Jan Huygen van Linschoten

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Jan Huygen van Linschoten
Retrato de Jan Huygen van Linschoten incluído na edição princeps do seu Itinerario.
Nome completo Jan Huygen van Linschoten
Nascimento 1563
Haarlem
Morte 8 de Fevereiro de 1611 (48-49 anos)
Enkhuizen
Ocupação Mercador e explorador
Fusta com pavilhão português (do Itinerario).
O rei de Cochim cavalgando um elefante com os seus pajens.
"A Cidade de Angra na Ilha de Iesu Xpo da Terceira Que Esta em 39 Graos" (gravura originalmente no Itinerario, aqui numa edição colorida à mão).
"Angra op Tercera", uma versão posterior do mapa.

Jan Huygen van Linschoten, por vezes grafado Jan Huijgen van Linschoten (Haarlem, 1563Enkhuizen, 8 de Fevereiro de 1611), foi um mercador e explorador neerlandês que viajou extensamente pelas zonas de influência portuguesa na Ásia. Convivendo intimamente com mercadores e navegadores portugueses, Linschoten terá copiado mapas e obtido outras informações sobre a navegação e práticas mercantis daquela nação na Ásia, que permitiram a entrada dos seus compatriotas nas então denominadas Índias Orientais e, na senda destes, dos ingleses. O interesse despertado nos Países Baixos e na Inglaterra pelas informações de viajantes como Linschoten e Cornelis de Houtman, esteve na origem do movimento de expansão comercial para a Índia e sueste asiático que levou à fundação da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais e da Companhia Britânica das Índias Orientais.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Jan Huygen era filho de um notário da cidade de Haarlem, mas na sua infância a família fixou-se na aldeia de Enkhuizen. A adopção do apelido van Linschoten parece indicar que a sua família era originária da aldeia do mesmo nome, nos arredores de Utreque.

Partiu para Espanha, em Dezembro de 1576, para se juntar a um seu irmão Willelm, que era mercador em Sevilha. Ali fez a sua aprendizagem nas artes do comércio internacional, acabando por se associar a mercadores portugueses e trabalhando entre Lisboa e Sevilha, actividade que manteve durante pelo menos seis anos.

Dificuldades no comércio, o desejo de aventura ou eventualmente uma missão de espionagem comercial a soldo de mercadores neerlandeses e flamengos, fizeram com que, apesar de originariamente protestante, aceitasse acompanhar, na qualidade de guarda-livros, o dominicano frei Vicente da Fonseca, nomeado arcebispo de Goa. Desse modo, integrado na comitiva do prelado, partiu para o Estado da Índia a 8 de Abril de 1583, chegando a Goa cinco meses depois, tendo feito as escalas usuais na ilha da Madeira, na Guiné, no cabo da Boa Esperança, em Madagáscar e em Moçambique.

Durante a sua estadia em Goa e nas suas viagens, Jan Huyghens teve acesso a mapas e a outras informações privilegiadas sobre o comércio e navegação dos portugueses no sueste asiático, utilizando a sua capacidade cartográfica e de desenho para copiar e desenhar novos mapas, produzindo um muito considerável acervo de informação náutica e mercantil. Algumas das cartas náuticas que copiou tinham sido mantidas cuidadosamente secretas por mais de um século.

A morte do arcebispo em 1587, durante uma viagem a Lisboa, fez com que Jan Huygen deixasse a Índia e regressasse à Europa. Partiu de Goa em Janeiro de 1589, escalando a ilha de Santa Helena em Maio daquele ano.

A viagem de regresso foi interrompida nos Açores, na altura da ilha do Corvo, quando o comboio de seis embarcações em que viajava (cinco da Índia e uma de Málaca), começou a ser perseguido por galeões corsários ingleses,[1] forçando a que as embarcações portuguesas se dirigissem a Angra, na Terceira, em busca de refúgio. A 4 de agosto, entretanto, uma violenta tempestade abateu-se sobre a cidade e os navios ancorados na baía, vindo o galeão de Malaca a naufragar. Sobre este infausto, o próprio Linschoten referiu, posteriormente, no seu "Itinerário":

"Neste naufrágio da nau de Málaca perderam-se muitas valiosas mercadorias, pois era a mais rica de todas as naus, e trazia da China, das Molucas e de outras ilhas muitas preciosidades, tais como sedas, damascos, obetos de ouro e de prata, porcelanas e outras coisas de valor, cujos fardos andava à tona de água e vinham dar à costa, recolhendo-se ainda alguns, bem como alguma quantidade de pimenta, cravo e noz moscada (…). Estes despojos foram levados para a Alfândega, que é o lugar dos impostos, a fim de que não deixassem de pagar a sua taxa, não havendo consideração pela condição miserável daqueles que, depois de fadigas incríveis e da miséria extrema da viagem de três anos, tinham sofrido uma tão grande perda com o naufrágio desta nau." (Itinerário)

Por força deste acidente, Linschoten permaneceu por dois anos na cidade de Angra, para contabilizar as riquezas recuperadas no galeão naufragado. Nesse período percorreu a ilha tanto por terra quanto por mar, tendo registrado as suas impressões em livro anos mais tarde, acompanhadas por dois mapas detalhados: um de Goa e outro de Angra. Este último é considerado uma das mais antigas representações da cidade.

De regresso aos Países Baixos em 1592, com a ajuda de Cornelis Claesz, um editor de Amesterdão especializado em literatura náutica e de viagens, Linschoten publicou um primeiro relato da sua viagem, a que deu o título de "Reys-gheschrift vande navigatien der Portugaloysers in Orienten" ("Relato de uma viagem pelas navegações dos portugueses no Oriente"), que saiu do prelo em 1595. A obra contém cartas e indicações sobre como navegar entre Portugal e as Índias Orientais, e ainda entre a Índia, a China e o Japão.

Em 1594 tomou parte na expedição de Willem Barents aos mares do norte à procura de uma passagem para o Oriente através do Árctico (Passagem do Noroeste), navegando a bordo do navio de Cornelis Nay pelos mares da Noruega e da Carélia (atual Mar de Barents em homenagem ao comandante da expedição).

No ano seguinte (1595), voltou a participar na segunda expedição de Barents ao Oceano Árctico.

Jan Huyghen publicou três outras obras:

  • "Beschryvinghe van de gantsche custe van Guinea, Manicongo, Angola ende tegen over de Cabo de S. Augustijn in Brasilien, de eyghenschappen des gheheelen Oceanische Zees" ("Descrição de toda a costa da Guiné, Manicongo e Angola e da travessia para o Cabo de Santo Agostinho no Brasil, com as características de todo o Oceano Atlântico") em 1597;
  • "Itinerario: Voyage ofte schipvaert van Jan Huyghen van Linschoten naer Oost ofte Portugaels Indien, 1579-1592" ("Descrição da viagem do navegante Jan Huyghen van Linschoten às Índias Orientais portuguesas") em 1596; e
  • "Voyagie, ofte schip-vaert, van Ian Huyghen van Linschoten, van by Noorden om langes Noorvvegen de Noortcape, Laplant, Vinlant, Ruslandt, de VVite Zee, de custen van candenoes, Svvetenoes, Pitzora…" ("Viagem do navegante Ian Huyghen van Linschoten pelo Norte ao longo da Noruega até ao Cabo do Norte, Lapónia, Carélia, Rússia, Mar Branco, …") em 1601.

Para além de mapas dos diversos locais por onde viajou, Linschoten também deixou conselhos, entre eles a forma de ultrapassar o controlo que os portugueses mantinham no estreito de Malaca, sugerindo como alternativa a passagem pelo sul de Samatra através do estreito de Sunda, percurso que de facto veio a ser a principal via de penetração neerlandesa no sueste asiático e que esteve na origem da sua colonização dos territórios que hoje constituem a Indonésia.

Faleceu já considerado como uma celebridade pela sua obra e num momento em que, face à perda de influência portuguesa resultante da incorporação da coroa de Portugal na monarquia castelhana durante a Dinastia Filipina (1580-1640), oportunidades para uma presença neerlandesa nas Índias Orientais começavam a surgir.

Em honra de Jan Huygen foi fundada em Amesterdão, no ano de 1908, uma associação denominada Sociedade Linschoten ("Linschoten-Vereeniging"), tendo como objectivo a publicação de obras neerlandesas raras ou inéditas de literatura de viagens, descrições geográficas ou itineraria. A sociedade está associada ao Museu Naval de Amsterdão (Nederlands Scheepvaartmuseum Amsterdam), local onde mantém a sua sede. Também a instituição financeira holandesa ABN AMRO Bank atribui anualmente o "Prémio Jan Huygen van Linschoten" ("Jan Huygen van Linschoten Prijs") para premiar o empresário neerlandês que se destaque no comércio internacional.

Obras publicadas[editar | editar código-fonte]

  • Reys-gheschrift vande navigatien der Portugaloysers in Orienten (1595);
  • Itinerario: Voyage ofte schipvaert van Jan Huyghen van Linschoten naer Oost ofte Portugaels Indien, 1579-1592 (1596);
  • Beschryvinghe van de gantsche custe van Guinea, Manicongo, Angola ende tegen over de Cabo de S. Augustijn in Brasilien, de eyghenschappen des gheheelen Oceanische Zees (1597);
  • Voyagie, ofte schip-vaert, van Ian Huyghen van Linschoten, van by Noorden om langes Noorvvegen de Noortcape, Laplant, Vinlant, Ruslandt, de VVite Zee, de custen van candenoes, Svvetenoes, Pitzora… (1601).

Referências

  1. No contexto do ataque e derrota da Invencível Armada espanhola, no ano anterior (1588).

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CÂMARA, Teresa Bettencourt da. "A Carta de Angra de Linschoten: a questão da autoria". in Revista de Cultura Açoriana, nº 2, Lisboa, 1990, p. 179-184.
  • MESSIAS, Rui. Angra, 1595: Linschoten descodificado. Revista DI, nr. 311, 22 mar. 2009, p. 4-11.
  • Van Linschoten, Jan Huyghen. The Voyage of John Huyghen van Linschoten to the East Indies, Elibron Classics, 2001, 368 pages, ISBN 1-4021-9507-9 - Fac-simile da edição de 1885 produzida pela Hakluyt Society de Londres.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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