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Shotokan

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Shotokan
Shotokan
Tradução Casa de Shoto
Kanji 松涛館
Hiragana findo
País  Japão
Fundador Gichin Funakoshi
Adeptos notáveis Jean-Claude Van Damme, Chuck Norris, Lyoto Machida, Michael Jai White, Douglas Brose
Gichin Funakoshi

Shotokan (松涛館) ou xotocã é um dos estilos de caratê que surgiu dos ensinamentos ministrados pelo sensei Gichin Funakoshi e por seu filho, Yoshitaka Funakoshi[a]. O repertório técnico do estilo foi baseado no do Shorin-ryu, mas, devido aos estudos empreendido pelo filho do mestre e sua influência, várias técnicas foram incorporadas e/ou modificadas, de modo a refletir o escopo almejado, que era o de valorizar mais o lado desportivo e físico como forma de promover o desenvolvimento pessoal.

Sensei Funakoshi em princípio não denominou o que ele ensinava de um estilo próprio, mas, antes de tudo, afirmava que ensinava caratê. Por outro lado, é certo que ele ensinava a arte marcial de acordo com sua visão e entendimento particulares sobre a mesma, mas isso seria explicado — também segundo o próprio mestre comentava — como uma consequência natural, pois vários professores ensinariam uma mesma disciplina de modos diferentes. Entretanto, alguns de seus alunos, como forma de o homenagear, manufaturaram uma placa com a inscrição Shotokan, eis que Shoto era a alcunha que o mestre assinava suas obras, pelo que o dojô passou a ser conhecido como "casa de Shoto".[1]

História

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Formação

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Símbolo do estilo Shotokan
Símbolo do estilo Shotokan

Em Okinawa, o pequeno Gichin Funakoshi, por volta de 1880, no fim da infância e começo da adolescência, começou a praticar o caratê sob os auspícios do mestre Anko Asato — experto nos estilos shuri-te, de caratê, e Jigen-ryu, de kenjutsu — que era amigo de seu pai e tinha sido discípulo do grande mestre Bushi Matsumura.[1][2]

O jovem Funakoshi, além de outros interesses muito caros, tinha especial apreço pelas artes marciais, sempre buscando novos ensinamentos. Assim, não depois de enveredar pelo caratê, passa a treinar com mestre Anko Itosu, com quem aprende as principais técnicas.[3] Por outro lado, o aprendizado se deu com outros mestres de renome, com os quais, além de obter novos conhecimentos, também foi influente, como Kenwa Mabuni, Kanryo Higaonna, Chojun Miyagi.[1]

O mestre Itosu empreendera sérios esforços para popularizar a arte marcial, não sendo muito bem-sucedido, porém talvez o mais significativo seja a mudança de nome da arte marcial desarmada de Okinawa, de tode (mão chinesa) para karate (mão vazia), o que significou naquela época, fim do século XIX, uma enorme mudança de paradigma e o rompimento de uma barreira cultural. Funakoshi fez parte dos movimentos e despendeu novos esforços, no sentido de popularizar o caratê não só em sua terra natal mas em todo o Japão. Calhou de, em 6 de março de 1921, o príncipe herdeiro Hirohito assistir a uma demonstração encabeçada por Gichin Funakoshi, no castelo de Shuri, ajudado por seus discípulos e pelo mestre Miyagi.

Depois, em 1922, surgiu o convite do mestre Jigoro Kano — criador do judô — para que fosse feita uma demonstração pública do caratê no instituto Kodokan. Como causou muito boa impressão, Gichin Funakoshi permaneceu em Tóquio por mais algum tempo, a ministrar aulas.[4]

Por volta de 1935, tem início um movimento de alguns discípulos de Gichin Funakoshi, para ter um lugar próprio de treino de caratê e, em 1936, esse esforço dá resultados e é finalmente construído um dojô (道場, sítio de treino) em sua homenagem e o chamaram de Shotokan, ou "casa de Shoto", colocando uma placa com tal inscrição nos umbrais da entrada. Shoto era o pseudônimo com que Funakoshi assinava seus textos. Infelizmente, o prédio original foi destruído durante um bombardeio durante a II Guerra Mundial.

Gichin Funakoshi não acreditava na diversificação de estilos, e sim que todo o caratê deveria ser um só, mesmo com as diferenças naturais de ensino que variam entre os professores, posto que seu estilo ainda fosse tradicional e intimamente conectado ao estilo Shorin-ryu, com bases altas e golpes duros, tendo como base a filosofia do Budo, em cujo conteúdo há a consciência da busca constante pelo aperfeiçoamento pessoal, sempre contribuindo para a harmonização do meio onde se está inserido, por intermédio de muita dedicação ao trabalho, treinamento rigoroso e vida disciplinada. O praticante do caratê tradicional caminha em direção dessas metas, formando seu caráter, aprimorando sua personalidade.[5]

Noutra mão, o estilo Shotokan era uma escola aberta a novos conceitos, desde que se mostrassem eficientes no escopo do mesmo, que era o aprimoramento moral e físico. Neste sentido, o desenvolvimento do estilo foi mui influenciado pelo sensei Yoshitaka Funakoshi, filho do mestre, o qual dava o exemplo de afinco ao treinamento e carreou elementos de outras artes marciais japonesas, como os chutes laterais e o emprego de bases bem mais baixas do que aquelas exercitadas nas escolas derivadas dos estilo Shuri-te e Shorin-ryu. Tanto é assim que se pode identificar dois momentos distintos na evolução do Shotokan: a formação, feita por Gichin Funakoshi, e o amadurecimento, encabeçado por Gigo Funakoshi.[6]

Quando se mudou para Tóquio, mestre Funakoshi admitiu como aluno o já experiente lutador de jiu-jitsu Hironori Otsuka, que ficou impressionado com as proezas que os caratecas faziam em suas demonstrações.[7]

A linhagem Shotokan foi assumida por Masatoshi Nakayama, e permaneceu única (isto é, sob a direção da JKA) até 1977, quando o mestre Hirokazu Kanazawa[8] formou outra dissensão. Nesta última, ao longo do tempo pequenas diferenças foram-se acumulando, principalmente quanto à execução de katas. E, no início do século XXI, outros katas passaram ser treinados, o que acentua ainda mais o distanciamento.

Características

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O estilo Shotokan caracteriza-se por bases fortes e golpes no corpo inteiro.[9] Os giros sobre o calcanhar em posição baixa dão fluidez ao deslocamento e todo movimento começa com uma defesa. Este é um estilo em que as posições têm o centro de gravidade muito baixo, e em que técnicas como um "simples" soco direto são difíceis de se dominar, porém quando a técnica é dominada, o seu poder é impressionante.

O Niju Kun é a síntese do pensamento de Funakoshi sobre como deve ser o espírito do praticante de caratê. São vinte preceitos cujo propósito é dar subsídios acerca da prática cotidiana da modalidade, servindo também como um guia para o autoconhecimento.

Sendo um descendente do shorin-ryu, o estilo adaptou o sistema de kihon criado por Anko Itosu, pelo qual se ensinam as técnicas básicas, os fundamentos técnicos antes de treinar kata ou kumite. Mestre Funakoshi dava ênfase no treinos com kata, mas reconhecia que o praticante devia executar antes os movimentos básicos, para facilitar o aprendizado profundo do caratê, compilados num chute, soco ou projeção.[10]

Logo no início de suas atividades como instrutor de caratê, quando procurava de vários modos divulgar sua arte marcial, o mestre Funakoshi manteve contacto com outros expertos, notadamente o mestre Kenwa Mabuni, por quem a série Heian (à época Pinan) foi introduzida na escola. No princípio, no estilo Shotokan ensinava-se um currículo de quinze katas: Heian shodan, Heian nidan, Heian sandan, Heian yondan, Heian godan, Tekki shodan, Tekii nidan, Tekki sandan, Bassai dai, Kanku dai, Enpi, Gankaku, Jitte, Jion, Hangetsu. Por fim, depois das medidas adoptadas por Yoshitaka Funakoshi, o qual criou a série Taikyoku (com três kata)[b], o estilo passou contar trinta kata.[11][12]

A entidade SKIF, do mestre Kanazawa, entre os períodos final do século XX e inicial do século XXI incorporou outros katas, a saber, Nijuhachiho, Gankaku sho, Seipai e Seienchin.[13] Da mesma forma, o mestre Asai, sem romper com a herança do mestre Funakoshi nem chamar sua escola de estilo diverso, incorporou a prática de outros katas.

Graduação

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As graduações acima são utilizadas no Brasil. Porém, em Portugal[14] e em vários países da Europa, a graduação no caratê Shotokan é diferente, sendo esta a sua ordem[15]:

  • 8ºKyu - Branco;
  • 7ºKyu - Amarela;
  • 6ºKyu - Vermelha;
  • 5ºKyu - Laranja;
  • 4ºKyu - Verde;
  • 3ºKyu - Roxa;
  • 2ºKyu - Marrom;
  • 1ºDan a 10ºDan - Preto.

Competições

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A busca de vitórias em competições não é o principal objetivo do caratê tradicional. As competições são um meio que permitem ao praticante fazer uma autoavaliação técnica e emocional. Vencer ou perder numa competição não é o mais importante, o relevante é o crescimento como lutador e como pessoa que ela proporciona. A prática nunca foi bem vista pelos mestres, chegando a ser peremptoriamente desestimulada por Mestre Funakoshi.[16]

Referências

  1. a b c «Biografias - Karate-do - Funakoshi». Consultado em 21 de fevereiro de 2011. Arquivado do original em 30 de agosto de 2009 
  2. Junior, Carlos Herold (14 de junho de 2014). «ESTÍMULOS À PESQUISA HISTÓRICA SOBRE O KARATE-DO: SHOTOKAN´S SECRET, DE BRUCE D. CLAYTON». Movimento: 1655–1663. ISSN 1982-8918. doi:10.22456/1982-8918.46148. Consultado em 15 de junho de 2025 
  3. «Biografia do Mestre Funakoshi pai do Shotokan». Consultado em 21 de fevereiro de 2011 
  4. Stevens, John. Três mestres do budo. [S.l.: s.n.] p. 69 
  5. «Confederação Brasileira de Karate Shotokan». Consultado em 24 nov. 2010. Arquivado do original em 11 de fevereiro de 2009 
  6. «Yoshitaka Funakoshi, genio del Karate-do» (em espanhol). Consultado em 21 de fevereiro de 2011. Arquivado do original em 18 de maio de 2012 
  7. «FUNAKOSHI». Consultado em 21 de fevereiro de 2011 
  8. «The Shotokan Way: Hirokazu Kanazawa» (em inglês). Consultado em 22 de fevereiro de 2011 
  9. «The History of Shotokan Karate» (em inglês). Consultado em 24 de novembro de 2010. Arquivado do original em 6 de dezembro de 2013 
  10. «Total Karate: Karate Nage Waza - Karate Throwing Techniques» (em inglês). Consultado em 5 de abr. de 2011 
  11. «History of the Pinan / Heian Katas» (em inglês). Consultado em 21 de fevereiro de 2011 
  12. «FightingArts.com - Roots Of Shotokan: Funakoshi's Original 15 Kata - Part 1: Classification & Knowledge Of Kata» (em inglês). Consultado em 7 de mar. de 2012 
  13. «SKIF – USA Newslletter» (PDF) (em inglês). Inverno de 2008. Consultado em 9 de mar. de 2011. Arquivado do original (PDF) em 4 de maio de 2014 
  14. http://www.anam-pt.com
  15. «Associação Nacional de Karate Shotokan». www.anks.pt. Consultado em 27 de dezembro de 2019 
  16. «Institucionalização e Competição em Shotokai (Paralelismos com a Agricultura Biológica e... o Tanden)». Consultado em 22 de fevereiro de 2011 

Ligações externas

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