Democracia participativa
Democracia participativa é uma forma de organização política que permite a intervenção direta dos cidadãos nos processos de tomada de decisão e controle do exercício do poder.[1] Diferencia-se da democracia representativa por oferecer acesso contínuo aos representantes, e não apenas durante as eleições, criando espaços institucionais de escuta e deliberação prévia sobre as políticas públicas e decisões governamentais.[2]
No contexto brasileiro, a democracia participativa ganhou força durante o processo constituinte de 1988, quando diversos grupos sociais se mobilizaram para incluir mecanismos de participação direta na nova Constituição. O resultado foi a criação de estruturas institucionais amplas, como conselhos gestores, conferências, ouvidorias, orçamentos participativos (OPs) e instâncias deliberativas em agências reguladoras. Dentre esses mecanismos, o Orçamento Participativo (OP) e os Conselhos Gestores se destacaram na década de 1990 por promoverem transparência, controle social e redistribuição de recursos em favor das populações menos favorecidas.[3]
O conceito
[editar | editar código]A democracia participativa propõe o acesso aos representantes políticos durante os mandatos e não apenas periodicamente nas eleições, como usual na democracia representativa, fazendo ouvir as suas opiniões de forma institucionalizada, prévia à tomada de decisões[4]. É um sistema em que se pretende que existam efetivos mecanismos de controle exercidos pela sociedade civil sobre a administração pública, não se reduzindo o papel democrático apenas ao voto, mas também estendendo a democracia para a esfera social.
Em causa está o princípio democrático na sua vertente de princípio da participação. Ela pode assumir as mais variadas formas, desde as clássicas, como o referendo ou o plebiscito, até formas que propiciam intervenções mais estruturantes no processo de formação das decisões, como a iniciativa legislativa, o veto popular, os referendos revogatórios[1], os chamados recalls.
A democracia participativa é considerada um modelo de justificação do exercício do poder político pautado no debate público entre cidadãos livres e em condições iguais de participação. Advoga que a legitimidade das decisões políticas advém de processos de discussão que, orientados pelos princípios da inclusão, do pluralismo, da igualdade participativa, da autonomia e da justiça social, conferem um reordenamento na lógica de poder político tradicional.[5]
A democracia deliberativa constitui-se como um modelo ou processo de deliberação política caracterizado por um conjunto de pressupostos teórico-normativos que incorporam a participação da sociedade civil na regulação da vida coletiva. Trata-se de um conceito que está fundamentalmente ancorado na ideia de que a legitimidade das decisões e ações políticas deriva da deliberação pública de coletividades de cidadãos livres e iguais. Constitui-se, portanto, em uma alternativa crítica às teorias "realistas" da democracia que, a exemplo do "elitismo democrático", enfatizam o caráter privado e instrumental da política.[6]
— LÍGIA HELENA HAHN LÜCHMANN
Os defensores da democracia participativa argumentam que o real sentido da palavra democracia foi esvaziado ao longo dos tempos, e foi reduzida a mera escolha de dirigentes, sem participação efetiva da sociedade civil organizada na administração de seus respectivos governos eleitos. Nesse sentido, deve também ser considerada a eficácia da participação dos cidadãos no processo de tomada de decisões políticas. Isto é, o provimento de recursos participativos adianta pouco se os agentes representativos não levarem em conta as demandas oriundas da esfera civil[7]. Uma discussão recorrente em teoria democrática tem se referido, assim, às formas de concepção dos mecanismos participativos, sugerindo-se desenhos e soluções compatíveis com as instituições e com a cultura política de cada sociedade[8].
Um exemplo de democracia participativa é o Orçamento Participativo, que tem o intuito de submeter o destino de parte dos recursos públicos à consulta pública, através de reuniões comunitárias abertas aos cidadãos, onde primeiro são coletadas propostas, depois votadas as prioridades, e encaminhadas ao governo para que ele atenda a solicitação através de investimento público. Outro é o projecto sueco Demoex, uma experiência em democracia direta electrónica, com votações pela internet.
Virtudes e limites
[editar | editar código]A democracia participativa é frequentemente apontada como um avanço em relação aos modelos tradicionais de representação política, na medida em que amplia as formas de envolvimento da sociedade civil nas decisões públicas. Diversos estudos indicam que, quando bem estruturados, os processos participativos podem gerar efeitos positivos tanto no campo social quanto político. Sob determinadas condições – como a adequada organização da sociedade civil, o compromisso dos gestores públicos e o desenho institucional coerente dos espaços de participação –, é possível observar ganhos redistributivos e o fortalecimento da presença de grupos historicamente marginalizados. Além disso, experiências deliberativas têm demonstrado capacidade de promover mudanças nas posições e opiniões dos participantes, reduzindo polarizações em torno de temas controversos e favorecendo a construção de consensos.[9][10]
Entretanto, a literatura também aponta importantes críticas e limitações à democracia participativa. Durante as décadas de 1980 e 1990, experiências de “aprofundamento da democracia” evidenciaram que a ampliação da participação pode implicar riscos e desafios significativos. Diversos autores[11][12] apresentam preocupações clássicas acerca da vulnerabilidade dos processos deliberativos baseados em posicionamentos leigos ou insuficientemente informados, o que pode abrir espaço para o populismo e o oportunismo político. Soma-se a isso o problema das desigualdades de mobilização: grupos com maior capacidade organizativa tendem a dominar os processos, em detrimento de setores mais amplos, mas menos articulados. Ademais, estudos comparativos[13], ressaltam limitações práticas das experiências participativas em diferentes países, como a ausência de comprometimento das lideranças locais, a baixa mobilização entre populações pobres, a escassez de recursos financeiros e de capacitação técnica, além da assimetria de informações entre os participantes[9]. Assim, embora a democracia participativa represente uma alternativa relevante para o fortalecimento da cidadania e da legitimidade democrática, sua efetividade depende de condições institucionais, políticas e sociais que garantam igualdade de acesso, qualificação do debate e sustentabilidade dos espaços de participação.
Ver também
[editar | editar código]| Política |
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- Anarquismo
- Anarcossindicalismo
- Demoex - democracia experimental
- Democracia indirecta
- Democracia representativa
- Democracia semidireta
- Encaixes socioestatais
- Orçamento Participativo
- Plebiscito
- Referendo
- Sociocracia
Referências
- ↑ a b «Democracia participativa, Dicionário dos Termos Europeus, por José Luís Moreira da Silva, em Carlos Coelho.eu, consulta em 28.08.2013». www.carloscoelho.org
- ↑ GURZA LAVALLE, Adrián; ISUNZA VERA, Ernesto. Representación y participación en la crítica democrática. Desacatos, n. 49, p. 10-27, 2015.
- ↑ COELHO, Vera Schattan P. A democratização dos Conselhos de Saúde: o paradoxo de atrair não aliados. Novos estudos CEBRAP, p. 77-92, 2007.
- ↑ «Democracia participativa, Dicionário dos Termos Europeus, por José Luís Moreira da Silva, em Carlos Coelho.eu, consulta em 28.08.2013». www.carloscoelho.org
- ↑ «LÜCHMANN, Lígia Helena Hahn. Possibilidades e limites da democracia deliberativa: a experiência do orçamento participativo de Porto Alegre / Lígia Helena Hahn Lüchmann. Campinas, SP: (s. n.), 2002. Orientador: Rachel Meneguello. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.» (PDF). www.democraciaparticipativa.org. Consultado em 20 de setembro de 2008. Arquivado do original (PDF) em 19 de abril de 2009
- ↑ «LÜCHMANN, Lígia Helena Hahn. Possibilidades e limites da democracia deliberativa: a experiência do orçamento participativo de Porto Alegre / Lígia Helena Hahn Lüchmann. Campinas, SP: (s. n.), 2002. Orientador: Rachel Meneguello. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, p. 19.» (PDF). www.democraciaparticipativa.org. Consultado em 20 de setembro de 2008. Arquivado do original (PDF) em 19 de abril de 2009
- ↑ Marques, Francisco Paulo Jamil (2010). «Participação política, legitimidade e eficácia democrática» (PDF). Caderno CRH (UFBA. Impresso). Universidade Federal da Bahia. Consultado em 28 de setembro de 2016
- ↑ Marques, Francisco Paulo Jamil (2010). «Participação política e desenho institucional: uma proposta para a concepção de mecanismos participativos». Revista Ciências Sociais Unisinos. Unisinos. Consultado em 28 de setembro de 2016
- ↑ a b COELHO, Vera Schattan P. et al. Mobilização e participação: um jogo de soma zero?: um estudo sobre as dinâmicas de conselhos de saúde da cidade de São Paulo. Novos estudos CEBRAP, p. 121-139, 2010.
- ↑ ABELSON, J. e GAUVIN, F.-P. Assessing the impact of public participation. Canadian Policy Research Networks (research report). Ontario: McMaster University, 2006.
- ↑ WEBER, M. Essays in sociology. Oxford: Oxford University Press, 1946
- ↑ SCHUMPETER, J. Capitalism, socialism and democracy. Londres: Allen and Unwin, 1976.
- ↑ ROBINSON, “Does decentralisa‑ tion improve equity and efficiency in public service delivery provision?”. IDS Bulletin, 2007, vol. 38, nº 1, pp. 7‑17.
Bibliografia
[editar | editar código]- AVRITZER, Leonardo. O Orçamento Participativo e a Teoria Democrática: Um Balanço Crítico. In. AVRITZER, Leonardo, NAVARRO, Zander. A Inovação Democrática no Brasil. São Paulo: Editora Cortez, 2003.
- GENRO, Tarso, SOUZA, Ubiratam de. Orçamento Participativo. A Experiência de Porto Alegre. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001.
- LÜCHMANN, Lígia Helena Hahn. Possibilidades e limites da democracia deliberativa: a experiência do orçamento participativo de Porto Alegre / Lígia Helena Hahn Lüchmann. Campinas, SP: (s. n.), 2002. Orientador: Rachel Meneguello. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
- BITTAR, Eduardo C. B. Democracia, justiça e emancipação social: reflexões jusfilosóficas a partir do pensamento de Jürgen Habermas. São Paulo: Editora Quartier Latin, 2013.
- VARGAS, Cristina Ribas. Democracia Participativa e Desenvolvimento Humano nos Municípios Brasileiros: uma Análise a partir de Amartya Sen. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia, 2007.