 1900, ela prestou exames para magistério nestes idiomas e recebeu nota geral sehr gut (muito bom). Sua nota a qualificou para lecionar os idiomas em escolas para meninas, mas Emmy preferiu continuar seus estudos na Universidade de Erlangen[8].

Foi uma decisão pouco convencional para a época. Dois anos depois, a reitoria da universidade declarou que seria permitido educação mista em suas dependências. Sendo uma das duas únicas mulheres no campus com 986 alunos, Emmy não tinha autorização de participar de todas as aulas, tendo que pedir permissão individual para cada professor das disciplinas que pretendia estudar. Apesar dos obstáculos, em 14 de julho de 1903, ela se graduou[8][13].

No inverno de 1903-1904, ela estudou na Universidade de Göttingen, tendo aulas com o astrônomo Karl Schwarzschild e com os matemáticos Hermann Minkowski, Otto Blumenthal, Felix Klein e David Hilbert. Pouco depois, as restrições às mulheres nas universidades foram suspensas[8].

Emmy retornou a Erlangen, sendo oficialmente recolocada em 24 de outubro de 1904, onde decidiu focar-se apenas em matemática. Sob a supervisão de Paul Gordan, escreveu a tese Über die Bildung des Formensystems der ternären biquadratischen Form (Em Sistemas Completos de Invariantes para Formas Biquadráticas Ternárias, 1907). Apesar de ser bem recebida, Emmy classificou sua tese como "uma droga"[8][14].

Pelos próximos sete anos (1908–15), ela lecionaria na Universidade de Erlangen, sem vencimentos, ocasionalmente substituindo seu pai quando ele ficava muito doente para lecionar. Em 1910 e 1911, publicou uma extensão de sua tese sobre variáveis n. Paul Gordan viria a se aposentar na primavera de 1910, mas lecionou, ocasionalmente, com seu sucessor, Erhard Schmidt, que logo deixou a universidade por um emprego em Breslau. Paul viria a falecer em dezembro de 1912, tendo deixado Ernst Fischer como seu sucessor[14].

Segundo Hermann Weyl, Fischer foi uma importante influência para Emmy, em particular por ter introduzido a ela o trabalho de David Hilbert. DE 1913 a 1916, Emmy publicou diversos trabalhos sobre a aplicação dos métodos de Hilbert em várias áreas da matemática, como funções e invariantes de grupos infinitos, marcando o início de seu trabalho com álgebra abstrata, campo no qual ela faria grandes e importantes contribuições.

Universidade de Göttingen[editar | editar código-fonte]

Na primavera de 1915, Emmy foi convidada a retornar a Göttingen por David Hilbert e Felix Klein. Seus esforços para contratá-la fora combatidos pelos membros das faculdades de história e filosofia. Eles insistiam que mulheres não podiam se tornar privatdozent. Um membro disse que era inaceitável que os soldados voltassem para a universidade e encontrassem uma mulher dando aulas[8]. David Hilbert respondeu:

Cquote1.svg Não vejo como o sexo da candidata possa ser um argumento contra sua admissão como privatdozent. Além disso, estamos em uma universidade, não em uma casa de banhos[8]. Cquote2.svg
Em 1915, David Hilbert convidou Emmy Noether para o departamento de matemática de Göttingen, desafiando a visão que muitos colegas tinham sobre uma mulher nas dependências da universidade.

Emmy deixou Erlanden no final de abril. Duas semanas depois, sua mãe morreu, subitamente. Ela chegou a receber tratamento médico devido à um problema no olho, mas não se sabe a causa da morte. Por volta da mesma época, seu pai se aposentou e seu irmão alistou no Exército Alemão, para servir na Primeira Guerra Mundial. Ela voltou a Erlangen várias semanas depois para cuidar do pai[14].

Em seus primeiros anos em Göttingen, ela não tinha uma posição oficial, tampouco tinha salário. Sua família pagava por sua acomodação e por seu material acadêmico. Suas aulas eram, normalmente, anunciadas sob o nome de David Hilbert, onde ela ofereceria apenas assistência. Mas logo após sua chegada à universidade, Emmy demonstrou sua capacidade de provar o teorema hoje conhecido como Teorema de Noether, que mostra que a lei de conservação de energia está associada com a [[1]] de um sistema físico[14][13].

Os físicos americanos Leon M. Lederman e Christopher T. Hill argumentaram em seu livro Symmetry and the Beautiful Universe que o Teorema de Noether era "certamente um dos mais importantes teoremas matemáticas já provados no desenvolvimento da física moderna, possivelmente lado a lado com o Teorema de Pitágoras"[13].

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, a Revolução Alemã trouxe uma mudança social significativa, incluindo mais direitos para as mulheres. Em 1919, a universidade permitiu o ingresso de Noether, concedendo-lhe uma habilitação de magistério em junho do mesmo ano. Três anos depois, Emmy recebeu uma carta do ministro da ciência, arte e educação da Prússia, na qual ele conferia a ela o título de nicht beamteter ausserordentlicher Professor, um professor associado, não-titular, com direitos e funções administrativas limitadas. Apesar de não ser um grande reconhecimento público por seu trabalho, ele ainda não era remunerado. Emmy não recebeu por seu trabalho até ser apontada, um ano depois, como docente de álgebra[8][13][14].

A expulsão de Göttingen[editar | editar código-fonte]

Quando Adolf Hitler se tornou chanceler alemão, em janeiro de 1933, a atividade nazista no país aumentou dramaticamente. Na universidade, a Associação de Estudantes Alemães lançou ataques contra judeus e seus apoiadores por "não terem espírito alemão", liderados por um privatdozent chamado Werner Weber, ex-aluno de Emmy. Atitudes anti-semitas criaram um clima hostil para os professores judeus. Um manifestante chegou a dizer: estudantes arianos querem professores arianos, não judeus[8].

Uma das primeiras ações da administração de Hitler foi a Lei para a Restauração da Função Pública Profissional, que removeu funcionários judeus e funcionários suspeitos, incluindo professores universitários, de seus cargos, a menos que demonstrassem "sua total lealdade à Alemanha", servindo na Primeira Guerra Mundial. Em abril de 1933, Emmy recebeu um aviso do gabinete do ministro prussiano que dizia: Segundo o parágrafo 3, do Código de Serviço Civil de 7 de abril de 1933, eu retiro seu direito de lecionar na Universidade de Göttingen[8][13].

Vários colegas de Emmy, como Max Born e Richard Courant, também tiveram seus cargos revogados. Emmy aceitou a demissão calmamente, oferecendo suporte a outros colegas em situação semelhante. Mesmo sem poder dar aulas, ela reunia estudantes em seu apartamento para discutir teorias clássica. Mesmo quando um estudante seu aparecia paramentado com a farda da organização nazista Sturmabteilung, Emmy não se abalava. Isso porém foi antes dos eventos sangrentos da Noite dos Cristais, em 1935[8][13].

Bryn Mawr[editar | editar código-fonte]

Bryn Mawr College recebeu Emmy Noether nos dois últimos anos de sua vida.

Muitos professores desempregados na Europa receberam oportunidades de emprego de colegas nos Estados Unidos. Albert Einstein e Hermann Weyl foram indicados para Princeton. Outros ainda buscavam patrocinadores para lhes ajudar na imigração. Emmy foi contratada por representantes de duas instituições: o Bryn Mawr College, nos Estados Unidos e o Somerville College da Universidade Oxford, na Inglaterra. Após uma série de negociações com a Fundação Rockefeller, Bryn Mawr aprovou a vinda de Emmy e ela iniciou seus trabalhos em 1933[8][13].

No Bryn Mawr, Ammy conheceu Anna Wheeler, que tinha estudado em Göttingen pouco antes da chegada de Emmy e as duas se tornaram grandes amigas. Outro apoiador de Emmy foi a presidente da faculdade, Marion Edwards Park, que convidou vários matemáticos para assistirem "Emmy Noether em ação"[8].

Em 1934, Emmy começou a lecionar no Instituto de Estudos Avançados, em Princeton, por convite de Abraham Flexner e Oswald Veblen. Trabalhou e foi orientadora de Abraham Albert e Harry Vandiver. No entanto, a maior lembrança de Emmy em Princeton é de ser uma universidade de homens, onde as mulheres não era bem-vindas[13].

Os anos nos Estados Unidos foram agradáveis. Emmy estava cercada de colegas e apoiadores, inserida em seus temas favoritos[8].

Morte[editar | editar código-fonte]

Os restos mortais de Emmy Noether foram enterrados no gramado do Bryn Mawr College.

Em abril de 1935, os médicos descobriram um tumor no quadril de Emmy. Preocupados com as complicações cirúrgicas, eles a deixaram de repouso absoluto por dois dais. Durante a cirurgia, descobriram um cisto no ovário "do tamanho de um melão"[8]. Dois tumores menores, aparentemente benignos, foram encontrados no útero, mas não foram removidos, para não prolongar o procedimento.

Por três dias, ela se recuperou normalmente, tendo uma pequena hemorragia no quarto dia. Em 14 de abril ela desmaiou, com uma temperatura de 42°C e veio a falecer. Os médicos acreditam que ela tenha desenvolvido uma infecção generalizada, que tenha atingido o cérebro. Seu corpo foi cremado e as cinzas enterradas no gramado do Bryn Mawr College[8].

Legado[editar | editar código-fonte]

Entre 1832 e 1935, ano da morte de Emmy, a matemática, especialmente o campo da álgebra, passou por uma profunda revolução, cujas consequências ainda são sentidas. Matemáticos de séculos anteriores trabalharam em métodos práticos para resolver tipos específicos de equações, como função cúbica. A maior e mais importante contribuição de Emmy Noether para a matemática foi o desenvolvimento de uma nova área, a álgebra abstrata[15].

Referências

  1. Emmy Noether (em inglês) no Mathematics Genealogy Project
  2. Einstein, Albert (1 May 1935), "Professor Einstein Writes in Appreciation of a Fellow-Mathematician", New York Times, 5 May 1935, http://select.nytimes.com/gst/abstract.html?res=F70D1EFC3D58167A93C6A9178ED85F418385F9, visitado em 13 April 2008 . Online at the MacTutor History of Mathematics archive.
  3. Osen, Lynn M. (1974), "Emmy (Amalie) Noether", Women in Mathematics, MIT Press, pp. 141–52, ISBN 0-262-15014-X.
  4. Alexandrov, Pavel S. (1981), "In Memory of Emmy Noether", in Brewer, James W; Smith, Martha K, Emmy Noether: A Tribute to Her Life and Work, New York: Marcel Dekker, pp. 99–111, ISBN 0-8247-1550-0.
  5. Ne'eman, Yuval. "The Impact of Emmy Noether's Theorems on XX1st Century Physics", Teicher 1999, p. 83–101.
  6. Conheça mulheres que se tornaram grandes cientistas - Emmy Noether (1882-1936) Portal BOL - acessado em 8 de março de 2015
  7. Chang, Sooyoung (2011). Academic Genealogy of Mathematicians illustrated ed. World Scientific [S.l.] p. 21. ISBN 978-981-4282-29-1  Extract of page 21
  8. a b c d e f g h i j k l m n o p q Clark Kimberling (ed.). «Emmy Noether, Mentors & Colleagues». Evansville. Consultado em 22 de fevereiro de 2007 
  9. Osen, Lynn M. (1974), "Emmy (Amalie) Noether", Women in Mathematics, MIT Press, pp. 141–52, ISBN 0-262-15014-X 
  10. a b Weyl, Hermann. . "". David Hilbert and his mathematical work 50 (9): 612–654. DOI:10.1090/S0002-9904-1944-08178-0.
  11. Lederman, Leon M.; Hill, Christopher T (2004), Symmetry and the Beautiful Universe, Amherst: Prometheus Books, ISBN 1-59102-242-8.
  12. Dick, Auguste (1981), Emmy Noether: 1882–1935, Boston: Birkhäuser, ISBN 3-7643-3019-8. Trans. H. I. Blocher.
  13. a b c d e f g h Lederman, Leon M.; Hill, Christopher T (2004), Symmetry and the Beautiful Universe, Amherst: Prometheus Books, ISBN 1-59102-242-8 
  14. a b c d e van der Waerden, B.L. (1935), "Nachruf auf Emmy Noether" (em German), Mathematische Annalen 111: 469–74, doi:10.1007/BF01472233, http://gdz.sub.uni-goettingen.de/index.php?id=11&PPN=PPN235181684_0111&DMDID=DMDLOG_0038&L=1 
  15. G.E. Noether 1987, p. 168.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]