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A Rainha Margot (1994)

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La Reine Margot
A Rainha Margot (prt/bra)
A Rainha Margot (1994)
Cartaz do filme mostra Isabelle Adjani com o vestido ensanguentado, em cena que seria cortada da versão final
 França ·  Itália ·  Alemanha
1994 •  cor •  136 min 
Gênero filme dramático
filme histórico
filme biográfico
filme romântico
Direção Patrice Chéreau
Roteiro Danièle Thompson
Patrice Chéreau
Baseado em La Reine Margot, de Alexandre Dumas
Elenco Isabelle Adjani
Vincent Perez
Daniel Auteuil
Jean-Hugues Anglade
Virna Lisi
Música Goran Bregovic
Cinematografia Philippe Rousselot
Idioma francês/italiano

A Rainha Margot[1][2] (em francês: La Reine Margot; em italiano: La regina Margot; em alemão: Die Bartholomäusnacht) é um filme teuto-ítalo-francês de 1994, do gênero drama histórico-biográfico, dirigido por Patrice Chéreau, com roteiro de Danièle Thompson e do próprio Chéreau baseado no romance homônimo de Alexandre Dumas.

La reine Margot teve uma versão realizada em 1954, dirigida por Jean Dréville

O filme "A Rainha Margot" retrata as intrigas políticas e religiosas da França no século XVI, centradas no casamento forçado de Marguerite de Valois (Margot) com o protestante Henrique de Navarre. A união, destinada a trazer paz, se torna estopim para o Massacre da Noite de São Bartolomeu, um violento ataque de católicos contra protestantes.[3]

O filme conta a história dos últimos anos da Casa de Valois como casa real de França, e as perseguições religiosas aos protestantes, incluindo o Massacre da noite de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572. De início, um casamento com o propósito de manter a paz acontece: entre a católica Marguerite de Valois e o protestante Henrique de Navarre. Além disso, retrata em meio ao caos e às intrigas palacianas, a tentativa de Margot de se envolver com um protestante perseguido, buscando fugir da pressão de sua família.[3]

Contexto Histórico

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Na França do século XVI, as guerras religiosas não aconteciam só nos campos de batalha ou nas decisões dos reis. Elas estavam presentes no dia a dia das pessoas, nas cerimônias e nas ruas das cidades. Missas, sermões, procissões, funerais e batismos se transformavam em momentos de confronto entre católicos e protestantes. Muitas vezes, pequenos gestos eram interpretados como provocações: não tirar o chapéu diante de uma imagem, cantar salmos em voz alta ou não colocar tapetes na porta durante uma procissão. [4]

O filme destaca esses atos que podiam acabar em brigas, ataques e até massacres. A multidão acreditava que estava defendendo a fé e a comunidade, especialmente quando achava que padres, pastores ou autoridades não estavam cumprindo seu papel. As procissões e festas populares eram momentos bastante intensos. Para os católicos, essas celebrações representavam a expressão da fé; já para os protestantes, eram consideradas “abominações” que precisavam ser combatidas. Isso muitas vezes levava a confrontos violentos, mostrando o quanto a religião estava profundamente enraizada na vida social e cultural das pessoas. Por isso, os conflitos religiosos não se resumiram a grandes batalhas. Eles também aconteciam no dia a dia, nas ruas, nos corpos das pessoas e nos rituais que praticavam.[4]

O filme e a obra de Dumas

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A obra apresenta uma inspiração no romance de mesmo nome de Alexandre Dumas père, de 1845. Esse romance foi inscrito com a colaboração de Auguste Maquet, sendo o primeiro volume de uma trilogia sobre as guerras de religião. A primeira tradução brasileira foi publicada no rodapé do Jornal do Comércio.[5] O escritor utiliza alguns recursos para construir seu romance. Ele cita , por exemplo, uma Histoire de Marguerite de Valois, escrita por um certo Tallemant de Béaux e cartas de Catarina de Médici. A seguir, um trecho sobre La Mole (amante de Margot) que Catarina encaminhou ao procurador de justiça:

"Durante este tempo, como tinha previsto Charles, Catherine não perdia um minuto, e escrevia ao procurador geral Laguesle uma carta da qual a história conservou até a menor palavra, e que lança sobre este caso sangrentos clarões: ‘Sr. Procurador, Nesta noite, deram-me como certo que La Mole cometeu sacrilégio. Em seu alojamento, em Paris, foram encontradas muitas coisas más, como livros e papéis. Eu lhe suplico que chame o primeiro presidente e que instrua o mais rapidamente possível o caso da figura de cera cujo coração eles perfuraram e isto foi feito contra o rei.’ [6]

Atrizes Isabelle Adjani & Dominique Blanc - La Reine Margot

O romance também se vale de crônicas não autorizadas, o que ajuda na construção de uma ideia de intrigas e conspirações do período em que se passa. O filme[7] e a obra constroem certos estereótipos dos personagens: uma Catarina de Médici conspiratória e maléfica, uma Margarida de Valois lasciva e um rei Carlos IX como fraco e manipulável. É possível perceber como características da sociedade do século XVI aparecem na elaboração dessas figuras.

A título de exemplo, com planos de assassinatos, a prática da bruxaria na Época Moderna( estudada por historiadores como Stuart Clark) e da produção de receitas e venenos aparecem maquiavelicamente na obra cinematográfica com Catarina de Médici e o mago René nesse processo de manutenção do poder e manipulação política. Alguns historiadores, como John Elliot, constroem a ideia de Catarina como menos habilidosa no trato político para arbitrar rivalidades do que outros monarcas como Elizabeth I e Filipe II.[8] No filme, ela aparece tramando a morte de Henrique de Navarra, primeiro envenenando o batom de uma amante dele e depois planejando a morte do homem através do envenenamento das páginas de um livro que deveria ser lido por Henrique. Uma reviravolta acontece e quem acaba falecendo é Carlos IX ao ter acesso ao livro. Apesar desse fato provavelmente nunca ter acontecido e o rei não ter morrido assim, é interessante perceber como a narrativa traz práticas que não são totalmente incomuns a época, como os planos de assassinatos em um contexto de guerras religiosas.

Em relação à Margot e a época renascentista, algo que não aparece na obra cinematográfica mas presente no romance é seu interesse pela cultura e conhecimento de grego e latim, além de um trecho em que Dumas cita um pronunciamento que ela faria aos embaixadores poloneses em que lê Sócrates no original grego.[9] O filme procura muito mais explorar os relacionamentos amorosos de Margot do que alguns desses aspectos.

Em seu texto publicado na Revista de Literatura, História e Memória, Maria Maretti observa que ambos os trabalhos tem o propósito de "contar uma história da França que não deve ser esquecida".[5] Dessa maneira, seja num país que vivia a Monarquia de Julho no século XIX (no romance de Alexandre Dumas) seja num país que 5 anos antes tinha comemorado os 200 anos da Revolução Francesa no século XX (no filme de Patrice Chéreau), o que permanece é a crítica dos hábitos da monarquia e do mundo do não razoável, do não tolerável, como colocado por autores como György Lukács ao realizar estudos sociológicos sobre a literatura ficcional.

  • Isabelle Adjani que interpreta a rainha Margot, personagem central do filme;
  • Daniel Auteuil interpreta Henri de Navarre, líder protestante;
  • Jean-Hugues Anglade interpreta o Rei Carlos 9.º também irmão de Margot;
  • Vincent Perez interpreta De La Môlen, o interesse romântico de Margot durante o filme;
  • Virna Lisi interpreta a Rainha Catarina de Médici, peça-chave para os desdobramentos do filme;
  • Dominique Blanc interpreta Henriette de Nevers, grande amiga e acompanhante de Margot;
  • Pascal Greggory interpreta Anjou, um dos filhos de Catarina de Médici que vem a substituir o irmão;
  • Claudio Amendola interpreta Coconnas grande amigo e escudeiro de Anjou;
  • Miguel Bosé interpreta o Conde de Guise, interesse amoroso de Margot, anterior ao seu casamento;
  • Asia Argentom interpreta Charlotte de Sauve, uma dama de companhia que vem a ser a amante de Navarre.

Bilheteria

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Nos primeiros cinco dias em cartaz na França, o filme arrecadou US$ 2,2 milhões, liderando as bilheteiras do país após expandir sua exibição para 428 salas. Ao todo, mais de 2 milhões de franceses assistiram ao longa, gerando uma receita de US$ 12,26 milhões. O desempenho internacional também foi expressivo: superou os US$ 2 milhões na Itália, nos Estados Unidos e no Canadá (onde teve lançamento limitado), arrecadou US$ 1,33 milhão na Alemanha com 260 mil ingressos vendidos, e atraiu 530 mil espectadores na Argentina. No total global, a produção ultrapassou os US$ 20 milhões em bilheteria.[carece de fontes?]

Trailer: 20º aniversário

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Quando no vigésimo aniversário do filme Rainha Margot (1994), o trailer da obra cinematográfica passou por um processo de restauração que aprimorou significativamente sua imagem, elevando-a à resolução 4K. Além da melhoria técnica, essa nova versão também trouxe cenas extras.[10]

Principais prêmios e indicações

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Prêmio César 1995 (França)

  • Venceu
    • Melhor atriz (Isabelle Adjani)
    • Melhor fotografia ( )
    • Melhor figurino (Moidele Bickel)
    • Melhor ator coadjuante (Jean-Hugues Anglade)
    • Melhor atriz coadjuvante (Virna Lisi)
  • Indicado
    • Melhor filme
    • Melhor diretor
    • Melhor edição (François Gédigier e Hélène Viard)
    • Melhor música (Goran Bregovic)
    • Melhor desenho de produção (Richard Peduzzi e Olivier Radot)
    • Melhor atriz coadjuvante (Dominique Blanc)
    • Melhor roteiro original ou adaptado (Patrice Chéreau e Danièle Thompson)

Festival de Cannes 1994 (França)

Oscar 1995 (EUA)

BAFTA 1996 ()

  • Indicado na categoria de melhor filme em língua não inglesa[12]

Globo de Ouro 1995 (EUA)

  • Indicado na categoria de melhor filme em língua estrangeira[14]

Referências

  1. «A Rainha Margot (1994)». Cineplayers. 27 de novembro de 2018. Consultado em 30 de junho de 2025 
  2. «A Rainha Margot». PÚBLICO (em inglês). Consultado em 30 de junho de 2025 
  3. a b «A RAINHA MARGOT». Cinemateca Brasileira. Consultado em 4 de dezembro de 2025 
  4. a b DAVIS, Natalie Zemon. Ritos de Violência. In Cultura do povo: sociedade e cultura no início da França moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
  5. a b MARETTI, Maria (2010). «A Rainha Margot em duas versões». Unioeste. Revista de Literatura, História e Memória. 6 (7): 227-237 
  6. DUMAS, Alexandre (1845). La Reine Margot. Paris: Calmann Lévy. p. 139 
  7. LA REINE Margot. Direção: Patrice Chéreau. Produção: Claude Berri. Roteiro: Patrice Chéreau e Danièle Thompson. Intérpretes: Isabelle Adjani; Jean-Hugues Anglade; Virna Lisi; Daniel Auteuil; Vincent Perez e outros. [França/Itália/Alemanha], 1994. 1 DVD (136 min), son., colo
  8. ELLIOTT, John H. A Europa Dividida, 1559-1598 (1968). Lisboa: Presença, 1985, p. 53-77
  9. DUMAS Père, Alexandre. La Reine Margot. Paris: Calmann Lévy, 1845.
  10. YOUTUBE. La Reine Margot (1994) – Trailer. [S.l.]: YouTube, 26 abr. 2011.
  11. a b «premiação». Cineplayers. Consultado em 30 de junho de 2025 
  12. a b AdoroCinema, Les secrets de tournage du film A Rainha Margot, consultado em 30 de junho de 2025 
  13. «premiação». Cineplayers. Consultado em 30 de junho de 2025 
  14. «premiação». Cineplayers. Consultado em 30 de junho de 2025