Kenjutsu

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Kenjutsu, em tradução literal: "Técnica da Espada", é a arte marcial japonesa clássica do combate com espadas. Pode também ser chamada de kendo ou heihō/hyōhō , entre outras denominações possíveis.

História[editar | editar código-fonte]

Kata de kenjutsu do estilo Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu

Existem vários estilos de kenjutsu. Os primórdios da arte remontam ao período Kofun da história japonesa, com registros sobre o Kashima-no-Tachi , ou "espada de Kashima", supostamente ensinada aos soldados Sakimori (防人) que eram destacados para proteger as fronteiras contra ameaças externas. A evolução do kenjutsu se deu basicamente na região de Kashima, Ibaraki, onde havia sete estilos sob a supervisão de sete sacerdotes xintoístas, e na região de Quioto, onde havia oito estilos sob a supervisão de oito monges budistas.

Os estilos de kenjutsu como conhecidos hoje foram tomando forma no período Muromachi (séculos 15 e 16), em particular no período Sengoku. Existem basicamente quatro estilos (alguns definem três) que foram a fonte da grande maioria dos estilos criados posteriormente:

O número de estilos de kenjutsu existentes teve uma grande expansão durante o período Edo (séculos XVI a XIX), registrando-se mais de 500 estilos de kenjutsu em seu auge. Foi nessa época que se começou a praticar kenjutsu com a shinai, a espada de bambu, e com o bogu, a armadura, no que foi o precursor do kendo moderno.

Kata de kenjutsu do estilo Niten Ichi Ryu

Alguns dos principais estilos de kenjutsu que se desenvolveram no período Edo foram:

Com a restauração Meiji, no fim do século XIX, e a proibição do porte de espadas, vários estilos acabaram desaparecendo, fato que se repetiu após a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial. Mas ainda existem vários que sobreviveram até os dias de hoje.

Atualmente, existem duas organizações, a Nihon Kobudô Kyôkai e a Nihon Kobudô Shinkôkai que congregam vários dos estilos de kenjutsu existentes atualmente.

Em diferentes países, existem federações locais. No Brasil existe a CBKob (Confederação Brasileira de Kobudo), antiga CBKen (Confederação Brasileira de Kenjutsu).

Estilos[editar | editar código-fonte]

Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu

É considerado o estilo mais antigo de todo o Japão e é a única tradição marcial a ser reconhecida como bunkasai (tesouro cultural nacional) pelo governo japonês. Foi fundado em por Iisaza Choisai, da província de Chiba. Além do kenjutsu (espada longa, curta e duas espadas), ensina uma ampla gama de outras técnicas, como iaijutsu, bojutsu, naginatajutsu, shurikenjutsu, sojutsu e jujutsu[1].

Hyoho Niten Ichi Ryu[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Hyoho Niten Ichi Ryu

Hyoho Niten Ichi Ryu foi fundado na primeira metade do século XVII por Miyamoto Musashi (1584-1645). Essa técnica utiliza movimentos econômicos, sem espalhafatoso ou movimentos inúteis. Os golpes são exatos, e a distância exata e sem desperdício movimento. O bokken utilizado em Niten Ichi Ryu segue um modelo feito pelo fundador do estilo e que existe ainda em nossos dias.

O Hyoho Niten Ichi Ryu possui técnicas com duas espadas, espada longa, espada curta e bastão[2].

Kashima Shinden Jikishinkage Ryu[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Kashima Shinden Jikishinkage Ryu

A Kashima Shinden foi criado por Matsumoto Bizenno-Kami Naokatsu.

Kashima Shinto Ryu[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Kashima Shinto Ryu

Criado por Tsukahara Bokuden

Ono-ha Itto Ryu[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Ono-ha Itto Ryu

Estilo derivado do Itto Ryu criado por Itto Itosai. Foi criado por seu discípulo, Ono Jirouemon Tadaaki durante o período Edo. Foi um dos estilos oficiais do xogunato Tokugawa.

Prática[editar | editar código-fonte]

O kenjutsu engloba luta com duas espadas simultaneamente

O treinamento de kenjutsu varia de acordo com o estilo em questão. Na maior parte dos estilos o treinamento se baseia em katas (formas pré-arranjadas). Em alguns estilos, a prática dos katas é complementada por treino de luta utilizando equipamentos de proteção.

No treinamento de katas, normalmente, é utilizada uma espada de madeira semelhante a uma katana, chamada bokken ou bokuto. Cada estilo de kenjutsu costuma impor medidas específicas de comprimento, largura e curvatura para o seu bokuto.

Já no treinamento de luta, os dojos que o fazem utilizam alguma forma de proteção para evitar lesões graves. A maior parte utiliza o mesmo equipamento de proteção do kendo, composto por bogu (armadura) e shinai (espada de bambu). Outro equipamento que também pode ser utilizado para lutar é o fukuro-jinai, uma espada semelhante à shinai do kendo, mas com o mesmo comprimento que uma katana e construído a partir de várias tiras de bambu cobertas por um revestimento de couro.

Alguns estilos praticam também corte (tameshigiri e suemonogiri) com shinken(espada de metal com corte).

Cabe lembrar que cada estilo tem características próprias de treino. O praticante já começa o combate com a espada desembainhada. Em alguns estilos, como por exemplo o Niten Ichi ryu, existem técnicas específicas para a utilização de duas espadas, uma em cada mão.

O kenjutsu é uma disciplina física, mental e espiritual; para a sua prática é necessário o equilíbrio entre corpo e mente, mais do que força física e vigor. Os ensinamentos mais profundos do kenjutsu possuem um teor filosófico bastante forte.

Várias artes marciais dela descendem ou sofreram influência, tais como: o kendô, sua versão moderna, que possui uma maior enfase no Dô (formação do caráter humano); o iaidô, arte do desembainhar da espada, e o aikido, que incorpora princípios de treinamento com a espada, embora não a tenha como foco principal.

No Brasil, a prática do kenjutsu encontra-se bem difundida e segue as normas da Confederação Brasileira de Kenjutsu (CBKEN)- fundada por membros do Instituto Cultural Niten e presidida pelo mestre Jorge Kishikawa. Preconiza-se que a prática seja feita com professores filiados a CBKEN (Instituto Cultural Niten) e ao Nihon Kobudo Kyokai.

O kenjutsu no Brasil[editar | editar código-fonte]

É possível que os primeiros praticantes e mestres de kenjutsu tenham vindo ao Brasil durante os primórdios da imigração japonesa, apesar de não existirem dados que comprovem. Atualmente, existem praticantes e mestres que imigraram ao Brasil, bem como alguns que estudaram no Japão e trouxeram os estilos para o país.

Praticantes de kenjutsu prontos para iniciar treino de luta

No Brasil, o kenjutsu se difundiu principalmente através dos ensinamentos do mestre Jorge Kishikawa, que tem em seu vasto currículo o conhecimento de mais de uma dezena de estilos de kenjutsu. Kishikawa possui o Menkyo Kaiden, diploma concedido a aqueles que atingiram a maestria e o domínio em determinado estilo de kenjutsu, no caso o Gosho-ha Niten Ichi Ryu. É um termo em japonês que significa "licença de transmissão total". Kishikawa é discípulo do Shihan Gosho Motoharu.É Shidosha (mestre responsável)do estilo Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu para a América do Sul. Existem outros praticantes de kenjutsu espalhados pelo Brasil, mas são pouco conhecidos.

A Confederação Brasileira de Kobudo, a CBKob, é o órgão responsável pela divulgação e supervisão do kenjutsu em todo o Brasil. Seus professores são filiados também a Nihon Kobudo Kyokai, com sede no Japão.

Atuando com a Nihon Kobudo Kyokai, a CBKob avalia a legitimidade dos estilos praticados, visto que há muitos estilos não reconhecidos no Japão que tem proliferado no exterior. No Brasil são praticados estilos como Hyoho Niten Ichi ryu, Suio Ryu e Kasumi Shinto Ryu (este último como parte do Shindo Muso Ryu), entre outros.

O Brasil é um caso único no mundo, onde o número de praticantes de kenjutsu se equipara ao de kendo[3]

A Confederação Brasileira de Kobudo (CBKob)[editar | editar código-fonte]

3° Torneio Brasileiro por Equipes de Kobudo, 2004

No Brasil os treinamentos de kenjutsu englobam os katas e o uso de equipamentos de proteção (bogu), em que os praticantes experimentam as várias técnicas que existiam nos estilos antigos.

Golpes como o corte de baixo para cima, horizontais, apoiar o dorso da lâmina com as mãos, lançar a espada, ajoelhar-se enquanto golpeia e outras formas antigas e que não foram incluídas na elaboração do kendo esportivo são aplicados a partir das quase 60 posturas de combate. Destaque importante é o estudo do combate com duas espadas, mais conhecido nos filmes e livros sobre o lendário samurai Miyamoto Musashi.

Atualmente, os mais de 40 dojos fundados pelo Instituto Cultural Niten - também presidido pelo mestre Jorge Kishikawa - fazem parte da Confederação Brasileira de Kobudo[carece de fontes?], exclusivamente.

Torneios da Confederação Brasileira de Kobudo CBKob[editar | editar código-fonte]

Os torneios são realizados de acordo com os regulamentos da CBKob e permitem aos atletas combaterem e escolherem as suas armas. Os atletas podem optar por combater com a espada menor apenas, espada maior, ou com as 2 espadas.

O combate é realizado em uma quadra de 10m x 10m sendo que há o en (círculo) no seu interior , semelhante a arena do sumo. O atleta obtém a pontuação com o yuko (bom golpe) equivalendo a meio ponto , ou com o ippon (golpe certeiro) o equivalente a 1 ponto. São necessários dois "yuko" ou um "ippon" para se vencer nos torneios oficiais. O tempo oficial é de 3 minutos.

Esta forma de pontuar advém dos próprios combates dos antigos samurais com espadas, quando era raro, senão impossível , vencer o adversário com um só golpe certeiro. Além de que, minar o adversário pouco a pouco fazia parte de muitos estrategistas da época dos samurais.

O atleta que, durante o combate de kenjutsu, deixa parte de seu corpo fora do en, consagra o "yuko" ao seu oponente, raciocínio comparável ao sumô (no caso do sumô, sair do círculo consagra ippon ao adversário).

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Mol, Serge (2010). Classical swordsmanship of Japan: A Comprehensive Guide to Kenjutsu and Iaijutsu Eibusha [S.l.] pp. 1–320. ISBN 978-90-8133611-6. (em inglês)

    Referências

    Ver também[editar | editar código-fonte]

    Ligações externas[editar | editar código-fonte]