Anemia falciforme

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Anemia falciforme
Hemácias em forma de foice
Classificação e recursos externos
CID-10 D57
CID-9 282.6
OMIM 603903
DiseasesDB 12069
MedlinePlus 000527
eMedicine med/2126 oph/490 ped/2096 emerg/26 emerg/406
MeSH C15.378.071.141.150.150
GeneReviews

Anemia falciforme (do latim falci-, foice e -forme, formato de) ou drepanocitose é uma doença hereditária monogênica, caracterizada pela presença de uma hemoglobina anormal (HbS), que sob determinadas condições de desoxigenação, polimeriza, deformando as hemácias, que assumem uma forma semelhante a foices, causando deficiência no transporte de oxigênio e gás carbônico e outras complicações, nos indivíduos acometidos pela doença. [1] [2] É mais comum na África, na Europa mediterrânea, no Oriente Médio e na Índia.

A expectativa de vida é encurtada, em média, aos 42-45 anos e as complicações da patologia estão presentes na maioria dos casos.[3] [4]

Causa[editar | editar código-fonte]

A presença da anemia falciforme, é determinada por uma quantidade elevada de hemácias deformadas. Em indivíduos normais, as células de transporte de gases, hemácias (também conhecidas como eritrócitos ou glóbulos vermelhos), têm forma arredondada côncava e flexível, e possuem em si moléculas de hemoglobina,que são responsáveis por fazer as ligações gasosas. Essa constituição permite que essas células consigam executar sua função mesmo através dos mais finos capilares.

A formação dessa hemoglobina, determinada por um par genético no cromossomo 11, muda nos indivíduos falciformes. Neles, há a presença de ao menos um gene mutante, que leva o organismo a produzir a hemoglobina S (HbS). Essa hemoglobina é devida à substituição de um único nucleotídeo que altera o códon do sexto aminoácido da B-Globina de ácido glutâmico para valina (GAA → GUA: Glu6Val),pois a mutação ocorre no DNA, depois deste ser transduzido A homozigosidade para esta mutação é a causa dessa anemia falciforme. Um heterozigoto tem uma mistura dos dois tipos de hemoglobinas, A (HbA) e S (HbS), além de um tetrâmero híbrido de Hemoglobina. Ela consegue transportar o oxigênio mas, quando o mesmo passa para os tecidos, as moléculas da sua hemoglobina se aglutinam em formas gelatinosas de polímeros, também chamadas tactóides, que acabam por distorcer as hemácias, que se tornam duras e quebradiças devido às mudanças na sua membrana.

Quando recebem novamente o oxigênio, podem ou não reganhar seu formato: após algum tempo, por não suportar bem modificações físicas, a hemoglobina pode manter a forma gelatinosa permanentemente e, consequentemente, a deformação que ela gera. Nessa forma, sua vida útil se extingue mais rapidamente, o que pode vir a causar anemia hemolítica (ou comum). Contudo, ao contrário da anemia comum, não há tratamento definitivo para a forma falciforme. O gene causador desse último problema tem uma relação de co-dominância com o gene normal. Assim, há indivíduos portadores de uma forma branda e de uma forma severa da mesma doença.

Doença falciforme[editar | editar código-fonte]

A anemia falciforme obedece a um modelo de herança tipo autossômica recessiva [5] É chamado portador de anemia falciforme o paciente que apresenta o gene da hemoglobina S (HbS) em homozigose e portador do traço falcêmico o indivíduo que apresenta o gene da HbS em heterozigose (HbS - HbA).

Observe-se porém que existe expressão clínica patológica caso o gene HbS se apresente em qualquer heterozigotia mista, que não a combinação com a hemoglobina mais frequente (HbA) caracterizando o portador normal traço falcêmico. Na combinação do gene HbS com genes determinantes de variantes da hemoglobina (HbC; HbD) ou de hemoglobinas anômomalas causadoras de outras formas de anemia hereditária tipo a talassemia Caso o gene HbS temos o que se denomina Doença Falciforme (SC; SD; S-talassemia, etc.) com sintomatologia semelhante, ou mais grave a da anemia falciforme. [6]

Sinais e sintomas[editar | editar código-fonte]

Há a presença de alguns dos sintomas clássicos da anemia, causados pela falta e ineficiência de hemácias como:

Há, contudo, a presença de uma gama de sintomas característicos da anemia falciforme aguda, que são causados pelo aumento da viscosidade sanguínea, que é a aglomeração de hemácias comprometidas. Por causa disso, pode haver formação de trombos (coágulos) nas mais diversas áreas do organismo, com défice do transporte sanguíneo para a área. Em regiões musculares ou conjuntivas, isso pode causar crises de dor intensa.

Concomitantemente a isso, há um aumento do número de hemácias comprometidas, uma vez que a acidose e a deficiência de oxigênio facilita a deformação permanente. Pode causar também hemorragia, descolamento retiniano, priapismo, acidente vascular cerebral, enfarte, calcificações em ossos com dores agudas, insuficiência renal e pulmonar, dependendo da fase de vida. Nas mãos e nos pés principalmente das crianças, pode haver tumefacção causado pela obstrução de vasos naquelas áreas, também acompanhado de dor. Pode ainda ocasionar uma maior suscetibilidade à infecções.

Epidemiologia[editar | editar código-fonte]

É mais frequente na África, Oriente médio e Índia, com prevalência variando entre 1 e 22% dos nascidos nessas áreas.[7]
A área endêmica da malária é quase a mesma.

No ocidente, a prevalência é de cerca de 1 em cada 5000, mas em áreas endêmicas da Índia, Arabia Saudita e Nigéria a prevalência varia entre 2 e 22,2%. Nessas regiões é comum encontrar pessoas resistentes a doença, produzindo maior quantidade de hemácias saudáveis.[8]

Em 2001, 90% sobreviviam até os 20 anos e 50% até os 50 anos, sendo muitas das mortes causadas por outras doenças endêmicas da região, como malária e AIDS.[9]

Relação com a malária[editar | editar código-fonte]

Os portadores da anemia falciforme são geralmente mais resistentes à malária do que as pessoas que não têm essa deficiência. Isso ocorre pois os protozoários Plasmodium necessariamente se reproduzem no interior das hemácias humanas e as hemácias danificadas do indivíduo falciforme não são adequadas a esse tipo de função, mesmo quando exposto ao vetor da doença, o mosquito Anopheles contaminado.

Tratamento[editar | editar código-fonte]

A única cura para a anemia falciforme é o transplante de medula óssea. Este tratamento, no entanto, foi realizado em um número relativamente grande de pacientes ao redor do mundo, com maior taxa de sucesso entre crianças. Ainda é necessário um número maior de estudos e a determinação de características clínicas que permitam indicar o transplante com maior segurança. Alguns trabalhos experimentais tem sido feitos com terapia gênica.

Do ponto de vista clínico, o uso de hidroxiuréia, um quimioterápico inibidor da ribonucleotidase vem se revelando útil, por diminuir o número de episódios dolorosos e síndrome torácica aguda. Esta medicação atua por diversos meios, aumentando hemoglobina fetal, diminuindo leucócitos e reticulócitos aderentes ao endotélio e elevando os níveis de óxido nítrico. O uso de hidroxiuréia deve ser feito com supervisão médica, pelo risco de depressão da função da medula óssea e infecções. Além disso os usuários não podem engravidar durante seu uso pelo risco de teratogenicidade para o feto. A experiência clínica de 25 anos com esta medicação não revelou aumento da chance de câncer em seus usuário e trabalhos recentes sugerem aumento da sobrevida dos pacientes.

São realizadas transfusões durante exacerbações da anemia. Pacientes com complicações graves, como acidente vascular cerebral, são submetidos a regimes regulares de transfusão sanguínea ou exsanguineo-transfusão, em geral a cada 28 dias. Pacientes neste regime tendem a acumular ferro no organismo (hemossiderose), o que pode ser controlado com o uso de substâncias quelantes. Se o ferro não for adequadamente quelado pode se depositar em órgãos como fígado e coração trazendo outras complicações.

Durante crises, deve ser administrada hidratação intravenosa e analgesia preferencialmente com opioides. É sugerido que o uso de dolantina, um dos opioides endovenosos, seja evitado, pelo risco maior de dependência.Toda crise dolorosa tem de ser avaliada como prenúncio de complicações graves, como a síndrome torácica aguda. O tratamento deve evitar hiper-hidratação e hiper-sedação e privilegiar a fisioterapia respiratória.

Referências

  1. ROCHA, Heloisa H. G. Anemia falciforme. RJ, Rubio, 2004 ISBN 858760029-X p.72
  2. ANVISA. Manual de Diagnóstico e Tratamento de Doenças Falciformes. Brasília, ANVISA, 2001 PDF
  3. Platt OS, Brambilla DJ, Rosse WF; et al. (1994). "Mortality in sickle cell disease. Life expectancy and risk factors for early death". N. Engl. J. Med. [S.l.: s.n.] 330 (23): 1639–44. doi:10.1056/NEJM199406093302303. ISSN 0028-4793. PMID 7993409. 
  4. ARAUJO, Adérson. Complicações e expectativa de vida na doença falciforme: o maior desafio. Rev. Bras. Hematol. Hemoter., São Paulo , v. 32, n. 5, 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-84842010000500004&lng=en&nrm=iso>. access on 17 Jan. 2015.
  5. AZEVEDO, Eliana S. Comentários sobre a descoberta do mecanismo de herança da anemia falciforme. Gazeta Médica da Bahia V.80; nº3 (3-5).Salvador, agosto-outubro de 2010 PDF Acesso Jan. 2015
  6. ROCHA, Heloisa H. G. Anemia falciforme. RJ, Rubio, 2004 p.72
  7. Awasthy N, Aggarwal KC, Goyal PC, Prasad MS, Saluja S, Sharma M (2008). "Sickle cell disease: Experience of a tertiary care center in a nonendemic area". Annals of Tropical Medicine and Public Health 1 (1): 1–4. doi:10.4103/1755-6783.43069.
  8. Kumar, Vinay; Abbas, Abul K.; Fausto, Nelson; Aster, Jon (2009-05-28). Robbins and Cotran Pathologic Basis of Disease, Professional Edition: Expert Consult - Online (Robbins Pathology) (Kindle Locations 33530-33531). Elsevier Health. Kindle Edition.
  9. Wierenga, K. J.; Hambleton, I. R.; Lewis, N. A. (2001). "Survival estimates for patients with homozygous sickle-cell disease in Jamaica: A clinic-based population study". Lancet 357 (9257): 680–683. PMID 11247552. edit

Ligações externas[editar | editar código-fonte]