Martin Niemöller

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Martin Niemöller
Nascimento 14 de janeiro de 1892
Lippstadt, Império Alemão
Morte 6 de março de 1984 (92 anos)
Wiesbaden, Alemanha Ocidental
Nacionalidade Alemanha alemão

Emil Gustav Friedrich Martin Niemöller (Lippstadt, 14 de janeiro de 1892Wiesbaden, 6 de março de 1984) foi um pastor luterano alemão. Em 1966, foi-lhe atribuído o Prêmio Lênin da Paz. Desde a década de 1980 tornou-se conhecido pelo seu discurso/poema anti-nazista, largamente adaptado e parafraseado, conhecido no Brasil como "E não sobrou ninguém...".

Biografia[editar | editar código-fonte]

Filho de um pastor luterano, foi educado para a fidelidade ao imperador e com sentimento patriótico alemão. Depois de concluir o curso colegial, ele ingressou na Marinha como soldado de carreira. Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu como comandante de submarino,[1] vindo a ser condecorado com a Cruz de Ferro. Após a guerra, viveu durante algum tempo em Freikorps e estudou Teologia em Münster. Em 1931, foi ordenado pastor da Igreja de Santa Ana em Dahlen, subúrbio de Berlim.

Mesmo depois de formar-se em Teologia, ele permaneceu fiel à sua ideologia patriótica e conservadora. Porém, após a subida dos nazistas ao poder, em 1933, Niemöller entrou num conflito crescente com o novo governo. Inicialmente, ele concordava com o antagonismo dos Nazistas ao Comunismo e à República de Weimar,[1] mas ficou alarmado com a tentativa de Hitler em dominar a Igreja Evangélica (Luterana ou Reformada) impondo-lhe o movimento neopagão dos "Cristãos Germânicos" da Igreja do Reich e de seu bispo Ludwig Müller[2]. Sendo ele nacionalista e não estando inteiramente livre de preconceitos anti-semitas[1][3], Niemöller protesta decididamente contra a aplicação do "parágrafo ariano" na Igreja e a falsificação da doutrina bíblica pelos cristãos alemães de ideologia nazista. Para impedir a segregação de cristãos de origem judaica, ele criou no outono de 1933, com Dietrich Bonhöffer, a Pfarrernotbund ("Liga Pastoral de Emergência") para apoiar os pastores não-arianos ou casados com não-arianas, que foi transformada na Bekennende Kirche (Igreja Confessante) em 1934. A Igreja Confessante recusou obediência à direção oficial da Igreja Evangélica, tornando-se um importante centro de resistência alemã protestante ao regime Nazista.

Em 1934, Niemöller acreditava ainda que poderia discutir com os novos donos do poder. Numa recepção na Chancelaria em Berlim, ele contestou Hitler, que queria eximir a Igreja de toda responsabilidade pelas questões "terrenas" do povo alemão:

"Ele me estendeu a mão e eu aproveitei a oportunidade. Segurei a sua mão fortemente e disse: 'Sr. Chanceler, o senhor disse que devemos deixar em suas mãos o povo alemão, mas a responsabilidade pelo nosso povo foi posta na nossa consciência por alguém inteiramente diferente'. Então, ele puxou a sua mão, dirigindo-se ao próximo e não disse mais nenhuma palavra."

Perseguição nazista[editar | editar código-fonte]

A partir deste incidente, Niemöller fica cada vez mais na mira do regime. É observado pela Gestapo e proibido de fazer pregações, o que ele não aceita. Em 1935, é preso pela primeira vez e logo libertado. Martin Niemöller já era tido nessa época como o mais importante porta-voz da resistência protestante. No verão de 1937, ele pregava:

"E quem como eu, que não viu nada a seu lado no ofício religioso vespertino de anteontem, a não ser três jovens policiais da Gestapo — três jovens que certamente foram batizados um dia em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e que certamente juraram fidelidade ao seu Salvador na cerimônia de crisma, e agora são enviados para armar ciladas à comunidade de Jesus Cristo –, não esquece facilmente o ultraje à Igreja e deseja clamar 'Senhor, tende piedade' de forma bem profunda."

Em julho de 1937, Niemöller foi preso novamente. Passados cerca de sete meses, no dia 7 de fevereiro de 1938, começou então o seu processo diante do Tribunal Especial II em Berlim-Moabit. Segundo a acusação, Martin Niemöller teria criticado as medidas do governo nas suas pregações "de maneira ameaçadora para a paz pública", teria feito "declarações hostis e provocadores" sobre alguns ministros do Reich e, com isto, transgredido o "parágrafo do Chanceler" e a "lei da perfídia". A sentença: sete meses de prisão, bem como dois mil marcos de multa.

Os juízes consideraram a pena como cumprida, em função do longo tempo de prisão preventiva. Niemöller deveria assim ter deixado a sala do tribunal como homem livre. Para Hitler, no entanto, a sentença pareceu muito suave. Ele enviou o pastor como seu "prisioneiro pessoal" para um campo de concentração.[1] Até o fim da guerra, durante mais de sete anos, Martin Niemöller permaneceu preso — inicialmente, no campo de concentração de Sachsenhausen, depois no de Dachau. Foi libertado pelos aliados.

Após a Guerra, Niemöller participou da reorganização da Igreja Protestante em Hesse, foi conselheiro da Igreja Evangélica na Alemanha e presidente do Conselho Mundial de Igrejas. Foi crítico ao rearmamento da Alemanha Ocidental, à corrida armamentista e às posições da Igreja frente a Guerra Fria. Morreu aos 92 anos.[1]

"Eu me calei"[editar | editar código-fonte]

Niemöller é o autor de um pequeno poema antinazista - muito conhecido mas raramente atribuído a ele:

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu me calei; afinal de contas, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os social-democratas, eu fiquei calado; eu não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, eu fiquei em silêncio; eu não era sindicalista.
Quando eles vieram por mim, não havia mais ninguém para protestar.
[4]

Um verso que não aparece na primeira versão, mas que autor adicionou provavelmente depois de 1945, é a seguinte:
"Depois eles vieram pelos judeus, e eu não protestei porque não era judeu." [5]

Nas últimas décadas, o texto de Niemöller tem sido muito citado publicamente,[6] embora com alterações as mais diversas e sendo quase sempre atribuído a autores bem mais célebres - Brecht ou Maiakovski -, tal como ocorreu no caso do poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, no seu mais conhecido poema, "No caminho, com Maiakovski".

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: Martin_Niemöller

Referências

  1. a b c d e Trespach, Rodrigo (1 de agosto de 2021). «Teologia em plena Segunda Guerra: A trama do pastor Martin Niemöller». Aventuras na História. Consultado em 7 de agosto de 2021 
  2. George P. Blum, The Rise of Fascism in Europe, Westport, CT, Greenwood Press, 1998, pp. 109-110
  3. Robert Michael, "Theological Myth, German Antisemitism, and the Holocaust: The Case of Martin Niemoeller", Holocaust Genocide Studies, 2, 1987, pp. 105-122; idem, e Karin Doerr, Nazi-Deutsch/Nazi-German: An English Lexicon of the Language of the Third Reich, Westport, CT, Greenwood Press, 2002, pp. 9- 10; Martin Niemöller, Here Stand I!, Nova Iorque, 1937, pp. 193–198.
  4. «Was sagte Niemöller wirklich? – Martin Niemöller Stiftung» (em alemão) 
  5. Die Geschichte von Pastor Martin Niemöller (1892-1984)
  6. Teoria do Caos. Portal Geledés, 6 janeiro de 2012.
Ícone de esboço Este artigo sobre uma pessoa é um esboço relacionado ao Projeto Biografias. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.