José Porfírio de Sousa

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José Porfírio de Sousa
José Porfírio de Sousa em meados da década de 1960.
Deputado estadual por  Goiás
Período 1963
1964 (cassado)
Dados pessoais
Nascimento 27 de julho de 1912
Pedro Afonso, atual Tocantins
Morte desaparecido dia 7 de junho de 1973
Brasília, Distrito Federal[A]
Cônjuge Rosa Amélia de Farias (m. 1954)
Dorinha da Silva Pinha
Partido PC-SBIC
PTB/PSB
PRT
Profissão Camponês

José Porfírio de Sousa (Pedro Afonso, 27 de julho de 1912Brasília, 7 de junho de 1973[A]) foi um líder camponês e político brasileiro, mais conhecido como integrante principal da Revolta Camponesa de Trombas e Formoso, ocorrida na década de 1950, no estado de Goiás[1].

Biografia[editar | editar código-fonte]

Filho de Teófilo de Sousa Gil e Maria Joaquina, viveu em sua localidade natal até constituir família, quando se casou com Rosa Amélia de Farias, baiana de Remanso, com quem teve nove filhos.[1] No fim da década de 1940, José Porfírio mudou-se para o norte de Goiás, influenciado pela campanha Marcha para o Oeste.[2] A intenção do Governo Vargas, com esta campanha, era promover a ocupação das "terras sem homens" do Centro-Oeste brasileiro através da criação de colônias agrícolas.[2] No entanto, ao chegar em Ceres, José Porfírio e sua família não puderam se estabelecer na colônia, uma vez que esta já se encontrava lotada.[2] Partiram, então, para a região de Uruaçu, onde se localizavam os povoados de Trombas e Formoso.[2]

A ocupação de pequenas terras estava em franca expansão naquele local, logo tornando-o uma comarca, com seu próprio juiz, que passou a cooperar com os grileiros que começavam a chegar.[2] Em 1952,[3] a partir da construção da Rodovia Transbrasiliana, as terras se valorizaram e acabaram se tornaram alvo de especulação.[2] Para expulsar os camponeses que já se encontravam nas terras, os grileiros promoveram atos de violência contra os posseiros, que eram mortos, ameaçados e tinham suas casas e pertences incendiado.[2] Foi nesse período que José Porfírio despontou como líder do grupo, viajando a Goiânia para atuar como interlocutor dos camponeses junto às autoridades estaduais.[2] Ao retornar de uma dessas viagens, encontrou a casa em chamas, em frente à qual se encontravam a mulher e os filhos, em estado de choque.[2] Alguns meses depois,[2] Rosa morreria aos 28 anos de idade.[1]

Os jagunços contavam com o apoio do batalhão local da Polícia Militar do Estado de Goiás (PM-GO) em seus esforços para invadir e desocupar Trombas e Formoso.[2] A tensão entre os dois lados é constante. Em uma incursão mal sucedida de policiais e jagunços, um sargento foi morto pelo posseiro Nego Carreiro, o que acabou acirrando a violência entre as duas partes.[2] Soldados da PM-GO passaram a capturar líderes posseiros sistematicamente.[2] Relata-se que amigos de Porfírio que foram capturados viram-se obrigados a comer fezes e sapos vivos.[2] Certa vez, os soldados usaram as mulheres e os filhos dos posseiros como escudo humano.[2] Apesar das constantes tentativas de invasão, a resistência dos posseiros se incrementou, configurando-se no local uma organização comunitária politicamente coesa e economicamente próspera.[2] Há relatos de que a força dos camponeses de Trombas e Formoso era tamanha que o Batalhão de Polícia Militar de Formoso recebeu, naquela época, quantidade recorde de atestados médicos.[2] O nome de José Porfírio logo ganharia repercussão nacional, emergindo como defensor dos posseiros goianos,[2] tendo se encontrado nessa condição, inclusive, com o então presidente Getúlio Vargas.[3]

A partir de 1954, chegaram ao local os primeiros membros do Partido Comunista[2], ao qual José Porfírio também se afiliaria.[3] Ao passo em que a resistência camponesa se estendia, os posseiros foram ganhando espaço no campo político local.[2] Os representantes do poder público se retiraram da região e o vácuo representativo foi ocupado pela Associação dos Trabalhadores Agrícolas de Trombas e Formoso, sendo a região conhecida, a partir deste momento, como a "República de Trombas e Formoso".[2] Fundada pelos camponeses com o auxílio dos militantes comunistas, a entidade obteve a filiação imediata de todos os camponeses da área, elegendo José Porfírio como seu primeiro presidente.[2] Em 1960, passa oito meses em Cuba para acompanhar o desenvolvimento da revolução.[1][3] Rompido com o Partido Comunista desde o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Porfírio se lançou candidato à Assembléia Legislativa de Goiás em 1962 pela coligação PTB-PSB,[1][3] sendo eleito o primeiro deputado de origem camponesa da história do Brasil.[2]. Com quase 5 mil votos, foi o mais votado da chapa.[3] Enquanto isso, seu companheiro Bartolomeu Gomes da Silva, também posseiro, elegeu-se prefeito de Formoso.[2] Com a posse de Mauro Borges Teixeira como governador de Goiás, a região de Trombas e Formoso recebeu alguns avanços. Em 1962, o governador concedeu aos posseiros 20 mil títulos de terra.[2] Apesar dos elogios ao governador, José Porfírio manteve sua posição independente no exercício de seu mandato.[2]

Em 1964, no entanto, com o golpe de estado, os camponeses enfrentam grandes retrocessos. Os títulos das posses de Trombas e Formoso foram revogados.[2] Vários camponeses foram presos,[3] enquanto José Porfírio e Bartolomeu tiveram seus mandatos cassados.[2] O primeiro escapa de Goiânia sob troca de tiros e se refugia no seu estado natal, o Maranhão, onde passa a atuar junto à Ação Popular fundando em seguida, ao lado de Alípio de Freitas,[3] a dissidência que daria origem ao Partido Revolucionário dos Trabalhadores.[2] Adotou o nome de Feliciano e, com a ajuda de parentes, construiu uma casa de chão batido no povoado de Angical, no município de Riachão.[3] Na clandestinidade, José Porfírio, que tinha ensino fundamental incompleto em escola rural,[3] empenhou-se na alfabetização de filhos de lavradores.[2] Neste período, seu filho Durvalino, de 17 anos, é preso e torturado em Goiás para revelar o paradeiro do pai.[2] Após a tortura, o rapaz passa a sofrer transtornos psíquicos e, após um período de internação num hospital psiquiátrico, desaparece.[2] Em 1972, José Porfírio foi capturado após a denúncia de um fazendeiro à Polícia Federal.[2] Ficou preso no DOI-CODI em Brasília[2] e, seis meses depois, em 7 de junho de 1973, foi libertado e visto pela última vez.[1] A última pessoa a vê-lo foi sua advogada, que o deixou na rodoviária, onde pegaria um ônibus com destino a Goiânia.[3]

Notas de rodapé[editar | editar código-fonte]

  1. ^ José Porfírio de Sousa foi visto pela última vez em 7 de junho de 1973, ao ser solto do DOI-CODI em Brasília.

Referências

  1. a b c d e f José Porfírio de Souza - Biografia. Projeto Memorial da Revolta de Trombas e Formoso. Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás. Página visitada em 27 de janeiro de 2012.
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah Carneiro, Ana; Cioccari, Marta (2010). Retrato da Repressão Política no Campo - Brasil: 1962-1985 (PDF). Camponeses torturados, mortos e desaparecidos 2 ed. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário. p. 223-226. 258 páginas. Consultado em 27 de janeiro de 2012 
  3. a b c d e f g h i j k Campos, F. Itami; Duarte, Arédio Teixeira (2002). O Legislativo em Goiás (PDF). Volume 3 - Perfil Parlamentar 11 (1947-2003). Goiânia: Assembléia Legislativa de Goiás. p. 267. 453 páginas. Consultado em 27 de janeiro de 2012 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]