Henry David Thoreau

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Henry David Thoreau
Nascimento 12 de julho de 1817
Concord (Estados Unidos)
Morte 6 de maio de 1862 (44 anos)
Concord (Estados Unidos)
Ocupação ensaísta, poeta, naturalista, filósofo e jornalista
Influências
Influenciados
Magnum opus Walden ou a vida nos bosques
Escola/tradição Naturalismo, Simbolismo, Abolicionismo, Anarcoindividualismo

Henry David Thoreau (Concord, 12 de julho de 1817 — Concord, 6 de maio de 1862[1]) foi um autor estadunidense, poeta, naturalista, ativista anti-impostos, crítico da ideia de desenvolvimento, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista. Ele é mais conhecido por seu livro Walden, uma reflexão sobre a vida simples cercada pela natureza, e por seu ensaio Desobediência Civil uma defesa da desobediência civil individual como forma de oposição legítima frente a um estado injusto.

Os livros, ensaios, artigos, jornais e poesias de Thoreau chegam a mais de 20 volumes. Entre suas contribuições mais influentes encontravam-se seus escritos sobre história natural e filosofia, onde ele antecipou os métodos e preocupações da ecologia e do ambientalismo. Seu estilo de escrita literária intercala observações naturais, experiência pessoal, retórica pontuada, sentidos simbolistas, e dados históricos; ao mesmo tempo em que evidencia grande sensibilidade poética, austeridade filosófica, e uma paixão "yankee" pelo detalhe prático.[2] Ele também era profundamente interessado na ideia de sobrevivência face a contextos hostis, mudança histórica, e decadência natural; ao mesmo tempo em que buscava abandonar o desperdício e a ilusão de forma a descobrir as verdadeiras necessidades essenciais da vida.[2]

Foi também um notório abolicionista, realizando leituras públicas nas quais atacava as leis contra as fugas de escravos evocando os escritos de Wendell Phillips e defendendo o abolicionista John Brown. A filosofia de Thoreau da desobediência civil influenciou o pensamento político e ações de personalidades notáveis que vieram depois dele, filósofos e ativistas como Liev Tolstói, Mohandas Karamchand Gandhi, e Martin Luther King, Jr.

Thoreau é por vezes citado como um anarquista individualista.[3] Ainda que por vezes sua desobediência civil ambicione por melhorias no governo, mais do que sua abolição – "Não peço, imediatamente por nenhum governo, mas imediatamente desejo um governo melhor"[4] – a direção desta melhoria é que ambiciona o anarquismo: "'O melhor governo é o que não governa. Quando os homens estiverem devidamente preparados, terão esse governo”[4]

Biografia[editar | editar código-fonte]

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Início[editar | editar código-fonte]

Nasceu em Concord, no Estado de Massachusetts, em 12 de julho de 1817. Descendente de huguenotes franceses, o menino Thoreau aprendeu a amar a natureza quando levava as vacas da família da mãe para pastar. Na adolescência, ajudou o naturalista suíço Louis Agassiz a coletar espécimes da região.

Em 1837, formou-se em literatura clássica e línguas. Fundou junto com o irmão uma escola, em 1838. Seu método inovador de ensino, que incluía passeios ao campo (field-trips) e não utilizava castigos físicos, não foi bem aceito nos EUA daquela época.

Em 1835, conheceu Ralph Waldo Emerson, poeta e famoso escritor, com quem manteve sempre grande amizade. Apesar de fazer parte do grupo de Emerson, os "transcendentalistas", Thoreau se esquivava de algumas ideias e divagações místicas típicas do grupo. Ao contrário dos colegas, ele mantinha o foco na vida e no presente. Quando debatia-se o recorrente tema de vida após a morte, Thoreau replicava: "Uma vida de cada vez".

Com a morte do irmão, Thoreau fechou a escola. Fazia esporádicos trabalhos como agrimensor e como ensaísta, acreditando sempre que o homem devia ganhar somente o necessário para sobreviver. Apenas foi trabalhar na fábrica de lápis da família quando precisou ajudar a mãe e as irmãs, quando da morte do pai.

A vida nos bosques[editar | editar código-fonte]

Thoreau mantinha-se eternamente insatisfeito com a vida na sociedade e com o modo como as pessoas viviam. Há relatos de que visitou aldeias indígenas só com a roupa do corpo, ao contrário de seus contemporâneos, que o faziam com armas em punho.

Em 1845, com 27 anos, Thoreau foi morar no meio da floresta, em um terreno que pertencia a Ralph Waldo Emerson. Às margens do lago Walden construiu sua casinha e um porão para armazenar comida. Apesar de inexperiente como agricultor, tentou a auto-suficiência e, a longo prazo, teve algum sucesso, plantando batatas e produzindo o próprio pão.

Segundo suas próprias palavras, ele foi morar na floresta porque queria "viver deliberadamente". Queria se "defrontar apenas com os fatos essenciais da existência, em vez de descobrir, à hora da morte, que não tinha vivido". Em seu período na floresta, ele queria "expulsar o que não fosse vida".

Baseado no relato e em todo o pensamento filosófico empreendido nos dois anos em que morou na floresta, Thoreau escreveu "Walden ou A vida nos bosques", uma obra que se tornaria um referencial para a Ecologia e um de seus livros mais famosos. Além de descrever sua estadia na floresta, "Walden" analisa e condena a sociedade capitalista da época. E, convida a uma reflexão sobre um modo de vida simples, propondo novos olhares sobre o conceito de liberdade.

"Fui para a mata porque queria viver deliberadamente,

enfrentar apenas os fatos essenciais da vida

e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar,

em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido."

A Desobediência Civil[editar | editar código-fonte]

Insubmisso, Thoreau decide não pagar impostos porque acreditava ser errado dar dinheiro aos EUA, um país escravagista e em guerra contra o México. Não querendo financiar nem a escravidão nem a guerra, Thoreau foi preso enquanto se dirigia ao sapateiro local, foi abordado e preso e após solto retornou a sua vida a partir do ponto em que a interrompeu, lá regressando para ir buscar os sapatos que mandara arranjar. A tia de Thoreau pagou a fiança e ele foi solto na manhã do dia seguinte. Inspirado pela noite na prisão, Thoreau escreveu o famoso A Desobediência Civil. Leon Tolstói, um dos mais famosos escritores do mundo venerava este ensaio e o recomendou, por carta, a um jovem indiano preso na África do Sul. Este jovem indiano era Mahatma Gandhi.

Fim da vida[editar | editar código-fonte]

Thoreau, que havia saído das florestas a pedido do proprietário do lugar, passou o resto de sua vida empreendendo grandes passeios às florestas e aos campos e também escrevendo muito. Ele acabaria morrendo em 1862 de tuberculose. Encontra-se sepultado no Sleepy Hollow Cemetery, Concord, Massachusetts nos Estados Unidos.[5]

A casa que construiu no lago Walden, hoje é um museu que possui uma estátua sua na entrada. A floresta em volta do lago virou área protegida. É considerado um dos grandes escritores norte-americanos.

Ideais[editar | editar código-fonte]

Thoreau ecologista[editar | editar código-fonte]

Thoreau era um amante da natureza. É considerado, junto com os povos indígenas, um dos avós do movimento ecológico que ganharia forma nos anos 1960. Seus textos e discursos falam sempre sobre as vantagens da vida natural e livre. Ele sempre associava natureza e liberdade e, neste aspecto, sofreu forte influência de Jean-Jacques Rousseau e de textos orientais.

Seu ambientalismo se expressa na frase: "Quero dizer uma palavra em defesa do ambiente natural e da liberdade absoluta. Uma declaração extrema pois já há muitos defensores da civilização".

Amava os animais, gostando de observá-los. "Tornei-me vizinho dos pássaros, não por ter aprisionado um, mas por ter me engaiolado perto deles", disse em "Walden". Até o final de sua vida, fez longos passeios pela natureza e dava preferência aos recantos mais selvagens e, em sua concepção, mais livres. Dizia preferir o pântano mais lamacento ao mais belo jardim.

Thoreau era também cético com relação ao progresso tecnológico, especialmente por ser contrário ao embrião de sociedade de consumo que já era a sociedade americana da época.

Thoreau e a guerra México-Americana[editar | editar código-fonte]

Parte do imaginário coletivo norte-americano acreditava que era destino dos EUA realizar sua expansão territorial, tinha-se a crença de que a Providência Divina demandava dos norte-americanos uma postura civilizatória, em oposição às forças europeias que supostamente desejavam frear o crescimento da América. Pouco a pouco, essa crença se transmutava num nacionalismo norte-americano, numa visão exaltada de si próprio como povo e Nação. Em Massachuttes, o sentimento para com a guerra se desenvolveu de forma a se afastar desse nacionalismo, parte dessa população não apoiava o embate com os mexicanos. O estado de Massachuttes caracterizou a empreitada americana como uma “guerra de conquista” que dizia interesse para os fazendeiros escravistas. Dentre as pessoas que desaprovavam a guerra México-americana, a oposição mais conhecida é a de Henry David Thoreau, pois “não foi apenas um crítico a guerra como agressão ao México, mas também se negou a pagar impostos como protesto (...)”[6]. Nesse cenário, Thoreau escreveu se escrito mais popular “A Desobediência Civil”, um ensaio no qual criticava os maus governos e propunha um modelo de combate à tirania.

Há uma longa tradição nos EUA de hostilidade para com o Estado e defesa da autonomia individual; os Estados Unidos é, afinal de contas, a democracia liberal mais antiga do mundo. Existe um profundo enraizamento da defesa dos direitos individuais dentro das visões de mundo norte-americanas. No século XIX Henry David Thoreau se aproximou muito de um individualismo libertário baseado na descoberta da verdadeira natureza humana através de uma cultura ligada à natureza, movimento esse que ficou conhecido como “Naturalismo Transcendentalista” ou “Individualismo Transcendentalista”.

Perante a guerra contra o México, a pergunta que Thoreau se fez, basicamente, foi “como lidar com esse mal?”. Basicamente, a resposta fora “não compactuar com esse mesmo mal”. Henry Thoreau diz em seu ensaio: “Todos os homens reconhecem o direito de revolução; isto é, o direito de recusar obediência ao governo, e de resistir a ele, quando sua tirania ou sua ineficiência são grandes e intoleráveis”.[7] O naturalista se recusou a pagar impostos para o governo americano, a recusa de Thoreau a pagar imposto foi um ato simbólico de protesto contra um governo escravista e que deflagra guerra contra outros indivíduos. O escritor não podia, aos seus próprios olhos, reconhecer um governo que propaga a violência e o mal. E, justamente por isso, aceitou ir para a prisão, afirmando que num governo que prega o aprisionamento moral, o verdadeiro lugar de um homem honesto seria a prisão.

A “resistência”, para esse autor, era a capacidade de se autodefender. A sonegação de impostos seria legítima defesa. Henry Thoreau enxergava o Estado como um todo sob a ótica de que o mesmo está sujeito ao fracasso, afirmando em sua obra: “O governo em si, que é apenas o modo que o povo escolheu para executar sua vontade, está igualmente sujeito ao abuso e à perversão antes que o povo possa agir por meio dele. Prova disso é a atual guerra mexicana, obra de relativamente poucos indivíduos que usam o governo permanente como seu instrumento, pois, desde o princípio, o povo não teria consentido semelhante iniciativa”.[8] A oposição que existia, era não necessariamente entre Governo x Cidadão, mas sim entre Governo x Consciência. A “teoria” thoreauriana tem base no princípio dos indivíduos exercer seu próprio julgamento e não servir ao Estado como uma máquina, que não questiona, ou como um boneco de madeira que pode ser modelado da forma que o escultor (o Estado) desejar.

Thoreau não se envolveu em nenhum partido político, ou movimento organizado, era adepto de uma “revolução-de-um-só-homem”, ou seja, que cada indivíduo ganhasse consciência perante um mau governo. O engajamento do transcendentalista com o Estado se deu apenas pela sua ação como escritor e a recusa de contribuir com seu dinheiro. Lê-se em A desobediência civil: “Que cada homem faça saber qual é o tipo de governo capaz de conquistar seu respeito”. “A desobediência civil de Thoreau é a escolha que ele fez quando não havia outra escolha que não agir; não é apenas ação, mas uma ação necessária (...)”.[9] A ação de Thoreau, fora, em essência uma ação não-violenta, o autor seria um dos precursores do movimento de não-violência utilizados por Gandhi e Martin Luther King Jr. E, assim como estes últimos, a ação do americano é relacionada diretamente com uma fonte essencial de opressão, o Estado. Mesmo que para o autor nenhum homem seja responsável por solucionar algum mal que seja, os indivíduos tem a obrigação de não compactuar com este mal, devem desobedecer as leis injustas e não apoiar as práticas condenáveis:

“Em outras palavras, quando um sexto da população do país que se apresenta como refúgio da liberdade é composto de escravos, e uma nação inteira é injustamente atacada, conquistada por um exército estrangeiro e submetido à lei militar, penso que não é cedo demais para os homens honestos se rebelarem e fazerem a revolução. O que torna ainda mais urgente esse dever é o fato de que o país assim atacado não é o nosso, pois nosso é o exército invasor (...) Se a injustiça tiver uma mola própria e exclusiva, ou uma polia, ou uma corda, ou uma manivela, talvez seja o caso de avaliar se o remédio não seria pior que o mal; mas se ela for do tipo que requer que você seja o agente da injustiça contra outra pessoa, então, eu digo: Viole a lei.”[10]

Thoreau Anárquico[editar | editar código-fonte]

Influenciou fortemente o anarquismo e os admiradores desta filosofia. Seu ensaio "A Desobediência Civil" é a base de ação para libertários e anarquistas, além de ter sido posto em prática com sucesso por Mahatma Gandhi.

Seu pensamento libertário é complexo e não pode ser resumido facilmente. Entretanto, algumas das passagens mais famosas de seus livros condensam sua visão de mundo:

A crítica à relação entre as classes ricas, que se tornam privilegiadas do governo, e o Estado, bem como à vida abundante em posses materiais mas desprovida de valores espirituais e éticos: "Mas o homem rico — sem querer fazer uma comparação invejosa — está sempre vendido à instituição (Estado) que o torna rico. Falando em termos gerais, quanto mais dinheiro, menos virtude (...); ao passo que a única nova questão que ele se coloca é a difícil e supérflua de saber como gastar o dinheiro. Assim, seu terreno moral é tirado de sob seus pés".[11]

A crítica ao Estado: "O melhor governo é o que nada governa".

A defesa do direito à propriedade privada e a crítica à espoliação estatal: "Se eu nego sua autoridade (do Estado) quando ele impõe seus tributos, ele logo tomará a devastará todas as minhas propriedades, e importunará a mim e a meus filhos para sempre. Isso é duro. Isso torna impossível a um homem viver honestamente, e ao mesmo tempo com conforto, no que diz respeito ao aspecto exterior".[12] "Até que eu me dedique exclusivamente a construir um patrimônio na minha terra por meio de um empreendimento pacífico, estou em condições de recusar minha lealdade a Massachusetts, e o direito deste estado sobre minha propriedade e minha vida".[13]

Apesar de suas críticas à escravidão, à guerra, à devastação ambiental e a tantas outras facetas da sociedade de sua época, Thoreau preferia não se definir sob nenhuma classificação política.

Pacifismo e Abolicionismo[editar | editar código-fonte]

A prisão de Thoreau se deveu justamente ao fato de ele ter deixado de pagar impostos ao governo americano. Além de suas tendências anárquicas, Thoreau explica que não queria financiar um Estado escravocrata e tampouco uma guerra. Naquela época os EUA mantinham negros como escravos e estavam em uma guerra imperialista contra o México, com o objetivo de anexar territórios.

A posição de Thoreau como abolicionista e defensor da causa negra está registrada em seus textos. Mas não somente isso: ele teve atuação na Underground Railway (ferrovia subterrânea), uma rota de fuga que levava escravos negros para uma vida livre no Canadá.

A cabana de madeira que Thoreau construiu nas imediações do lago Walden não existe mais. Hoje, em local aproximado onde se situava há uma replica, ponto de visitação de turistas.

Thoreau e o Minimalismo Existencial[editar | editar código-fonte]

Em uma entrevista proporcionada ao IHU On-Line, Kelly Dean Jolley promove uma perspectiva de Thoreau como um minimalista existencial[14]. A partir da entrevista, Jolley ressalta que Thoreau defende uma vida de abnegação e simplicidade, cujo objetivo é obter uma melhor compreensão da existência e do mundo que aparece diante de nós.

De fato, a filosofia de Henry David Thoreau vai além da abstração das ideias, é um modo de conceber o mundo e reger uma vida a partir da constante relação com o real e com o verdadeiro. A vida, nesse caso, encontra-se em consonância com o verdadeiro, e o verdadeiro, para Thoreau, está fora das paredes da prisão invisível que grande parte da sociedade impôs com o avanço tecnológico e fortalecimento do capitalismo com seu consumismo excessivo. Dessa forma, é perceptível a busca da verdade através de uma forte crítica ao materialismo, cuja principal consequência é o ajuste da visão para o que realmente existe. Kelly Dean Jolley expressa tal questão sucintamente:

''Para mim Thoreau acredita que vivemos em um esquecimento propositado de nossa natureza, e que nossas tendências para focar naquilo que é desnecessário são tanto resultado como causa desse esquecimento. Ao ir para a mata, Thoreau se transforma em um lembrete vivo daquilo que esquecemos. Ele se torna uma consciência moral externalizada – para colocar de forma paradoxal – chamando cada um de nós de volta ao que (todos) somos.''[15]

É nesse contexto que o pensamento minimalista entra em ação. Uma mensagem importante, senão principal, da filosofia minimalista seria a necessidade de reduzir o máximo de recursos possíveis para reger uma vida e, assim, sobreviver apenas com o necessário. Nesse sentido, não é à toa que Thoreau é visto como um minimalista. Verifica-se diversos exemplos da filosofia minimalista nos seus escritos, especialmente em Walden. Dentre tais, vale destacar uma parte:

''Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Digo: Ocupai-vos de dois ou três afazeres, e não de cem ou mil; contai meia dúzia em vez de um milhão e tomai nota das receitas e despesas na ponta do polegar... Simplificar, simplificar. Em vez de três refeições por dia, se preciso for, comer apenas uma; em vez de cem pratos, cinco; e reduzir proporcionalmente as outras coisas...''[16]

Nessa perspectiva, o minimalismo seria um passo importante para melhor compreender o mundo e chegar a um nível superior a partir das experiências acumuladas pelas privações impostas por um estilo de vida de controle e abnegação – este é um dos motivos que Thoreau é chamado de transcendentalista. Com isso, torna-se possível aguçar a visão e focá-la no que é verdadeiro, procurar apenas o que é essencial para manter o famoso ‘’calor vital’’[17] que o autor frequentemente menciona e, assim, viver. Por esse fato que Walden foi fundamental para a evolução espiritual e física de Thoreau. O deserto era um ambiente longe das prisões ilusórias da sociedade capitalista e um lugar propício à solidão e à abnegação, cuja consequência era o contato com a própria essência da vida e a visão do mundo como ele é:

''Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, a vida sendo tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a a seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então em sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão''[18]

Thoreau influenciou diversas gerações de pensadores e aventureiros. Um grande exemplo disso foi o de Christoper McCandless, um jovem que, ao terminar a faculdade, deixou para trás toda uma vida – como o conforto de uma casa, a presença de pessoas que o amam, seu dinheiro e seu carro –, com o principal objetivo de viver sobre o deserto e absorver tudo que a existência poderia proporcionar.

Há diversos traços da filosofia minimalista  de Thoreau em McCandless. Um aspecto que pode provar esse fato é a aversão ao materialismo da sociedade a qual frequentava e o consequente abandono da maioria de seus bens materiais para poder viver uma vida de solidão e privação em busca da verdade. Um exemplo da influência direta de Thoreau sobre McCandless é uma frase sublinhada do livro Walden, ou a vida nos bosques, encontrada no lugar em que este último morreu[19], no qual diz:

''Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa em que a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas faltavam sinceridade e verdade e fui-me embora do recinto inóspito, sentindo fome. A hospitalidade era fria como os sorvetes.''

Um aspecto interessante é que McCandless escreveu a palavra ‘’verdade’’ em letras de forma no alto da página que a frase anterior se encontrava. É possível, dessa forma, perceber que a busca da verdade era uma dos principais anseios de McCandless ao ir para o deserto. Talvez não seja mera coincidência das buscas similares de Thoreau e McCandless, uma vez que este último tinha como anseio primordial conceber o verdadeiro na sua mais pura manifestação. Thoreau, nesse caso, pode ter sido uma das bases do pensamento e um dos principais influenciadores de McCandless. Apenas para reforçar essa reflexão, vale destacar uma frase de seu diário:

''Dois anos ele caminha pela terra. Sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros. Liberdade definitiva. Um extremista. Um viajante estético cujo lar é a estrada (...) E agora depois de dois anos errantes chega à última e maior aventura. A batalha final para matar o ser falso interior e concluir vitoriosamente a revolução espiritual (...) Para não ser mais envenenado pela civilização, ele foge e caminha sozinho sobre a terra para perde-ser na natureza.''[20]

Torna-se possível detectar diversas passagens que expressam os pensamentos de Thoreau nesse trecho. Logo no começo, McCandless diz ‘’ Sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros. Liberdade definitiva. Um extremista (...)’’. Percebe-se nessa frase uma certa aversão aos bens materiais e à necessidade se libertar dos vícios que o consumo de tais bens proporciona, aspecto que a filosofia minimalista de Thoreau expressa claramente. Indo mais além é perceptível um anseio de matar um ‘’falso ser interior e concluir vitoriosamente uma revolução espiritural (...)’’, Thoreau expressa essa necessidade de revolução espiritual nitidamente em Walden. Assim, afirma-se que a filosofia minimalista de Thoreau foi tão forte que chegou até os tempos atuais. Instigando constantemente diversos estudiosos a mudar suas vidas e criar um novo rumo às mesmas.

É por esse motivo que Thoreau pode ser visto como um minimalista existencial e um dos principais disseminadores do pensamento minimalista. Sua filosofia é focada na destruição de toda a ilusão que uma sociedade materialista pode possuir a partir da busca das coisas – e apenas dessas coisas – que mantém nosso ‘’calor vital’’. Assim, é possível despertar para o verdadeiro mundo que existe diante de todos os seres vivos e sugar toda a vida que este mesmo mundo pode proporcionar.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Biography of Henry David Thoreau, American Poems (2000-2007 Gunnar Bengtsson).
  2. a b Henry David Thoreau : A Week on the Concord and Merrimack Rivers / Walden / The Maine Woods / Cape Cod, by Henry David Thoreau, Library of America, ISBN 0-940450-27-5
  3. Encyclopaedia of the Social Sciences, edited by Edwin Robert Anderson Seligman, Alvin Saunders Johnson, 1937, p. 12.
  4. a b Thoreau, H. D. Resistance to Civil Government
  5. Henry David Thoreau (em inglês) no Find a Grave
  6. BOSCH, Aurora (2005). Historia de Estados Unidos 1776-1945. Barcelona: Critica. pp. 132–133 
  7. THOREAU, Henry David (2012). A desobediência civil. [S.l.]: Peguin & Companhia das letras. 8 páginas 
  8. THOREAU, Henry David. Op. Cit. [S.l.: s.n.] 8 páginas 
  9. MARSHALL, Peter (2008). Demanding the Impossible. A History of Anarchism. Be realistic: Demand the impossible!. [S.l.]: Harper Perennial. 166 páginas 
  10. THOREAU, Henry David. Op. Cit. [S.l.: s.n.] pp. 8 e 12 
  11. Thoreau, Henry David. A desobediência civil. [S.l.]: Penguin Classics Companhia das Letras. p. 23 
  12. Thoreau, Henry David. A desobediência civil. [S.l.]: Penguin Classics Companhia das Letras. p. 23 
  13. Thoreau, A desobediência civil. Henry David. [S.l.]: Penguin Classics Companhia das Letras. p. 23 
  14. Não quero me referir aos diversos movimentos que ocorreram na segunda metade do século XX. Nesse caso, me refiro a um movimento filosófico, muito mais antigo, no qual um dos principais representantes é Thoreau com sua obra Walden.
  15. Entrevista com Kelly Jean Dolley. O minimalismo existencial como forma de vida.  Henry David Thoreau. a deseobediência civil como forma de vida. In. MACHADO, Ricardo. Trad. MEDEIROS, Eduardo Vicentini de. Revista IHU On-line. Porto Alegre, n. 509, ago. 2017. p, 39. Disponível em: <http://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao509.pdf>
  16. THOREAU, Henry David. Walden, ou, a vida nos bosques. Trad. CABRAL, Astrid. SP: Editora Ground. 7° Edição. 2007. Editoração eletrônica. GZESCHNIK, Sergio, p. 70. Disponível em: < http://lelivros.love/book/baixar-livro-walden-henry-thoreau-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online/>
  17. Thoreau utiliza essa expressão para se referir ao aquecimento que o fogo pode proporcionar ao corpo humano. Mas ele também utiliza tal termo como uma metáfora para propor a ideia de todas as necessidades da vida, tudo que mantém a sobrevivência do corpo. Como exemplo, pode-se citar alimentos, moradia , roupas e ferramentas. Ver: Ibidem. p, 12.
  18. Ibidem, p. 69.
  19. KRAKAUER, Jon. Na natureza selvagem. Trad. SOARES, Pedro Maia. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 127.
  20. Diário de Christoper McCandless. Ver: KRAKAUER, Jon. Na natureza selvagem. Trad. SOARES, Pedro Maia. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 172.