Abel Manta

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Abel Manta
Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura, Lisboa, 1973
Nascimento 12 de Outubro de 1888
Gouveia (Portugal)
Morte 9 de Agosto de 1982 (93 anos)
Lisboa
Nacionalidade Portugal portuguesa
Prémios Prémio Silva Porto, 1942; 1º Prémio de Pintura, F. C. Gulbenkian, 1957

Abel Manta (Gouveia, 12 de Outubro de 1888 — Lisboa, 9 de Agosto de 1982) foi um pintor e professor português. É uma figura maior da primeira geração de pintores modernistas portugueses.1 .

Com formação em Lisboa (1908-15) e Paris (1919-25) e autor de uma obra centrada em categorias como a paisagem ou a natureza-morta, Abel Manta destaca-se em particular como "o maior retratista do seu tempo".2

Biografia[editar | editar código-fonte]

Jogo de Damas, 1927, óleo s/ tela, 106 x 116 cm (Col. Museu do Chiado)

Abel Manta nasce em Gouveia em 1888. Fixa residência em Lisboa em 19043 . Em 1908 matricula-se na Escola de Belas Artes de Lisboa, onde é aluno de Carlos Reis e Ernesto Condeixa, terminando o curso em 1915.4

Em 1919 parte para Paris, onde irá contactar com Francisco Franco, Dordio Gomes, Cristino da Silva e João da Silva, com quem partilha o ateliê. Frequenta o curso de gravura na casa Schulemberger; participa no Salon La Nationale, Paris, em 1921, 1922 e 1923. Regressa a Lisboa em 1925 e nesse mesmo ano expõe individualmente no Salão Bobone, Lisboa. 5

Em 1926 é docente da cadeira de Artes Decorativas no Ensino Técnico, no Funchal; no ano seguinte casa-se com Clementina Carneiro de Moura e em 1928 nasce o seu único filho, João Abel Manta. Em 1934 é "injustamente vencido"6 no concurso para professor da Escola de Belas Artes, ensinando a partir desse ano e até à aposentação, em 1958, na Escola de Artes Decorativas António Arroio.7

Em 1920 recebe o 3º Prémio de Pintura na SNBA. Dez anos mais tarde participa no I Salão dos Independentes, Lisboa; a partir dessa data marca presença em inúmeras exposições coletivas, recebendo diversos prémios, nomeadamente: Prémio Silva Porto, S.N.I., 1942; 1º Prémio de Pintura, I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1957.

Em 1965 realiza uma exposição retrospetiva na SNBA, Lisboa, em paralelo com Dordio Gomes.8

Embora discreto na forma como projetou no exterior a sua obra, Manta pertenceu por inteiro à intelectualidade do seu tempo. Privou com figuras de grande relevo, participou regularmente em tertúlias como a do café A Brasileira, Chiado. Em 1979, foi condecorado com a Comenda da Ordem de Santiago e Espada pelo Presidente da República Portuguesa, António Ramalho Eanes.

Na sua terra natal, Gouveia, foi inaugurado em Fevereiro de 1985 o Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta, num edifício setecentista. O acervo, algo limitado, contém cerca de duas dezenas de obras do pintor.

Obra[editar | editar código-fonte]

Aurorretrato, c. 1939, óleo sobre tela, 65 x 50 cm

Para Abel Manta, como para a maioria dos pintores modernistas portugueses, a estadia em Paris foi determinante. A "descoberta do impressionismo e de Cézanne"6 forneceu-lhe os instrumentos para a definição do quadro de referências da sua produção futura. "Abel Manta passou a ser um pintor que assume uma dupla formação: a do naturalismo dos seus mestres na Escola de Belas Artes de Lisboa, com especial relevo para Carlos Reis, na procura da luz e de um registo mais imediato, bem como o rigor, a necessidade de construção que o «cilindro, a esfera e o cone» cézanneanos lhe incutiram".9 "À margem de qualquer vanguardismo, detestando o academismo, sincero para consigo próprio e para com a sua visão das coisas"10 , conseguiu compatibilizar essas referências de modo pessoal.

Embora a fase inicial se caracterize por uma estruturação das formas e do espaço pictórico mais cézanneana, mais geometrizada, não parece possível isolar no interior da sua obra períodos estanques, claramente demarcados. Centrando-se sobretudo na observação direta do real 11 , o seu projeto artístico caracteriza-se por uma grande coerência e continuidade.

Abel Manta elegeu três domínios temáticos principais: natureza-morta, paisagem e retrato. "Entre a natureza-morta cezanniana e a paisagem urbana impressionista se define a sua obra que, na maturidade sobretudo, se enriqueceu com notáveis retratos".6

Ao logo dos anos pintou retratos de gente notável, como Bento de Jesus Caraça e Manuel Mendes, familiares, amigos, vizinhos, afirmando-se "como o maior retratista do seu tempo, capaz de integrar a expressão psicológica num sistema pictural coerente, com simultâneo entendimento plástico do retratado e compreensão do seu significado humano e social".6 Para compreender a dimensão dessa faceta da sua obra vale a pena demorarmo-nos nos autorretratos, "onde nos surge maciço, franco e reservado […], algo interrogativo no olhar"; ou confrontar uma pintura "com aura" como o retrato do violinista René Bohet, 1930, com a sua cara na sombra e o seu "corpo quase desconjuntado, num espaço triangular, […] que tanto figura a música e o seu ritmo, como o músico".12

Na sua obra pode destacar-se Jogo de Damas, 1927 (coleção do Museu do Chiado), onde evoca Clementina Carneiro de Moura a jogar com o irmão. De herança cézanneana 13 , esta será, segundo José Augusto França, "a obra mais significativa das suas possibilidades «modernas»", garantindo-lhe "uma posição importante entre os pintores da sua geração" 10 ,

"Atento à atmosfera da cidade tanto quanto à sua estrutura", as suas paisagens urbanas oferecem-nos "imagens fiéis mas inesperadas pela escolha do motivo ou do ângulo da sua tomada".14 Manta pintou a cidade do Funchal, Gouveia ou Lisboa; "sobretudo Lisboa, onde sabia renovar e reinventar, repetindo e inovando um espaço, sempre o mesmo e sempre diferente, como o largo de Camões, lugar comum maior na sua pintura".9 Através do exemplo desta série é possível confirmar a regularidade da sua obra, ver como o mesmo tema lhe serviu para gerar, ao longo dos anos, pinturas tão similarmente líricas e preocupadas com "o espaço total da composição" 14 (pinturas a que, segundo José Luís Porfírio, a palavra "impressionismo, embora imprópria", foi recorrentemente associada 9 ).

Coleções / Exposições[editar | editar código-fonte]

Largo Camões, 1954, óleo sobre tela, 65,5 x 55 cm (Col. CAMJAP)

Abel Manta está representado em inúmeras coleções e museus, entre os quais: Museu do Chiado, Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta, Gouveia.

Exposições individuais15 [editar | editar código-fonte]

Algumas exposições coletivas / Prémios[editar | editar código-fonte]

  • 1914 – Menção Honrosa em Pintura, Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), Lisboa.
  • 1920 – 3º Prémio de Pintura, SNBA, Lisboa .
  • 1921, 1922, 1923 – Salão La Nationale, Paris.
  • 1923 – Galeria Legripe, Ruão.
  • 1930 – I Salão dos Independentes, Lisboa.
  • 1933 – Exposição coletiva, SNBA, Lisboa; Exposição coletiva, Galeria UP, Lisboa.
  • 1934 – 2ª Medalha, SNBA, Lisboa.
  • 1935, 36, 38, 41, 42 – I, II, III e VI Exposições de Arte Moderna do S.P.N./S.N.I., Lisboa; vence o Prémio Silva Porto (1942).
  • 1946-1951 e 1954 – Exposições Gerais de Artes Plásticas, SNBA, Lisboa.
  • 1949 – 1ª Medalha em Pintura, SNBA, Lisboa.
  • 1955 – Bienal de Veneza, Veneza.
  • 1957 – I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa – Prémio de Pintura.
  • 1958 - Bienal de S. Paulo, Brasil; Exposição Internacional de Bruxelas.
  • 1961 – Salão da Primavera, SNBA, Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian: II Exposição de Artes Plásticas, Lisboa.
  • 1965 – Exposição Arte Portuguesa 1550-1950, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil.
  • 1967 – Exposição de Arte Portuguesa, Bruxelas, Paris e Madrid.
  • 1972 – Exposição de Arte Portuguesa nos Séculos XIX e XX em Coleções Particulares, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
  • 1985 – O Imaginário da Cidade de Lisboa, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
  • 2009 – Retrato de Família: Abel Manta, Clementina Carneiro de Moura, João Abel Manta, Isabel Manta, Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta, Gouveia.
  • 2010 – Um percurso, dois sentidos: a Coleção do Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, da atualidade a 1850, Museu do Chiado, Lisboa.
  • 2012 – O modernismo feliz: Art Déco em Portugal: pintura; desenho; escultura, 1912-1960, Museu do Chiado, Lisboa.
  • 2013 – Retrato(s) de Família, Centro Cultural de Cascais, Cascais.

Referências

  1. França, José AugustoA Arte em Portugal no Século XX: 1911-1961 [1974]. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 171-174. ISBN 972-25-0045-7
  2. França, José Augusto – A Arte em Portugal no Século XX: 1911-1961 [1974]. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 171-174
  3. Oriundo de uma família com poucos recursos, a sua ida para Lisboa teve o apoio da "Condessa de Vinhó e Almedina, pintora e admiradora de «coisas da arte»". Mendes, Clara – Abel Manta. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da Coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 38. ISBN 972-635-155-3
  4. Manta, Abel – Abel Manta, 1888-1982. Lisboa: Casa Museu Medeiros de Almeida, 2010
  5. Manta, Abel – Abel Manta, 1888-1982. Lisboa: Casa Museu Medeiros de Almeida, 2010
  6. a b c d França, José Augusto – A Arte em Portugal no Século XX: 1911-1961 [1974]. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 172
  7. A.A.V.V. – Retrato de Família. Gouveia: Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta, 2009
  8. Manta, Abel; Gomes, Dordio – Exposição de Janeiro: Abel Manta – Dordio Gomes. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes, 1965
  9. a b c Porfírio, José Luís – Ver Abel Manta: uma pintura de proximidade. In: Manta, Abel – Abel Manta (1888-1982): um modernista esquecido. Lisboa: Casa-Museu Medeiros de Almeida, 2010, p. 11
  10. a b França, José Augusto – A Arte em Portugal no Século XX: 1911-1961 [1974]. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 174
  11. "Abel Manta está vinculado – pois claro! – ao real. O «motivo» é o seu terreno". Gusmão, Adriano de. In: Manta, Abel; Gomes, Dordio – Exposição de Janeiro: Abel Manta – Dordio Gomes. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes, 1965
  12. Porfírio, José LuísVer Abel Manta: uma pintura de proximidade. In: Manta, Abel – Abel Manta (1888-1982): um modernista esquecido. Lisboa: Casa-Museu Medeiros de Almeida, 2010, p. 10
  13. "Uma vez mais é em Cézanne e na memória dos jogadores de cartas que esta pintura encontra a sua ascendência". Lapa, Pedro. In: A.A.V.V. – Museu do Chiado: Arte Portuguesa 1850-1950. Lisboa: Instituto Português de Museus, 1994, p. 224
  14. a b França, José Augusto – A Arte em Portugal no Século XX: 1911-1961 [1974]. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 173
  15. Continuam por realizar uma investigação e uma exposição capazes de dar a conhecer a sua obra de forma abrangente e estruturada.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]