Anti-anticomunismo

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Atores engajados na luta pelos direitos civis, uma das marcas remanescentes do anti-anticomunismo: Sidney Poitier, Harry Belafonte e Charlton Heston em Washington DC, 1963.

Anti-anticomunismo foi a denominação dada a uma posição ideológica empregada contra o que se considerava abusos retóricos cometidos pelos anticomunistas.

Segundo os anticomunistas, os anti-anticomunistas demonizariam seus detratores, intitulando as alegações dos primeiros de paranoicas e distorcidas,[1] ao mesmo tempo em que se apresentavam como abnegados idealistas. Por conta dos excessos cometidos durante o macartismo e suas "listas negras", particularmente entre jornalistas e profissionais da indústria cinematográfica de Hollywood, declarar-se anti-anticomunista teria se tornado uma lamentável "moda intelectual" entre pessoas do meio artístico, algo que, segundo o periódico El Nuevo Herald de Miami, perduraria até os dias de então (início de 2001).[2]

No início da década de 1960, alguns astros e cineastas de Hollywood passariam a engajar-se em atividades políticas, contra a segregação, o imperialismo e os movimentos anti-comunistas. Eram Sidney Poitier, que havia sido premiado com o primeiro Oscar de melhor ator dado a um negro, Charlton Heston, Harry Belafonte, James Baldwin, Marlon Brando, Burt Lancaster, Paul Newman e Joanne Woodward, que viajaram de Los Angeles a Washington em agosto de 1963 para fazerem um manifesto em uma audiência anticomunista no Congresso. Para eles, as audiências anticomunistas em Washington e a expulsão de suspeitos de serem membros do Partido Comunista em Hollywood tiveram um efeito dissuasivo sobre as atividades políticas de cineastas e atores.[3][4]

Histórico[editar | editar código-fonte]

Embora o uso da expressão esteja fundamentalmente ligado a história dos Estados Unidos da América a partir do início dos anos 1960,[5] e ao período pós-macartista, ela também foi empregada no Brasil, notadamente pelo pensador católico Gustavo Corção, que em 25 de junho de 1961 publicou no Diário de Notícias do Rio de Janeiro um artigo denominado "O Anti-anticomunismo", sobre um manifesto emitido pela PUC.[6][nota 1]

O movimento anti-anticomunista foi enfrentado no Brasil na década de 1970 pela organização de inspiração católica Tradição, Família e Propriedade, fundada por Plinio Corrêa de Oliveira. Esse enfrentamento da TFP foi apoiado, entre outros, pelos jornalistas Alexandre von Baumgarten e Lenildo Tabosa Pessoa.[7]

O anti-anticomunismo pelos anticomunistas[editar | editar código-fonte]

Lewy, no capítulo "The Revival of Anti-anticommunism" do seu livro,[5]assinala ainda que além de ser em parte uma reação antimacartista, o anti-anticomunismo era, também, uma defesa indireta do comunismo, levada a cabo nos anos 1960 por pessoas como J. William Fulbright, Martin Luther King, Jr., e, principalmente, por Lillian Hellman. Filmes como The Front (de Woody Allen), Seeing Red: Stories of American Communists, The Romance of American Communism e The Killing Fields, seriam, em maior ou menor grau, apologias do stalinismo. No meio acadêmico, livros como The Great Fear de David Cante e No Ivory Tower: McCarthyism and the Universities, de Ellen W. Schrecker, desempenhariam papel similar. Lewy, contudo, conclui afirmando que o anti-anticomunismo estava restrito aos círculos intelectuais e que era majoritariamente rejeitado pela população em geral.

Críticos como o ex-marxista David Horowitz encaram a definição "anti-anticomunista" como essencialmente negativa, desde os primórdios do seu uso pela Nova Esquerda. Segundo Horowitz,

"era uma esquerda 'nova' porque não queria identificar-se com o Comunismo. Mas tampouco quis se opor ao Comunismo, porque então teria que apoiar a Guerra Fria da América. O 'anti-anticomunismo' era o código do seu antiamericanismo. O que a esquerda queria era opor-se a América e a sua 'democracia impostora' ".[8]

Mais recentemente (2006), Linda Chavez, presidente do Center for Equal Opportunity, comparou os anti-anticomunistas de outrora aos defensores dos direitos humanos de hoje. Conforme declarou,

"anti-anticomunismo tornou-se a característica que define os liberais americanos, que nunca recuperaram completamente sua credibilidade junto ao povo americano quando se trata de proteger a nação. Os herdeiros dessa tradição liberal poderiam ser chamados hoje de anti-antiterroristas. O que quer que seja que o governo tente fazer para nos proteger da ameaça de terroristas islâmicos, cai imediatamente sob suspeita".[9]

Comunistas em Hollywood[editar | editar código-fonte]

A influência comunista em Hollywood que teria começado a se fazer sentir a partir de meados dos anos 1930 pela ação do CPUSA (o Partido Comunista dos Estados Unidos da América), se jamais chegou a ditar o ritmo e o tom das grandes produções da "Meca do Cinema", teria tido sucesso em, ao menos, obstar a produção de filmes anti-soviéticos. O CPUSA teria não só auxiliado na criação do prestigioso Screen Writers Guild (o sindicato dos roteiristas) como do próprio Story Analysts Guild, a associação encarregada de analisar e julgar roteiros antes que estes entrassem em produção. Segundo declarou Dalton Trumbo no periódico oficial do Partido, The Worker, o resultado deste trabalho foi o de que obras como Darkness at Noon e The Yogi and the Commissar de Arthur Koestler; I Chose Freedom, de Victor Kravchenko e Bernard Clare de James T. Farrell, jamais chegaram às telas. O Partido teria ainda lançado campanhas difamatórias contra artistas não-comunistas (e não simpatizantes), tais como Barbara Stanwyck, Lana Turner e Bette Davis.[1]

Os comunistas da indústria do entretenimento teriam começado a perder força em 1947, quando suas atividades passaram a ser alvo de investigação do Congresso norte-americano. Seguiu-se o macartismo e eles só voltariam a defender publicamente seus pontos de vista na década de 1960, com a Nova Esquerda. Segundo Billingsley,

"a lenda da lista Negra de Hollywood, saneada de todas as referências ao papel de Stálin ou do Partido Comunista nos estúdios, tornou-se uma influência continuada na vida política de Hollywood. Hollywood havia entrado num período de anti-anticomunismo, um fenômeno bem-conhecido na vida cultural e intelectual americana".[1]

Billingsley aponta como evidência disso o fato de que, mesmo quando produções hollywoodianas dos anos 1980 retrataram a brutalidade da vida sob regimes comunistas, a violência perpetrada raramente chega a ser vista na tela. Ele cita como exemplos recentes Reds (1981) de Warren Beatty e The Killing Fields (1984). Curiosamente, segundo Billingsley, um dos poucos filmes a descrever a violência num país comunista é uma produção de Walt Disney, Night Crossing (1983), que fala de uma fuga da Alemanha Oriental.

Ainda em 2001, os anticastristas lamentavam que o cinema norte-americano continuasse a não dar atenção para o que Adolfo Caro denominou "sangrenta realidade comunista".[2]

A defesa do anti-anticomunismo[editar | editar código-fonte]

No ensaio "Anti Anti-Relativismo",[10] o antropólogo Clifford Geertz defende a tese de que, em determinados contextos, a dupla negação (a "negação da negação") não é o mesmo que a afirmação original. Exemplifica isto citando o anti-anticomunismo durante a Guerra Fria:

"aqueles de nós que se opuseram incansavelmente ao que, de nosso ponto de vista, parecia uma verdadeira obsessão com a Ameaça Vermelha, foram então contemplados, pelos que a viam como o fato primordial da vida política contemporânea, com a insinuação – absurdamente incorreta na imensa maioria dos casos – de que, pela lei da dupla negação, tínhamos alguma afeição secreta pela União Soviética".[10]

Portanto, ser crítico do macartismo (anti-anticomunista) não significaria ser partidário ou simpatizante do comunismo, mas apenas, contrário ao anticomunismo e suas ideias.

Ativistas como Staughton Lynd deram ao anti-anticomunismo uma conotação positiva e um legado. Em Living Inside Our Hope: A Steadfast Radical's Thought on Rebuilding the Movement,[11] ele relembra algumas das coisas nas quais acreditava nos anos 1960 e que acredita serem ainda verdadeiras nos dias de hoje: não-violência (recusa consciente ao ato de matar), democracia participativa e "ativismo consciente", um modo de se contrapor ao antiintelectualismo então vigente e de transformar o mundo, em vez de apenas interpretá-lo.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas e referências

Notas

  1. Existe um erro óbvio no texto da fonte: se o artigo foi publicado depois de 1960, obviamente foi em 25/6/1961

Referências

  1. a b c «Hollywood's Missing Movies». Reason.com (em inglês). 1 de junho de 2000 
  2. a b CARO, Adolfo Rivero (9 de fevereiro de 2001). «Triste excepción». El Nuevo Herald (em espanhol). Consultado em 3 de junho de 2017 
  3. How the Oscars’ social activism took on Hollywood blogs.reuters.com, 29/2/2016 (em inglês)
  4. Hollywood Who's Who Marched With King in '63 realclearpolitcs.com, 29/8/2013 (em inglês)
  5. a b LEWY, Guenter. The Cause That Failed: Communism in American Political Life. Nova York: Oxford University Press, 1990.
  6. CORÇÃO, Gustavo. «O Século do Nada — Introdução». Excerto: "Ainda os Dois Mundos (18-09-60) e mais tarde (25-06-51), sobre um manifesto da PUC, escrevi O Anti-anticomunismo.". permanência.org.br. Consultado em 4 de junho de 2017 
  7. «A TFP enfrenta o anti-anticomunismo em contínua ascensão. – E se torna assim, cada vez mais, a grande barreira ideológica à comunistização do Brasil». Um homem, uma obra, uma gesta – Homenagem das TFPs a Plinio Corrêa de Oliveira. Edições Brasil de Amanhã. 1989. Consultado em 4 de junho de 2017 
  8. HOROWITZ, Daniel.El progresismo, fácil; segunda entrega. Em Israel Hasbara Committee. Acessado em 20 de junho de 2007.
  9. Today's anti-antiterrorists assume nefarious intentions of the U.S. government, while clamoring to protect the rights of enemy agents. Em Jewish World Review. Acessado em 20 de junho de 2007.
  10. a b GEERTZ, Clifford.Anti Anti-Relativismo. Em ANPOCS. Acessado em 20 de junho de 2007.
  11. LYND, Staughton. Living Inside Our Hope: A Steadfast Radical's Thought on Rebuilding the Movement. Cornell University Press, 1997. ISBN 0801484022
  • ALLEN, David. The Dream of a New Left: A Genealogical Inquiry Into the Collapse of 60s Radicalism. University of California, Berkeley, 1995.
  • LYND, Staughton. Mindful Activists in "American Communist History" 2, no. 1 (Junho de 2003).

Ligações externas[editar | editar código-fonte]