Gamergate

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GamerGate (algumas vezes precedido de uma "#" (hashtag)) foi uma campanha sexista de assédio virtual na comunidade de fãs de videojogos entre 2014 e 2017. A controvérsia teve início com a acusação de que a desenvolvedora de jogos indie americana Zoe Quinn teria mantido relacionamentos amorosos com jornalistas da indústria de jogos eletrônicos, embora isso nunca tenha sido provado. Os eventos subsequentes levaram à criação do movimento e das hashtags #GamerGate e #NotYourShield, e colocaram em debate a ética jornalística da indústria, a liberdade de expressão, e o direito das mulheres.

O movimento GamerGate recebeu grande destaque negativo na mídia, incluindo no Brasil, onde foi referido em portais de jogos como IGN Brasil como "um grupo que assedia, ofende e ameaça mulheres da indústria dos videogames quando elas fazem críticas em relação ao machismo existente na indústria"[1].

A polêmica foi descrita como uma manifestação de uma guerra cultural pela diversificação cultural, reconhecimento artístico e crítica social nos videogames e pela identidade social dos jogadores. Muitos apoiadores do Gamergate se opõem ao que consideram a crescente influência do feminismo na cultura dos videogames; como resultado, o Gamergate é frequentemente visto como uma reação da direita contra o progressismo. As respostas da indústria à campanha de assédio se concentraram em maneiras de minimizar os danos e prevenir eventos semelhantes. Gamergate tem levado figuras dentro e fora da indústria a se concentrarem em métodos para lidar com o assédio online.

Eventos[editar | editar código-fonte]

Zoë Quinn em 2015.

Depression Quest[editar | editar código-fonte]

O jogo eletrônico indie "Depression Quest" foi desenvolvido pela norte-americana Zoe Quinn em 2013[2] e aprovado para distribuição no Steam pelo Steam Greenlight em 7 de janeiro de 2014.[3]

Em 16 de agosto de 2014, logo após o lançamento do jogo na Steam, o ex-namorado de Quinn, Eron Gjoni, escreveu em seu blog uma série de acusações - entre elas, a de que ela o teria traído com Nathan Grayson, colaborador do site Kotaku.[4][5][6][7][8]

The Fine Young Capitalists[editar | editar código-fonte]

Em fevereiro de 2014, a representante de Zoe Quinn, Maya Kramer, falou publicamente no Twitter contra a organização conhecida como The Fine Young Capitalists (TFYC).[9] O grupo, que apóia mais mulheres desenvolvedoras, iniciou uma campanha na Indiegogo para arrecadar fundos.[10] Após acusações de transfobia por Quinn e associados da Silverstring Media, os organizadores tiveram informações pessoais vazadas publicamente, receberam ameaças, o site do projeto sofreu ataques DDOS, e a página de doações na IndieGogo foi invadida.[11]

Após estes acontecimentos, a TFYC recebeu suporte de diversos grupos da internet, como Facepunch Studios e membros dos sites Reddit e 4Chan, acumulando mais de 60 mil dólares.[11] A falta de cobertura da mídia sobre os acontecimentos também foi criticada. O escritor Jason Schreier, da Kotaku, justificou não ter escrito um artigo sobre a campanha por estar hesitante em publicar um artigo que envolve alguém que teve relações com um de seus repórteres.[11]

Em 18 de agosto de 2014, após apoiar publicamente Quinn, Phil Fish, desenvolvedor do jogo Fez, teve suas informações pessoais vazadas,[12] incluindo informações de sua empresa, a Polytron. Foi revelado que, entre os que investiram no desenvolvimento de Fez, estavam organizadores do evento "Indie Games Festival" (IGF) e membros do corpo de jurados dos anos de 2011 e 2012.[8] O escândalo foi compartilhado em sites e redes sociais como 4chan e Reddit, onde membros da comunidade expressaram sua posição, e levando à criação por Adam Baldwin da hashtag "#gamergate" no Twitter em 27 de agosto de 2014.[13]. O termo faz referência ao Caso Watergate, que levou à derrubada do presidente americano Richard Nixon. Utilizando a hashtag, usuários do Twitter promoveram ataques pessoais e expuseram mulheres ligadas à indústria de jogos, incluindo dados pessoais e endereços de residência.

A "Morte dos Gamers" e o Vazamento da Lista GameJournoPros[editar | editar código-fonte]

Em 28 de agosto de 2014, um dia após a criação da hashtag #gamergate no Twitter, foram publicados artigos opinativos em dez sites jornalísticos diferentes, nos quais foi declarada "a morte dos gamers".[13] Os jornalistas publicaram artigos repudiando o cyberbullying e comportamentos sexistas por parte dos gamers, argumentando que a figura do jogador como conhecíamos não existe mais.[4] Os artigos reafirmavam que a reação ao escândalo de Quinn era uma reação à extinção da figura do gamer, e que as acusações de corrupção apenas acobertavam o que era, em essência, um movimento misógino.[9]

A similaridade dos artigos e o curto espaço de tempo em que eles foram publicados foram interpretados como uma prova da conspiração no jornalismo. Da mesma forma, doações feitas por escritores de sites de jogos a desenvolvedores foram vistas como conflitos de interesse.[9]

Em alguns casos, o conteúdo relacionado à controvérsia foi bloqueado ou apagado; pelo menos um usuário do site Youtube teve seu vídeo removido por uma violação da DMCA.[9]

O fórum Gaming Journalism Professionals inclui editores, repórteres e jornalistas de sites de notícias como Polygon, Ars Technica e Kotaku. Em 17 de setembro, o site Breitbart publicou uma série e-mails privada, na qual o grupo discute "a formação de atitudes em relação a notícias no segmento" e "sobre o que fazer cobertura e o que ignorar".[13], porém os emails vazados foram trocados após Quinn receber os ataques [14].

#NotYourShield[editar | editar código-fonte]

Uma segunda hashtag foi criada, "#NotYourShield" (não sou seu escudo) como resposta às acusações de misoginia e racismo feita pelos opositores do movimento. A hashtag foi compartilhada por usuários do sexo feminino e de grupos de minoridade nas redes sociais para mostrar apoio ao movimento.[5][15]

Similarmente, os opositores do GamerGate foram acusados de utilizarem acusações de misoginia como forma de silenciar as preocupações legítimas dos usuários com a integridade moral da indústria jornalística[10], e de rotular uma maioria baseado na minoria.[8]

Ameaças[editar | editar código-fonte]

A atenção da mídia foi focada em grande parte na natureza altamente pessoal das acusações feitas a Zoe Quinn e as seguintes acusações a outros jornalistas. Esta atitude foi acusada pelos jornalistas e pessoas opostos ao GamerGate como sexista, afirmando que o motivo era para assustar as mulheres da indústria.[2][5][15][16] Esta abordagem criticada por Noah Dulis, que acusou a mídia de colocar Quinn como foco do gamergate como tentativa de desviar a atenção de si mesma.

Tanto Quinn quanto a jornalista Anita Sarkeesian divulgaram ter recebido ameaças de morte, alegando que isto mostra uma violência especial contra as mulheres no meio.[17] A atitude de ameaçá-las foi colocada pelos jornalistas e pessoas opostas ao GamerGate como sexista, afirmando que o motivo era para assustar as mulheres da indústria.[2][5][15][16] Enquanto os ataques pessoais podem revelar que as críticas aos jornalistas tem o pretexto de tornar o abuso contra mulheres na indústria permissível[2], Quinn e Sarkeesian também foram acusadas de usarem as ameaças a seu favor, para se colocarem como vítimas.[10]

Milo Yiannopoulos, do site Breitbart, também revelou ter recebido ameaças após publicar um artigo sobre nepotismo e corrupção no jornalismo de videogames.[10][17] Além disso, em entrevista, desenvolvedor Daniel Vavra questionou se a indústria é realmente hostil às mulheres, notando que a maior parte das reclamações vêm de "jornalistas e bloggers que nunca trabalharam numa companhia de jogos".[18]

No dia 15 de outubro, a desevolvedora Brianna Wu divulgou que estava recebendo ameaças de morte, supostamente de GamerGates.[13]

No dia 15 de novembro, Anita Sarkeesian cancelou uma palestra na Universidade de Utah após receber uma ameaça de atentado por e-mail, mesmo após o FBI considerar que não existia qualquer risco proveniente dessa ameaça. Apesar de não mencionar jogos eletrônicos ou a hashtag #gamergate, foi atribuída a seguidores do movimento.[13]

As ameaças de morte atingiram ambos os lados da controvérsia.[10][17][19]

E-mails[editar | editar código-fonte]

A partir de setembro, passaram a ser enviados e-mails para anunciantes de sites que publicavam conteúdo contra o movimento, pedindo-as para cancelar os anúncios. No dia 1º de outubro, a empresa Intel removeu seus anúncios do site Gamasutra, que publicava contra o GamerGate.[13]

No dia 16 de outubro, o editor do blog da Gawker Media Sam Biddle postou um tweet no qual fala "nerds deveriam ser constantemente envergonhados e degradados". Em resposta ao que foi percebido como bullying, companhias que anunciavam na Gawker foram contactadas por ativistas, levando-os a retirarem anúncios do site. Em 11 de dezembro, Gawker anunciou que a controvérsia havia custado pelo menos um milhão de dólares à empresa.[20]

Discurso na ONU[editar | editar código-fonte]

Em setembro de 2015, Anita Sarkeesian e Zoe Quinn discursaram na ONU sobre o que seria uma "crescente onda de violência contra mulheres e meninas" [21]. O resultado disso foi um relatório chamando a atenção para violência contra a mulher em ambientes virtuais [22]. Este relatório, porém, foi duramente criticado por ser um "documento extremamente descuidado, que não apresenta um entendimento sofisticado dos problemas enfrentados por Sarkeesian e Quinn." e "definir violência contra a mulher de maneira tão abrangente que faz do conceito sem sentido." [23]. Uma das referências do relatório aponta para um endereço local do computador do autor, e não de um sitio de Internet, o que a torna inacessível.

Análise[editar | editar código-fonte]

Fontes jornalísticas expressaram a dificuldade em se definir os objetivos do GamerGate, argumentando que muitas vezes as preocupações do movimento são abafadas por comentários ofensivos.[24]

O surgimento e desenvolvimento da controvérsia foi atribuída à sensação de desconexão entre a indústria de jogos e os gamers, e à necessidade de haver mais transparência e integridade na área jornalística[10], assim como a necessidade de mudança na indústria.[24]

Segundo a Purebreak, "a tag #gamergate se fortaleceu para dizer que se gamers são horríveis assim, somos algo novo e totalmente diferente disso".[8]

No decorrer dos anos, o GamerGate passou a ser reconhecido como um movimento que colaborou com a ascensão da extrema-direita e o crescimento de ataques e assédio contra mulheres e minorias em ambientes virtuais[25].

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. [1] Funcionária da Nintendo é Demitida Após Ataques. IGN. Acesso em 05 de maio de 2016
  2. a b c d Simon Parkin (9 de setembro de 2014). «Zoe Quinn's Depression Quest». The New Yorker. Consultado em 9 de setembro de 2014 
  3. «January 7th Batch of Greenlight Titles». Steam. Consultado em 21 de setembro de 2014 
  4. a b Vítor Alexandre. «Gamergate: a nova polêmica». Eurogamer.pt, 06/09/2014. Consultado em 21 de setembro de 2014 
  5. a b c d Sarah Kaplan (12 de setembro de 2014). «With #GamerGate, the video-game industry's growing pains go viral». Washington Post. Consultado em 14 de setembro de 2014 
  6. Keith Stewart (3 de setembro de 2014). «Gamergate: the community is eating itself but there should be room for all». The Guardian. Consultado em 14 de setembro de 2014 
  7. Stephen Totilo (20 de agosto de 2014). «In recent days I've been asked several times». Kotaku. Consultado em 15 de setembro de 2014 
  8. a b c d «Escândalo #GamerGate: fique por dentro dos fatos que geraram o movimento». Purebreak, 13/09/2014. Consultado em 21 de setembro de 2014 
  9. a b c d Erik Kain. «GamerGate: A Closer Look At The Controversy Sweeping Video Game». Forbes. Consultado em 21 de setembro de 2014 
  10. a b c d e f Jordan Ephraim (2 de setembro de 2014). «10 Things You Need To Know About The #GamerGate Scandal». What Culture. Consultado em 21 de setembro de 2014 
  11. a b c William Usher (Setembro de 2014). «TFYC Discuss #GamerGate, Recovering From Hacks, 4chan Support». Cinema Blend. Consultado em 13 de dezembro de 2014 
  12. Karyne Levy (2 de setembro de 2014). «Game Developers Are Finally Stepping Up To Change Their Hate-Filled Industry». Business Insider. Consultado em 7 de setembro de 2014 
  13. a b c d e f Yuri Gonzaga (11 de novembro de 2014). «Gamers e feministas se enfrentam ao redor do caso 'gamergate'; entenda». Folha de S.Paulo. Consultado em 12 de dezembro de 2014 
  14. «Addressing allegations of "collusion" among gaming journalists». ArsTechnica. Consultado em 20 de dezembro de 2020 
  15. a b c Radhika Sanghani (10 de setembro de 2014). «Misogyny, death threats and a mob of trolls: Inside the dark world of video games with Zoe Quinn - target of #GamerGate». The Telegraph. Consultado em 14 de setembro de 2014 
  16. a b Todd VanDerWerff. «=#GamerGate: Here's why everybody in the video game world is fighting». Vox. Consultado em 21 de setembro de 2014 
  17. a b c «5 Fatos que você precisa saber sobre o escândalo gamergate». Purebreak, 28/09/2014. Consultado em 21 de setembro de 2014 
  18. Andrew Otton (12 de setembro de 2014). «An interview with Daniel Vavra: GamerGate and the gaming industry». Tech Raptor. Consultado em 12 de dezembro de 2014 
  19. Cathy Young (1 de novembro de 2014). «Misandry in the GamerGate Controversy». Reason.com. Consultado em 13 de dezembro de 2014 
  20. «Gawker discusses cost of 'gamergate'». Capital New York. Consultado em 12 de dezembro de 2014 
  21. «Anita Sarkeesian, Zoe Quinn and more take aim at cyber harassment against women». Polygon. Consultado em 20 de dezembro de 2020 
  22. «CYBER VIOLENCE AGAINST WOMEN AND GIRLS: A WORLD-WIDE WAKE-UP CALL» (PDF). UN Woman. Consultado em 20 de dezembro de 2020 
  23. «The U.N.'s Cyberharassment Report Is Really Bad». The CUT. Consultado em 20 de dezembro de 2020 
  24. a b Julia Sousa (29 de outubro de 2014). «O QUE É #GAMERGATE?». Midiálogo. Consultado em 12 de dezembro de 2014 
  25. [2] O Gamergate 5 anos depois. E seu papel para a extrema direita. Nexo. Acesso em 17 de setembro de 2021