Convento de Cristo

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Convento de Cristo
Igreja do Convento
Nomes alternativos Mosteiro de Cristo
Estilo dominante Gótico, Manuelino, Renascentista, Maneirismo
Início da construção século XII
Fim da construção século XVIII
Proprietário inicial Ordem dos Templários
Função inicial Convento
Proprietário atual Estado Português
Função atual Museu
Visitantes 100.000 (1º semestre de 2015)[1]
Website http://www.conventocristo.pt/
Património Nacional
Classificação  Monumento Nacional
Data 1910
DGPC 70237
SIPA 4718
Património da Humanidade
Critérios C(i) C(vi)
Data 1983
Descrição en fr
Geografia
País Portugal
Cidade Tomar
Coordenadas 39° 36' 15" N 8° 25' 22" O

O Convento de Cristo (século XII – século XVIII) é a denominação atribuída a um conjunto de edificações históricas situado na freguesia de São João Baptista, cidade de Tomar, Portugal. O início da sua construção remonta a 1160 e está intimamente ligado aos primórdios do reino de Portugal e ao papel então desempenhado pela Ordem dos templários, tendo sido reconfigurado e expandido nos séculos subsequentes, quando aí estava sedeada a Ordem de Cristo.

Construído ao longo de centenas de anos por alguns dos mais importantes mestres e arquitetos a trabalhar em território nacional (Diogo de Arruda, João de Castilho e Diogo de Torralva entre tantos outros), este conjunto arquitetónico inclui edificações diversificadas, quase todas de notável relevância patrimonial, podendo destacar-se o castelo medieval e a Charola templária, os claustros quatrocentistas, a igreja manuelina e o convento renascentista. A sua configuração presente reflete as sucessivas funções a que se destinou e as tipologias arquitetónicas dos períodos históricos em que foi edificado. Nele podemos encontrar elementos tipicamente românicos, góticos, manuelinos, renascentistas, maneiristas e do chamado estilo chão.

"Compêndio de arte, e compêndio de história", ao Convento de Cristo estão estreitamente ligadas muitas figuras maiores da história de Portugal. Desde logo o mestre Templário Gualdim Pais, verdadeiro fundador da cidade de Tomar; o Infante D. Henrique, responsável por uma importante fase de reconversão e expansão do convento; D. Manuel I, que mandou erigir a igreja quinhentista, verdadeiro Ex libris do estilo manuelino; D. João III, que implementou uma radical refundação da Ordem de Cristo e do próprio convento, ali projetando as suas preferências arquitetónicas; Filipe II de Espanha, que prolongou o programa construtivo do reinado de D. João III e aí realizou as cortes que o reconheceram como rei de Portugal[2]

O Convento de Cristo destaca-se como um dos mais importantes conjuntos monumentais existentes em território português e encontra-se classificado como Monumento Nacional (1910) e como Património Mundial (1983) [nota 1] .

História[editar | editar código-fonte]

Convento de Cristo é denominação que geralmente identifica um importante conjunto que inclui o Castelo Templário de Tomar, a Charola templária e igreja manuelina adjacente, o convento renascentista da Ordem de Cristo, a cerca conventual (ou Mata dos Sete Montes), a Ermida da Imaculada Conceição e o aqueduto conventual (Aqueduto dos Pegões). Atualmente é um espaço cultural, turístico e ainda devocional.[3][4]

Séculos XII-XVIII[editar | editar código-fonte]

O castelo foi fundado por Gualdim Pais no reinado de D. Afonso Henriques (em 1160) e ainda conserva memórias do tempo desses monges cavaleiros empenhados na reconquista; compreendia a vila murada, o terreiro e a casa militar situada entre a casa do Mestre, a Alcáçova, e o oratório dos cavaleiros (a Rotunda ou Charola). Em 1357, quarenta e cinco anos depois da extinção da Ordem dos Templários, o castelo passou a ser em definitivo a sede da Ordem de Cristo, criada em sua substituição ainda no reinado de D. Dinis.[2][3]

Portal de entrada

Em 1420 o Infante D. Henrique é nomeado governador e administrador da Ordem de Cristo, configurando-a sem desvirtuar o espírito original, de cavalaria e de cruzada, mas dirigindo-a para um novo objetivo, o da expansão marítima, que a própria Ordem irá financiar. Durante a sua regência o ramo de religiosos contemplativos é introduzido na Ordem de Cristo, passando a coexistir com o dos freires-cavaleiros; a casa militar é transformada num convento; são construídos dois claustros e a Alcáçova é adaptada para casa senhorial do Infante.[2][3]

No início do século XVI o convento será palco de importantes obras de ampliação e beneficiação, que se entrosam com o espírito que preside ao reinado de D. Manuel I. É ampliada a Rotunda templária para ocidente, com a construção extramuros de uma imponente igreja/coro e sacristia (iniciada por Diogo de Arruda e terminada por João de Castilho), onde é posto em prática um idioma decorativo renovador (estilo manuelino) que "celebra as descobertas marítimas portuguesas, a mística da Ordem de Cristo e da Coroa numa grandiosa manifestação de poder e de fé".[3][2]

A partir de 1529 D. João III ordena a reforma e expansão da Ordem de Cristo e a construção de um convento de grande escala. O processo será liderado por Frei António de Lisboa, notável humanista que implementa a transformação dessa Ordem numa estrita ordem de clausura inspirada na Regra de São Bento e promove a construção do grandioso convento renascentista (de João de Castilho, c. 1532-1552; e Diogo de Torralva, depois de 1554). As novas edificações irão surgir a poente do castelo e da Nave manuelina, e nelas foi adotado um sóbrio estilo classicista que contrasta com o caráter híper-decorativo do manuelino.[5]

É no terreiro da igreja do Convento de Cristo que têm lugar as Cortes de Tomar de 1581, em que Filipe I (Filipe II de Espanha) é aclamado Rei de Portugal. A edificação do convento irá prolongar-se durante a governação filipina, com a conclusão do Claustro de D. João III, a construção da Sacristia Nova e, a sul, do Aqueduto (de Filipe Terzi). Também a fachada norte sofre alterações significativas, com a Portaria Nova e o Dormitório Novo no Claustro da Hospedaria. Datam do final século XVII as derradeiras obras de vulto, com a edificação, no flanco norte (onde se localiza a Portaria Nova), da grande Enfermaria e da Botica nova.[5][4]

Séculos XIX e XX[editar | editar código-fonte]

Os século XIX e XX representam para o Convento de Cristo um tempo conturbado e de mudança profunda. Em 1811 as tropas francesas ocupam o convento (da sua ação resulta a destruição do notável cadeiral do coro). Em 1834, a extinção das ordens religiosas masculinas põe subitamente termo à vida monástica no Convento de Cristo; parte importante do seu recheio é roubada, nomeadamente livros de canto em pergaminho com iluminuras, pinturas e outros espécimes artísticos. No ano seguinte muitos dos bens conventuais (tais como a Cerca conventual, o recinto da vila antiga no castelo e as edificações do ângulo sul-poente do convento), são vendidos em hasta pública a um particular, futuro Conde de Tomar, que transforma a ala poente do claustro dos Corvos num palacete ao gosto oitocentista, onde a sua família irá residir ao longo de várias gerações (o regresso dessas propriedades à posse do Estado só acontece em 1939).[5][4]

Em 1845 D. Maria, acompanhada por D. Fernando, instala-se no convento; sete anos mais tarde D. Fernando ordena a demolição do piso superior do Claustro de Santa Bárbara e do primeiro e segundo pisos da ala sul do Claustro da Hospedaria para permitir a melhor visualização da fachada oeste da igreja, nomeadamente da janela manuelina, que ficara parcialmente obstruída pelas edificações renascentistas.[4]

No final do século XIX foram entregues ao Ministério da Defesa diversas dependências – como as antigas enfermarias, hospital, sala dos Cavaleiros, Botica e claustro da Micha –, para ocupação pelo Hospital Militar Regional; em 1917 todo o conjunto, à exceção da igreja é ocupado pelo Ministério da Guerra. A desafetação iria processar-se bastante mais tarde, já nas últimas décadas século XX, tendo o Estado reassumido a plena posse do convento com funções culturais e turísticas, que se mantêm.[5][4]

Ao longo dos anos foram muitas as ações de recuperação do Convento de Cristo. De entre as mais recentes destaque-se o prolongado processo de restauro da charola (iniciado no final da década de 1980 e terminado em 2013[6][7]), que permitiu revelar um tesouro há muito escondido: as pinturas em trompe l'oeil do período manuelino, "cuja visão transforma notavelmente a leitura do espaço interior da charola".[4][8]

Classificação patrimonial[editar | editar código-fonte]

Devido ao seu notável valor patrimonial, o Convento de Cristo encontra-se classificado como Monumento Nacional (1910) e como Património Mundial (1983) [nota 2] . A classificação da UNESCO como Património Mundial baseou-se em dois critérios: primeiro, o Convento de Cristo representa uma realização artística de exceção no que toca ao templo primitivo e às edificações quinhentistas; por outro lado, está associado a ideias e acontecimentos de significado universal, tendo sido concebido na sua origem como um monumento simbólico da reconquista e tornando-se, no período manuelino, num símbolo inverso, o da abertura de Portugal às civilizações exteriores.[9]

Caracterização arquitetónica[editar | editar código-fonte]

O conjunto diversificado que compõe o Convento de Cristo foi construído entre os séculos XII e XVII, tendo sofrido adaptações sucessivas que refletiram os vários tipos de utilização que acolheu e as características estilísticas da arquitetura dos diferentes momentos históricos, partilhando traços românicos, góticos, manuelinos, renascentistas, maneiristas e do denominado estilo chão.

Num balanço muito simplificado, das edificações iniciais dos séculos XII e XIII que sobreviveram destaquem-se o Castelo e a Charola templária (em estilo românico); das intervenções do tempo do Infante D. Henrique no século XV, assinalem-se os claustros góticos, a noroeste da Charola, e as ruínas do Paço do Infante; a intervenção quinhentista inicial (1510-1515) deixou-nos a igreja/coro manuelina, a ampla valorização do interior da Charola, o Portal sul e uma inacabada Sala do Capítulo, onde predomina o estilo manuelino; as empreitadas seguintes, iniciadas c. 1532, corresponderam à edificação do vasto convento em estilo renascentista (sendo maneirista o Claustro de D. João III), que envolveu exteriormente a igreja manuelina e ocupou uma extensa área a oeste (incluindo vários claustros, dormitórios, refeitório, cozinha e outros espaços destinados à vida monástica); as derradeiras etapas de construção tiveram lugar durante a Dinastia Filipina e no período posterior à Restauração, correspondendo à edificação, entre outros, do longo bloco, em estilo chão, que delimita o complexo conventual a norte/nordeste (que acolheu a Portaria Nova ou Portaria Filipina, a Enfermaria e a Botica) e do Aqueduto, a sul.[2][4]

Castelo, Charola, Claustros Góticos[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Castelo de Tomar
Castelo de Tomar

O Castelo de Tomar era constituído por uma cintura de muralhas e estava dividido em três espaços. Na parte sul situava-se o recinto da vila (onde hoje se encontra o laranjal). Na parte mais elevada da colina, a norte, foi estabelecida a casa militar dos Templários, ladeada pela casa do Mestre (a Alcáçova; em ruinas), com a sua torre de menagem e, a poente, o oratório dos cavaleiros (a Charola). Separava estes dois recintos o vasto terreiro do castelo, hoje um espaço ajardinado.[10][2]

A Charola do Convento de Cristo era o oratório privativo dos Cavaleiros no interior da fortaleza. Tendo como modelo a basílica paleocristã do Santo Sepulcro, de Jerusalém, é um dos raros e emblemáticos templos em rotunda da Europa medieval. A construção inicial (estilo românico), realizou-se em duas etapas: a primeira no último quartel do século XII e a segunda por volta de 1250, quando o templo foi finalizado. A planta da Charola desenvolve-se em torno de um espaço central, octogonal, que se desdobra em dezasseis faces no paramento exterior do deambulatório.[11][12]

A edificação seria alvo de adaptações ao longo dos tempos, desde logo a nível do acesso, inicialmente localizado a nascente e que passaria, no reinado de D. Manuel, a realizar-se a poente, através de um arco triunfal (de João de Castilho) de comunicação com a igreja/coro manuelina, numa alteração significativa que transformou a Charola na capela-mor do novo templo. A valorização litúrgica foi então efetivada através de uma intervenção abrangente e multifacetada que incluiu programas de talha e de pintura parietal e integração de importantes peças de escultura e pintura, onde se destacam nomes como os de Jorge Afonso, Olivier de Gand, Fernão Muñoz, Fernão de Anes Gregório Lopes e Simão de Abreu (particularmente significativa foi a descoberta de pinturas quinhentistas da abóbada do deambulatório, finalmente reveladas em restauro recente).[11][12][4]

Da remodelação e ampliação do mosteiro iniciada no período da governação do Infante resultou, entre outras iniciativas, a construção de dois claustros, em estilo gótico, que apresentam estrutura de arcadas quebradas sobre colunas grupadas. Adjacente à Charola, o Claustro do Cemitério deve-se à traça de Fernão Gonçalves e remonta a cerca de 1420; o nome deve-se ao facto de ter sido destinado ao enterramento dos freires e altos dignitários da Ordem de Cristo. O Claustro das Lavagens, de dois pisos, fazia originalmente a articulação entre o Claustro do Cemitério e o Paço do Infante.[2]

Igreja manuelina e Portal Sul[editar | editar código-fonte]

Entre 1510 e 1513 decorrem as obras de construção da igreja, sob direção de Diogo de Arruda. O novo edifício foi literalmente encostado à face ocidental da antiga charola templária e tirou partido dos desnivelamentos do terreno nessa zona para criar um volume unificado de grande imponência (o impacto exterior seria, no entanto, seriamente afetado pela posterior construção dos claustros renascentistas adjacentes), e criar, interiormente, os espaços sobrepostos da sacristia e do coro-alto (onde foi instalado um notável cadeiral de Olivier de Gand, que não sobreviveria à devastação patrimonial ocorrida durante as Invasões Francesas). O conjunto, em particular a fachada ocidental, apresenta uma profusão decorativa dotada de um profundo simbolismo mitográfico que cruza os símbolos cristológicos e mariânicos com os da heráldica régia. A famosa janela da fachada ocidental em particular, concebida como um «inflamado poema de pedra», inscreve-se num vasto paramento (cingido de botaréus e animado com esculturas dos quatro «reis de armas» do reino), revelando o programa de ornamento de fauna e flora terrestre e de ecos da aventura das Descobertas emblemáticos do estilo manuelino.[13][14]

Janela manuelina

A obra seria terminada em 1515, numa segunda empreitada em que o novo responsável, João de Castilho, foi encarregado de atender a diversas questões que tinham ficado por resolver na empreitada anterior, entre os quais a construção da abóbada da nova igreja/coro manuelina, a ligação entre esta e a charola e a criação de um novo e monumental portal de acesso ao templo. A abóbada nervurada, de um só voo, que cobre a igreja, confere unidade ao espaço e potencia a iluminação interior, proveniente de quatro janelas (duas a sul e duas a norte), e de um óculo circular na fachada oeste. A abóbada encontra-se dividida em três panos, apoiando-se em oito mísulas com decoração vegetalista e figurativa. Entre a igreja/coro e a charola foi aberto um amplo arco quebrado que assegura um eficaz entrosamento entre os dois espaços. Por último, foi construído um portal-retábulo de acesso ao templo onde João de Castilho ensaiou um sistema modular que iria utilizar de novo no portal sul do Mosteiro dos Jerónimos.[15][16] [17][18]

O portal sul tomarense tira partido da espessura da parede da igreja para criar um dossel arquitetónico que encima e protege o conjunto escultórico, no qual foram integradas diversas figuras simbólicas de profetas, clérigos mitrados, Doutores da Igreja, no qual se destaca, ao centro, a imagem da Virgem Rainha do Céu, com a cruz de Cristo sobrepujante. Do ponto de vista estilístico realiza-se aqui uma fusão entre o manuelino e o gótico influenciado já pelo léxico decorativo do renascimento, através de um tipo de ornamentação então muito difundido em Espanha, o plateresco. Na empreitada de 1515 também foi iniciada a construção da Sala do Capítulo, que haveria de permanecer inacabada.[15][16][19]

Claustros renascentistas[editar | editar código-fonte]

A disposição global da renovação e ampliação renascentista de João de Castilho obedeceu a um conceito racional (e funcional). Dois longos corredores em cruz articulam quatro claustros principais, que em conjunto delimitam um enorme quadrilátero; são eles o Claustro Grande (ou de D. João III), o Claustro da Hospedaria, o Claustro dos Corvos e o Claustro da Micha. Um quinto Claustro, de dimensões mais modestas, foi encostado à fachada ocidental da igreja manuelina, afetando seriamente a sua visibilidade. Do ponto de vista funcional este claustro – Claustro de Santa Bárbara –, veio ocupar um lugar chave, de transição entre as antigas e as novas edificações. Terá sido o primeiro a ser construído (c. 1531-1532) e as suas características estilísticas revelam desde logo um corte radical com a densidade híper-decorativa do manuelino e a opção por um novo idioma classicista. O primeiro piso deste claustro foi demolido em meados do século XIX com o intuito de restituir visibilidade à fachada da igreja manuelina, em particular à famosa janela manuelina. Por último, assinale-se o pequeno Claustro das Necessárias, destinado em exclusivo ao saneamento.[20][21]

O Claustro da Hospedaria destinava-se a acolher os visitantes do convento e apresenta, por isso, um aspeto nobre. Preserva traços idênticos ao que deverá ter sido o Claustro Grande inicial, castilhiano, permitindo imaginar em traços gerais o que terá sido essa construção perdida. Contrafortes de secção quadrangular, a toda a altura do claustro, ritmam os seus alçados. Cobertas por abóbadas de nervuras, as galerias do piso térreo são constituídas por quatro tramos, com dupla arcada de volta perfeita assente em colunas com amplos capiteis; o primeiro piso é coberto por travejamento de madeira com caixotões, sendo formado por uma arquitrave assente, ao centro, numa coluna jónica; o lado oeste do claustro dispõe de um piso adicional, solucionado de forma idêntica ao primeiro piso. O equilíbrio formal deste claustro foi seriamente perturbado pela posterior demolição, a sul, da galeria do primeiro piso (por razões idênticas às que ditaram a amputação do Claustro de Santa Bárbara), e pela construção, a norte, do deselegante corpo da chamada Portaria Nova, que distorce o equilíbrio dessa fachada. Os Claustros dos Corvos e da Micha organizam-se de forma basicamente semelhante ao da Hospedaria, embora apresentem uma escala menos ampla e um nível de acabamento mais simples, visto tratar-se de áreas funcionais diversas, destinadas ao noviciado e à assistência.[21]

Claustro de D. João III[editar | editar código-fonte]

O Claustro Grande original – ou Claustro de D. João III –, foi quase integralmente desmontado depois da morte de João de Castilho, por razões que permanecem por esclarecer na íntegra. Foi substituído pela notável versão maneirista de Diogo de Torralva, considerada a obra-prima deste arquiteto. As obras de construção seriam prolongadas por Francisco Lopes depois da morte de Torralva, sendo os acabamentos finais realizados por Filipe Terzi já em tempo da dominação filipina. Peça cimeira na arquitetura europeia do século XVI, este claustro traduz a assimilação precoce dos mais eruditos valores maneiristas.[22]

O Claustro de D. João III de Torralva revela um domínio absoluto da linguagem clássica, com influência dos Livros III e IV de Sebastiano Serlio e, provavelmente, de obras inspiradoras como a Villa Imperial de Pésaro (c. 1530), adaptando-os ao programa tomarense. A obra interpreta um mesmo sintagma clássico, mas agora informado pela experiência do Alto Renascimento. A monumentalidade e a escala têm aqui um papel decisivo através da cuidadosa proporção dos vãos e dos elementos portantes. "O resultado é um corpo de galerias de uma transparência diáfana, que faz jus à luminosidade grácil, dócil [...] , reverberada pela pedra branda de cor quente. [...] Os valores de luz e sombra são acentuados pelo jogo de cromatismo das superfícies, que empregam maioritariamente o calcário amarelo, em contraste com o mármore negro dos planos reentrantes".[23]

Dormitórios e Cruzeiro, Refeitório, Noviciado[editar | editar código-fonte]

Os longos corredores do piso superior dos dormitórios são cobertos por extensas abóbadas de berço com caixotões em madeira de carvalho tipicamente classicistas; no local onde se cruzam formam o Cruzeiro propriamente dito, interessante peça arquitetónica projetada por Castilho com a assistência de Pedro Algorreta que tem adjacente uma capela com a imagem do Cristo Sentado ou Senhor da Cana Verde, 1654 (escultura em terracota de Inácia da Encarnação). Com decoração em relevo (guirlandas, putti…) e coberto por um lanternim com uma cúpula em «barrete de clérigo», o cruzeiro pontua a intersecção de corredores e altera a arquitetura límpida e despojada do conjunto. A sala do refeitório é coberta por uma abóbada de canhão, assente numa cornija contínua e com caixotões delimitados por nervuras em pedraria, de secção quadrangular e configuração clássica. Dois púlpitos, localizados frente a frente nas paredes mais longas, exibem motivos simbólicos renascentistas.[20][21]

No primeiro piso da fachada oeste do claustro da Micha destacam-se as três salas do noviciado. Cada uma delas procura de alguma forma emular a sala hipostila de Vitrúvio; as duas primeiras (destinadas a dormitório dos noviços), apresentam um espaço arquitravado, com cobertura em madeira, suportado por quatro colunas centrais com capiteis jónicos; na terceira, quadrada – a Capela do Noviciado ou Dos Reis Magos –, "o arquiteto construiu uma das obras-primas renascentistas portuguesas." A cobertura desta sala, que remata o piso, é formada pelo cruzamento de duas abóbadas de canhão em madeira (com caixotões), suportadas por arquitraves assentes sobre colunas coríntias com capiteis compósitos, encontrando-se as quatro centrais perfeitamente destacadas e as restantes doze adossadas às paredes limítrofes.[21]

Ermida de Nossa Senhora da Conceição[editar | editar código-fonte]

Ermida de Nossa Senhora da Conceição

A Ermida de Nossa Senhora da Conceição terá sido (segundo proposta do historiador Rafael Moreira), concebida como igreja-mausoléu para D. João III e os seus familiares (esse desejo testamentário do rei não seria, no entanto, cumprido pelos seus sucessores). De recorte quadrangular, esta pequena capela foi uma das derradeiras obras de João de Castilho; a sua configuração interior é em tudo idêntica à da Capela do Noviciado, embora neste caso totalmente em pedra. Seria terminada por Diogo de Torralva (cuja marca estilística se deteta em particular no exterior) depois da morte de Castilho.[20]

"A ermida pode ser considerada, justamente, uma das joias do renascimento europeu. A sua intrigante perfeição, especialmente no interior, [de Castilho] de uma harmonia ímpar na arquitetura portuguesa e peninsular, faz dela um verdadeiro exemplo da linguagem renascentista na arquitetura."[20]

Aqueduto, Portaria Nova e Enfermaria Monástica[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Aqueduto dos Pegões
Fachada sul; Aqueduto

Construído na era de Filipe II de Espanha, o Aqueduto dos Pegões foi concebido por Filipe Terzi. Trata-se de uma obra de engenharia hidráulica de grande escala com cerca de 6 quilómetros de extensão, dispondo de um total de 180 arcos para as passagens aéreas da conduta. Destaque-se o trecho sobre o vale dos Pegões, constituído por 58 arcos de volta inteira, na zona mais funda do vale assentam sobre 16 arcos quebrados, por sua vez erguidos sobre imponentes maciços de alvenaria. O aqueduto termina com uma fiada de grandes arcos adossados à fachada sul do convento.[3]

Do lado oposto, a norte do complexo conventual, dispõe-se o "longo e monótono" corpo da chamada Portaria Nova. Erigido no Século XVII, em Estilo chão, "sem quaisquer arremedos estilísticos", integra as Enfermarias e a Botica[24]. Com entrada a norte, a Portaria Nova inclui uma escadaria em 3 lanços, com silhares de azulejos azuis e brancos de padrão, sendo precedida por um pequeno vestíbulo (a céu aberto), terminando na Sala dos Reis, um espaço quadrangular com azulejos idênticos aos da escadaria e teto apainelado de madeira pintada.[4]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Foi ainda um dos 21 finalistas da iniciativa da eleição das Sete Maravilhas de Portugal
  2. MN - Monumento Nacional, Decreto de 10-01-1907, DG, 1.ª série, n.º 14 de 17 janeiro 1907, Decreto de 16-06-1910, DG, 1.ª série, n.º 136 de 23 junho 1910; Património Mundial - UNESCO, 1983

Referências

  1. Visitantes dos Museus crescem 10%
  2. a b c d e f g Pereira 2009.
  3. a b c d e «Convento de Cristo». Convento de Cristo. Consultado em 18-08-2016. 
  4. a b c d e f g h i «Convento de Cristo». SIPA / DGCP. Consultado em 20-08-2016. 
  5. a b c d «O Espaço e o Tempo». Convento de Cristo. Consultado em 21-08-2016. 
  6. Joana Gorjão Henriques. «Charola de Tomar reabre». Jornal Público. Consultado em 22-08-2016. 
  7. «A Charola do Convento de Cristo – História e Restauro». DGCP – Loja. Consultado em 22-08-2016. 
  8. «Convento de Cristo: Restauro da Charola» (PDF). DGPC. Consultado em 23-08-2016. 
  9. «ICOMOS Recommendation, The Convent of Christ» (PDF). UNESCO. Consultado em 24-08-2016. 
  10. «Castelo de Tomar». Convento de Cristo. Consultado em 18-08-2016. 
  11. a b Pereira 2003.
  12. a b Pereira 2011.
  13. Serrão 2001, p. 39.
  14. Pereira 2011, pp. 447-452.
  15. a b Serrão 2001, p. 44.
  16. a b Pereira 2011, pp. 450.
  17. Pereira 2003, pp. 39.
  18. Pereira 2009, p. 31.
  19. Pereira 2009, p. 24,31.
  20. a b c d Pereira 2011, pp. 536-544.
  21. a b c d Pereira 2009, pp. 26-35.
  22. Serrão 2001.
  23. Pereira 2009, pp. 36, 37.
  24. Pereira 2009, pp. 38.
Bibliografia
  • Pereira, Paulo (2003). De Aurea Aetate: o Coro do Convento de Cristo em Tomar e a Simbólica Manuelina (Lisboa: IPPAR; Ministério da Cultura). ISBN 972-8736-22-3. 
  • Pereira, Paulo (2009). Convento de Cristo, Tomar (guia oficial) (Lisboa: SCALA; Ministério da Cultura; IGESPAR). ISBN 978-1-85759-563-5. 
  • Pereira, Paulo (2011). Arte Portuguesa: História Essencial (Lisboa: Círculo de Leitores). ISBN 978-989-644-153-1. 
  • Serrão, Vítor (2001). História da Arte em Portugal: o renascimento e o maneirismo (Barcarena: Editorial Presença). ISBN 972-23-2924-3. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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