Anima e Animus

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Anima e Animus, na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, são aspectos inconscientes de um indivíduo, opostos à persona, ou aspecto consciente da Personalidade. O inconsciente do homem encontra expressão como uma personalidade interior feminina: a Anima; No inconsciente da mulher, esse aspecto é expresso como uma personalidade interna masculina: o Animus.

É importante destacar que autores(as) influenciados pelo pensamento de Jung já discutem os pólos energéticos "Anima e Animus" sob uma perspectiva universal, levando-se em conta que o desenvolvimento da personalidade interior está regida pelo Inconsciente Coletivo. Neste sentido, podemos citar Roberto Gambini, Ginette Paris e James Hillman enquanto pós-junguianos ampliando o conceito. Podemos pensá-las numa dimensão cósmica, ou seja, pólos que abrangem variados fenômenos da cultura manifestados sob a forma destas imagens arquetípicas.

Animas e Animus Significado (livro: O segredo da flor de ouro - C. G. JUNG & R. WILHELM)[editar | editar código-fonte]

Às figuras do nosso texto correspondem não somente os deuses, mas o animus e a anima. WILHELMtraduz a palavra "hun" por "animus". De fato, o conceito de anímus é adequado a "hun", cujo caráter écomposto do sinal para "nuvens", associado ao sinal para "demônio". Hun significa portanto "demôniodas nuvens", alto sopro da alma que pertence ao princípio yang e que portanto é masculino. Após a morte,hun se eleva e se torna "schen", "espírito ou deus que se expande e manifesta". A anima, denominada"po", se escreve com os caracteres correspondentes a "branco" e "demônio"; é portanto o "fantasmabranco", pertence ao princípio yin, à alma corporal ctônica e inferior, que é feminina. Após a morte, eladesce, tornando-se "gui", demônio, freqüentemente chamado "aquele que retorna" (à terra): o fantasma ouespectro. O fato de que animus e anima se separem após a morte, seguindo cada qual seu caminhopróprio, mostra que para a consciência chinesa eles representam fatores psíquicos diversos um do outro;embora sejam originalmente "um só ser, único, verdadeiro e atuante", são dois na "casa do criativo". "Oanimus está no coração celeste; de dia, mora nos olhos (isto é, na consciência) e, de noite, sonha a partirdo fígado". Ele é o que "recebemos do grande vazio, idêntico pela forma ao começo primevo". A anima,pelo contrário, é "a força do pesado e curvo", presa ao coração corporal, carnal. Suas atuações (efeitos)são os "desejos carnais e os ímpetos de cólera". "Quem, ao despertar, se sente sombrio e abatido, estáencadeado pela anima".Muitos anos antes que WILHELM me propiciasse o conhecimento desse texto, eu já usava o conceito de"anima" analogamente ao da definição chinesa31, excetuando porém qualquer pressuposto metafísico.Para o psicólogo, a anima não é um ser transcendental, mas algo que se pode experimentar, tal como odefine com clareza o texto em questão: os estados afetivos são experiências imediatas. Por que, então, sefala de anima, e não de simples humores? O motivo é o seguinte: os afetos têm um caráter autônomo epor isso subjugam á maioria das pessoas. No entanto, os afetos também são conteúdos da consciência quepodem ser delimitados, isto é, são partes integrantes da personalidade.Assim, pois, têm um caráter pessoal, podendo ser facilmente personificados e o são, ainda hoje, tal comomostrei nos exemplos acima. A personificação não é uma invenção ociosa, porquanto o indivíduoefetivamente excitado não demonstra um caráter indiferente, mas um caráter bem definido e diferentedaquele que lhe é habitual. Uma investigação cuidadosa revelou que o caráter afetivo do homem temtraços femininos. Deste fato psicológico deriva a doutrina chinesa da alma-po, e a minha própriaconcepção de anima. Uma introspecção mais profunda ou uma experiência extática revela a existência deuma figura feminina no inconsciente, e daí seu nome feminino: anima, psique, alma. Pode-se tambémdefinir a anima como imago ou arquétipo, ou ainda como o depósito de todas as experiências que ohomem já teve da mulher. Por isso, a imagem da anima é, em geral, projetada numa mulher. Comosabemos, a arte poética freqüentemente descreveu e cantou a anima.Por mais correta que seja a tradução de "hun" por animus, feita por WILHELM, razões de importânciafundamental me levaram a não considerá-la bem adequada à clareza e racionalidade do espírito dohomem. Preferi, portanto, a expressão 'Logos". O filósofo chinês é poupado de certas dificuldades que sepropõem ao psicólogo ocidental, complicando-lhe a tarefa. A filosofia chinesa, como todas as demaisatividades espirituais dos tempos mais remotos, constituem um elemento do mundo exclusivamentemasculino. Seus conceitos nunca são tomados do ponto de vista psicológico e, portanto, nunca sãobastante amplos de modo a aplicar-se também à psique feminina. O psicólogo, porém, não pode ignorar aexistência da mulher e sua psicologia própria. Por este motivo preferi traduzir "hun", no homem, por"Logos". WILHELM, em sua tradução, usa a palavra "Logos" para traduzir o conceito chinês de "sing",que também pode ser traduzido por 'essência" ou por "consciência criativa". Depois da morte, "hun" setransforma em "schen", "espírito", que se aproxima filosoficamente de "sing". Como os conceitoschineses são concepções intuitivas, não possuindo nosso sentido lógico, seu significado só pode serestabelecido segundo o modo pelo qual são usados, e pela constituição dos caracteres escritos ou aindapelas relações de "hun" e "schen". "Hun" seria portanto a luz da consciência e a razão do homemprovindo originalmente do Logos spermatikós de sing e voltando, após a morte, ao Tao, através de schen.A expressão Logos é aqui particularmente apropriada, uma vez que abarca a idéia de um ser universal,assim como a clareza da consciência e da racionalidade do homem, as quais são muito mais algo deuniversal do que algo unicamente individual; o Logos também não é pessoal, mas, em seu sentido maisprofundo, suprapessoal e assim pois em estreita oposição à anima, demônio pessoal, cuja manifestaçãosão os personalíssimos humores (daí, a animosidade!).Considerando estes fatos psicológicos, reservei a expressão animus exclusivamente para as mulheres,uma vez que "mulier non habet animam, sed animum". A psicologia feminina revela um elemento quecorresponde à anima do homem; a natureza desse elemento primariamente não afetivo, mas de essênciaquase intelectual, pode ser caracterizada pela palavra "preconceito". A natureza emocional do homem, enão o "espírito", corresponde ao lado consciente da mulher. O espírito, nela, é a "alma", melhor, oanimus. E assim como a anima do homem consiste, em primeiro lugar, de relacionamentos afetivos decaráter inferior, assim o animus da mulher consiste de julgamentos de nível inferior, ou melhor, deopiniões. (Para um aprofundamento desta passagem, remeto o leitor à obra acima citada, porquanto aquisó menciono o delineamento geral). O animus da mulher consiste de uma multiplicidade de opiniõespreconcebidas e assim é menos suscetível de personificar-se numa figura; geralmente ele se manifestanum grupo ou numa multidão. (Um bom exemplo, na parapsicologia, é o chamado "Imperator" de Mrs.Piper). O animus, em seu nível mais baixo, é um Logos primitivo, uma caricatura do espíritodiferenciado do homem, do mesmo modo que a anima, em seu nível inferior, é uma caricatura do Erosfeminino. Do mesmo modo que hun corresponde a sing, traduzida por WILHELM pela palavra "Logos",assim o Eros da mulher corresponde a ming: destino, "fatum", fatalidade, que WILHELM traduz einterpreta como "Eros". Eros é entrelaçamento e Logos, o conhecimento diferenciador, a clara luz. Eros érelacionamento; Logos é discriminação e desapego. Por isso, o Logos inferior da mulher manifesta-secomo algo que não se relaciona com coisa alguma, como um preconceito inacessível ou como umaopinião irritante, que nada tem a ver com a natureza essencial do objeto.Acusaram-me muitas vezes de personificar a anima e o Animus de um modo mitológico. Tal censura sóteria razão de ser se fosse provado que eu concretizo esses conceitos para fins psicológicos. Queroesclarecer de uma vez por todas que a personificação não é uma invenção minha, sendo inerente aosfenômenos de que se trata. Seria anticientífico ignorar o fato de que a anima é um sistema psíquicoparcial, de caráter pessoal. Ninguém dos que me fizeram tal censura hesitou um segundo ao dizer: "Eusonhei com o senhor X", uma vez que sabe muito bem ter apenas sonhado com uma representação dosenhor X. A anima nada mais é do que uma representação da natureza pessoal do sistema parcialautônomo de que falamos. O que esse sistema parcial é, do ponto de vista transcendental, ultrapassa oslimites da experiência, e portanto o ignoramos.Defini a anima como uma personificação do inconsciente, e também como uma ponte que leva aoinconsciente, isto é, como uma função de relação com o inconsciente. Há um nexo interessante entre oque foi dito e a afirmação do nosso texto de que a consciência (isto é, a consciência pessoal) provém daanima. Como o espírito ocidental se coloca inteiramente do ponto de vista da consciência, deve por forçadefinir a anima da maneira pela qual eu o fiz. Inversamente, o oriental vê, do ponto de vista doinconsciente, a consciência como um efeito da anima! Sem dúvida alguma, a consciência originou-se doinconsciente. No entanto, quase não pensamos neste fato, e daí a nossa tendência constante de identificara psique com a consciência ou, pelo menos, a considerar o inconsciente como um derivado ou efeito daconsciência (por exemplo, lembramos a teoria freudiana da repressão). Contudo, é essencial, pelosmotivos acima discutidos, que não se ignore a realidade do inconsciente, e que as figuras a elepertencentes sejam compreendidas como fatores atuantes. Quem realmente compreende o que significa arealidade psíquica, não precisa temer uma recaída na demonologia primitiva. Quando não se reconhece adignidade de fatores atuantes e espontâneos das figuras do inconsciente, é possível sucumbir à crençaunilateral no poder da consciência, que conduz finalmente a uma tensão aguda. As catástrofes têm entãoque acontecer, porque apesar de toda a consciência foram negligenciados os poderes obscuros da psique.Não somos nós que os personificamos, mas são eles que desde a origem têm uma natureza pessoal. Sóquando reconhecermos fundamentalmente este fato, poderemos pensar em despersonalizá-los, isto é,em "subjugar" a anima, tal como se exprime em nosso texto.Surge aqui, de novo, uma tremenda diferença entre o budismo e a atitude espiritual do Ocidente, e aomesmo tempo uma perigosa aparência de concordância. A doutrina ioga rejeita todos os conteúdos dafantasia. Nós fazemos o mesmo. No entanto, o oriental o faz por um motivo muito diferente do nosso. NoOriente, imperam concepções e doutrinas que permitem a plena expressão da fantasia criadora; lá, énecessário proteger-se contra seu excesso. Nós, pelo contrário, consideramos a fantasia como um pobredevaneio subjetivo. As figuras inconscientes não aparecem, naturalmente, de um modo abstrato,despojadas de todo ornamento. Pelo contrário, elas são engastadas e entrelaçadas num véu de fantasias, deum colorido surpreendente e de uma perturbadora plenitude. O Oriente pode rejeitar essas fantasias,porque há muito que já tirou seu extrato, condensando-as nos ensinamentos profundos de sua sabedoria.Nós, porém, não experimentamos tais fantasias uma só vez, e tampouco extraímos sua quintessência.Ainda temos de recuperar uma larga faixa de vivências experimentais e somente então, quandohouvermos encontrado o conteúdo sensato na aparente insensatez, poderemos separar o que é valiosodaquilo que não tem valor. Estejamos seguros de que a essência que extrairmos de nossas vivências serádiversa da que o Oriente hoje nos oferece. O Oriente chegou ao conhecimento das coisas internas, comum desconhecimento infantil do mundo. Nós, pelo contrário, exploramos a psique e suas profundezasapoiados num enorme e vasto conhecimento da História e da Ciência. Atualmente, o saber externo é omaior obstáculo à introspecção, mas a necessidade anímica ultrapassará todas as obstruções. Já estamosconstruindo uma psicologia, uma ciência que nos dará a chave das coisas que o Oriente só descobriuatravés de estados anímicos excepcionais!

Referências[editar | editar código-fonte]

  • JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente. Petrópolis, RJ: Vozes, 1980. ISBN 8532604706
  • JUNG, Carl Gustav (org.). O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1991. ISBN 8520906427
  • VON FRANZ, Marie-Louise. O caminho dos sonhos. São Paulo, SP: Cultrix, 1991. ISBN 8531600405

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