Misandria

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Misandria é o ódio, o desprezo ou o preconceito contra homens ou meninos.[1][2][3] É em forma paralelo à misoginia, e tanto "misândrico" quanto "misandrista" pode ser usado como formas adjetivas da palavra.[4]A misandria pode se manifestar de várias maneiras, incluindo a discriminação sexual, a difamação dos homens, a violência contra os homens, a objetificação sexual, ou mais amplamente o ódio, o medo, a raiva e o desprezo aos homens."[3][5]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A palavra misandria se origina do grego misos (= ódio) + andros (= homens) + '-ia' (denota característica ou qualidade)[6] que juntos indicam a qualidade daquele que odeia homens. Ela foi utilizada pela primeira vez em 1871 pela revista The Spectator em sua forma inglesa misandry.[7] Em 1952, a palavra misandry foi inclusa na 11ª edição do dicionário Merriam-Webster's Collegiate.

"Descartabilidade" masculina[editar | editar código-fonte]

Ativista Warren Farrell escreveu sobre seus pontos de vista sobre como os homens são exclusivamente marginalizados no que ele chama de "descartabilidade", a maneira pela qual as ocupações mais perigosas, notadamente militares e de mineração, foram historicamente realizadas exclusivamente por homens e assim permanecem até hoje. Em seu livro, The Myth of Male Power, Farrell argumenta que as sociedades patriarcais não fazem regras para beneficiar os homens às custas das mulheres. Farrell argumenta que nada é mais revelador sobre quem se beneficiou das "regras dos homens" do que expectativa de vida, que é menor em homens e as taxas de suicídio, mais altas em homens.[8]

Os professores de Estudos Religiosos Paul Nathanson e Katherine Young fizeram comparações semelhantes em sua série de três livros de 2001 Beyond the Fall of Man,[9] que se refere à misandria como uma "forma de preconceito e discriminação que se tornou institucionalizada na sociedade norte-americana", escrevendo: "O mesmo problema que há muito impediu o respeito mútuo entre judeus e cristãos, o ensino de desprezo, impede agora o respeito mútuo entre homens e mulheres."[10]

Feminismo radical[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Feminismo radical

A acadêmica Alice Echols, no seu livro de 1989 Daring To Be Bad: Radical Feminism in America, 1967–1975, argumentou que a feminista radical Valerie Solanas demonstrou um nível extremo de misandria comparada a outras feministas radicais na época do seu panfleto, o SCUM Manifesto. Echols declarou,

a misandria despudorada de Solanas — especialmente sua crença na inferioridade biológica do homem — seu apoio a relacionamentos entre "mulheres independentes", e sua rejeição do sexo como "o refúgio do irracional" se opôs ao tipo de feminismo radical que prevaleceu na maioria dos grupos femininos pelo país.[11]


Paul Nathanson e Katherine K. Young argumentou que o "feminismo ideológico", em oposição ao "feminismo igualitário", impôs a misandria à cultura.[12] Seu livro de 2001, Spreading Misandry, Analisou "artefatos da cultura popular e produções da década de 1990" de filmes e cartões de felicitações para o que eles considerou ser mensagens penetrantes de ódio para com os homens. Legalizing Misandry (2005), o segundo livro da série, deu atenção semelhante às leis na América do Norte.

Barbara Kay,uma jornalista canadense, tem criticado a discussão da feminista Mary Koss sobre a cultura do estupro, descrevendo a noção de que "oe stupro representa um comportamento extremo, mas que está em um continuum com o comportamento masculino normal dentro da cultura", como "notavelmente misândrico".[13]

Em 2002, a comentarista Charlotte Hays escreveu "que a filosofia anti-homem do feminismo radical se infiltrou na cultura em massa é algo incontestável; de fato, esta atitude se tornou tão difundida que dificilmente a notamos mais".[14]. O feminismo radical é também chamado de "feminazismo", termo este que relaciona o ódio e o preconceito praticado pelas feministas contra os homens com a intolerância nazista com pessoas consideradas geneticamente inferiores (não arianos), uma vez que a misandria é um preconceito contra características genéticas especificas, no caso, as que definem o sexo masculino em sua essência.

Wendy McElroy, uma feminista individualista,[15] escreveu em 2001 que algumas feministas "redefiniram o ponto de vista do movimento do sexo oposto", como “uma raiva ardente para com os homens parece ter se transformado em um ódio frio".[16] Ela argumentou que foi uma posição misândrica considerar os homens, como uma classe, serem irreformáveis ou violadores. McElroy declarou que "uma nova ideologia veio no pelotão de frente... feminismo radical ou de gênero", uma que tem "andado de mãos dadas com [o] movimento politicamente correto que condena o panorama da civilização ocidental como sexista e racista; o produto de 'homens brancos mortos'".[17]

Pesquisa com referências às origens da misandria[editar | editar código-fonte]

Em um estudo de 488 estudantes universitários sobre o sexismo ambivalente em relação aos homens, os pesquisadores descobriram que as mulheres que não se identificavam como feministas eram mais propensas a ser hostis aos homens do que as feministas auto-identificadas, porém mais propensas a visões benevolentes para com os homens.[18]

Num estudo de 503 mulheres heterossexuais auto-identificadas, os psicólogos sociais encontraram uma associação entre estilos padrão de apego seguro e o sexismo hostil das mulheres em relação aos homens.[19]

Assimetria com misoginia[editar | editar código-fonte]

O sociólogo Allan G. Johnson argumenta em The Gender Knot: Unraveling our Patriarchal Legacy que acusações de ódio aos homens têm sido usadas para derrubar as feministas e transferir a atenção para os homens, reforçando uma cultura centrada no homem.[20] Johnson afirma que a cultura não oferece nenhuma ideologia anti-masculina comparável à misoginia e que "muitas vezes as pessoas confundem os homens como indivíduos com os homens como uma categoria dominante e privilegiada de pessoas" e que "dada a realidade da opressão das mulheres, do privilégio masculino e dos homens, não é de se estranhar que cada mulher deve ter momentos em que se ressente ou até "odeiem homens".

Marc A. Ouellette faz argumentos semelhantes na International Encyclopedia of Men and Masculinities (2007), escrevendo que "a misandria carece da antipatia sistêmica, transhistórica, institucionalizada e legislada da misoginia", apesar de notar algumas misandrias "racializadas" e a existência de um "impulso misândrico" na cultura e na literatura populares.[21]

O antropólogo David D. Gilmore também argumenta que a misoginia é um "fenômeno quase universal" e que não há equivalente masculino à misoginia.[22]Defendendo ainda mais as manifestações de misandria percebida como não "o ódio ao papel masculino tradicional dos homens" e uma "cultura do machismo". Ele argumenta que a misandria é "diferente do aspecto intensamente ad femam da misoginia que atinge as mulheres não importa no que elas crêem ou façam".[22]

Na literatura[editar | editar código-fonte]

Grécia antiga[editar | editar código-fonte]

A professora de literatura comparada Froma Zeitlin, da Universidade de Princeton, discutiu a misandria no seu artigo intitulado "Padrões de Gênero em Arte Dramática de Ésquilo: Sete contra Tebas na Trilogia das Danaides" ("Patterns of Gender in Aeschylean Drama: Seven against Thebes and the Danaid Trilogy").[23] Ela escreveu:

O ponto mais importante de contato, no entanto, entre Etéocles e as suplicantes Danaides é, de fato, suas posições extremas em relação ao sexo oposto: a misoginia do acesso de raiva de Etéocles contra todas as mulheres de todas as variedades (Se. 181-202) tem sua contrapartida na misandria aparente das Danaides, que apesar da oposição aos seus primos egípcios em particular (o casamento com eles é incestuoso, são homens violentos), frequentemente estendem suas objeções para incluir a raça de homens como um todo e vê sua causa como uma disputa apaixonada entre os sexos (cf. Su. 29, 393, 487, 818, 951).[23]

Criticismo literário[editar | editar código-fonte]

No livro Gênero e Judaísmo: A Transformação da Tradição (Gender and Judaism: The Transformation of Tradition), Harry Brod, um professor de Filosofia e Ciências Humanas do Departamento de Filosofia e Religião da Universidade de Iowa, escreve:

Na introdução ao The Great Comic Book Heroes, Jules Feiffer escreve que esta é a piada do Superman sobre todos nós. Clark é a visão do Superman sobre como todos os outros homens realmente são. Somos assustados, incompetentes, e incapazes, particularmente em torno de mulheres. Embora Feiffer tenha levado a brincadeira com bom humor, uma resposta mais cínica observaria a misantropia do Kriptoniano, sua misandria personificada em Clark e sua misoginia no desejo de que Lois se apaixonasse por Clark (tal como Oberon demonstra sua hostilidade com relação à Titania fazendo-a se apaixonar por um asno em Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare).[24]

Julie M. Thompson, uma autora feminista, conecta a misandria com a inveja dos homens, e a aversão a suas características físicas e comportamentais, em particular a "inveja do pênis", um termo inventado por Sigmund Freud em 1908, em sua teoria do desenvolvimento sexual feminino.[25]

Analogias com outras formas de intolerância[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Warren Farrell

Em 1999, o escritor masculinista Warren Farrell comparou os desumanizantes estereótipos de homens à desumanização do povo vietnamita como "bárbaros".[26]

No último quarto de século, expusemos preconceitos contra outras raças e chamamos de racismo, e expusemos preconceitos contra as mulheres e chamamos de sexismo. Os preconceitos contra os homens chamamos de humor.
Warren Farrell
As Mulheres Não Ouvem o Que os Homens Não Dizem (Women Can't Hear What Men Don't Say)

Os professores de estudos religiosos Paul Nathanson e Katherine Young fizeram comparações semelhantes em uma série de três livros de 2001 chamada Além da Queda do Homem (Beyond the Fall of Man),[9] que trata a misandria como uma forma de preconceito e discriminação que se institucionalizou na sociedade norte-americana com a ajuda do movimento feminista.

No livro de 2007 Enciclopédia Internacional do Homem e Masculinidades (International Encyclopedia of Men and Masculinities), Marc A. Ouellette diretamente contrasta a misandria e misoginia, argumentando que a "misandria carece da sistemática, trans-histórica, institucionalizada e legislada antipatia da misoginia".[27]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. "Misandry" no Oxford English Dictionary Online (ODO), Third Edition, Junho 2002. Acessado através da assinatura da biblioteca em 25 de julho de 2014. Primeiro uso registrado: 1885. Blackwood's Edinb. Mag, Set. 289/1. "Nenhum homem a quem ela se importava tinha proposto casar com ela. Ela não podia explicar isso, e era uma fonte crescente de amargura, de misoginia e de misandria".
  2. "Misandria" no Merriam-Webster online ("Primeiro Uso conhecido: circa 1909")
  3. a b Synnott, Anthony. Why Some People Have Issues With Men: Misandry is not in everyone's dictionary but it's out there. 6/10/2010. Psychology Today (em inglês)
  4. Adjective of "misandry", Oxford Dictionaries, (em inglês)
  5. Peter West (5 September 2014). «For Father's Day, give us men who aren't shown as fools and clowns». The Conversation. Consultado em 17 de fevereiro de 2015  Verifique data em: |date= (ajuda) (em inglês)
  6. Oxford Dictionaries http://oxforddictionaries.com/definition/english/misandry
  7. Review of novel "Blanche Seymour", The Spectator, London, Apr. 1, 1871, p. 359]
  8. Warren Farrell, The Myth of Male Power, (N.Y.: Simon & Schuster, 1993), Chp. 2
  9. a b (Nathanson & Young 2001, pp. 4–6) Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "NYspreading-4_6" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  10. Nathanson, Paul; Young, Katherine K. (2001). Spreading misandry the teaching of contempt for men in popular culture. Montreal, Que.: McGill-Queen's University Press. p. 6. ISBN 9780773569690. Consultado em 7 de dezembro de 2016 
  11. Alice Echols (1989). Daring to be Bad: Radical Feminism in America, 1967-1975. U of Minnesota Press. p. 104. ISBN 978-0-8166-1787-6.
  12. (Nathanson & Young 2001, p. xiv) "[o feminismo ideológico] Uma forma de feminismo - que tem tido muita influência, direta ou indiretamente, tanto na cultura popular como na cultura de elite - é profundamente misândrico".
  13. Barbara Kay, (2014) ‘Rape culture’ fanatics don’t know what a culture is, National Post
  14. Hays, Charlotte. 'The Worse Half'. National Review 11 March 2002.
  15. The Independent Institute
  16. (McElroy 2001, p. 5)
  17. (McElroy 2001, pp. 4–6)
  18. Anderson, K.J., Kanner, M. and Elsayegh, N. (2009), "Are Feminists Man Haters? Feminists' and Nonfeminists' Attitudes Toward Men", Psychology of Women Quarterly, Vol. 33, pp. 216-224
  19. Joshua Hart, Peter Glick and Rachel E. Dinero, (2013), "She Loves Him, She Loves Him Not: Attachment Style as a Predictor of Women's Ambivalent Sexism Towards Men", Psychology of Women Quarterly, Vol. 37: 507-517
  20. Johnson, Alan G. (2005). The Gender Knot: Unraveling Our Patriarchal Legacy 2, revised ed. Temple University Press [S.l.] p. 107. ISBN 1592133843 
  21. Michael Flood (2007). International Encyclopedia of Men and Masculinities. Routledge. p. 442. ISBN 978-0-415-33343-6. (em inglês)
  22. a b David D. Gilmore (2010). Misogyny: The Male Malady. University of Pennsylvania Press. ISBN 0-8122-0032-2. (em inglês)
  23. a b Froma I. Zeitlin, Froma I. «Patterns of Gender in Aeschylean Drama: Seven against Thebes and the Danaid Trilogy» (PDF). Consultado em 21 de dezembro de 2007  |last= e |author= redundantes (ajuda) Princeton University, paper given at the Department of Classics, University of California, Berkeley
  24. Gender and Judaism: The Transformation of Tradition, Harry Brod
  25. Emphasis added. Julie M. Thompson, Mommy Queerest: Contemporary Rhetorics of Lesbian Maternal Identity, (Amherst: University of Massachusetts Press, 2002).
  26. Farrell, Warren (1999). Women Can't Hear What Men Don't Say. New York: Tarcher. ISBN 1585420611. - 
  27. Flood, Michael, ed. (18 de julho de 2007). International Encyclopedia of Men and Masculinities. London; New York: Routledge. ISBN 0-41533-343-1