Crise búlgara (1885-1888)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

A Crise da Bulgária (Българска криза) refere-se a uma série de acontecimentos nos Bálcãs entre 1885 e 1888 que impactaram no equilíbrio de poder entre as grandes potências e nos conflitos entre os austro-húngaros e russos. Foi um episódio na contínua crise balcânica visto que os povos vassalos lutavam pela independência do Império Otomano, mas consequiram um mosaico de Estados-nações emergentes (balcanização) e de alianças instáveis ​​que frequentemente conduziriam à guerra, e, eventualmente, para a Primeira Guerra Mundial.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

A rejeição turca dos termos da Conferência de Constantinopla (1876-1877) conduziu à guerra russo-turca de 1877-1878. Esta terminou com o Tratado de San Stefano e o subsequente Tratado de Berlim em 1878, que estabeleceu um principado búlgaro independente. O tratado original assinado pela Rússia e Turquia, em San Stefano, criou uma Bulgária Maior pró-Rússia fora dos territórios otomanos derrotados. Isso parecia contrariar os compromissos secretos russos anteriores, tanto no Acordo de Reichstadt em 8 de julho de 1876 e, posteriormente, em Budapeste entre o Conde Andrassy e o embaixador russo Eugene Novikov (Convenção de Budapeste, 15 de janeiro-18 de março de 1877). Estes tratados acordaram que, na hipótese de uma guerra e uma vitória russa, não se criaria quaisquer estados eslavos extensos. A Rússia também havia trocado a neutralidade austríaca pela Bósnia e Herzegovina.[1] [2] [3] [4]

Esta ampliação da esfera de influência russa irritou os outros Estados balcânicos e alarmou as outras grandes potências que inicialmente ameaçaram uma guerra contra a Rússia e, em seguida, convocaram a Conferência de Berlim a pedido do ministro das Relações Exteriores da Áustria Gyula Andrassy para desmontar e refazer as disposições do San Stefano. O tratado, que também estabeleceu o reconhecimento internacional dos antigos territórios otomanos vizinhos da Romênia, Sérvia e Montenegro, rompeu esta "Grande Bulgária" em um principado no norte da Bulgária e dois territórios no sul sob o controle otomano: a Rumélia Oriental e a Macedônia. A Bósnia e Herzegovina foi transferida para a Áustria-Hungria. Infelizmente, o Tratado pouco resolveu. Satisfez a Grã-Bretanha e a Áustria-Hungria, mas unicamente em detrimento da Rússia e dos povos dos Estados balcânicos, produzindo novas crises inevitáveis.[5]

Por conseguinte, o futuro das terras balcânicas foi então visto como uma questão da vontade das grandes potências europeias. Estes eventos impactaram significativamente nas relações dinásticas entre a Alemanha e a Rússia. Consequentemente, para contrabalançar a influência russa e a expansão pan-eslava percebida nos Bálcãs, a Alemanha e a Áustria-Hungria concluíram uma Aliança Dua (Zweibund) em 1879.

Unificação búlgara e Guerra servo-búlgara[editar | editar código-fonte]

Bulgária após a Conferência de Constantinopla, 1877
Bulgária após os tratados de San Stefano e Berlim, 1878
Bulgária e Rumélia, 1882
Bulgária pós-unificação, 1888

Em 18 de setembro de 1885, uma rebelião e um golpe de Estado na província otomana da Rumélia Oriental, apoiado pelos búlgaros, viu aquele povo proclamar a união com o novo (1878) Estado da Bulgária, em violação do Tratado de 1878 em Berlim. A união causou consternação entre as grandes potências europeias, uma vez que alterou o equilíbrio de poder na instável região dos Bálcãs​​, e ameaçou uma retaliação otomana e intervenção russa em nome da Bulgária. No entanto a tensão entre Alexandre III, o czar da Rússia, e o Knyaz (Príncipe) nascido alemão, Alexandre I da Bulgária, levou os russos a permanecerem à margem, retirando as suas tropas da Bulgária e defendendo uma conferência em Constantinopla. Enquanto que as outras grandes potências em geral apoiaram a posição inesperada da Rússia, as potências balcânicas não. Tanto a Grécia como a Sérvia se sentiram ameaçadas pelo aumento do poder búlgaro e declararam guerra à Bulgária.

A Sérvia tinha assinado um tratado secreto com a Áustria-Hungria em 1881, e sentindo que a Áustria iria apoiá-la, fez exigências territoriais em sua fronteira ocidental com a Bulgária; mas sendo estas rejeitadas, declarou guerra em 14 de novembro. No entanto, a 28 de novembro, a Sérvia fora derrotada pela Bulgária. Além disso, a humilhação da Sérvia só foi evitada pela intervenção austríaca. Posteriormente, houve um golpe de Estado contra Alexandre I em 1886, que foi substituído pelo austrófilo (que era sobrinho do imperador austríaco e um oficial do exército austríaco) Fernando I de Saxe-Coburg-Gotha-Koháry (1887 - 1918).


A Política das Grandes Potências e a Crise Europeia[editar | editar código-fonte]

Em setembro de 1885, uma revolta na Rumélia Oriental viu a população proclamar a união com o Principado da Bulgária, que foi uma violação do Tratado de Berlim de 1878. Um conflito se seguiu entre o polêmico Alexander de Battenberg, o candidato alemão ao trono búlgaro que defendia uma "Bulgária Maior", e Alexandre III, o czar da Rússia, que se opunha a um alemão no trono da Bulgária. A Rússia Imperial protestou fortemente contra a unificação, enquanto a Áustria-Hungria e a Grã-Bretanha apoiaram a união. A Alemanha estar parecia quase indiferente frente ao assunto.

Mas, em 1886, o episódio envolvendo Alexandre reuniu novas controvérsias. Battenberg foi seqüestrado em agosto e forçado a abdicar do seu trono pela Rússia. Os russos, em seguida, romperam as relações diplomáticas. Neste ponto, tornou-se uma crise europeia. Kalnoky, o ministro do Império Austro-Húngaro, denunciou a ação russa, enquanto Otto von Bismarck informou aos austríacos que a Alemanha não os ajudaria se uma guerra irrompesse. Enquanto isso, na França o general Georges Boulanger tentou tomar o governo e estabelecer uma ditadura militar hostil à Alemanha. Isso também preocupou Bismarck. As ações da Rússia nos Balcãs foram prejudicadas por uma ruidosa campanha pública na Rússia contra a Liga dos Três Imperadores. Havia também uma considerável simpatia na Rússia pela França. Assim, em 1887, havia um medo generalizado na Europa que uma guerra estava prestes a eclodir.

Foi um teste severo da capacidade de Bismarck como diplomata, mas ele esteve à altura da tarefa. Em fevereiro de 1887, organizou-se o Primeiro Acordo do Mediterrânico, entre a Grã-Bretanha, Itália e Áustria para manter o status quo no Adriático, Egeu, Mar Negro e Mediterrâneo. Foi claramente uma barreira à França e à expansão russa, sem incorrer em hostilidade russa. Bismarck precedeu este acordo pela aprovação pelo Reichstag alemão do projeto de novo exército, que certamente impressionou a França.

Essa situação mudou a natureza básica da Tríplice Aliança, assim Bismarck fez os ajustes necessários. A antiga disposição de 1882 foi renovada, mas um novo acordo alemão-italiano suportou a ‘agressão’ italiana na África. Na Europa, a aliança foi mais diretamente colocada contra a França. A parte austro-italiana da aliança jurou manter o status quo dos Balcãs, mas prometeu compensações recíprocas às mudanças ocorridas no território. Estas novas promessas mantiveram a Itália na aliança, mas tornaram as coisas ainda mais difíceis para os alemães e os austríacos em 1914.

O evento mais importante foi a conclusão do chamado Tratado de Resseguro de junho de 1887. Tornou-se necessário para Bismarck para fazer este negócio com a Rússia, uma vez que a Áustria e a Rússia se recusaram a renovar a Aliança dos Três Imperadores. A Rússia estava desesperadamente ansiosa para se manter em boas relações com a Alemanha, em grande parte, a fim de frear a expansão austríaca nos Bálcãs. Assim, os russos propuseram o tratado a Bismarck. Previa-se que uma potência permaneceria neutra se outra fosse atacada por uma terceira potência. Isso não se aplicava caso uma delas atacasse a França ou a Áustria. Assim, a Rússia seria neutra, se a França atacasse a Alemanha e a Alemanha seria neutra, se a Áustria ou a Grã-Bretanha atacassem a Rússia. Neste contexto, o Tratado de Resseguro era compatível com a Aliança Dual de 1879.

Havia outras importantes disposições do tratado: a Alemanha reconheceu os direitos da Rússia na Bulgária e seu direito de tomar Constantinopla, quando o desejasse. Isto certamente contrariava interesses austríacos e britânicos na área, mas era uma aposta segura para Bismarck, porque o Primeiro Acordo do Mediterrâneo evitaria a ação russa. Essa parte do tratado não foi revelada até 1896, quando causou uma grande barulho.

Em dezembro de 1887 houve o Segundo Acordo do Mediterrâneo. Este foi provocado por problemas renovados na Bulgária. D. Fernando de Saxe-Coburgo foi eleito príncipe da Bulgária. O problema era que o novo príncipe era um oficial do exército austro-húngaro. A Rússia elevou os ânimos e pediu a ajuda de Bismarck, que recusou. Neste ponto, a equipe do general alemão sugeriu uma guerra preventiva para por a Rússia fora dos Balcãs de uma vez por todas. Mas Bismarck só parou a concessão de empréstimos para a Rússia, o que colocou um freio sobre a Rússia e, eventualmente, forçaram-na a ir para Paris para empréstimos.

O Segundo Acordo Mediterrânico apenas estabelecia que o entendimento seria alcançado sobre as medidas a respeitar a integridade do Império Otomano. Para jogar pelo seguro, no entanto, a Alemanha e a Áustria aprovaram projetos de lei de novos exércitos e Bismarck decidiu publicar as disposições secretas do texto do Tratado de 1879. Isto teve o efeito de interromper qualquer ação russa. A Rússia, em seguida, lavou as mãos da Bulgária e Boulanger sumiu de cena na França, dramaticamente cometendo suicídio na sepultura de sua amante.

Todos os perigos de guerra haviam terminado. Foi um triunfo da diplomacia à moda antiga, conduzido pela agilidade do velho Otto von Bismarck; ele venceu e a paz foi mantida. Enquanto Bismarck permaneceu em cena o "seu" sistema de alianças parecia funcionar. O problema é que quase todas as disposições destas alianças eram secretas e só Bismarck as entendia inteiramente.

Referências

Fontes bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  • Crampton, R. J. A Concise History of Bulgaria Cambridge UP 1997
  • Präliminarfriede von San Stefano in: Konferenzen und Verträge. Vertrags-Ploetz. Handbuch der geschichtlich bedeutsamen Zusammenkünfte und Vereinbarungen. Teil II. 1493 - 1952. Helmuth Rönnefahrt (ed.). Bielefeld: A. G. Ploetz Verlag, 1953, pp. 351f
  • Istvän Diöszegi: Kälnoky, Andrässy und die bulgarische Krise 1885–1887. In: Bulgarian Historical Review 3 (1985) pp. 54–59.
  • Barbara Jelavich: Russia, Britain and the Bulgarian Question 1885–1888. In: Südostforschungen 32 (1973) pp. 168–191.
  • M. Ju. Zolotucbin: Bolgarskij krizis 1885-1886 gg. i krach avstro-russko-germanskogo sojuza (The Bulgarian 1885-1886 crisis and the collapse of the Austro-Russian-German alliance) In: Voprosy istorii 4 (1984), pp. 43–56.

Ver também[editar | editar código-fonte]