Testemunhas de Jeová e a questão do sangue

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As Testemunhas de Jeová são conhecidas ao redor do mundo pela sua pregação intensa de casa-em-casa. No entanto, este não é o único diferencial das Testemunhas de Jeová. Elas também são conhecidas por recusarem transfusões de sangue. Lendo cuidadosamente a Bíblia, entenderam que o uso do sangue na alimentação, bem como em transfusões (total ou dos seus componentes primários), é proibido pela lei divina. A utilização de sangue ou dos seus componentes em medicamentos ou procedimentos médicos é usualmente conhecida por hemoterapia.

Fundamentos doutrinais[editar | editar código-fonte]

Ordens bíblicas[editar | editar código-fonte]

As Testemunhas de Jeová se baseiam na Bíblia a sua recusa na utilização e consumo de sangue, humano ou animal. Entendem que esta proibição foi dada à humanidade em geral visto que foi transmitida por Deus a um homem que a Bíblia apresenta como ancestral de todos os homens, Noé. Além disso, reforçando esta aplicação geral, a ordem teria sido dada na ocasião em que Noé, tal como o primeiro homem Adão, iria dar um novo início à sociedade humana. Esta mais antiga referência bíblica ao uso de sangue diz o seguinte:

  • Génesis 9:3-5
"Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva verde. Somente não comereis carne com a sua alma, com seu sangue. Eu pedirei conta de vosso sangue, por causa de vossas almas, a todo animal; e ao homem que matar o seu irmão, pedirei conta da alma do homem." (Bíblia Ave Maria)

As Testemunhas entendem que esta ordem não era uma mera restrição alimentar ou dietética visto que se associa o sangue não só com o alimento mas também com o assassínio. Mais tarde, após a formação da nação de Israel, a própria constituição ou Lei nacional incluía as seguintes ordens:

  • Levítico 7:26, 27
"E não deveis comer nenhum sangue em qualquer dos lugares em que morardes, quer seja de ave quer de animal. Toda alma que comer qualquer sangue, esta alma terá de ser decepada do seu povo." (Tradução do Novo Mundo)
  • Levítico 17:10, 11
"Se alguém da casa de Israel, ou dos estrangeiros que residirem entre eles, tomar qualquer sangue, eu porei a Minha face contra a pessoa que toma o sangue, e a cortarei de entre seus parentes. Pois a vida da carne está no sangue." (versão judaica Tanakh)

A Lei mencionava o que um caçador devia fazer com um animal morto:

  • Levítico 17:13, 14
"Ele deve derramar o seu sangue e cobri-lo de terra. Não deveis tomar o sangue de carne alguma, pois a vida de toda carne é o seu sangue. Qualquer pessoa que tomar dele será cortada." (versão judaica Tanakh)

As Testemunhas mencionam ainda que esta lei de Deus sobre o sangue não deveria ser desconsiderada nem mesmo numa emergência. Lembram que alguns soldados israelitas, em certa crise em tempo de guerra, mataram animais e ‘foram comê-los junto com o sangue’. Apesar de parecer uma questão de emergência, ainda assim considerou-se esse acto como pecado contra Deus. (1 Samuel 14:31-35)

Após a morte de Jesus, os apóstolos reuniram-se para decidir que aspectos da antiga Lei de Israel deveriam ser adoptados pelos cristãos. A sua decisão foi a seguinte:

  • Actos dos Apóstolos 15:28, 29
"O Espírito Santo e nós próprios resolvemos não vos impor outras obrigações além destas, que são indispensáveis: abster-vos de carnes imoladas a ídolos, do sangue, de carnes sufocadas e da imoralidade. Procederei bem, abstendo-vos destas coisas." (Bíblia Sagrada Missionários da Difusora Bíblica Fransciscanos Capuchinhos, edição de 2002)

Segundo o entendimento das Testemunhas, os apóstolos não estavam a apresentar um mero ritual ou um regulamento dietético. O decreto estabelecia normas éticas fundamentais, que os cristãos primitivos deveriam acatar. Cerca de uma década depois, eles reforçaram:

  • Atos 21:25
"Quanto aos crentes dentre as nações, já avisamos, dando a nossa decisão, de que se guardem do que é sacrificado a ídolos, bem como do sangue e do estrangulado, e da fornicação." (Tradução do Novo Mundo)

Assim, segundo o entendimento das Testemunhas, qualquer pessoa que se afirme cristã deverá obedecer à ordem bíblica de 'abster-se de sangue.'

Outras referências bíblicas[editar | editar código-fonte]

O sangue era considerado precioso, símbolo da própria vida. A Bíblia contêm várias referências ao sangue e ao seu simbolismo, o que as Testemunhas consideram muito significativo para a sua fundamentação. Alistam-se apenas três:

  1. O sangue de um cordeiro foi pintado em cada ombreira das casas israelitas no Egipto, o que os poupou dos efeitos mortíferos da décima praga no tempo de Moisés;
  2. O sangue de animais era derramado em sacrifício no altar do Templo em Jerusalém, representando a própria vida dos ofertantes;
  3. O sangue que Jesus derramou, como sacrifício perfeito, em favor de toda a humanidade e que é representado no cálice de vinho puro usado anualmente na Comemoração da sua Morte.

Na sequência do conteúdo bíblico apresentado acima, as Testemunhas consideram o sangue como símbolo da vida e dizem acatar a injunção bíblica de se absterem de sangue, reconhecendo que apenas o sangue de Cristo pode salvar as suas vidas, tal como o sangue do cordeiro salvou os israelitas na primeira Páscoa. Para elas, respeitar a santidade do sangue é um dos aspectos centrais da própria Fé Cristã. Por estes motivos, rejeitam usar sangue em qualquer alimento e também, de qualquer outra forma, sustentar a sua vida com o sangue de humanos ou de animais.

O sangue ao longo da história do cristianismo[editar | editar código-fonte]

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Visto que, segundo a carta apostólica, a proibição de consumir sangue mantinha-se para os cristãos, estes recusavam-se a utilizá-lo. As Testemunhas argumentam que, ao longo da história, existem muitas evidências de que os que se consideravam cristãos também entendiam de igual forma a proibição bíblica.

Eusébio de Cesareia, escritor do Século III, que é considerado o pai da história da Igreja, relata o que ocorria em Lião (agora em França) no ano 177 d.C.. Os inimigos religiosos acusaram falsamente os cristãos de comer crianças. Durante a tortura e execução de alguns deles, uma jovem chamada Bíblias respondeu à falsa acusação, dizendo:

"Como podemos comer crianças — nós, a quem não é nem lícito comer o sangue de animais?” 1

Acusações falsas similares moveram o teólogo latino, Tertuliano (cerca de 160-230 d.C.), a apontar que, embora os romanos usualmente bebessem sangue, os cristãos certamente não bebiam. Ele escreveu:

"Corai de vergonha pelos vossos modos desnaturais, diante dos cristãos. Nós nem mesmo temos o sangue dos animais em nossas refeições, pois estas consistem em alimentos comuns. (...) Nos julgamentos dos cristãos, oferecei-lhes chouriços cheios de sangue. Estais convictos, naturalmente, de que a própria coisa com a qual tentais fazê-los desviar-se do caminho correto lhes é ilícita. Como é, então, que, quando estais confiantes de que ficarão horrorizados diante do sangue dum animal, credes que se deliciarão ansiosamente com o sangue humano?" 2

Também, referindo-se ao decreto de Atos 15:28, 29, ele afirmou:

"O interdito do ‘sangue’, nós entenderemos como sendo ainda mais do sangue humano." 3

Minúcio Félix, advogado romano que viveu até cerca de 250 d.C., frisou o mesmo ponto, escrevendo:

“Evitamos tanto o sangue humano que não usamos o sangue nem mesmo dos animais comestíveis em nossa alimentação.” 4

O Concílio de Constantinopla (In Trullo), realizado em 692, em Constantinopla, declarou:

"A Escritura divina manda-nos abster do sangue, das coisas estranguladas, e da fornicação. (…) Se alguém, daqui por diante, aventurar-se a comer de qualquer modo o sangue dum animal, se for um clérigo, que seja destituído; se for um leigo, que seja excomungado." 5

No Século X, Regino, o abade de Prüm, no que agora é a Alemanha, mostrou que a proibição bíblica de se comer sangue ainda era respeitada nos seus dias. Ele escreveu:

"A carta dos apóstolos, enviada de Jerusalém, avisa que tais coisas têm necessariamente de ser observadas. Também os cristãos têm de abster-se de comer algo apanhado por um animal, pois isso também é igualmente estrangulado; e do sangue, isto é, não deve ser comido junto com sangue."

Otto, bispo de Bamberg (cerca 1060-1139), famoso prelado e evangelista, explicou aos conversos na Pomerânia “que não deveriam comer nenhuma coisa imunda, ou que morresse por si mesma, ou que fosse estrangulada, ou sacrificada aos ídolos, ou o sangue de animais.” 6

Martinho Lutero também reconheceu as implicações do decreto mencionado nos Atos. Ao protestar contra as práticas e crenças católicas, inclinava-se a agrupar o concílio apostólico com concílios eclesiásticos posteriores, cujos decretos não faziam parte da Bíblia. Lutero escreveu o seguinte a respeito de Atos 15:28, 29:

“Daí, se quisermos ter uma igreja que se ajuste a este concílio (visto ser correto, uma vez que é o primeiro e o principal concílio, e foi realizado pelos próprios apóstolos), temos de ensinar e insistir que doravante, nenhum príncipe, senhor, burguês, ou campónio, coma gansos, corça, veado, ou leitão cozinhado em sangue, (...) E os burgueses e campónios têm de abster-se especialmente da morcela e do chouriço com sangue.” 7

O teólogo do Século XVII, Étienne de Courcelles (1586-1659) explicou Atos 15:28, 29 nas seguintes palavras:

“Os apóstolos não tencionavam transmitir aqui injunções sobre evitar coisas de que se absteria a própria natureza, e que eram proibidas pelas leis dos gentios, mas somente as coisas que, naquela época, geralmente predominavam, e sobre as quais os gentios, recém-convertidos, não pensariam que estariam pecando, a não ser que admoestados. Pois assim como se tem por certo que eles sabiam que tinham de evitar toda forma de idolatria, todavia, eles não discerniram de imediato que as coisas sacrificadas aos ídolos deviam ser evitadas; da mesma forma, embora reconhecessem ser crime derramar sangue humano, todavia, não pensavam a mesma coisa quanto a comer o sangue animal. Os apóstolos, com seu decreto, desejavam remediar a ignorância destas pessoas; ao passo que as livraram do jugo da circuncisão e de outros preceitos legais, eles, mesmo assim, avisaram que tinham de ser retidas as coisas já observadas desde a antiguidade pelos estrangeiros que permaneciam entre os israelitas, tais como as que foram transmitidas a Noé e seus filhos.”

Thomas Bartholin (1616-1680), professor de anatomia na Universidade de Copenhaga, Dinamarca, protestou contra as infusões de sangue, afirmando: “Os que introduzem o uso de sangue humano como remédio de uso interno para doenças parecem estar a abusar dele e a pecar gravemente. Os canibais são condenados. Então, por que não abominamos os que mancham sua goela com sangue humano? Algo similar é receber duma veia cortada sangue estranho, quer por via oral, quer por meio de transfusão. Os autores desta operação ficam sujeitos ao terror pela lei divina, pela qual se proíbe comer sangue.”

Durante o Século XVIII, o cientista e estudioso da Bíblia, Sir Isaac Newton, expressou o seu interesse na santidade do sangue. Ele declarou:

“Esta lei era mais antiga do que os dias de Moisés, sendo dada a Noé e a seus filhos, muito antes dos dias de Abraão: e, assim, quando os Apóstolos e Anciãos no Concílio de Jerusalém declararam que os gentios não eram obrigados a ser circuncidados e a guardar a lei de Moisés, eles exceptuaram esta lei de abster-se do sangue, e de coisas estranguladas, como sendo uma lei anterior de Deus, imposta, não apenas aos filhos de Abraão, mas a todas as nações.”

O cientista Joseph Priestley (1773-1804) concluiu:

“A proibição de comer sangue, dada a Noé, parece ser obrigatória para toda a posteridade dele. (…) Se interpretarmos esta proibição dos apóstolos pela prática dos primitivos cristãos, dos quais dificilmente se pode supor não terem entendido correctamente a natureza e o alcance dela, não podemos senão concluir que se intencionava ser absoluta e perpétua; pois o sangue não era comido por nenhum cristão, durante muitos séculos.”

O Bispo John Kaye (1783-1853) declarou:

“Os Cristãos Primitivos obedeciam escrupulosamente ao decreto proclamado pelos Apóstolos em Jerusalém, de abster-se das coisas estranguladas e do sangue.” 8

O clérigo William Jones (1762-1846) escreveu:

“Nada pode ser mais explícito do que a proibição, Atos XV. 28, 29. Podem aqueles que alegam sua ‘liberdade cristã’ com respeito a este assunto indicar-nos qualquer parte da Palavra de Deus em que esta proibição tenha sido subsequentemente anulada? Se não puderem, talvez nos seja permitido perguntar: Com que autoridade, excepto a dele mesmo, pode qualquer das leis de Deus ser anulada?” 9

No Século XIX, Andrew Fuller, considerado como “talvez o mais eminente e influente dos teólogos batistas”, escreveu a respeito da proibição do sangue em Génesis 9:3, 4:

“Isto, sendo proibido a Noé, parece também ter sido proibido a toda a humanidade; nem deve tal proibição ser considerada como cabendo às cerimónias da dispensação judaica. Não só foi ordenada antes que tal dispensação existisse, mas também foi imposta aos cristãos gentios pelos decretos dos apóstolos, Atos XV. 20. (…) O sangue é a vida, e Deus parece reivindicá-la para si mesmo como sagrada.” 10

O perito bíblico Giuseppe Ricciotti (1890-1964) referiu-se ao incidente de Lião (acima descrito) como evidência de que os primitivos “cristãos não podiam comer sangue”. E acrescentou:

“Até mesmo nos séculos que se seguiram, até à Idade Média, encontramos ecos inesperados desta primitiva ‘abominação’, devida inquestionavelmente ao decreto”. 11

Assim, as Testemunhas de Jeová consideram que se apegam ao modelo apostólico cristão ao rejeitarem utilizar o sangue humano ou animal, tanto na alimentação como na medicina. Argumentam ainda que, durante muitos séculos, esta era a posição de muitos eruditos e teólogos das várias denominações ditas cristãs.

Desenvolvimento da posição religiosa das Testemunhas[editar | editar código-fonte]

A santidade do sangue, do ponto de vista das Testemunhas, foi destacada na revista A Sentinela, em 1927, no artigo "Uma razão para a vingança de Deus", que incluía a seguinte declaração:

"Deus disse a Noé que toda criatura vivente serviria de carne para ele, mas que não devia comer o sangue, porque a vida se acha no sangue."12

Tal como aconteceu com várias outras doutrinas das Testemunhas, que sofreram alterações após revisões que entenderam ser refinamentos do seu entendimento bem como uma maior aproximação ao texto bíblico, a sua posição sobre as transfusões de sangue não era inicialmente negativa. Na verdade, alguns Estudantes da Bíblia (como eram inicialmente conhecidas as Testemunhas de Jeová) pensavam que a proibição de comer sangue, em Atos 15:28, 29, limitava-se aos cristãos judeus. Há também uma referência positiva feita na revista Consolação (hoje Despertai!) onde se menciona um episódio em que “um dos médicos na emergência principal doou um quarto de seu sangue para transfusão, e hoje a mulher vive e sorri alegremente.” 13

No entanto, algum tempo depois, A Sentinela declarava:

“Ao estrangeiro, não só como descendente de Noé, mas ora como um obrigado pela lei de Deus a Israel (...) se lhe proibia comer ou beber sangue, quer por transfusão quer pela boca.” 14

Finalmente, A Sentinela considerou pela primeira vez esta questão de forma aprofundada e esclareceu a posição das Testemunhas quanto ao sangue, em especial o seu uso na medicina. Entre outras coisas, o artigo "Inabaláveis a favor da adoração correcta" mencionava que, embora a transfusão de sangue remontasse aos antigos egípcios, o caso mais antigo relatado era o da tentativa fútil de salvar a vida do Papa Inocêncio VIII, em 1492, operação que custou a vida de três jovens. Este número de A Sentinela argumentava que a lei de Deus sobre o sangue, fornecida a Noé, era válida para toda a humanidade e que se exigia que os cristãos se abstivessem do sangue. Em resumo, dizia:

"Uma vez, então, que o Deus Altíssimo e Santo forneceu instruções claras quanto à forma de se dispor do sangue, em harmonia com seu pacto eterno feito com Noé e com todos os seus descendentes, e visto que o único uso do sangue que Ele autorizou, a fim de fornecer vida à humanidade, era o uso dele como propiciação ou expiação para o pecado; e visto que deveria ser feito sobre seu santo altar ou em seu assento de misericórdia, e não por se tomar directamente o sangue no corpo humano; por conseguinte, compete a todos os adoradores de Jeová que buscam a vida eterna em seu novo mundo de justiça respeitar a santidade do sangue e ajustar-se aos decretos justos de Deus no que tange a este assunto vital." 15

Coerentemente com esse entendimento da questão, a partir de 1961, quem quer que desconsiderasse esse requisito considerado divino, aceitando transfusão de sangue e manifestasse uma atitude impenitente, seria desassociado da congregação das Testemunhas de Jeová. Actualmente, a aceitação de transfusão de sangue por parte de um membro baptizado é entendido como uma expressão do seu desejo de dissociar-se da religião, deixando de pertencer às Testemunhas de Jeová. Apesar de não exigir acção judicativa por parte da congregação, a pessoa será tratada como alguém que foi excluído ou desassociado das Testemunhas de Jeová.

Desenvolvimentos do conceito base[editar | editar código-fonte]

A recusa de hemoterapia por parte das Testemunhas levantou várias questões de ordem médica, ética e legal. A própria evolução da medicina e dos procedimentos clínicos envolvendo o manuseio do sangue, exigiram que as Testemunhas reavaliassem a sua posição à base do seu entendimento da Bíblia que, compreensivelmente, não descreve em pormenores que tipo de práticas serão aceitáveis ou condenáveis.

Apresentando a importância da consciência individual nas questões que vão para além do que as Testemunhas entendem que está estritamente escrito na Bíblia, a revista A Sentinela, em 2004, explicou:

"A Bíblia deixa claro que aquele que obedecia a Deus não comia carne com sangue. Isso era tão importante que mesmo numa emergência, quando soldados israelitas comeram carne com sangue, eles foram considerados culpados dum grave erro, ou pecado. (Deuteronômio 12:15, 16; 1 Samuel 14:31-35) Mesmo assim, podem ter surgido dúvidas. Ao matar uma ovelha, com que rapidez tinha de sangrá-la? Tinha de cortar a garganta do animal para sangrá-lo? Era necessário pendurar a ovelha pelas pernas traseiras? Por quanto tempo? O que faria no caso duma vaca? Mesmo depois da sangria, era possível que algum sangue continuasse na carne. Podia comer tal carne? Quem decidiria isso?" 16

O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová esclareceu que em tais situações, no antigo Israel, seriam as consciências individuais de cada um a decidir o que fazer. Entenderam que em certos casos, cada Testemunha tem de tomar decisões próprias baseadas nas suas convicções e nos ditames da sua consciência, em especial no concernente aos seguintes dois casos.

Fracções menores do sangue[editar | editar código-fonte]

Com o desenvolvimento dos meios de manuseio do sangue, nos anos recentes foi possível dividir o sangue em fracções cada vez menores. O compêndio Emergency Care (Atendimento de Emergência), de 2001, sob “Composição do Sangue”, declarou:

“O sangue é composto de vários elementos: plasma, glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.”

A maioria das transfusões realizadas actualmente não é de sangue total, mas de um dos seus componentes primários:

  • glóbulos vermelhos;
  • glóbulos brancos;
  • plaquetas;
  • plasma, a parte líquida.

Dependendo do quadro clínico do paciente, os médicos talvez prescrevam glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas ou plasma. A transfusão desses componentes primários permite que uma unidade de sangue seja dividida entre mais pacientes. Naturalmente, se rejeitar sangue total numa transfusão parece claro, à luz do seu entendimento bíblico, o mesmo já não se pode dizer quando ele é dividido, visto que a Bíblia não tece considerações sobre isso. As Testemunhas de Jeová defendem a opinião que qualquer desses quatro componentes primários ainda é na verdade sangue e, como tal, devem ser rejeitados como violação do que consideram ser a lei de Deus.

A revista A Sentinela, em 2000, 17 , considerou a posição das Testemunhas sobre fracções ainda menores. Visto que o sangue pode ser processado além dos componentes primários, surgem questões sobre fracções derivadas desses componentes. Por exemplo, o plasma, apesar de composto na sua maioria de água, transporta dezenas de hormonas, sais inorgânicos, enzimas, e nutrientes, incluindo minerais e açúcar. O plasma também contém proteínas como a albumina, factores de coagulação e anticorpos para combater doenças que podem ser isolados e administrados em separado. Por exemplo, o factor VIII de coagulação tem sido administrado a hemofílicos. Ou caso alguém fique exposto a certas doenças, os médicos podem prescrever injecções de gamaglobulina, extraída do plasma sanguíneo de pessoas que já tenham imunidade.

Os outros componentes primários (glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas) também podem ser processados para se isolar deles partes menores. Por exemplo, glóbulos brancos podem fornecer interferons e interleucinas, usados para o tratamento de algumas infecções virais e alguns tipos de cancro. As plaquetas podem ser processadas para se extrair delas um factor de cicatrização. E há outros medicamentos que envolvem (pelo menos inicialmente) derivados de componentes sanguíneos. Essas terapias não constituem transfusões de componentes primários; geralmente envolvem partes ou frações deles.

Manuseio do sangue durante procedimentos clínicos[editar | editar código-fonte]

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Se a transfusão de sangue de terceiros, incluindo os seus componentes primários, é entendida como uma clara violação da Lei de Deus, as Testemunhas tiveram de reavaliar a sua posição quanto a certos outros procedimentos, recentemente desenvolvidos, que envolvem a recolha, tratamento, armazenamento e reinfusão do seu próprio sangue.

No artigo referido o Corpo Governante reconhece que a Bíblia não fornece detalhes sobre tais assuntos e, por isso, cada Testemunha deve tomar a sua própria decisão, baseada na sua consciência, perante Deus. Quanto a estas fracções menores de sangue, o que cada Testemunha decidir deve ser respeitado pelos restantes membros da congregação.

Em 2000, a revista A Sentinela 18 abordou este assunto. Por exemplo, as Testemunhas não objectam a que o seu sangue seja extraído para que se efectuem análises para diagnóstico, visto que este sangue será depois eliminado. Consideram que isto não viola a seguinte ordem bíblica:

  • Deuteronómio 12:16, 24; 15:23
“Somente não deveis comer o sangue. Deves derramá-lo na terra como água.” (Tradução do Novo Mundo)

O Chumash judaico, de Soncino, observa:

“O sangue não deve ser armazenado, mas tornado impróprio para consumo por ser despejado no solo.”

Nenhum israelita devia apropriar-se do sangue de outra criatura, cuja vida pertencia a Deus. Tampouco devia armazenar ou usar tal sangue.

Assim, para as Testemunhas, existe uma violação da Lei de Deus quando se efectua a recolha do sangue de alguém, semanas antes de uma cirurgia (doação autóloga pré-operatória), para que, se houver necessidade, se possa transfundir o sangue do próprio paciente. Entende-se que o acto de colectar ou recolher, armazenar e transfundir o sangue é directamente contrário ao que é dito em Levítico e em Deuteronômio. Para elas, o sangue não deve ser armazenado, deve ser derramado ou eliminado, simbolicamente devolvido a Deus.

No entanto, existem outros procedimentos que podem não envolver o armazenamento do sangue.

Por exemplo, certos fluidos são usados para manter o volume do sangue, evitando o choque hipovolémico, ou seja, a perda maciça de sangue. Em alguns laboratórios de investigação estão já a ser testados alguns fluidos que podem transportar oxigénio.

Alguns medicamentos, tais como as proteínas modificadas geneticamente, podem estimular a produção de glóbulos vermelhos, de plaquetas sanguíneas e de glóbulos brancos. Outros medicamentos reduzem bastante a perda de sangue durante a cirurgia, ou ajudam a reduzir hemorragias agudas.

Os hemóstatos biológicos são tampões de colágeno e celulose que, aplicados directamente, podem estancar sangramentos. Colas e seladores de fibrina podem fechar ferimentos causados por instrumentos perfurantes ou cobrir áreas maiores de tecidos que sangram.

Além disso, muitas técnicas cirúrgicas como o planeamento pré-operatório, incluindo o contacto com cirurgiões experientes e com a respectiva equipa, em particular o anestesista, pode evitar complicações de última hora. É vital tomar medidas imediatas para estancar hemorragias visto que atrasos de mais de 24 horas podem aumentar muito a mortalidade dos pacientes. Quando possível, dividir cirurgias grandes em várias menores é outra das formas de evitar perdas de grande quantidade de sangue, permitindo ainda que o paciente se recupere entre as intervenções.

As Testemunhas também defendem o uso adequado de instrumentos cirúrgicos. Alguns instrumentos cortam e cauterizam, ao mesmo tempo, os vasos sanguíneos. Outros podem estancar o sangramento em grandes porções de tecido. Instrumentos de laparoscopia e outros meios considerados pouco invasivos, ou seja, que permitem a operação através da introdução de sondas e outros equipamentos cirúrgicos através de minúsculos orifícios, permitem que se realizem cirurgias sem a perda de sangue decorrente de incisões grandes.

A recuperação sanguínea também tem sido muito usada durante certos procedimentos cirúrgicos. Uma das formas é por desviar parte do sangue do paciente através de um processo chamado hemodiluição. O sangue que continua no corpo do paciente é diluído. Algum tempo depois, aquele sangue que se encontra no circuito externo é reinfundido no seu corpo, fazendo com que a contagem de células sanguíneas fique mais próxima do normal. Similarmente, o sangue que sai de uma incisão pode ser recolhido e filtrado para que os glóbulos vermelhos sejam devolvidos ao paciente, num procedimento usualmente chamado de recuperação sanguínea onde máquinas recuperam o sangue perdido durante cirurgias ou traumas. O sangue é filtrado e pode retornar ao paciente num circuito fechado. Em casos extremos, podem ser recuperados litros de sangue com esse sistema.

Noutros casos, o sangue pode ser desviado para um aparelho que temporariamente exerce a função normalmente desempenhada por órgãos do corpo (como coração, pulmões ou rins), tal como acontece com os aparelhos de hemodiálise. Depois, o sangue que está no aparelho é reinfundido no paciente. Em outros procedimentos, o sangue é desviado para um aparelho centrifugador a fim de que as partes prejudiciais ou defeituosas possam ser eliminadas. Ou talvez o objectivo seja isolar certa quantidade de um componente do sangue e aplicá-la em outra parte do corpo. Há também testes em que uma quantidade do sangue é retirada com o objectivo de ser marcada ou misturada com medicamento, após o que é reintroduzida no paciente. Em todos estes casos, entende-se o procedimento como uma mera extensão do sistema circulatório do paciente, mantendo-se a circulação extra-corpórea em circuito fechado e fluindo ininterruptamente.

Quanto a todos os casos, o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová também entende que não existem princípios bíblicos directos que esclareçam o que fazer. Além disso, os detalhes podem variar e, naturalmente, surgirão novos procedimentos, tratamentos e testes. Assim, remetem para cada Testemunha a decisão de como o seu próprio sangue será manipulado no decorrer de um procedimento cirúrgico, exame médico ou terapia que esteja a receber no momento. Quanto a estes procedimentos médicos, o que cada Testemunha decidir deve ser respeitado pelos restantes membros da congregação.

Esclarecimento público sobre a sua posição[editar | editar código-fonte]

Através de publicações dirigidas ao público[editar | editar código-fonte]

De início, os efeitos colaterais físicos das transfusões de sangue não foram considerados nas publicações da Sociedade Torre de Vigia. Mais tarde, quando essas informações se tornaram disponíveis, essas também foram publicadas, não como a razão principal de as Testemunhas de Jeová recusarem transfusões de sangue, mas para fortalecer o seu apreço pela proibição que atribuem a Deus sobre o uso do sangue.

Para esse fim, em 1961 foi publicado o folheto O Sangue, a Medicina e a Lei de Deus. Em 1977, publicou-se outro folheto intitulado As Testemunhas de Jeová e a Questão do Sangue, que salientou de novo o facto de que a posição tomada pelas Testemunhas de Jeová é religiosa, baseada no que entendem da Bíblia, e não depende de factores de risco clínico. Outra actualização do assunto foi apresentada em 1990 na brochura Como Pode o Sangue Salvar Sua Vida?, disponível on-line. Outros artigos que tratam de assuntos relacionados com a saúde e tratamentos médicos estão também disponíveis no seu web site. Todos estes meios de informação são dirigidos ao público em geral na maioria das principais línguas do planeta.

Através de documentários em vídeo[editar | editar código-fonte]

Uma série de três vídeos foi produzida pela Sociedade Torre de Vigia, apresentando a razoabilidade e a eficácia de tratamentos médicos e cirurgias sem o uso de sangue. Nos três vídeos, cirurgiões bem conhecidos contrastam a eficácia das estratégias alternativas à transfusão com os procedimentos convencionais que utilizam sangue.

O primeiro vídeo da série é intitulado Estratégias Alternativas à Transfusão: Simples, Seguras, Eficazes. Ele foi elaborado especialmente para médicos e académicos de medicina. Foi usada animação computorizada para ilustrar as funções dos componentes do sangue. Este documentário foi inscrito no 34.° Festival Internacional de Filme e Vídeo, um evento anual nos Estados Unidos, estando 1.500 inscritos de 33 países. O vídeo concorreu em três categorias, sendo que em duas delas — Documentação de Pesquisas e Profissional-Educativo — ficou em segundo lugar e recebeu o Prémio Tela de Prata. Na terceira categoria, Actualidades, o vídeo ganhou o primeiro lugar e recebeu o Prémio Câmara de Ouro.

O segundo vídeo é intitulado Transfusões e Cuidados Alternativos de Saúde — Atendendo às Necessidades e aos Direitos do Paciente. Foi elaborado especialmente para jornalistas de assuntos médicos, profissionais da área de saúde e da justiça e assistentes sociais. Como o título sugere, o vídeo considera como cuidar das necessidades médicas dos pacientes e ao mesmo tempo respeitar seus direitos legais. Além disso, apresenta argumentos sobre a redução de custos ao usar técnicas cirúrgicas sem sangue.

O terceiro vídeo da série é intitulado Sem Sangue: A Medicina Encarou o Desafio. Elaborado primariamente para o público em geral, esse vídeo já foi divulgado por redes de televisão nos Estados Unidos e de outros países. Pretende-se que os comentários positivos dos profissionais entrevistados no vídeo, que não são Testemunhas de Jeová, ajudem o público a saber mais sobre o valor das cirurgias sem sangue e a minimizar os efeitos prejudiciais causados pelo preconceito devido à desinformação.

Através de documentos profissionais[editar | editar código-fonte]

Para alcançar juízes, assistentes sociais, hospitais gerais e pediátricos, cirurgiões e pediatras com informações sobre as alternativas à hemoterapia, as Testemunhas de Jeová produziram, especificamente para esses profissionais e autoridades da área de saúde, uma pasta de 260 páginas intitulada Cuidados e Tratamentos Médicos Para as Famílias de Testemunhas de Jeová. É um compêndio de folhas não encadernadas, para que possa ser mantido actualizado. Visto que tem havido alguns mal-entendidos sobre a vida familiar das Testemunhas de Jeová, esse compêndio também pretende informar esses profissionais sobre o tipo de ambiente familiar que possuem que consideram exemplar, produzido por um estilo de vida moldado pelos ensinos bíblicos. Para ajudar pediatras a tratar filhos de Testemunhas de Jeová sem transfusões de sangue, também produziram um compêndio com três índices contendo 55 artigos da literatura médica que mostram o que se pode fazer sem sangue num grande número de problemas de recém-nascidos.

Relação com a classe médica[editar | editar código-fonte]

Visto que as Testemunhas não acreditam em milagrosas "curas pela fé", quando ficam doentes ou sofrem um acidente procuram socorros médicos. Nisso, não tentam ditar aos médicos como exercer a medicina ou até mesmo como lidar com seu problema específico. A única coisa que solicitam coerentemente aos médicos é que não se use sangue.

Segundo afirmam as suas publicações, as Testemunhas têm elevado respeito pela formação profissional e pelas habilitações das pessoas do sector médico. Apreciam sinceramente os médicos que usam sua perícia para tratar um paciente, mas, que o fazem segundo as crenças do paciente. Esperam que o médico trate não apenas o paciente mas, acima de tudo, a pessoa. As Testemunhas reconhecem que é preciso coragem para um médico operar sem estar livre para usar sangue. Também, é preciso certa medida de coragem para contrariar conceitos opostos de colegas e concordar em exercer a medicina sob condições que possam ser consideradas como abaixo das ideais, em sentido médico.

Reconhecem que certos processos cirúrgicos talvez envolvam tanta perda de sangue que um médico talvez creia honestamente que não possam ser realizados nos termos que as Testemunhas apresentam. Nestes casos extremos entendem que não será uma transfusão de sangue que poderá fazer qualquer diferença mas, ainda que o fosse em casos pontuais, estão decididas a cumprir aquilo que consideram ser as ordens divinas. A maior parte das cirurgias, contudo, pode ser realizada sem sangue. Mesmo que os médicos talvez achem que, por não usarem sangue, a operação se torna mais perigosa, as Testemunhas estão dispostas a enfrentar tais riscos aumentados, com a ajuda de médicos peritos.

Comissões de Ligação Hospitalar[editar | editar código-fonte]

Para apoiar as Testemunhas de Jeová na sua recusa de receber sangue, para sanar mal-entendidos da parte de médicos e hospitais, e para criar um espírito de maior cooperação entre as instituições de saúde e os pacientes, o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová estabeleceu Comissões de Ligação Hospitalar a partir de 1979. Compostas de Testemunhas de Jeová experientes, treinadas para lidar com conhecimento de causa com médicos e hospitais, essas comissões pretendem efectuar um trabalho de esclarecimento e prevenção, evitando confrontos e estabelecendo um espírito mais cooperador.

Estabeleceram na sua sede mundial, em Brooklyn, Nova Iorque, Estados Unidos da América, um departamento chamado Serviços de Informação Hospitalar (SIH). Representantes deste departamento viajaram a vários países, em muitas partes do mundo, dirigindo seminários em algumas filiais da Associação Torre de Vigia, e formando Comissões de Ligação Hospitalar (sigla CLH em Portugal ou COLIH, no Brasil), que entram em contacto com hospitais e médicos à medida que surge a necessidade. Ao visitarem as maiores filiais, os representantes do SIH também estabeleceram departamentos de Serviços de Informação Hospitalar para dar prosseguimento a essa obra, depois de sua partida.

Estas Comissões estabelecem contactos regulares com médicos, magistrados judiciais e assistentes sociais, o que tem permitido o desenvolvimento de tratamentos médicos mais seguros alternativos à hemoterapia. Também, sempre que um dos seus membros seja hospitalizado e a transfusão de sangue se torne uma questão, os anciãos congregacionais devem contactar a Comissão de Ligação Hospitalar regional para prestar ajuda. Actualmente existem milhares destas Comissões de Ligação Hospitalar na maioria das grandes cidades onde existem Testemunhas de Jeová. Nas suas listas estão incluídos dezenas de milhares de médicos, de diversas especialidades clínicas que já afirmaram estar disponíveis para atender e tratar Testemunhas de Jeová quando outros profissionais de saúde o recusam fazer.

Devido à acção concertada das Comissões de Ligação Hospitalar, são cada vez em maior número as instituições hospitalares que aceitam tratar Testemunhas de Jeová sem recorrer a procedimentos que violem as suas consciências. Inclusive, alguns dos maiores hospitais do mundo, anunciam a sua política de cirurgia livre de sangue, não só disponível às Testemunhas como a todos os pacientes que o requeiram. Seja pela acção das Testemunhas, ou simplesmente como evolução e adaptação às novas terapias sem o uso do sangue, a realidade é que muitas instituições de saúde, mesmo algumas patrocinadas ou apoiadas por denominações religiosas que não possuem a mesma posição das Testemunhas quanto à hemoterapia, informam o seu público destas alternativas. Alguns, entre os muitos exemplos nos Estados Unidos da América, são:

Declaração antecipada da sua decisão individual[editar | editar código-fonte]

É norma que cada Testemunha de Jeová, desde que seja um membro batizado, adulto ou menor maduro, traga sempre consigo um documento de identificação onde está exposta a sua clara recusa em receber sangue total ou qualquer um dos seus quatro componentes principais, bem como a sua recusa em usar procedimentos clínicos que incluam o armazenamento de sangue para posterior infusão. Este documento, Declaração/Procuração sobre Cuidados de Saúde inclui também a decisão pessoal, segundo opções tomadas em consciência, sobre três áreas distintas:

  • A aceitação ou recusa, total ou parcial, dos hemoderivados, ou fracções menores, dos quatro componentes principais.
  • A aceitação ou recusa, total ou parcial, dos meios de tratamento que impliquem o manuseio do sangue, em circuito extracorpóreo ininterrupto.
  • Decisões quanto ao que fazer caso o portador do documento se venha a encontrar num estado clínico de morte cerebral declarada, estando a vida dependente de máquinas, esclarecendo se estas devem ser desligadas ou não.

Este documento, com valor legal, é assinado perante duas testemunhas e incluem os contactos de dois procuradores a quem o documento entrega poderes de decisão sobre os cuidados de saúde caso o portador se encontre incapacitado de falar, bem como a acederem ao relatório clínico do paciente ou a defendê-lo em tribunal, se isso for requerido. Este documento isenta a equipa médica e a administração hospitalar de quaisquer responsabilidades legais resultantes de sua decisão. Em casos de cirurgias planeadas ou em casos onde a própria pessoa pode expressar-se e assinar documentos, é habitual entregarem uma declaração de isenção de responsabilidade mencionando directamente a instituição hospitalar onde se procederá à intervenção ou então preencherem os documentos do próprio hospital, rasurando ou acrescentando frases que melhor expressem a sua vontade pessoal.

Desafios legais[editar | editar código-fonte]

Apesar da posição das Testemunhas de Jeová ser cada vez mais conhecida e desmentida, ainda surgem desafios éticos e legais que as Testemunhas enfrentam e tentam vencer. Outras vezes são as instituições hospitalares que recorrem a vias judiciais para forçar um determinado tratamento recusado, especialmente quando o paciente é uma criança.

Após ser devidamente esclarecido sobre os riscos e/ou benefícios de um tratamento médico, um paciente adulto capaz tem o direito de aceitá-lo ou não. É uma expressão da sua liberdade, declarada e garantida pela Constituição de vários países.

Na grande maioria dos casos, quando uma Testemunha é posta perante a necessidade de uma transfusão de sangue, recusá-la não é uma manifestação do desejo de morrer, mas sim ter acesso a tratamentos alternativos que não violem as suas consciências. Naturalmente, alguns médicos ou membros de equipas médicas poderão, em consciência, rejeitar tratar um paciente que não aceita os tratamentos que estes lhe apresentam, caso considerem que não possuem meios de recorrer a alternativas viáveis.

Quando a questão envolve filhos de pais em que ambos são Testemunhas de Jeová, eles esperam que seus filhos recebam tratamento médico isento de sangue. Insistem com a equipa médica para que se usem as várias alternativas médicas às transfusões de sangue. Quando existe objectivamente risco da morte iminente de um menor, ao abrigo da Constituição de alguns países, os Tribunais de Menores têm vindo a decretar a suspensão temporária do poder paternal e autorizar o tratamento médico recomendado.

A revista The Journal of the American Medical Association (JAMA), considerou este assunto no artigo Testemunhas de Jeová- O desafio cirúrgico/ético 19 que, com a sua permissão, foi publicado como Apêndice na brochura Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?, publicada pela Sociedade Torre de Vigia. O mesmo aconteceu com o artigo da revista New York State Journal of Medicine, 1988; 88:463-464, editada pela Sociedade Médica do Estado de Nova Iorque, Estados Unidos da América. O artigo reimpresso tem o tema Sangue: quem decide? Baseado na consciência de quem? e foi escrito pelo Dr. J. Lowell Dixon 20 . Ambos os artigos no Apêndice, bem como toda a brochura, podem ser consultados on-line no web site das Testemunhas de Jeová.

Atualmente no Brasil, do ponto de vista estritamente legal, é pacífico na doutrina e na jurisprudência que, em caso de morte iminente, o médico tem o dever ético-profissional e legal de ministrar sangue ao paciente, caso, obviamente, não haja a MENOR possibilidade de aplicação dos métodos alternativos.

Alguns juristas sustentam que, quando se tratar de paciente maior de idade, deveria haver maior flexibilização legal; mas do ponto de vista estritamente legal, aos médicos compete ministrar o sangue caso realmente necessário, ainda que com oposição do paciente. Alguns testemunhas de Jeová reportam casos esporádicos e excepcionalíssimos em que foi concedido o direito ao mesmo de recusar o recebimento de sangue, mas não se tem a confirmação dessa afirmação, eis que nunca fornecem os números de processos para consulta.

Quando se tratam de menores de idade, não há qualquer controvérsia no mundo jurídico: sempre que necessário, o sangue deve ser ministrado ao menor, independentemente da vontade dos pais. Não se tem notícia de um precedente sequer que tenha decidido ao contrário. Aliás, o que se tem em notícia são de condenações dos pais e representantes da religião na esfera criminal, por homicidio, quando atuaram de forma decisiva a impedir a transfusão que salvaria a vida da criança ou adolescente que morreu.

Os Conselhos tutelares também costumam intervir na questão, procurando o Ministério Público ou mesmo ingressando com ações na justiça que garantam a transfusão do menor.

O fundamento legal é bem simples: a Constituição coloca o direito à vida acima do direito à liberdade religiosa.

Opiniões dos críticos[editar | editar código-fonte]

Os críticos das Testemunhas de Jeová acusam a política da organização em considerar como excluídos ou desassociados aqueles que, no exercício do seu livre arbítrio, decidem aceitar tratamentos médicos com base na hemoterapia, ou seja, a transfusão de sangue total ou de algum dos seus principais hemocomponentes, nomeadamente o que as Testemunhas consideram os seus quatro componentes básicos, seja autóloga ou não. Apesar de no passado se tomar toma uma acção judicativa interna para tratar dos casos em que alguém voluntariamente se submetia à hemoterapia, esse já não é o caso nos anos mais recentes. Actualmente, as Testemunhas entendem que a pessoa usou a sua liberdade para, de forma consciente e deliberada, rejeitar os ensinos e procedimentos que aceitou, também isso no exercício da sua liberdade, quando decidiu batizar-se como Testemunha de Jeová. Argumentam que a pessoa só se torna Testemunha após extenso programa de estudo da Bíblia, usualmente durante muitos meses, onde a proibição de usar sangue total, que consideram divina, é explicada. O manual usado ao dirigir estudos com os interessados, O Que a Bíblia Realmente Ensina?, na página 131, após considerar os versículos bíblicos que usam em apoio desta sua doutrina, acrescenta as seguintes palavras:

"Na atualidade, os servos fiéis de Deus estão firmemente decididos a seguir as instruções divinas a respeito do sangue. Eles não o comem de nenhuma forma. Tampouco aceitam sangue por razões médicas. Eles têm certeza de que o Criador do sangue sabe o que é melhor para eles. Você acredita que Deus realmente sabe isso?"

As Testemunhas referem ainda que qualquer pessoa que decide batizar-se assina voluntariamente, diante de testemunhas escolhidas por si mesmo e perante dois procuradores a quem expressa, de viva voz e sem qualquer coação, a sua decisão pessoal, uma declaração onde afirmam que não aceita "nenhuma transfusão de sangue total, glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas ou plasma, em nenhuma circunstância, mesmo que outros, nomeadamente os profissionais de saúde, o julguem necessário para preservar a minha vida." Para as Testemunhas, um dos seus membros batizados que aceita uma transfusão de sangue, contraria esta declaração e o juramento por ocasião do seu batismo. Segundo as Testemunhas, a pessoa indica por suas acções que não quer mais associar-se com a organização a que pertencia e cujas regras adoptou, considerando assim que ela se dissociou voluntariamente.

Em 21 de Setembro de 1995, a Comissão Europeia dos Direitos Humanos publicou um relatório sobre um acordo que a Associação Cristã das Testemunhas de Jeová da Bulgária fez com o Governo da Bulgária.

"Com respeito a posição das Testemunhas de Jeová em relação ao sangue ... os pacientes Testemunhas de Jeová recorrendo sistematicamente a tratamentos médicos para si mesmos e para os seus filhos, fá-lo-ão usando de seu próprio livre arbítrio, sem nenhum controle e sanção por parte da requerente." 21

Segundo os críticos, este acordo foi mantido oficialmente em sigilo até a sua ampla divulgação na Internet. As Testemunhas contrapõem que, a ser verdade, tal secretismo não parece ser necessário uma vez que o texto apenas expressa o que realmente acontece, ou seja, a pessoa usa de livre arbítrio e a congregação simplesmente aceita a sua renúncia expressa.

O mesmo parece acontecer com as palavras atribuídas ao Dr. Raul Josefino, advogado da Associação das Testemunhas de Jeová de Portugal:

"No limite, a liberdade de receber sangue é uma opção da Testemunha. Ela pode consentir e recebê-lo sem sofrer qualquer tipo de recriminação." 22

Alternativas actualmente disponíveis[editar | editar código-fonte]

Eritropoietina

Alternativas médicas ao sangue, o que inclui os substitutos do sangue, frequentemente chamados por sangue artificial, são usados para encher o volume de fluido e transportar o oxigênio e outros gases ao sistema circulatório.Os termos preferidos e mais exactos são: expansores do volume e terapias de oxigênio. Nos últimos anos, muitas técnicas modernas e inovadoras tem sido desenvolvidas para tratamentos como a recuperação intra-operatória de sangue e outras relacionadas às cirurgias sem sangue. Ao passo que novos métodos usados em tratamentos médicos e cirurgia sem sangue, tornam-se disponíveis, estes tem sido a escolha de muitos pacientes.

Referências

  1. The History of the Christian Church (1837), de William Jones, página 106
  2. Tertullian Apologetical Works and Minucius Felix, Octavius, tradução de Rudolph Arbesmann (1950), página 33
  3. The Ante-Nicene Fathers, Vol. IV, páginas 85, 86
  4. The Ante-Nicene Fathers, Vol. IV, página 192
  5. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, de Philip Schaff e Henry Wace, Vol. XIV, página 395
  6. Tertullian, Vol. I, tradução de C. Dodgson (1842) página 109
  7. Luther’s Works, Vol. 41 (Igreja e Ministério III), editado por Eric W. Gritsch, página 28
  8. The Ecclesiastical History of the Second and Third Centuries (1845), de John Kaye, Bispo de Lincoln, página 146
  9. The History of the Christian Church, página 106
  10. The Complete Works of the Rev. Andrew Fuller (1836), página 751
  11. The Acts of the Apostles (1958), de Guiseppe Ricciotti, página 243
  12. A Sentinela, de 15 de Dezembro de 1927 (em inglês)
  13. Consolação (hoje Despertai!) de 25 de Dezembro de 1940 (edição inglesa), na página 19
  14. A Sentinela de 1 de Dezembro de 1944 (em português: Dezembro de 1945)
  15. A Sentinela de 1 de Julho de 1945 (em inglês)
  16. A Sentinela de 15 de Junho de 2004, na página 23
  17. A Sentinela de 15 de Junho de 2000, páginas 29 e 30 (com reimpressão na edição de 15 de Junho de 2004, páginas 29 a 31)
  18. A Sentinela de 15 de Outubro de 2000, páginas 30 e 31
  19. The Journal of the American Medical Association de 27 de novembro de 1981, Volume 246, nº 21, páginas 2471, 2472, publicada pela Associação Médica Americana
  20. New York State Journal of Medicine, 1988; 88:463-464
  21. Relatório da Comissão Europeia dos Direitos Humanos, Requerimento n.º 28626/95, ACTJ da Bulgária v. Bulgária, de 9/3/1995, Parte II, pág. 4 § 17
  22. Jornal Público de 17 de Dezembro de 1999, na secção Sociedade

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]