Tiana (Capadócia)

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Tiana
Tyana • Tuwanuwa • Eusébia no Tauro
Cristópolis
Kemerhisar
Aqueduto romano de Tyana
Localização atual
Tiana está localizado em: Turquia
Tiana
Localização de Tiana na Turquia
Coordenadas 37° 50' 51" N 34° 36' 41" E
País  Turquia
Região Anatólia Central
Província Niğde
Distrito Bor
Altitude 1 145 m
Dados históricos
Abandono Século X d.C.
Notas
Escavações 2001, 2004, 2005
(Universidade de Pádua)
Arqueólogos Guido Rosada
Acesso público
Ruínas de Tiana

Tiana foi uma antiga cidade da região histórica da Capadócia, na Anatólia central, no que é hoje o centro-sul da Turquia, na aldeia de Kemerhisar do distrito de Bor, a pouco mais de dez quilómetros a sudoeste de Niğde.[1] Foi a capital de um reino neo-hitita de língua luvita no 1º milénio a.C. e existiria até ao século X.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Além de Tiana, Tyana ou Tyanna (em grego clássico: Τύανα a cidade foi conhecida por outros nomes. Os Hititas chamavam-lhe Tuwanuwa. Segundo Estrabão, também era conhecida como Eusébia no Tauro[2] ou Eusébia perto do Tauro (em grego clássico: Εὐσέβεια ἡ πρὸς τῷ Ταύρῳ; transl.: Eusébeia hē pròs tō̂i Taúrōi, um nome dado no século II a.C. em honra de Ariarate IV Eusébio, rei da Capadócia entre 220 e 163 a.C.[3] A planície circundante ficou depois conhecida como Tyanitis.[2]

Xenofonte menciona-a na sua obra Anábase com o nome Dana. Segundo uma lenda grega, a cidade começou por chamar-se Toana devido ao seu fundador ter sido Toas, um rei trácio.[4] No início do século III a.C. foi também chamada oficialmente Antoniana colonia Tyana. Na Antiguidade tardia, a cidade foi também conhecida como Cristópolis (em grego: Χριστούπολις; transl.: Christoupolis , "cidade de Cristo").[1] Os Árabes chamaram-lhe Tuwana.

História[editar | editar código-fonte]

A cidade é mencionada nos arquivos hititas como Tuwanuwa. Em meados do 2º milénio a.C., durante o Império Hitita, Tuwanuwa era uma das principais localidades da região, juntamente com Hupisna, Landa, Sahasara, Huwassana e Kuniyawannni.[5] Esta região do centro-sul da Anatólia aparece nas fontes hititas com o nome de "Terra Mais Baixa" e a sua população era constituída sobretudo por falantes de luvita.[6] Após o colapso do Império Hitita, tornou-se a capital de alguns reinos neo-hititas. Não é certo se inicialmente terá estado dependente do reino de Tabal, a norte, mas no final século VIII a.C. era um reino independente sob um governante de nome Warpalawa,[7] que figura em várias inscrições hieroglíficas luvitas encontradas na região, incluindo uma pedra monumental esculpida em Ivriz.[8] Warpalawa também é mencionado em textos assírios com o nome de Urballa, primeiro numa lista de tributários do rei assírio Tiglate-Pileser III e mais tarde numa carta de Sargão II.[7] É provável que Warpalawa tenha sido sucedido pelo seu filho Muwaharani, cujo nome aparece noutro monumento encontrado em Niğde.[9]

Períodos grego e romano[editar | editar código-fonte]

Segundo as fontes gregas, Tiana situava-se na Capadócia, no sopé dos Montes Tauro, perto das Portas Cilícias. Foi ali que nasceu o filósofo (e suposto santo, deus ou mágico) Apolônio de Tiana no século I d.C. Ovídio coloca a história de Filémon e Baucis nas vizinhanças de Tiana.

Durante o reinado do imperador romano Caracala a cidade passou a chamar-se Antoniana colonia Tyana. Depois de ter sido aliada de Zenóbia, rainha de Palmira, foi tomada por Aureliano em 272, que não autorizou os seus soldados a saqueá-la, alegadamente porque Apolónio lhe apareceu e apelou a que poupasse a cidade.

Em 372, o imperador Valente dividiu a província da Capadócia em duas, e Tiana tornou-se a capital e metrópole da Capadócia Secunda.

Período bizantino[editar | editar código-fonte]

Secção de Tiana do Museu Arqueológico de Niğde

Após as conquistas muçulmanas e o estabelecimento da fronteira entre o Império Bizantino e o Califado ao longo dos Montes Tauro, Tiana tornou-se uma importante base militar devido à sua posição estratégica na estrada para a Cilícia e Síria, através das Portas Cilícias, que se encontram cerca de 30 km a sul.[1] A cidade foi frequentemente alvo dos raides muçulmanos e foi saqueada pelos Omíadas depois de um longo cerco em 708,[1] [10] tendo permanecido abandonada durante alguns anos antes de ser reconstruída. Foi depois ocupada pelo califa abássida Harun al-Rashid em 806. Harun iniciou a conversão da cidade numa base militar e até erigiu uma mesquita, mas retirou quando o imperador bizantino Nicéforo I, o Logóteta aceitou pagar tributo em troca de paz.[11]

A cidade voltaria a ser tomada e arrasada pelos Abássidas comandados por Al-Abbas ibn al-Ma'mun em 831.[12] Este reconstruiu o local três anos depois como uma colónia militar, preparando a planeada conquista do Império Bizantino pelo califa al-Mamun. Mas quando este morreu subitamente em agosto de 833 a campanha foi abandonada pelo seu sucessor al-Mu'tasim e a cidade semi-reconstruída foi novamente arrasada.[13]

Tiana caiu em declínio depois de 933, à medida que a ameaça árabe diminuiu.[1] Atualmente ainda há vestígios da antiga cidade na aldeia de Kemerhisar, nomeadamente as ruínas de um aqueduto romano, cemitérios subterrâneos em sepulturas em grutas. Desde 2001 que as ruínas têm vindo a ser escavadas sob a direção de Guido Rosada, da Universidade de Pádua.[14]

História eclesiástica[editar | editar código-fonte]

Aqueduto de Tiana

Como já referido, o imperador Valente criou a província da Cappadocia Secunda, da qual Tiana se tornou a metrópole. Este facto originou uma acesa controvérsia entre Antimo, o bispo de Tiana, e Basílio de Cesareia, pois ambos ambicionavam ter um maior número de sés sufragâneas. Cerca de 640 Tiana tinha três, o mesmo acontecendo no século X.[15] Michel Le Quien menciona 28 bispos de Tiana, entre os quais:[16]

Em maio de 1359, Tiana ainda tinha um metropolita;[17] em 1360 o metropolita de Cesareia passou a assegurar a administração eclesiástica de Tiana,[18] que se tornou uma sé titular.

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

. Wikisource-logo.svg Tyana no Wikisource em inglês.

  1. a b c d e Kazhdan 1991, p. 2130
  2. a b Estrabão. XII, 537; XIII, 587
  3. Tyana (Kemerhisar) (em inglês) www.livius.org. Visitado em 23 de maio de 2013.
  4. Arriano. Periplus Ponti Euxini, vi
  5. Bryce 2003, p. 47
  6. Singer 1981, p. 119-134
  7. a b Bryce 2003, p. 97-98
  8. Bilgin, Tayfun. İvriz Monument (em inglês) www.HittiteMonuments.com. Visitado em 23 de maio de 2013.
  9. Bilgin, Tayfun. Niğde (em inglês) www.HittiteMonuments.com. Visitado em 23 de maio de 2013.
  10. Treadgold 1988, p. 275–276
  11. Treadgold 1988, p. 145
  12. Treadgold 1997, p. 341
  13. Treadgold 1988, p. 279-281
  14. Tyana (Niğde) (em inglês e turco) Current Archaeology in Turkey Universidade da Nova Inglaterra. Visitado em 23 de maio de 2013.
  15. Gelzer 1901, p. 538,554
  16. Le Quien 1740, p. 395-402
  17. Mikelosich & Müller, p. 505
  18. Mikelosich & Müller, p. 537

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bryce, Trevor R. (2003), Melchert, C., ed. (em inglês), The Luwians, Leida: Brill Academic 
  • Gelzer, Heinrich (1901) (em alemão), Ungedruckte und ungenügend veröffentlichte Texte der Nottiae episcopatuum. Ein Beitrag zur byzantinischen Kirchen- und Verwaltungsgeschichte 
  • Le Quien, Michel (1740) (em latim), Oriens christianus in quatuor patriarchatus digestus, in quo exhibentur Ecclesiae patriarchae caeterique praesules totius Orientis, I, Paris 
  • (em latim) Acta patriarchatus Constantinopolitani, I 
  • Singer, Itamar (1981), "Hittites and Hattians in Anatolia at the Beginning of the Second Millennium" (em inglês), B.C. Journal of Near Eastern Studies (9) 
  • Treadgold, Warren T. (1997) (em inglês), A History of the Byzantine State and Society, Stanford University Press, ISBN 978-0-8047-2630-6 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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