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Lentibulariaceae

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Como ler uma infocaixa de taxonomiaLentibulariaceae
Classificação científica
Reino: Plantae
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Magnoliopsida
Ordem: Lamiales
Família: Lentibulariaceae
Rich.[1]
Géneros
Sinónimos
Pinguicula vulgaris.
Utricularia humboldtii.
Pinguicula moranensis.
Utricularia purpurascens.
Flor de Utricularia longifolia.
Flor de Utricularia blanchetii.
Hábito de Genlisea hispidula.
Inflorescência de Utricularia vulgaris.
Pinguicula longifolia ssp. dertosensis (in situ)

Lentibulariaceae é uma família de plantas com flor, pertencente à ordem Lamiales, que agrupa três géneros de pequenas herbáceas carnívoras (Genlisea, Pinguicula e Utricularia) com cerca de 390 espécies, o que faz deste grupo a família de plantas carnívoras com maior números de espécies.[2] A família tem distribuição do tipo cosmopolita, mas com maior concentração nas regiões tropicais e subtropicais da América do Sul e América Central e na África tropical.[3]

Descrição

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A família Lentibulariaceae é uma família de plantas carnívoras da ordem Lamiales, formada por três géneros (Genlisea, Pinguicula e Utricularia) que agrupam cerca de 390 espécies. Pela sua diversidade, é classificada como a família de plantas carnívoras que apresenta a maior riqueza em espécies.[4]

Os géneros Polypompholyx (duas espécies) e Biovularia costumavam ser considerados o quarto e o quinto membros desta família. Contudo, Biovularia foi incluído em Utricularia, e Polypompholyx foi relegado a um subgénero de Utricularia. A família costumava ser classificada em Scrophulariales, mas esta ordem foi fundida com Lamiales no sistema desenvolvido pelo Angiosperm Phylogeny Group. No sistema APG IV, a família Lentibulariaceae aparece integrada na ordem Lamiales, com 3 géneros e 390 espécies.[5]

Os membros desta família têm como característica comum serem plantas carnívoras, mas quanto ao habitat estas plantas podem ser terrestres, aquáticas, litófitas (crescem sobre rochas) ou epífitas (crescem sobre plantas), estando largamente distribuídas em diversos ambientes das regiões tropicais e subtropicais das Américas (Central e do Sul) e da África, adaptando-se frequentemente a habitats húmidos ou alagados.

Cada género apresenta características e estratégias específicas para capturar as presas, sendo as armadilhas do género Utricularia as mais complexas dentro das angiospermas. As presas são principalmente membros da microfauna de invertebrados, com destaque para os protozoários.[6][7]

Morfologia

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Hábito

As espécies da família são plantas herbáceas anuais ou perenes, frequentemente plantas aquáticas. Algumas espécies são epífitas. Todas as espécies são carnívoras pois graças a órgãos especiais, que variam consoante o género, são capazes de capturar e digerir pequenos organismos. Além de insectos, a sua gama de presas inclui também protistas, algas e, mesmo, pólen.

As raízes estão parcialmente ausentes (especialmente nas hidrófitas do género Utricularia) ou são muito reduzidas (nas espécies do género Pinguicula). As folhas estão dispostas em espiral, em rosetas basais ou distribuídas ao longo de estolhos. Frequentemente, as folhas são substituídas por caules simples ou múltiplos, semelhantes a folhas, que são fotossinteticamente ativos. O dimorfismo ou polimorfismo foliar é frequente.

As espécies de Lentibulariaceae geralmente são plantas diminutas, geralmente estoloníferas, na maioria das vezes não apresentando sistema radicular desenvolvido, com as raízes limitadas quase exclusivamente à função de fixação ao substrato. As raízes podem conter rizoides.[6]

Caules e folhas

As folhas estão na base do escapo ou dispersas no estolho, são dispostas em rosetas adaptadas para captura de presas ou modificadas em armadilhas, contendo tricomas em toda a sua superfície, podendo estes ser glandulares ou sésseis.[6]

Inflorescências e flores

As inflorescências são terminais ou laterais, com pedúnculos longos, sem ramificações ou com ramificações fracas, em forma de cacho, sendo frequentes também as flores isoladas. As bractéolas são frequentes, mas também podem estar ausentes, sendo geralmente muito reduzidas ao longo do eixo da inflorescência. Na base dos pedúnculos florais encontram-se frequentemente duas brácteas, que também podem estar mais ou menos fundidas com as bractéolas.

As flores são zigomorfas (simetria bilateral) e bissexuadas, com uma ampla diversidade de cores (vermelha, rosa, laranja, branca, lilás, violeta, azul ou amarela), agrupadas em inflorescências em racemo eretas, com escamas, brácteas e bracteolas basifixas ou peltadas. As inflorescências podem ser reduzidas a uma única flor ou se assemelhar a brácteas involucrais, ficando em muitos casos reduzida ao eixo principal, o qual se desenvolve completamente condensado (comum em Pinguicula). O cálice apresenta de duas a cinco sépalas, a corola é bilabiada com pétalas fundidas e duas anteras.

A flor apresenta cinco lóbulos nos géneros Pinguicula e Genlisea, mas, em Utricularia, a maioria das espécies tem cálice com apenas dois lóbulos. Em Pinguicula e Genlisea, o lábio inferior da corola apresenta sempre três lóbulos, enquanto em Utricularia varia entre 2 a 5 lóbulos, ocorrendo desenvolvimento do estandarte em Genlisea e na maioria das espécies de Utricularia.

Apenas os dois estames abaxiais estão geralmente presentes, estando ausentes os estaminódios na maioria das espécies. A morfologia dos estames é bastante uniforme em todos os géneros, com pequenos filamentos achatados.

O gineceu consiste em dois carpelos fundidos que formam um ovário globoso unilocular de livre placentação (não séssil), com numerosos óvulos nas extensões apicais. Em algumas espécies de Utricularia, a placentação é séssil e suporta apenas dois óvulos. O ovário é unilocular, súpero, com placentação central e dois carpelos fundidos, apresentando estigma muito curto.[6] Os óvulos são anátropos, unitegumentados e tenuinucelados. O pólen de Pinguicula é zonocolporado com cinco a oito sulcos. Nos demais grupos, o pólen apresenta um número maior de sulcos.

Os insectos (Hymenoptera, Diptera e Lepidoptera) são os polinizadores mais frequentes nesta família, porém também ocorre polinização por aves. Para alguns táxons boreais de Pinguicula, os dípteros (moscas e mosquitos) são relatados como os principais polinizadores. A autopolinização também se mostra frequente.

Frutos e sementes

Os frutos são capsulares.[6] Os frutos em cápsula deiscentes, que se abrem em forma de válvula ou circularmente na parte frontal, contêm geralmente numerosas sementes, enquanto os raros frutos em cápsula indeiscente, que não se abrem, contêm apenas uma única semente. As sementes são geralmente muito pequenas (entre 0,2 e 1,0 mm de comprimento), de formas extremamente variadas, a testa (a casca da semente) é variada e ornamentada, de lisa a granulosa, rugosa a verrucosa ou estriada, geralmente fina, esponjosa ou semelhante a cortiça, raramente mucilaginosa, sem endosperma.

Em algumas espécies de Utricularia, as sementes podem ser aladas ou apresentar ganchos ou tufos de pelos que auxiliam na dispersão pelo vento. A dispersão das sementes depende, nesta família, principalmente de vento e da água, havendo contudo também algumas espécies que dependem do auxílio de aves dispersoras de sementes.

O embrião de Pinguicula apresenta um polo radicular, ausente em Genlisea e Utricularia.

Genómica

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Os cromossomas de Lentibulariaceae foram estudados apenas em algumas espécies. O número cromossómico básico é x = 7, 8, 9, 10, 11, 14, 15, 21, 22 e 24 em Utricularia e x = 8, 9, 11, 12, 16, 24 e 32 em Pinguicula. Não se conhece contagem cromossómica publicada para Genlisea.[8]

Nas espécies mais desenvolvidas, a família inclui muitas espécies com genomas muito pequenos, incluindo os três menores genomas conhecidos de todas as angiospermas:[9]

  1. 63,4 Mbp Genlisea margaretae
  2. 63,6 Mbp Genlisea aurea
  3. 88,3 Mbp Utricularia gibba
  4. 135 Mbp Utricularia blanchetii
  5. 140 Mbp Utricularia parthenopipes

As taxas de mutação nos genes matK dos cloroplastos dos membros do género Genlisea e das hidrófitas do género Utricularia estão entre as mais elevadas das Angiospermae.[10]

Distribuição

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A distribuição dos membros da família Lentibulariaceae é do tipo cosmopolita, com espécies espalhadas por todo o mundo, desde as zonas temperadas até às tropicais, com algumas espécies que chegam até às fronteiras das regiões subpolares (Gronelândia, Planície da Sibéria Setentrional, Alasca, Tierra del Fuego). No entanto, não ocorrem nas zonas áridas e semiáridas, pelo que estão quase totalmente ausentes do Norte de África, do Médio Oriente, da Península Arábica, de grande parte da Ásia Central e do interior da Austrália. A maior diversidade de espécies é encontrada na América Central e do Sul tropical, no Sudeste Asiático e no norte tropical da Austrália. Os centros de diversidade da família estão no norte da América do Sul e na América Central, mas com a família também bem representada na África tropical e subtropical, incluindo em Madagáscar. O género Pinguicula ocorre em todos os continentes, incluindo em elevadas altitudes, exceto na Antártida e no centro e sul da Austrália.[11]

Tal como é comum à generalidade das plantas carnívoras, as plantas da família Lentibulariaceae preferem locais húmidos a molhados, mas, ao contrário da maioria das carnívoras, também toleram frequentemente locais relativamente pouco iluminados. As espécies desta família estão geralmente mais presentes em ambientes pobres em nutrientes que podem ser agrupados em quatro tipos: (1) áreas abertas mais ou menos niveladas com vegetação escassa (como areias quartzíticas e pântanos); (2) áreas de infiltração em rochas ou solo raso; (3) habitats epifíticos, como musgo, casca velha de árvores, galhos finos (como Pinguicula lignicola); ou (4) em pequenas acumulações de águas, como os tanques de bromélias (por exemplo, Utricularia humboldtii).[11]

O género Genlisea está presente em regiões tropicais e subtropicais da América Central e do Sul, da África e de Madagáscar, apresentando maior diversidade na América do Sul. O género Utricularia, embora também se encontre em regiões tropicais da América do Sul, apresenta uma distribuição global mais vasta. Já o género Pinguicula ocorre em quase todos os continentes, principalmente em altas altitudes, exceto na Antártida e na Austrália.[11]

Carnivoria

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A carnívoria nas plantas parece ter evoluído independentemente em cinco grandes linhagens de angiospermas e seis ordens: Poales, Caryophyllales, Oxalidales, Ericales, Alismatales e Lamiales.

Uma característica comum encontrada em várias famílias de Lamiales que pode ter levado ao carnivorismo é a secreção de mucilagem rica em proteinases através da superfície das folhas. Aquela mucilagem é geralmente usada para prevenir a predação por insetos, prendendo e degradando insetos potencialmente nocivos. Alguns estudos sugerem que essas glândulas podem facilmente mudar a sua função de secreção para absorção.

Essa mudança pode ter ocorrido pela primeira vez no ancestral comum mais recente (MRCA) da família Lentibulariaceae, introduzindo glândulas absorventes que forneciam macronutrientes adicionais através de insetos capturados. A fonte adicional de nutrientes pode ter aumentado a aptidão das plantas que crescem em habitats com poucos nutrientes, o que acabou por levar à adoção do carnivorismo. Um mapeamento mais aprofundado das características também sugere que o MRCA era terrestre e possuía uma roseta basal composta por folhas planas e uma raiz primária. A filogenética também confirmou que o género Pinguicula é um grupo irmão dos outros dois géneros.

A carnivoria dentro da família Lentibulariaceae está ramificada em três tipos de mecanismo de armadilha, sendo eles as adesivas (Pinguicula), armadilhas em alçapão (Genlisea) e armadilhas de sucção (Utricularia).

Em Pinguicula, a atração de presas é alcançados por estímulos visuais e olfatórios, apresentando folhas cobertas com glândulas sésseis. Pequenos animais, geralmente insetos e aracnídeos, aderem à mucilagem secretada pelas glândulas da planta, a qual possui folhas capazes de se movimentar para auxiliar o contato da superfície foliar com a presa, melhorando a sus exposição aos enzimas digestivas secretadas pelas glândulas sésseis presentes.

Em Genlisea a presa, na maioria dos casos protozoários, é atraída por químicos de composição ainda desconhecida, sendo retidos pela mucilagem. Após a retenção, sofrem digestão por enzimas libertados pela planta.

Em Utricularia, quando plantas terrícolas, os protozoários são atraídos por químicos. Nas plantas aquáticas, uma vez que não ocorre atração química em espécies aquáticas, o mecanismo de captura assenta sobre estímulos táteis e um crescimento abundante de alimentos para presas em potencial na sua superfície. Após adentrar a bexiga, a presa é digerida por enzimas secretadas por glândulas bífidas e glândulas quadrífidas.[8][12][13]

Sistemática e filogenia

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O nome «Lentibularia», que em português significaria «pequena lente (de água)» ou «lentilha», refere-se à semelhança do hábito de algumas das espécies aquáticos da família, que ocorrem em charcos na Europa, com o hábito da comum lentilha-d'água (o género Lemna).[14] O nome já era utilizado na botânica pré-linneana. Carolus Linnaeus, na entrada referente a estas plantas na sua obra Species Plantarum, apresenta o nome como sinónimo de Utricularia e remete para o nome na Ordo Plantarum qvae sunt Flore Irregulari Monopetalo de Augustus Quirinus Rivinus de 1690.[15]

Em 1754, Jean François Séguier voltou a utilizar o nome, sendo assim considerado o primeiro descritor de acordo com as regras da ICBN. O nome do género está hoje fora de uso ou é sinónimo de Utricularia, apenas se mantendo na designação da família, que entretanto fora descrita pela primeira vez por Louis Claude Marie Richard em 1808.

Contribuições importantes para o conhecimento da família foram feitas no século XX, principalmente por Peter Taylor (Utricularia e Genlisea), Elza Fromm-Trinta (Genlisea e Utricularia) e Siegfried Jost Casper (Pinguicula e Utricularia).

Sistemática

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A família compreende três géneros:

Existem cerca de 390 espécies, das quais mais de 220 pertencem ao género Utricularia; cerca de 100 ao género Pinguicula; e pouco mais de 20 ao género Genlisea. O número de espécies cresce constantemente devido a novas descrições, especialmente no caso dos géneros Utricularia e Pinguicula.

A monofilia da família é tão pouco controversa quanto a sua extensão, a circunscrição taxonómica entre os géneros e a sua filogenia. Pinguicula é considerado o género mais primitivo em termos evolutivos (mais basal), enquanto os génros Genlisea e Utricularia formam um clado significativamente mais evoluído. O seguinte cladograma ilustra as relações entre os géneros:[10]

  Genlisea

  Utricularia

  Pinguicula

Por outro lado, as relações de parentesco dentro da ordem das Lamiales ainda são pouco compreendidas, e a posição das Byblidaceae dentro do agrupamento também não é clara. Repetidamente, presumiu-se que os parentes mais próximos da família fossem as Martyniaceae ou as Byblidaceae (o género Byblis), tendo o Angiosperm Phylogeny Group incluído estas últimas nas Lentibulariaceae em 2003, um conceito que, no entanto, não se impôs. Estudos mais recentes também consideram uma relação filogenética próxima com as Bignoniaceae, mas nenhum destes resultados é fiável.[16]

Todos os gêneros são classificados como plantas herbáceas (ervas) e características como o morfotipo do pedicelo, coloração da corola, tipo de armadilha e pilosidade das estruturas vegetativas e reprodutivas podem ser utilizadas para a diferenciação dos géneros. A principal diferença entre Genlisea e Utricularia pode ser encontrada no cálice, uma vez que em Genlisea aquela estrutura floral é composta por cinco sépalas e em Utricularia por apenas duas sépalas. As características morfológicas dos géneros são as seguintes:

  • As espécies do género Genlisea podem ser aquáticas, rupícolas ou terrícolas. As folhas estão dispostas em rosetas, são multinérveas, de obovadas a circulares e a armadilha (o rizófilo) tem configuração em forma de “Y” invertido com tricomas simples que podem também ser glandulares. No interior da armadilha, há uma região denominada ampola, local em que enzimas são secretadas para a digestão das presas. Tanto as partes vegetativas quanto as reprodutivas estão cobertas de tricomas glandulares viscosos. O caule pode ser presente ou inconspícuo e a inflorescência racemosa e ereta, com escapo floral geralmente híspido ou glandular. Apresenta um característico pedicelo ereto na flor e fruto, flores zigomorfas geralmente amarelas ou violetas com cinco sépalas, cálice pentalobado (lóbulos iguais e inteiros) e corola bilabiada, com lábio superior geralmente menor que o inferior. Apresenta dois estames, ovário globoso a ovoide, unilocular; estilete curto e o fruto capsular pode apresentar deiscência circuncisa ou deiscência espiralada longitudinal.[17]
  • As espécies do género Pinguicula são de pequeno porte, na maioria das vezes perenes. As folhas pegajosas estão dispostas em rosetas que atuam como “papel pega-moscas”, apresentando tricomas glandulares. As flores apresentam simetria zigomorfa (bilateral).[17]
  • As espécies do género Utricularia são pequenas, podendo ser aquáticas, epífitas, rupícolas ou terrícolas. Geralmente apresentam rizoides e estolhos, sendo as folhas uni- ou multinérveas, por vezes modificadas em vesícula (utrículo) para a captura de presas com uma abertura e geralmente dois apêndices dorsais. A inflorescência é do tipo racemosa e simples, glabra. A coloração das flores pode variar de branca, amarela a lilás, com ou sem mácula; casmógamas. O pedicelo é glabro com duas sépalas subiguais ou desiguais, glabras ou papilosas, com nervuras ausentes ou proeminentes. O cálice é bilobado (lóbulos iguais ou desiguais) e a corola bilabiada é geralmente glabra com lábio superior geralmente menor que o inferior. O estilete é curto, o ovário globoso a ovoide, unilocular e o fruto do tipo capsular deiscente.[17][18]

Filogenia

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A família Lentibulariaceae está integrada na ordem Lamiales formando um grupo-irmão com a família Schlegeliaceae, uma vez que a morfologia e a fitoquímica das flores indicam uma forte relação filogenética entre ambas famílias.

Representa com os seus géneros a maior família de plantas carnívoras (apresentando aproximadamente 390 espécies, com diversos mecanismos, habitats e especializações). Dentro da família, Pinguicula divergiu primeiro e as suas espécies aparecem como um clado terminal num ramo longo. Genlisea é táxon irmão de Utricularia.

A monofilia da família é altamente suportada. O mesmo se aplica aos seus três géneros, que tem Pinguicula, divergindo primeiramente e aparecendo como grupo-irmão de um clado composto por Genlisea e Utricularia, que se apresenta como um ramo completamente resolvido.

Ao contrário desse clado, em Pinguicula, não ocorre uma filogenia bem suportada, uma vez que se tem dados que foram obtidos por análises de partições de material genético não codificantes e codificantes. Esses dados apontam para que Pinguicula seja provavelmente uma divisão de dois clados, sendo um deles com espécies das regiões temperadas do norte (com exceção de Pinguicula alpina) e um segundo clado de distribuição predominantemente mexicana, mas que inclui P. alpina. Essa relação é sustentada por alguns caracteres vegetativos da planta.[19][19][19][20]

Distribuição e conservação no Brasil

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Distribuição nas diferentes regiões brasileiras de Lentibulariaceae (1- Genlisea A. St.-Hil e 2- Utricularia L.)
Tabela de distribuição de Lentibulariaceae no Brasil.

No Brasil, aproximadamente 29 espécies são endémicas, todas elas integradas nos gêneros de Genlisea e Utricularia, que o gênero Pinguicula está ausente do território brasileiro.

Distribuição

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Entre as 85 espécies registradas no Brasil, 67 correspondem ao gênero Utricularia L. e 18 ao gênero Genlisea A. St.-Hil, enquanto não há registros da ocorrência do gênero Pinguicula L. Destas, cerca de 29 espécies são endêmicas, das quais 18 representam Utricularia L. e 11 o gênero de Genlisea A. St.-Hil.[11]

O gênero Utricularia L. apresenta uma distribuição geográfica diversa no território brasileiro, compreendendo os biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Enquanto Genlisea A. St.-Hil compreende os mesmos, exceto Pampa e o Pantanal.

Quanto ao tipo de vegetação que se encontram, foram registradas ocorrências em: área antrópica, Caatinga, Campinarana, campo de altitude, campo de várzea, campo limpo, campo rupestre, Cerrado, floresta ciliar ou de galeria, floresta ombrófila, palmeiral, restinga, Savana amazônica, vegetação aquática e vegetação sobre afloramentos rochosos.[11][7]

Abaixo, a distribuição de acordo com as regiões:

Espécies endêmicas no Brasil

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Todas as espécies registradas encontravam-se em locais úmidos (rochas, terrenos arenosos) ou com presença de água, tais como pântanos, brejos, margens de riachos, campos alagados e córregos. A seguir, algumas das espécies endêmicas catalogadas entre os anos de 2012 a 2018[21][6][18][7]:

Espécies ameaçadas de extinção

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Utricularia tridentata Sylvén, que é caracterizada por ser uma erva terrestre, perene, e que apresenta síndrome de polinização provavelmente entomófila. Não é endêmica do Brasil e ocorre no Espírito Santo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraná, tendo preferência por campos úmidos, banhados, em beira de regatos e cachoeiras, áreas alagadas da região Sul do Brasil, entre 1.100 e 2.000 m de altitude. Seus hábitats de ocorrência se encontram severamente fragmentados. No atual momento, é protegida pelo Parque Nacional do Caparaó e Parque Nacional de Itatiaia.

Mesmo com pouca representação em estudos e coleções científicas, apresenta coletas recentes no Rio Grande do Sul, mas ainda se mostra necessário maiores investimentos em pesquisa científica e maior esforço de coleta nas áreas de ocorrência da espécie para que se certifique a existência das populações deste grupo

Genlisea lobata Fromm, que se caracteriza por ervas anuais, que são hermafroditas e que apresentam polinização provavelmente entomófila. É endêmica do Brasil, ocorrendo nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, restrita aos biomas Cerrado e Mata Atlântica. Se encontra no estado de ameaça por motivos de exploração madeireira, prática de monoculturas, pecuária com a consequente invasão de espécies exóticas e reflorestamentos homogêneos. Apresenta distribuição restrita e pontual.

Tem poucas representações em estudos e coleções científicas, sendo então preciso investimentos na pesquisa científica e maior esforço de coleta nas suas áreas de ocorrência.[22]

Referências

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  1. Angiosperm Phylogeny Group (2009). «An update of the Angiosperm Phylogeny Group classification for the orders and families of flowering plants: APG III». Botanical Journal of the Linnean Society. 161 (2): 105–121. doi:10.1111/j.1095-8339.2009.00996.xAcessível livremente. hdl:10654/18083Acessível livremente 
  2. Ellison, A.; Gotelli, N. (2009). «Energetics and the evolution of carnivorous plants-Darwin's 'most wonderful plants in the world'» (PDF). Journal of Experimental Botany. 60 (1): 19–42. PMID 19213724. doi:10.1093/jxb/ern179 .
  3. Jobson, Richard W.; Playford, Julia; Cameron, Kenneth M.; Albert, Victor A. (2003). «Molecular Phylogenetics of Lentibulariaceae Inferred from Plastid rps16 Intron and trnL-F DNA Sequences: Implications for Character Evolution and Biogeography». Systematic Botany. 28 (1): 157–171. doi:10.1043/0363-6445-28.1.157 .
  4. K. Müller; T. Borsch; L. Legendre; S. Porembski; I. Theisen; W. Barthlott (2004). «Evolution of Carnivory in Lentibulariaceae and the Lamiales». Plant Biology. 6 (4): 477–490. Bibcode:2004PlBio...6..477M. PMID 15248131. doi:10.1055/s-2004-817909 .
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Bibliografia

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Ver também

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Ligações externas

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O Wikispecies tem informações relacionadas a Lentibulariaceae.
O Commons possui uma categoria com imagens e outros ficheiros sobre Lentibulariaceae