Anarcoprimitivismo

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Bandeira verde-negra, considerada por alguns como símbolo do anarcoprimitivismo

Anarcoprimitivismo é uma crítica anarquista das origens e do progresso da civilização. Primitivistas afirmam que a mudança de caçadores-coletores para a subsistência agrícola deu início à estratificação social, coerção, e alienação. Eles defendem o retorno à meios não-"civilizados" de vida através da desindustrialização, abolição da divisão de trabalho ou especialização, e o abandono da tecnologia moderna.[1] Existem entretanto numerosas outras formas de primitivismo, e nem todos os primitivistas apontam o mesmo fenômeno como a fonte dos problemas modernos e civilizados. Alguns, como Theodore Kaczynski (o Unabomber), veem apenas a Revolução Industrial como o problema, enquanto outros apontam para vários desenvolvimentos na história, como monoteísmo, escrita, o uso de ferramentas de metal, etc. Muitos anarquistas tradicionais rejeitam tal crítica da civilização enquanto outros a apóiam mas não se consideram primitivistas, como Wolfi Landstreicher. Anarco-primitivistas são frequentemente distinguidos pelo seu foco na prática de alcançar um estado selvagem pelo "rewilding" (retorno ao natural).

Origens[editar | editar código-fonte]

Walden obra de Henry David Thoreau, uma das primeiras influente obras dele

O Anarquismo passou a ter uma visão ecológica, principalmente nos escritos do anarquista individualista americano Henry David Thoreau. Em seu livro Walden, ele defende uma vida simples e auto-suficiente num ambiente natural e na resistência ao avanço da civilização industrial.[2] "Muitos viram em Thoreau um dos precursores do ecologismo e anarcoprimitivismo representado hoje por John Zerzan. De acordo com George Woodcock esta atitude pode também ser motivada pela ideia de resistência ao progresso e da rejeição ao crescente materialismo que era a natureza da sociedade norte-americana em meados do século XIX".[2] Zerzan incluíu o texto "Excursões" editado por Thoreau em 1863, em sua compilação de escritos anti-civilização chamados Against Civilization: Readings and Reflections publicado em 1999.[3]

No final do século XIX o Anarcoprimitivismo apareceu como a união de filosofias anarquistas e naturalistas,[4] [5] tendo principalmente importância dentro dos círculos anarquistas individualistas[6] [7] na Espanha,[4] [5] [6] França[6] [8] e Portugal.[9] Foram importantes influências nele Henry David Thoreau,[2] Leo Tolstoy[4] e Elisée Reclus.[10]

Conceitos[editar | editar código-fonte]

Primitivistas afirmam que antes do advento da agricultura, humanos viviam em pequenos bandos nômades, que eram igualitários social, política e economicamente. Não havendo hierarquia, estes bandos são algumas vezes vistos como uma incorporação precursora ao anarquismo.

John Moore escreve que o anarcoprimitivismo procura:

"expor, desafiar e abolir todas as múltiplas formas de poder que estruturam o indivíduo, as relações sociais, e inter-relações com o mundo natural." [1]

Primitivistas alegam que, como resultado da agricultura, as sociedades se tornaram cada vez mais subordinadas aos processos tecnológicos e estruturas de poder abstratas provenientes da divisão do trabalho e hierarquia. Primitivistas discordam sobre qual nível de horticultura estaria presente em uma sociedade anarquista, com alguns defendendo que a permacultura poderia desempenhar um papel, mas outros defendem uma subsistência estritamente caçadora-coletora.

Apesar de sua rejeição do cientificismo, o primitivismo tem dado atenção pesada em antropologia cultural e arqueologia. Desde a metade do último século, sociedades antes vistas como bárbaras foram amplamente reavaliadas por acadêmicos, muitos dos quais agora asseguram que os humanos do passado viviam em relativa paz e prosperidade. Como exemplo, Frank Hole, um especialista em agricultura primitiva, e Kent Flannery, um especialista em civilização Mesoamericana, observaram que, "Nenhum grupo na terra tem mais tempo de lazer do que caçadores e coletores, passando-o principalmente em jogos, conversação e relaxando."(Kirkpatrick Sale, "Dwellers in the Land: The Bioregional Vision")

Acadêmicos como Karl Polanyi e Marshall Sahlins caracterizaram sociedades primitivas como economias de doação com "bens valorizados por sua utilidade ou beleza em vez do custo; mercadorias trocadas mais na base da necessidade do que na troca do valor; ampla distribuição para a sociedade sem considerar o trabalho que seus membros investiram; trabalho executado sem a idéia de salário em retorno ou benefício individual, de fato sem qualquer noção de 'trabalho'." [2].

Outros acadêmicos e pensadores como Paul Shepard, influenciado pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, escreveram sobre o "princípio evolucionário", o qual basicamente afirma que uma espécie removida de seu habitat natural e de seus comportamentos se tornará patológica. Shepard escreveu de inúmeras formas em que o rompimento na "ontogenia" natural do homem que se desenvolveu por milhares de anos de evolução em uma existência coletora foi rompida devida a um estilo de vida sedentário causado pela agricultura, [3].

Civilização[editar | editar código-fonte]

Os primitivistas veem a civilização como a lógica, as instituições, e o aparato físico da domesticação, controle e dominação. Eles focam principalmente na questão das origens. A civilização é vista como a raiz do problema da opressão, e crê-se que ela deva ser desmontada ou destruída.

Os primitivistas descrevem a ascensão da civilização com a mudança dos últimos 10.000 anos de uma existência profundamente conectada com a teia da vida, para uma separada e em controle do resto da vida. Eles afirmam que antes da civilização existia um amplo tempo de lazer, considerável autonomia de ambos os sexos e igualdade social, uma abordagem não-destrutiva ao mundo natural, a ausência de violência organizada, sem instituições mediadoras ou formais, e saúde forte e robustez. Os primitivistas afirmam que a civilização inaugurou as guerras, a subjugação das mulheres, crescimento populacional, trabalho pesado, conceitos de propriedade, hierarquias arraigadas, e virtualmente todas as doenças conhecidas. Eles alegam que a civilização começa e conta com a renúncia forçada da liberdade instintiva e que é impossível reformar tal renúncia.

Uma Crítica da Cultura Simbólica[editar | editar código-fonte]

Os primitivistas veem a mudança para uma cultura quase exclusivamente simbólica como muito problemática, no sentido que ela nos separa de uma interação direta. Geralmente a resposta a este questionamento é, “Então, você só quer ficar grunhindo?". Isto pode ser o desejo de alguns, mas tipicamente a crítica é uma observação dos problemas inerentes com uma forma de comunicação e compreensão que conta principalmente com um pensamento simbólico às custas (e até exclusão) de outros meios sensoriais e não intermediadores. A ênfase no simbólico é um movimento da experiência direta para uma experiência mediada na forma de linguagem, arte, número, tempo, etc.

Os primitivistas afirmam que a cultura simbólica filtra toda nossa percepção por símbolos formais e informais. Está além de apenas dar nomes às coisas, mas ter um relacionamento inteiro com o mundo que chega através da lente da representação. É discutido se os humanos têm por natureza pensamento simbólico ou se foi desenvolvido como uma mudança cultural ou adaptação, mas, de acordo com os primitivistas, o modo simbólico de expressão e entendimento é limitado e a sua dependência excessiva leva à objetificação, alienação, e a uma visão restrita de percepção. Muitos primitivistas promovem e praticam reacender métodos dormentes ou subutilizados de interação e cognição, como o toque e o cheiro, como também experimentando e desenvolvendo modos únicos e pessoais de compreensão e expressão.

A Domesticação da Vida[editar | editar código-fonte]

Domesticação, de acordo com os primitivistas, é o processo que a civilização utiliza para doutrinar e controlar a vida de acordo com sua lógica. Os mecanismos de domesticação incluem: domar, procriar, modificar geneticamente, escolarizar, engaiolar, intimidar, coagir, extorquir, prometer, governar, escravizar, aterrorizar, assassinar, etc. A lista continua incluindo praticamente todo tipo de interação social civilizada. Os primitivistas dizem que seu movimento e seus efeitos são examinados e sentidos por toda sociedade, executados por várias instituições, rituais, e costumes.

Os primitivistas também a descrevem como o processo pelo qual populações nômades humanas antigas mudaram para uma existência sedentária pela agricultura e a criação animal. Eles afirmam que este tipo de domesticação demanda uma relação totalitária tanto com a terra quanto com as plantas e os animais domesticados. Eles dizem que enquanto em um estado de vida natural e selvagem toda a vida compartilha e compete por recursos, a domesticação destrói este equilíbrio. A paisagem domesticada (por exemplo, pastagens/campos agrícolas, e em um menor grau - horticultura e jardinagem) só podem existir com fim do compartilhamento aberto dos recursos que antes existiam; quando antes "isto era de todo mundo", agora é "meu". Os primitivistas afirmam que esta noção de posse estabeleceu as bases para uma hierarquia, quando propriedade e poder surgiram.

Para os primitivistas a domesticação não apenas modifica a ecologia de uma ordem livre para uma totalitária, mas também escraviza as espécies que são domesticadas.

As Origens e Dinâmicas da Patriarquia[editar | editar código-fonte]

Os primitivistas afirmam que no início do caminho na mudança para uma civilização, o produto inicial da domesticação é a patriarquia: a formalização da dominação masculina e o desenvolvimento de instituições que a reforçam. Os primitivistas dizem que ao criar falsas distinções de gênero e divisões entre homens e mulheres, a civilização, novamente, cria mais uma forma de objetificar, controlar, dominar, utilizar e comoditizar. Eles veem isto como um paralelo à domesticação de plantas para agricultura e animais para rebanho, em dinâmicas gerais, e também nas específicas como o controle de reprodução. Os primitivistas dizem que como em outras realidades de estratificação social, papéis são dados às mulheres para estabelecer uma ordem bem rígida e previsível, benéfica à hierarquia. Eles afirmam que mulheres passaram a ser vistas como propriedade, como as plantações no campo ou as ovelhas no pasto. Os primitivistas dizem que a posse e o controle absoluto da terra, plantas, animais, escravos, crianças, ou mulheres, é parte da dinâmica estabelecida da civilização.

A patriarquia, para um primitivista, demanda a subjugação do feminino e a usurpação da natureza, levando-nos à total aniquilação. Além disso, eles afirmam que ela define o poder, o controle e o domínio sobre o selvagem, a liberdade e a vida. Eles dizem que o condicionamento patriarcal dita todas as nossas interações: com nós mesmos, nossa sexualidade, nossos relacionamentos com cada um, e nosso relacionamento com a natureza. Eles afirmam que ela limita severamente o espectro da experiência possível.

Divisão do Trabalho e Especialização[editar | editar código-fonte]

Os primitivistas tendem a ver a divisão de trabalho e a especialização como problemas fundamentais e irreconciliáveis, decisivos para o relacionamento social dentro da civilização. Eles veem esta desconexão da habilidade de tomar conta de nós mesmos e prover nossas próprias necessidades como uma técnica de separação e desempoderar perpetuados pela civilização. A especialização é vista a levar a desigualdades inevitáveis de influência e a minar relacionamentos igualitários.

Rejeição da Ciência[editar | editar código-fonte]

Os primitivistas rejeitam a ciência mecanicista moderna como um método de compreender o mundo. A ciência, da maneira que frequentemente tem sido conduzida, não é considerada neutra. Ela é vista carregada com os motivos e suposições que saíram da civilização e a reforçam.

A ciência moderna é entendida como uma tentativa de ver o mundo como uma coleção de objetos separados para serem observados e compreendidos. Para cumprir esta tarefa o cientista precisa se distanciar emocionalmente e fisicamente, para ter um canal de mão única de informação, movendo-se da coisa observada para o "self", que é definido como não sendo parte da coisa.

Os primitivistas afirmam que esta é uma visão mecanicista, sendo a religião dominante do nosso tempo. Como a ciência procura lidar somente com o quantitativo, os primitivistas sugerem que ela não admite valores ou emoções. Enquanto a ciência alega que somente coisas que são reproduzíveis, previsíveis e iguais para todos os observadores são reais e importantes, os primitivistas dizem que a realidade nela mesma não é reproduzível, previsível ou igual para todos os observadores.

Os primitivistas veem que a ciência só considera parcialmente a realidade, uma crítica feita contra a ciência moderna por muitos, de sua suposição reducionista. Observabilidade, objectivação, quantificabilidade, previsibilidade, controlabilidade e uniformidade são vistos como os métodos e os objetivos da ciência. Isto, de acordo com os primitivistas, leva a uma visão de mundo em que tudo deve ser objetivizado, quantificado, controlado e em uniformidade com tudo e com todos. Os primitivistas também veem que a ciência promove a idéia de que experiências anômalas, ideias anômalas e pessoas anômalas devam ser erradicadas ou destruídas como as peças imperfeitas de uma máquina.

O Problema da Tecnologia[editar | editar código-fonte]

Os primitivistas rejeitam completamente a tecnologia moderna. Eles a veem como um sistema complexo envolvendo divisão do trabalho, extração de recursos, e exploração para o benefício daqueles que implementam o processo. Eles afirmam que a interação e o resultado da tecnologia é sempre uma realidade alienada, mediada e distorcida. A tecnologia também é vista, como a ciência, como não neutra. Acredita-se que os valores e objetivos dos que produzem e controlam a tecnologia estão embutidos com ela.

A tecnologia é mantida distinta de ferramentas simples em muitos aspectos. Uma ferramenta simples é considerada como o uso temporário de um elemento dentro do que nos cerca, utilizada para uma tarefa específica. As ferramentas não são vistas como parte de sistemas complexos que alienam o usuário do ato. Os primitivistas dizem que está implícito na tecnologia esta separação, criando uma experiência não saudável e mediada que leva a várias formas de autoridade. É dito que a dominação aumenta toda vez que uma tecnologia para "economizar tempo" é criada, pelo fato de que ela necessita da construção de mais tecnologia para suportar, mover, manter e consertar a tecnologia original. É dito que isto leva rapidamente ao estabelecimento de um sistema tecnológico complexo que parece ter uma existência independente dos humanos que a criaram. Os primitivistas acreditam que este sistema destrói, elimina, ou subordina metodicamente o mundo natural, construindo um mundo adequado apenas para máquinas.

Produção e Industrialismo[editar | editar código-fonte]

De acordo com os primitivistas, um componente chave da estrutura tecno-capitalista moderna é o industrialismo, o sistema mecanizado de produção construído em cima de um poder centralizado e na exploração de pessoas e da natureza. O industrialismo não pode existir, eles dizem, sem genocídio, ecocídio, e colonialismo. Além disso, eles dizem que para mantê-lo, a coerção, os despejos, o trabalho forçado, a destruição cultural, a assimilação, a devastação ecológica e a globalização são aceitos como necessários, até mesmo benignos. Os primitivistas afirmam que a padronização da vida pelo industrialismo a objetifica e comoditiza, vendo toda a vida como um recurso em potencial. Eles veem sua crítica ao industrialismo como uma continuação natural da crítica anarquista do estado porque eles veem o industrialismo como inerentemente autoritário.

O argumento primitivista contra o industrialismo é este: Para manter uma sociedade industrial, é necessário buscar conquistar e colonizar terras para adquirir (geralmente) recursos não-renováveis para abastecer e lubrificar as máquinas. Esse colonialismo é racionalizado pelo racismo, sexismo, e chauvinismo cultural. No processo de adquirir estes recursos, as pessoas têm que ser forçadas para fora de suas terras. E para fazer com que as pessoas trabalhem nas fábricas produzam as máquinas, elas têm que ser escravizados, feitas dependentes, e também sujeitas ao sistema industrial degradante, tóxico e destrutivo.

Os primitivistas dizem que o industrialismo não poderia existir sem uma centralização e especialização em massa. Além disso, afirmam que o industrialismo necessita que os recursos sejam transportados por todo o planeta para perpetuar sua existência, e este "globalismo" elimina a autonomia local e a auto-suficiência.

Finalmente, os primitivistas sustentam que é uma visão mundial mecanicista a que está por trás do industrialismo e essa mesma visão mundial justificou a escravidão, extermínios e a subjugação das mulheres.

Além do Esquerdismo[editar | editar código-fonte]

Os primitivistas não se veem como parte da esquerda. Em vez disso, veem os movimentos socialistas e liberais como falidos. Os primitivistas afirmam que a Esquerda provou-se uma falha monumental em seus objetivos. A Esquerda, de acordo com os primitivistas, é um termo genérico e pode aproximadamente descrever todas as tendências socialistas (desde democratas sociais e liberais até maoístas e stalinistas) que desejam ressocializar "as massas" em um plano mais "progressivo", geralmente utilizando de abordagens coercitivas e manipulativas para criar uma falsa "unidade" ou a criação de partidos políticos. Apesar de os primitivistas compreenderem que os métodos ou os extremos na implementação podem divergir, o sentido básico é visto como o mesmo: a instituição de uma visão mundial coletivizada monolítica baseada na moralidade.

Contra a Sociedade de Massa[editar | editar código-fonte]

A maioria dos anarquistas e “revolucionários" gasta grande parte de seu tempo desenvolvendo esquemas e mecanismos para a produção, distribuição, adjudicação, e comunicação entre grande número de pessoas; em outras palavras, o funcionamento de uma sociedade complexa. Os primitivistas não aceitam a premissa de uma coordenação e uma interdependência social global (ou até mesmo regional), política, e econômica, ou a organização necessária para a sua administração. Eles rejeitam a sociedade de massa por razões práticas e filosóficas. Primeiro, eles rejeitam a representação necessária inerente para o funcionamento de situações além da realidade da experiência direta (modos completamente descentralizados de existência). Eles não desejam dirigir ou organizar uma sociedade diferente.

Eles querem um quadro de referência completamente diferente. Eles querem um mundo onde cada grupo seja autônomo e decida em seus próprios termos como viver, com todas as interações baseadas em afinidade, livres e abertas, e não coercitivas. Eles querem uma vida na qual vivam, e não uma que seja dirigida.

De acordo com os primitivistas a sociedade de massa bate de frente brutalmente não somente com a autonomia e o indivíduo, mas também com a terra. Eles a veem simplesmente como não sustentável (em termos de extração de recursos, transporte, e sistemas de comunicação necessários para qualquer sistema econômico global) para continuá-la, ou para dar planos alternativos para uma sociedade de massa.

Libertação e Organização[editar | editar código-fonte]

Os primitivistas afirmam que modelos de organização apenas nos dão mais do mesmo. Apesar de ser reconhecido por alguns primitivistas que possa haver ocasionalmente uma boa intenção, o modelo organizacional é visto como fruto de uma mentalidade inerentemente paternalista e de desconfiança, que eles dizem ser contraditório à anarquia. Os primitivistas acreditam que verdadeiros relacionamentos de afinidade vêm de um entendimento mais profundo entre pessoas, por relacionamentos baseados na necessidade da vida cotidiana, não em relacionamentos baseados em organizações, ideologias, ou ideias abstratas. Eles dizem que o modelo organizacional suprime as necessidades individuais e os desejos "para o bem do coletivo" quando tenta-se padronizar tanto resistência quanto visão. Desde partidos, a plataformas e a federações, os primitivistas afirmam que à medida que a escala do projeto aumenta, o significado e a relevância que eles têm para a vida individual diminui.

Em vez do modelo organizacional familiar, os primitivistas defendem o uso de associações informais baseadas em afinidades, que tendem a minimizar a alienação de decisões e processos, e a reduzir a mediação entre nossos desejos e nossas ações.

Revolução vs. Reforma[editar | editar código-fonte]

Como anarquistas, os primitivistas são fundamentalmente opostos a um governo e, também, a qualquer tipo de colaboração ou mediação com o estado (ou qualquer instituição de hierarquia e controle). Esta posição determina uma certa continuidade ou direção de estratégia, historicamente referenciada como revolução. Por revolução, os primitivistas definem como a luta contínua para alterar o cenário social e político de um modo fundamental: para os anarquistas, isso significa desmanche completo. A palavra "revolução" é vista como dependente da posição em que é direcionada, como também do que seria chamado de atividade "revolucionária". Novamente, para os anarquistas, esta é a atividade almejada na dissolução completa do poder.

Por outro lado, a reforma é vista englobando qualquer atividade ou estratégia com o objetivo de ajustar, alterar, ou manter seletivamente elementos do sistema atual, tipicamente utilizando os métodos ou o aparato deste sistema. Os objetivos e métodos da revolução não podem ser ditados ou apresentados dentro do contexto do sistema. Para os anarquistas, a revolução e a reforma invocam métodos e objetivos incompatíveis, e apesar de certas abordagens, não existem em um continuum.

Para os primitivistas, a atividade revolucionária questiona, desafia, e trabalha para desmantelar toda a configuração ou o paradigma da civilização. A revolução não é vista como um evento singular inalcançável ou distante no qual tenta-se alcançar ou preparar as pessoas para ele, mas em vez disso, um modo de vida ou uma prática de abordar situações.

Influências[editar | editar código-fonte]

Os anarquistas contribuem para uma direção anti-autoritária, que desafia todo o poder em um nível fundamental, empenhando por relacionamentos realmente igualitários e promovendo comunidades de apoio mútuo. Entretanto, os primitivistas estendem ideias de não-dominação a todas as formas de vida, não apenas humanas, indo além da análise anarquista tradicional. Pelos antropólogos, os primitivistas obtêm uma visão das origens da civilização, compreendendo o que estamos enfrentando e como chegamos aqui, para auxiliar em uma mudança de direção. Inspirados pelos ludditas, reacendem uma orientação de ação direta antitecnológica e industrial. Insurrecionalistas introduzem uma perspectiva que em vez de esperar pelo refinamento da crítica, identifica e espontaneamente ataca as atuais instituições da civilização.

Os primitivistas devem muito aos Situacionistas e sua crítica da sociedade alienante de mercadoria. A Ecologia profunda dá à perspectiva primitivista uma compreensão de que o bem-estar e o florescimento de toda a vida está ligado à consciência do valor intrínseco do mundo não-humano independente do valor de uso. Os primitivistas veem a apreciação da ecologia profunda pela riqueza e diversidade da vida contribuir para chegar à conclusão de que a interferência humana presente no mundo não-humano é coerciva e excessiva.

Os biorregionalistas trazem a perspectiva de viver dentro de sua própria biorregião, e estar intimamente ligado à terra, água, clima, plantas, animais, e formas gerais de sua biorregião. Os ecofeministas contribuíram para a compreensão das raízes, dinâmicas, manifestações, e realidade da patriarquia, e seu efeito na terra, mulheres em particular, e na humanidade em geral. Recentemente, a separação dos humanos da terra (civilização) foi provavelmente articulada mais claramente e intensivamente por eco-feministas.

Os primitivistas foram profundamente influenciados pelas várias culturas indígenas e nativas da história e daquelas que ainda existem atualmente. Apesar de que os primitivistas tentam aprender e incorporar técnicas sustentáveis de sobrevivência e modos mais saudáveis de interagir com a vida, eles observam que é importante não infamar ou generalizar os nativos e suas culturas, e respeitar e tentar entender suas diversidades sem cooptar identidades e características culturais. Os primitivistas também percebem que é importante compreender que todos os humanos vieram de pessoas que viviam da terra, removidas à força de suas conexões com a terra, e também têm um lugar dentro de lutas anticoloniais.

Eles também são inspirados pelo feral, aqueles que escaparam da domesticação e reintegraram-se com o selvagem. E, claramente, os seres selvagens que constituem a Terra. É importante lembrar que, apesar de muitos anarco-primitivistas trazerem influência de fontes similares, o anarcoprimitivismo é algo muito pessoal para cada um que se identifica ou conecta com estas ideias e ações.

Retorno ao Natural e Reconexão[editar | editar código-fonte]

Para a maioria dos anarco-primitivistas, o retorno ao natural e a reconexão com a terra é um projeto de vida. Eles afirmam que não deve ser limitado a uma compreensão intelectual ou à prática de habilidades primitivas, mas que, em vez disso, é uma compreensão mais profunda dos modos dominantes em que somos domesticados, fraturados, e deslocados de nós mesmos e do mundo. Entende-se que o retorno ao natural possui um componente físico que envolve recuperar habilidades e desenvolver métodos para uma coexistência sustentável, incluindo como alimentar-se, abrigar-se e tratar-se com as plantas, animais e materiais encontrados naturalmente em nossas biorregiões. Também é dito incluir o desmancho da manifestação física, do aparato e da infraestrutura da civilização.

Descreve-se que o retorno ao natural possui um componente emocional, que abrange curar nós mesmos o que é percebido como ferimentos de 10.000 anos de idade, aprendendo a viver juntos em comunidades não-hierárquicas e não-opressivas, e desconstruir a mentalidade domesticada dos nossos padrões sociais. Para o primitivista, "o retorno ao natural inclui priorizar a experiência direta e a paixão sobre a mediação e alienação, repensando toda dinâmica e aspecto da realidade, unindo-se à nossa fúria feral para defender nossas vidas e para lutar por uma existência libertada, desenvolvendo mais confiança em nossa intuição e estando mais conectado com nossos instintos, e recuperando o equilíbrio que foi virtualmente destruído após milhares de anos de controle patriarcal e domesticação. O retorno ao natural é o processo de se tornar não-civilizado." (da cartilha O que é a Anarquia Verde, "What Is Green Anarchy")[4].

Associações[editar | editar código-fonte]

Nos Estados Unidos o primitivismo tem sido notavelmente defendido pelo escritor John Zerzan e em um menor nível Derrick Jensen. O movimento primitivista tem conexões com o ambientalismo radical, ganhando alguma atenção devido às ideias de Theodore Kaczynski (também conhecido como o "Unabomber") seguindo sua campanha luddita. Recentemente, o primitivismo tem sido explorado com entusiasmo pelo Green Anarchy, Species Traitor, e ocasionalmente Anarchy: A Journal of Desire Armed, Fifth Estate, e até mesmo CrimethInc..

Durante a década de 1990 a publicação do Reino Unido Green Anarchist alinhou-se com o primitivismo, apesar de existirem muitos anarquistas verdes que não são primitivistas.

Anarquistas anticivilização também organizam grupos na Espanha, Israel, Turquia, Índia, e Brasil.

O anarcoprimitivismo está associado e tem influenciado tendências radicais dentro do Neo-Tribalismo.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências e Bibliografia

  1. Anarcho-primitivism.
  2. a b c "Sua obra mais representativa é Walden, publicada em 1854, apesar de escrita entre 1845 e 1847, quando Thoreau decidiu viver no isolamento de uma cabana no bosque, vivendo em íntimo contacto com a naturaleza. Desta experiencia, sua filosofía trata de transmitir-nos a idéia que é necessário um retorno respeitoso a Natureza" "LA INSUMISIÓN VOLUNTARIA. EL ANARQUISMO INDIVIDUALISTA ESPAÑOL DURANTE LA DICTADURA Y LA SEGUNDA REPÚBLICA (1923–1938)" por Xavier Diez
  3. Zerzan, John. 'Against Civilization: Readings and Reflections'. [S.l.]: Feral House. ISBN 0-922915-98-9
  4. a b c EL NATURISMO LIBERTARIO EN LA PENÍNSULA IBÉRICA (1890–1939) by Jose Maria Rosello
  5. a b "Anarchism, Nudism, Naturism" by Carlos Ortega
  6. a b c "LA INSUMISIÓN VOLUNTARIA. EL ANARQUISMO INDIVIDUALISTA ESPAÑOL DURANTE LA DICTADURA Y LA SEGUNDA REPÚBLICA (1923–1938)" by Xavier Diez
  7. "Anarchisme et naturisme, aujourd'hui." by Cathy Ytak
  8. Resumo do artigo l'En-Dehors consacrés au naturisme et au nudisme
  9. "Anarchisme et naturisme au Portugal, dans les années 1920" no Les anarchistes du Portugal de João Freire
  10. "The pioneers"
  • Zerzan, John (ed.) (2005). Against Civilization: Readings and Reflections, illus. R. L. Tubbesing, enl. ed., Los Angeles: Feral House. ISBN 0-922915-98-9.
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  • Green Anarchy: An Anti-Civilization Journal of Theory and Action
  • Species Traitor: An Insurrectionary Anarcho-Primitivist Journal
  • Disorderly Conduct (journal)
  • Fifth Estate: An Anti-Authoritarian Magazine of Ideas and Action
  • Barclay, Harold (1990). People without Government: An Anthropology of Anarchy, rev. ed., Seattle: Left Bank Books. ISBN 0-939306-09-3.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]