António Botto

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António Tomás Botto (Concavada, Abrantes, 17 de Agosto de 1897Rio de Janeiro, 16 de Março de 1959) foi um poeta português.

A sua obra mais popular (e mais polémica) são as Canções, livro de poemas alguns de carácter claramente homoerótico, coisa até então inédita na lírica portuguesa, causando grande escândalo entre os meios reaccionários da época. Foi amigo pessoal de Fernando Pessoa, que foi seu editor e traduziu em 1930 as suas Canções para o inglês, e com quem colaborou numa Antologia de Poemas Portugueses Modernos. Botto era notoriamente homossexual, mas viveu com uma mulher até morrer. Maltratado em Portugal, em 1947 viajou para o Brasil, onde viveu os últimos anos em grande penúria. Morreu em 1959, no Rio de Janeiro.

Vida[editar | editar código-fonte]

Os primeiros anos[editar | editar código-fonte]

António Botto nasceu em Concavada, freguesia do concelho de Abrantes, Portugal[1] , filho de Maria Pires Agudo e de Francisco Thomaz Botto. O seu pai trabalhava como "marítimo" no rio Tejo. Em 1908 a sua família mudou-se para Alfama em Lisboa, onde cresceu no ambiente popular e típico desse bairro, que muito influenciou a sua obra. Tinha apenas a 4ª classe, mas cultivou-se em virtude de ter trabalhado em livrarias, onde conviveu com muitas das personalidades literárias da época, e foi funcionário público. Em 1924 - 25 trabalhou em Santo António do Zaire e Luanda, na então colónia de Angola.

Personalidade[editar | editar código-fonte]

António Botto tinha uma personalidade marcada. Descrevem-no como magro, de estatura média, um dandy, de rosto oval, a boca muito pequena de lábios finos, os olhos amendoados, estranhos, inquisitivos e irónicos (de onde por vezes irrompia uma expressão perturbadoramente maliciosa) que ele frequentemente ocultava sob a sombra do chapéu[2] .

Tinha um sentido de humor sardónico, incisivo, uma mente e língua perversos, irreverentes, sendo conversador brilhante e inteligente. Era amigo do seu amigo, mas tornava-se muito desagradável se sentia que alguém antipatizava com ele ou não o tratava com a admiração incondicional que ele julgava merecer. Este seu feitio criou-lhe um grande número de inimigos. Alguns dos seus contemporâneos consideravam-no frívolo, mercurial, mundano, inculto, vingativo, mitómano, maldizente e, sobretudo, terrivelmente narcisista a ponto de ser megalómano[3] e fantasioso.

Frequentava regularmente os bairros boémios de Lisboa e as docas marítimas onde disfrutava da companhia dos marinheiros, tantas vezes tema da sua poesia. Apesar de homossexual, António Botto viveu em união de facto até fim da sua vida com Carminda Silva Rodrigues ("O casamento convém a todo homem belo e decadente", como escreveu[4] ).

Demitido[editar | editar código-fonte]

Em 9 de Novembro de 1942[5] António Botto foi demitido do seu emprego na função pública (escriturário de primeira-classe do Arquivo Geral de Identificação) por:

"a) ter desacatado uma ordem verbal de transferência dada pelo primeiro oficial investido ao tempo em funções de director, por impedimento do efectivo;

b) não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social;

c) fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição, prejudicando assim não só o rendimento dos serviços mas a sua própria disciplina interna."

Ao ler o anúncio publicado no Diário do Governo, Botto ficou profundamente desmoralizado e comentou com ironia: "Sou o único homossexual reconhecido no País..."

Para se sustentar passou a escrever artigos, colunas e crítica literária em jornais, entre os quais a revista Contemporânea (1915-1926) e a Revista municipal(1939-1973), e publicou vários livros, entre os quais "Os Contos de António Botto" e "O Livro das Crianças", uma colecção de sucesso de contos para crianças (que seria oficialmente aprovada como leitura escolar na Irlanda, sob o título The Children’s Book, traduzido por Alice Lawrence Oram). Mas tudo isto se revelou insuficiente. A sua saúde deteriou-se devido a sífilis terciária que ele recusava tratar e o brilho da sua poesia começou a desvanecer-se. Era alvo de chacota quando ia a cafés, livrarias e teatros. Por fim, cansou-se de viver em Lisboa e em 1947 decidiu tentar a sua sorte no Brasil. Para juntar dinheiro para a viagem[6] organizou, em Maio desse ano, recitais de poesia em Lisboa e no Porto, que resultaram em grandes sucessos, com elogios por parte de vários intelectuais e artistas, entre os quais Amália Rodrigues, João Villaret e o escritor Aquilino Ribeiro. A 17 de Agosto partiu finalmente para o Brasil com a sua mulher.

Últimos anos[editar | editar código-fonte]

No Brasil,[7] foi muito bem recebido pelos intelectuais e pelo público, mais em breve a sua situação começou a ser problemática, o habitual padrão de fascínio e rejeição volta a repetir-se também ali. Morou em São Paulo, cidade de que não gostou. Em Niterói, recorreu a um esquema fraudulento junto de uma empresa de construção, intitulando-se "engenheiro-arquitecto". O assunto acabou em tribunal, tendo-lhe sido atribuída uma indemnização(!). Em 1951 mudou-se para o Rio de Janeiro. Sobreviveu dos modestos direitos de autor que ia recebendo, da escrita de artigos e colunas em jornais portugueses e brasileiros, participando em programas de rádio e organizando récitas de poesia em teatros, associações, clubes e, por fim, botequins, e quase sempre de empréstimos de amigos a quem nunca pagava.

A sua vida foi-se degradando de dia para dia e acabou por viver em aflitiva pobreza, em permanentes mudanças de hóteis e pensões (cada vez mais decrépitos) e casas arrendadas, em frequentes conflitos com senhorios e vizinhos (que muitas vezes o atacavam e atormentavam pela sua homossexualidade). A sua megalomania agravada pela sifílis era gritante e não parava de contar histórias delirantes das visitas que André Gide lhe teria feito em Lisboa ("Se não foi o Gide, então foi o Marcel Proust..."), de ser o maior poeta vivo ou de ser o dono de São Paulo. Em 1954 pediu para ser repatriado, mas desistiu por falta de dinheiro para a viagem. Em 1956 ficou gravemente doente e foi hospitalizado por algum tempo.

Na noite de 4 de Março de 1959, ao atravessar a Avenida Copacabana, no Rio de Janeiro, foi atropelado por uma viatura do governo, sofrendo uma fractura do crânio e ficando em coma.[8] Cerca das 17h00 de 16 de Março de 1959, no Hospital da Beneficência Portuguesa, Botto, mal barbeado e pobremente vestido, expira, abraçado pela sua inconsolável mulher, que o chora perdidamente.[9]

Em 29 de Outubro de 1965 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa, por via aérea, mas só em 11 de Novembro de 1966 foram depositados num gavetão no Cemitério do Alto de São João, tendo assistido ao acto José Régio, David Mourão-Ferreira, Natália Correia, entre outros.

O seu espólio será enviado do Brasil pela sua viúva Carminda Rodrigues a um parente, que o doará, em 1989, à Biblioteca Nacional.

A obra poética[editar | editar código-fonte]

"Literatura de Sodoma"[editar | editar código-fonte]

A tempestade desencadeada por Canções e por "Sodoma Divinizada", bem como por outras obras e artigos que apareciam nas livrarias e jornais da época de que importa destacar "Decadência" de Judite Teixeira, foi tremenda, e a Federação Académica de Lisboa, tendo como porta-voz Pedro Teotónio Pereira, denuncia no jornal "A Época", em fevereiro de 1923, a "vergonhosíssima desmoralização, que sob os mais repugnantes aspectos, alastra constantemente".

A Federação Académica de Lisboa estaria com grande probabilidade apenas a servir de face pública das vontades do poder instituído da época porque pouco depois, em Março, é ordenada pelo Governo Civil de Lisboa a apreensão dos já mencionados livros de Botto, Raul Leal e Judite Teixeira.

Fernando Pessoa e Álvaro de Campos protestam contra o ataque dos estudantes a Raul Leal: "Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. (...) Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte. Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível". Mas com pouco efeito. O impulso censório, moralista, obscurantista e homofóbico, ganha força com o regime do Estado Novo e a revista "Ordem Nova" declara-se "antimoderna, antiliberal, antidemocrática, antibolchevista e antiburguesa; contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica; intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e quaisquer profissionais das letras, das artes e da informação". António Botto acaba por se ver forçado a emigrar para o Brasil e Raul Leal será vitíma de espancamentos e deixará de escrever para jornais durante 23 anos.

Um reconhecimento que tarda[editar | editar código-fonte]

"A vasta obra poética de Botto, em parte ainda dispersa ou não-recoligida, apesar de e também pelo muito que ele publicou, republicou, reorganizou em volumes dispersos ou suprimia de volumes anteriores, etc., poderá repartir-se em quatro fases: a juvenil, em que continua o tom da quadra dita popular, conjugando-o com aspectos da dicção simbolista que poetas como Correia de Oliveira, Augusto Gil, e sobretudo Lopes Vieira haviam introduzido nela; a simbolistico-esteticista, em que a juvenilidade tradicionalizante se literaliza dos requebros esteticísticos que marcaram, nos anos 20, muita poesia simultâneamente da tradição saudosista e modernista (é a das primeiras edições das Canções e breves plaquetes seguintes, em que todavia a personalidade do poeta já figura inteira em diversos poemas); a fase pessoal e original, nos anos 30, desde as edições de 1930-32 das Canções (em que ele ia incorporando selecções de colectâneas anteriores) até a Vida Que Te Dei e Os Sonetos (fase que é também a dos seus excepcionais contos infantis que tiveram realmente as edições estrangeiras que se julgava ser uma das mentiras megalomaníacas do poeta, da «novela dramática» António, e da peça Alfama); e a última fase, nos anos 40 e 50, até à morte que é a de uma longa e triste decadência, com poemas desvairadamente oportunistas, revisões desastrosas afectando nas reedições alguns dos melhores poemas anteriores [...]" em Líricas Portuguesas, de Jorge de Sena.

Sobre a poesia de António Botto escreveu Fernando Pessoa no prefácio do seu livro Motivos de Beleza, publicado em 1923:

"A elegância espontânea do seu pensamento, a dolência latente de sua emoção asseguram-lhe facilmente, conjugando-se, a mestria nesta espécie de lirismo [...] Distingue-se pela simplicidade perversa e pela preocupação estética destituída de preocupações. Foge da complicação com o mesmo ardor com que se esconde da intenção directa. É em verdade singular que se seja simples para dizer exactamente outra coisa, e se vá buscar as palavras mais naturais para por meio delas ter entendimentos secretos.
Certo é que o que António Botto escreve, em verso ou em prosa, há que ser lido sempre com a intenção posta em o que não está lá escrito."

Obras[editar | editar código-fonte]

Poesia
  • Trovas (1917)
  • Cantigas de Saudade (1918)
  • Cantares (1919)
  • Canções do Sul (1920)
  • Canções (várias edições, revistas e acrescentadas pelo autor, entre 1921 e 1932) (eBook)
  • Motivos de Beleza (1923)
  • Curiosidades Estéticas (1924)
  • Pequenas Esculturas (1925)
  • Olimpíadas (1927)
  • Dandismo (1928)
  • Ciúme (1934)
  • Baionetas da Morte (1936)
  • A Vida Que te Dei (1938)
  • Sonetos (1938)
  • O Livro do Povo (1944)
  • Ódio e Amor (1947)
  • Fátima - Poema do Mundo (1955)
  • Ainda Não se Escreveu (1959)
Ficção
  • António (1933)
  • Isto Sucedeu Assim (1940)
  • Os Contos de António Botto (1942) - literatura infantil
  • Ele Que Diga Se Eu Minto (1945)
Teatro

Esgotada desde há muitos anos, a obra completa de António Botto começou a ser reeditada, em 2008, pelas Quasi Edições (Lisboa), a cargo do crítico literário e escritor Eduardo Pitta.

Traduções[editar | editar código-fonte]

  • OLeabhar na hÓige. Scéalta ón bPortaingéilis (literalmente "O Livro das Crianças. Estórias dos Portugueses"). Oifig an tSolatháir: Baile Átha Cliath, 1941 -- Os contos de António Botto, tradução irlandesa.
  • Songs, 1948 -- Canções, tradução para Inglês de Fernando Pessoa.
  • The Songs of António Botto translated by Fernando Pessoa -- Canções traduzido por Fernando Pessoa e publicado/introduzido por Josiah Blackmore. University of Minnesota Press, Minneapolis, 2010.

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Prémio António Botto[editar | editar código-fonte]

Prémio atribuído pela Câmara Municipal de Abrantes a autores de literatura infantil. Foram atribuídos os prémios aos seguintes autores e respectivas obras:

José Régio[editar | editar código-fonte]

Em 1938 é publicado no Porto o ensaio António Botto e o Amor da autoria de José Régio, considerado como uma arrojada análise psico-poética do poeta das Canções.

Eugénio de Andrade[editar | editar código-fonte]

Em 1938, Eugénio de Andrade envia a António Botto alguns dos seus poemas solicitando um encontro, onde ouve falar pela primeira vez de Fernando Pessoa, que será marcante para a sua obra. Em 1939, encorajado por António Botto publica Narciso, o seu primeiro poema.

Notas e referências

  1. O assento de baptismo refere que nasceu às oito horas da manhã (ascendente Virgem). Contudo, o horóscopo calculado por Fernando Pessoa indica três horas da manhã (ascendente Caranguejo), provavelmente a hora que António Botto lhe facultou.
  2. Simões, João Gaspar: Retratos de Poetas que Conheci, Brasília Editora, Porto, 1974.
  3. Almada Negreiros disse que Botto era uma "serpente" (Simões, p. 175).
  4. Curiosidades Estéticas, Canção VII
  5. Diário do Governo, II série, nº 262, 9 de novembro de 1942, pp. 5794–96.
  6. Sabe-se hoje que o principal apoio financeiro veio do banqueiro Ricardo Espírito Santo, a pedido de Salazar, que se sentia muito incomodado com a situação desesperada do poeta. (Dacosta, Fernando: As Máscaras de Salazar, Lisboa, 2006.)
  7. Consultar António Botto no Brasil por António Sales, série de 18 artigos publicados no blog Estrolabio[1]
  8. João Gaspar Simões, em artigo por si publicado, refere que uma testemhunha teria visto Botto atirar-se para a frente do carro, pelo que um possível suicídio não é de descartar.
  9. Fotografia de Botto no seu leito de morte, publicada nos anos 80 pelo Jornal do Incrível de Roussado Pinto (Lisboa).

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]