Psicopata

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Psicopatia é a designação atribuída para um indivíduo com um padrão comportamental e/ou traço de personalidade, caracterizada em parte por um comportamento antissocial, diminuição da capacidade de empatia/remorso e baixo controle comportamental ou, por outro, pela presença de uma atitude de dominância desmedida. Esse tipo de comportamento agonista é relacionado com a ocorrência de delinquência, crime, falta de remorso e dominância, mas também é associado com competência social e liderança. A psicopatia, descrita como um padrão de alta ocorrência de comportamentos violentos e manipulatórios, é frequentemente considerada uma expressão patológica da agressão instrumental, além da falta de remorso e de empatia.[1] A psicopatia está diretamente relacionada com o Transtorno de Personalidade Antissocial, contudo estas condições não são sinônimos, uma vez que este é uma classificação médica e a psicopatia é uma classificação de um padrão comportamental científico. Ou seja, alguém pode ser classificado como sendo portador de Transtorno de Personalidade Antissocial sem atender aos critérios para ser classificado como psicopata.

De maneira geral, nos homens, o transtorno tende a ser mais evidente antes dos 15 anos de idade, e nas mulheres pode passar despercebido por muito tempo, principalmente porque as mulheres psicopatas parecem ser mais discretas e menos impulsivas que os homens [2], e por se tratar de um transtorno de personalidade, o distúrbio tem eclosão evidente no final da adolescência ou começo da idade adulta, por volta dos 18 anos e geralmente acompanha por toda a vida.

Diagnóstico[editar | editar código-fonte]

A psicopatia é um conceito controverso, e diferentes grupos e associações têm proposto critérios diferenciados de diagnose. Seus aspectos mais característicos foram identificados primeiramente em prisioneiros e pacientes de manicômios judiciários, mas mais tarde se ampliou o escopo da avaliação para todos os tipos de população, uma vez que alguns traços de psicopatia podem ser encontrados em qualquer indivíduo.[3] Critérios diagnósticos pelo DSM-IV-TR para transtorno de personalidade antissocial (F60.2/301.7) [4]:

  • A. Um padrão pervasivo de desrespeito e violação aos direitos dos outros, que ocorre desde os 15 anos, como indicado por pelo menos três dos seguintes critérios:
    • 1.Fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção;
    • 2.Impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro;
    • 3.Irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas; porém, paradoxalmente, têm fama e geralmente agem de forma bem comportada.
    • 4.Desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia;
    • 5.Irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras;
    • 6.Ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa.
    • 7. Comportamento sexual exacerbado e inadequado, via de regra com vários parceiros, sem nenhuma ligação afetiva;
    • 8. Agressividade contra animais domésticos;
    • 9. Desrespeito e desprezo por ambientes familiares;
  • B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade.
  • C. Existem evidências de Transtorno de Conduta com início antes dos 15 anos de idade.
  • D. A ocorrência do comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia ou Episódio Maníaco.

Na Classificação Internacional de Doenças, este transtorno é denominado por Transtorno de Personalidade Dissocial (Código: F60.2).[5] Na população em geral, as taxas dos transtornos de personalidade podem variar de 0,5% a 3%, subindo para 45-66% entre presidiários.[6]

Transtorno de personalidade caracterizado pelo sentimento de desprezo por obrigações sociais ou falta de empatia para com os outros. Há um desvio considerável entre o comportamento e as normas sociais estabelecidas. O comportamento não é facilmente modificado pelas experiências adversas, inclusive pelas punições. Existe uma baixa tolerância à frustração e um baixo limiar de descarga da agressividade, inclusive da violência. Existe uma tendência a culpar os outros ou a fornecer racionalizações plausíveis para explicar um comportamento que leva o sujeito a entrar em conflito com a sociedade.[5]

No entanto, outros autores distinguem a psicopatia do transtorno de personalidade antissocial.[7] A psicopatia parece estar relacionada a algumas importantes disfunções cerebrais, sendo importante considerar que um só único fator não é totalmente esclarecedor para causar o distúrbio; parece haver uma junção de componentes. Embora alguns indivíduos com psicopatia mais branda não tenham tido um histórico traumático, o transtorno - principalmente nos casos mais graves, tais como sádicos e assassinos em série - parece estar associado à mistura de três principais fatores: disfunções cerebrais/biológicas ou traumas neurológicos, predisposição genética e traumas sócio psicológicos na infância (ex, abuso emocional, sexual, físico, negligência, violência, conflitos e separação dos pais etc.). Todo indivíduo antissocial possui, no mínimo, um desses componentes no histórico de sua vida. Entretanto, nem toda pessoa que sofreu algum tipo de abuso ou perda na infância tornar-se-á um psicopata sem ter uma certa influência genética ou distúrbio cerebral; assim como é inadmissível afirmar que todo indivíduo com pré disposição genética se tornará psicopata apenas por essa característica. Portanto, a junção dos três fatores torna-se essencial; há de se considerar desde a genética, traumas psicológicos e disfunções no cérebro (especialmente no lobo frontal e sistema límbico)[1].

Segundo Hauck, Teixeira & Dias, "é importante ressaltar que a criminalidade não é um componente essencial da definição da psicopatia, mas sim o comportamento antissocial. O comportamento antissocial pode incluir crimes ou a infração das leis, mas não se resume a isto. Abrange comportamentos de exploração nas relações interpessoais que não chegam a ser considerados infrações penais. Por isso, as concepções modernas de psicopatia consideram fundamental a inclusão das características de personalidade que estão na base do comportamento antissocial de tipo psicopático. [...] O estudo da psicopatia na população geral é empiricamente justificado, uma vez que os traços que definem a psicopatia são, em tese, compartilhados por toda a população em maior ou menor grau. [...] Psicopatia é um construto psicológico complexo que envolve múltiplos comportamentos e disposições de personalidade. Esses múltiplos comportamentos e disposições, por sua vez, podem se manifestar em diversos contextos sociais específicos. Assim, é extremamente difícil conseguir itens que representem a totalidade de significados compreendidos por um construto como a psicopatia".[3]

O psicólogo português Armindo Freitas-Magalhães é o autor do projeto científico pioneiro "Psicopatia e Emoções em Portugal" (2010)[8] com o objectivo de compreender os processos cerebrais envolvidos nas reações neuropsicofisiológicas da expressão facial da emoção, conhecer a razão pela qual o padrão de emocionalidade negativa é recorrente na psicopatia, se há diferenças de género e idade e procurar os motivos orgânicos e ambientais envolvidos e estabelecer um padrão que permita o tratamento e a profilaxia do crime. Para verificar e analisar o cérebro dos psicopatas e a relação correspondente à expressão facial, será utilizada a imagiologia de ressonância magnética funcional (fMRI), a psicometria neurofuncional e as plataformas informáticas que estimulam os sistemas cerebrais, particularmente o límbico.

História[editar | editar código-fonte]

O conceito de psicopatia surgiu dentro da medicina legal, quando médicos identificaram o fato de que que muitos criminosos agressivos e cruéis não apresentavam os sinais clássicos de loucura. Descrições desses pacientes e tentativas de criar categorias são o momento inicial da chamada tradição clínica da psicopatia, fundamentada em estudo de casos, entrevistas e observações, interpretadas sob a óptica da hermenêutica clínica. Phillipe Pinel é considerado o pioneiro neste campo, introduzindo descrições científicas de padrões comportamentais e afetivos que se aproximam do que hoje se entende em linhas gerais como psicopatia, articulando o conceito de "mania sem delírio" para descrever pacientes que, embora comportamentos de exibissem comportamentos violentos tinham entendimento do caráter irracional de suas ações, mas não podiam ser considerados delirantes. Nas décadas seguintes o estudo do tema se aprofundou e até a década de 1940 formou-se um amplo consenso entre os especialistas no tocante à sua definição, mas o quadro estabelecido para o diagnóstico ainda carecia de uma especificidade consistente.[3]

Nesta época surgiu o estudo fundamental de Hervey Cleckley, The Mask of Sanity (A Máscara da Sanidade), que sistematizou o conhecimento até a data e delimitou 16 características da psicopatia, ressalvando que elas não necessitavam estar todas presentes para o diagnóstico ser possível. Além disso, o autor procurou separar a psicopatia da esfera da pura criminalidade e a associou ao estudo do comportamento e da personalidade, enfatizando os aspectos interpessoais e afetivos. Depois dele iniciaram-se estudos empíricos para definir níveis diferenciados de psicopatia, acumulando-se grosso corpo de conhecimento que em parte suplantou a definição inicial de Cleckley, embora ela ainda seja um parâmetro básico importante.[3]

Psicopatia x Sociopatia[editar | editar código-fonte]

Existem infinitas dúvidas referente às diferenças entre o termo "psicopatia" e "sociopatia". O fato é que, atualmente, ambos termos se referem ao indivíduo com transtorno de personalidade antissocial, embora não se deva confundir uma classificação médica (i.e., TPA) com um padrão comportamental e/ou traço de personalidade (i.e., psicopatia). Para alguns especialistas, como Robert Hare, a diferença entre a psicopatia e a sociopatia consiste basicamente na origem do transtorno. Assim como sociólogos, especialistas de crimes e alguns psicólogos acreditam que o distúrbio, quando originado a partir do próprio meio social, é denominado como sociopatia. Por exemplo, aquele indivíduo que "aprendeu" a cometer atitudes antissociais no próprio meio em que vivia, tal como um ambiente com baixo nível socioeconômico e pais violentos. Já o psicopata consiste na combinação de fatores como biológicos, genéticos e socioambiental. Por exemplo, o indivíduo que aparentemente "nasce" psicopata, independentemente de ter vivido num ambiente com baixo nível socioeconômico.

Para outros especialistas, a psicopatia e a sociopatia são duas manifestações diferentes do transtorno de personalidade antissocial. Tais raciocínios acreditam que os psicopatas nascem com características básicas como impulsividade e ausência de medo, o que faz com que busquem condutas de riscos e perigo, terminando muitas vezes em atitudes antissociais, uma vez que são incapazes de se estabelecerem corretamente nas normas sociais. Já o sociopata, nesta visão, apresenta um temperamento um pouco mais "normal" que os psicopatas.

Em suma, referente ao termo, essas duas variantes da personalidade antissocial têm como causa uma interação variada entre fatores genéticos/biológicos e fatores ambientais, mas a psicopatia tende para fatores genéticos, enquanto que a sociopatia, para o lado socioambiental.

Teoria[editar | editar código-fonte]

Segundo a teoria pela qual uma pessoa psicopata é uma pessoa perversa, supõe-se que nesta classe de doença, o doente é um sujeito que se mantém a par da realidade, mas que carece de Superego. Isto faz com que a pessoa psicopata possa cometer atos criminosos sem sentir culpa.

A noção, cada vez mais reforçada de que as personalidades psicopatas são quase-psicóticas, enquadra-as dentro das estruturas de personalidades borderline (importante ressaltar que a estrutura borderline é diferente do transtorno de personalidade borderline). Não obstante, as pessoas psicopatas têm condutas criminais sem nenhum sentimento de culpa, mantendo plena consciência dos seus crimes ou das suas intenções criminais.

A natureza do superego, enquanto introjeção das regras sociais e as formas de conduta que são apreendidas e interiorizadas pelos indivíduos no processo de socialização tem sido revisto a partir de várias concepções psicossociais em especial as noções de self de Mead e as concepções de desvio - outsiders de Goffman e Parker as denominadas teorias sociológicas da psicologia social

Assassino em série (serial killer)[editar | editar código-fonte]

Uma personalidade psicopata não se restringe ao assassino em série. Um psicopata pode ser uma pessoa simpática e de expressões sensatas que, não obstante, não vacila ao cometer um crime quando lhe convém e, tal como explicado acima, fá-lo-á sem sentir culpa pela sua ação.

O contexto social em que é interpretado o ato agressivo forma o criminoso ou o justiceiro social, o policial autorizado a cometer crimes (soldado mandado). Contudo na agressividade psicopatológica dos denominados sociopatas há sempre de se identificar as pulsões sádicas que caracterizam o instinto de morte da espécie humana.

Apesar do ainda controverso tema da existência do instinto agressivo em nossa espécie, pelo menos entre as teorias psicanalíticas não há dúvidas sobre a natureza da compulsão à repetição e características sádicas de suas manifestações descritas por Freud no célebre ensaio: Além do princípio do prazer, 1921.

Tratamento[editar | editar código-fonte]

As formas mais comuns de medicamentos utilizados em pacientes de transtornos de personalidade são os neurolépticos, antidepressivos, lítio, benzodiazepínicos, anticonvulsivantes e psicoestimulantes. Porém tratamentos medicamentosos revelaram ser ineficazes no tratamento de psicopatia, porém poucos estudos foram realizados adequadamente [9]. Mesmo com poucos testes, sais de lítio são usados frequentemente no tratamento de pacientes psicopatas, pois podem levar a uma redução nos comportamentos impulsivos, explosivos e na instabilidade emocional. Seus principais efeitos colaterais são sedação, tremores e problemas motores.[10]

Há indicativos de que a terapia cognitivo-comportamental possa ser um método eficaz no tratamento de transtornos de personalidade antissocial.[11] A American Psychiatric Association considera a terapia analítico-comportamental como o tratamento de regulacão afetiva mais eficaz e empiricamente suportado para transtornos de personalidade.[12]

Psicoterapias com pacientes com personalidade violenta em liberdade condicional reduziram os índices de reincidência para 20 e 33% comparado com 40 a 52% dos grupos controles. Os autores concluem que a personalidade dos pacientes não mudou, porém eles aprenderam a controlar melhor seus impulsos e pensarem mais nas consequências de seus atos.[13][14][15][16]

Código Penal[editar | editar código-fonte]

Do ponto de vista penal existe o dilema, amplamente discutido, sobre se uma personalidade doente é imputável, especialmente se é de origem psicótica. Mesmo que se trate de uma personalidade doente (exemplos: pessoas sádicas, violadoras, etc.) há tendência para sustentar que há uma punição correspondente, dado que, mesmo doente, a pessoa mantém consciência dos seus atos e pode evitar cometê-los. O direito penal usa como formas de classificar a capacidade mental do agente: entendimento por parte do agente se o ato que ele cometeu é ilegal e se mesmo sabendo que é ilegal, consegue se autodeterminar, ou seja, consegue não cometer o ato.

Na ficção[editar | editar código-fonte]

Foi lançado em 2015 o livro Diário de um Psicopata do escritor brasileiro Rangel Oblivion, o livro possui 28 capítulos onde o protagonista Caim Fonseca relata suas perversidades.

Referências

  1. a b de Almeida, Rosa M M; Cabral, J C; Narvaes, R. . "Behavioural, hormonal and neurobiological mechanisms of aggressive behaviour in human and nonhuman primates". Physiology & Behavior. DOI:10.1016/j.physbeh.2015.02.053. Visitado em 2015.
  2. Clark Mickson (2011). Female Psychopathy Diagnostic. NewYork, NY, USA
  3. a b c d Hauck Filho, Nelson; Teixeira, Marco Antônio Pereira; Dias, Ana Cristina Garcia. "Psicopatia: o construto e sua avaliação". In: Avaliação Psicológica, 2009; 8 (3)
  4. American Psychiatric Association (APA). Psychiatric Diagnosis and the Diagnostic Statistical Manual of Mental Disorders (Fourth Edition – DSM-IV). Fact Sheet. 1997;1-4.
  5. a b ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS) (Ed.). Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID -10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
  6. Marcos Hirata Soares. Estudos sobre transtornos de personalidade Antissocial e Borderline. Acta Paul Enferm 2010;23(6):852-8.
  7. Morana, Hilda C. P.; Stone, Michael H.; Abdalla-Filho, Elias. "Transtornos de personalidade, psicopatia e serial killers". In: In: Revista Brasileira de Psiquiatria, 2006; 28 (Supl II):S74-9
  8. [1]
  9. Sheard, M. H., Marini, J. L. & Bridges, C. I. (1976) The effect of lithium on unipolar aggressive behaviour in men. American Journal of Psychiatry, 133, 1409-1413.
  10. Stein, G. (1993) Drug treatment of the personality disorders. In Personality Disorder Reviewed (eds.Tyrer, P. & Stein, G.). London: Gaskell.
  11. Arntz A. Do personality disorders exist? On the validity of the concept and its cognitive-behavioral formulation and treatment. Behav Res Ther. 1999;37 Suppl 1:S97-134.
  12. American Psychiatric Association. Treating personality disorder: a quick reference guide. Washington:American Psychiatric Association; 2004.
  13. Carney, F. L. (1981) Residential treatment programs for antisocial personality disorders. In The Treatment of Antisocial Syndromes (ed. W. H. Reid). Van Nostrand Reinhold.
  14. Copas, J. B. & Whiteley, S. (1976) Predicting success in the treatment of psychopaths. British Journal of Psychiatry, 129, 388-392.
  15. Cullen, E. (1992) The Grendon reconvictoin study. Unpublished document, Psychology Department, HMP Grendon.
  16. Firestone P, Bradford JM, Greenberg DM, Larose MR (1998). "Homicidal sex offenders: psychological, phallometric, and diagnostic features". The Journal of the American Academy of Psychiatry and the Law 26 (4): 537–52. doi:10.1177/0093854806288176. PMID 9894211.

Ver também[editar | editar código-fonte]