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Zambi

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Zambi
Escultura "Santu Nzambi" por um artista Holo. Província de Kwango, República Democrática do Congo.

Nzambi a Mpungu, também conhecido como Nzambi ou Nzambi Mpungu, é o deus supremo, eterno e criador da tradição espiritual do povo Bakongo, na África Central. É considerado o pai celeste e deus solar, relacionado ao fogo e à transformação.[1] Sua contraparte feminina é Nzambici, deusa lunar e mãe celeste.

Antes da colonização, Nzambi Mpungu e Nzambici eram compreendidos como forças complementares — os "Milagres dos Milagres" — que criaram o universo espiritual (Ku Mpémba) e físico (Ku Nseke). Eles existiam em todas as partes e não estavam submetidos às hierarquias da teologia ocidental.[2]

História

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O nome Nzambi Mpungu aparece nos registros portugueses desde o início do século XVI, durante os contatos com o Reino do Congo. Missionários e intelectuais locais, como o rei Afonso I do Congo, adotaram o termo para traduzir a noção cristã de "Deus" para o quicongo.[1] Um catecismo perdido de 1557 e outro de 1624, supervisionado pelo padre jesuíta Mateus Cardoso, já usavam esse nome.[2]

Com a colonização portuguesa, ocorreu uma tentativa de sincretizar o cristianismo com a cosmologia africana. Muitos bakongos passaram a associar Nzambi Mpungu ao Deus cristão, enquanto outros espíritos, como os simbi e nkisi, foram rebaixados a "espíritos menores", em uma lógica próxima à dos anjos na tradição cristã.[2]

Um provérbio quicongo afirma: Ku tombi Nzambi ko, kadi ka kena ye nitu ko — "Não se procura por Deus, pois Ele não tem corpo".[1]

Etimologia e nomes alternativos

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A palavra "Nzambi" provém das línguas bantas, como o quicongo e o quimbundo, significando originalmente "senhor do mundo". No século XV, era título do rei de Loango, e, após a chegada dos portugueses, passou também a designar o rei de Portugal, até se consolidar como sinônimo de "Deus Supremo".[3]

Formas variantes incluem: Zâmbi, Zambiapungo, Zambiapongo, Zambiampungo, Zambiapombo, Zambiapunga, Zambiumpungo, Zambiupongo, Zamunipongo e Zamuripongo.

Nzambi na diáspora africana

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Candomblé Bantu

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No Candomblé Bantu, praticado no Brasil, Nzambi (ou Zambi) é reconhecido como o deus criador, o ser supremo que deu origem ao universo e à vida. Após a criação, ele teria se retirado do mundo, permanecendo responsável apenas por forças como a chuva e a saúde. Não se presta culto direto a Nzambi — o contato com o divino ocorre por meio dos inquices, suas forças intermediárias.[3]

Nzambi é frequentemente sincretizado com o Senhor do Bonfim, e por vezes é associado a Calunga, divindade das águas profundas e do mundo espiritual.

Na tradição religiosa Kumina, da Jamaica, o deus criador é chamado de "King Zombi", uma derivação de Nzambi Mpungu.[4]

No Palo, religião afro-cubana, Nzambi é o criador do universo e a força vital presente na natureza e nos mortos. As forças de Nzambi podem ser manipuladas por meio do Nganga, o sacerdote, durante os rituais.

Perspectiva do Candomblé

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Na cosmovisão do Candomblé, especialmente nas nações de origem bantu, Nzambi não é apenas um conceito teológico, mas um princípio filosófico que estrutura a existência. Ele não é cultuado diretamente, pois sua transcendência é tamanha que só pode ser acessado por meio dos inquices — entidades da natureza que personificam aspectos do mundo e da vida. A lógica do Candomblé bantu rejeita a hierarquia estrita entre divindades e reconhece a importância de cada força como expressão de Nzambi no mundo. Essa organização espiritual contrasta com a verticalidade das religiões abraâmicas, e reflete um modelo de interdependência entre o visível e o invisível.

Ver também

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Referências

  1. a b c Asante, Molefi Kete; Mazama, Ama (2009). Encyclopedia of African Religion. 1. [S.l.]: SAGE Publications. pp. 120–124. ISBN 978-1412936361 
  2. a b c Brown, Ras Michael (2012). African-Atlantic Cultures and the South Carolina Lowcountry. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 978-1-107-66882-9 
  3. a b Barros, Elisabete Umbelino de (2007). Línguas e Linguagens nos Candomblés de Nação Angola. São Paulo: Universidade de São Paulo. pp. 233–236 
  4. Murrell, Nathaniel Samuel (2010). Afro-Caribbean Religions: An Introduction to Their Historical, Cultural, and Sacred Traditions. [S.l.]: Temple University Press. p. 261. ISBN 9781439901755 

Bibliografia

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  • Asante, Molefi Kete; Mazama, Ama (2009). Encyclopedia of African Religion. [S.l.]: SAGE Publications. ISBN 978-1412936361 
  • Brown, Ras Michael (2012). African-Atlantic Cultures and the South Carolina Lowcountry. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 978-1-107-66882-9 
  • Barros, Elisabete Umbelino de (2007). Línguas e Linguagens nos Candomblés de Nação Angola. São Paulo: USP 
  • Murrell, Nathaniel Samuel (2010). Afro-Caribbean Religions. [S.l.]: Temple University Press. ISBN 9781439901755