Análise técnica

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Análise Técnica é uma ferramenta utilizada tanto por especuladores profissionais (conhecidos como traders, operadores ou negociantes de mercado institucionais), como por amadores para análise do movimento de preço de alguns ativos financeiros (principalmente ações de boa liquidez), com base na oferta e procura destes ativos financeiros com o objetivo de lucrar através da identificação dos melhores pontos possíveis de entrada e saída em negociações de compra ou venda dos mesmos. Segundo a Teoria de Dow, os preços dos ativos refletem a reação do mercado em relação a qualquer evento, estando todas as informações relevantes disponíveis sobre um determinado ativo, já contidas em seu preço.

Como uma heurística utilizada em alguns mercados financeiros, a análise técnica pode ser vista tanto como uma forma de psicologia social aplicada como pesquisa de opinião,[1] aonde as linhas de tendência e outros padrões visuais ou estatísticos percebidos, seriam como fotografias do comportamento dos participantes do mercado em determinado momento;[2] como também uma forma de análise de probabilidades baseada na ideia de que os preços por serem reflexos de vieses cognitivos das multidões, se movimentam de acordo com padrões repetitivos e identificáveis.

Embora devido ao fato dos mercados financeiros serem ambientes sociais, seja impossível tanto prever quando e em que intensidade tais padrões se repetirão no futuro, quanto nos momentos nos quais ocorrem as negociações, distinguir sinais reais de tais padrões (que se confirmarão), de alarmes falsos (que se revelarão);[3] ao especulador é possível tirar proveito lucrativo de tal heurística, se cônscio de suas limitações e munido de um rígido controle de risco.[4] [5]

Modalidades[editar | editar código-fonte]

Com seus primeiros registros oficiais remontando ao mercado de arroz no Japão do século XVIII,[6] embora com a popularização da internet e através dela, da negociação eletrônica via home brokers, a Análise Gráfica tenha se destacado como principal ramo da análise técnica desde a década de 1980 entre o público em geral, ela não é o único ramo da análise técnica.

Fita[editar | editar código-fonte]

Uma das mais populares formas de análise técnica do passado foi, até meados da década de 1960, a leitura de fita (tape reading), que consistia em ler informações (como tamanho, velocidade, condições das ordens e seus lances para compra e venda etc) que chegavam às corretoras de valores, casas e/ou escritórios de especuladores mais ativos, numa fita de máquina (uma tecnologia semelhante ao telex, cuja fita de papel era perfurada, enquanto a fita à qual nos referimos era geralmente impressa).[7] Tal sistema caiu em desuso pela maioria com o advento nos anos '60 dos painéis eletrônicos (neste caso, horizontais) que, das informações consideradas essenciais pela maioria dos antigos leitores de fita (preço e volume), restou apenas o preço.

Quadro de Cotações[editar | editar código-fonte]

Outra forma de análise técnica muito usada no passado, era a via interpretação dos dados constantes no Quadro de Cotações, a chamada "pedra", assim denominada por se constituir numa gigantesca lousa (antes de também serem substituídas por painéis eletrônicos de idêntico tamanho), localizada nos salões de negociação das Bolsas de Valores, aonde eram atualizados a giz os dados considerados essenciais para análise dos movimentos de preços dos principais ativos financeiros listados em Bolsa; com as atualizações referentes a alguns destes dados sendo transmitidas aos ambientes fora das Bolsas via a já citada fita, telefone, telex e posteriormente fax.
Tal ferramenta de análise era utilizada tanto in loco, principalmente pelos profissionais de mercado para negociações de curto prazo, quanto pelo público geral, em retrospectiva para negociações de médio e longo prazo, através da comparação dos quadros diários, que vinham impressos nos jornais mostrando os dados referentes às negociações do dia anterior.[8]
Embora julgada por lendários especuladores do passado como Jesse Livermore, como a forma intuitiva mais apropriada ao desenvolvimento de especuladores de sucesso,[9] e continue aparecendo na forma impressa em alguns jornais, além de versões computadorizadas em alguns sites (seja com atraso de minutos na divulgação de dados, seja com atualização dos mesmos em tempo real),[10] [11] a análise via Quadro de Cotações é outra forma de análise técnica que caiu em desuso pela maioria.

Análise gráfica[editar | editar código-fonte]

Se hoje os gráficos são uma ferramenta disponibilizada a todos os participantes do mercado, sem custo adicional, no site de qualquer corretora de valores com dados em tempo real, e para os não participantes em muitos sites com dados com atraso entre 15 e 20 minutos;[12] na era pré-computadores pessoais e pré-internet, as formas gráficas de análise técnica mais usadas, quando não as únicas, eram o ponto & figura[13] e o gráfico de linha simples, devido à simplicidade e praticidade destes no dia a dia em comparação com as de Barras ou os de Velas.
Uma vez que, a confecção física de gráficos (utilizando-se de lápis, caneta, régua, papel quadriculado e borracha), com os cálculos relacionados a eles, demandava tempo e mão de obra especializada para a realização de análises gráficas de barras e velas, principalmente se nelas estivessem inclusos indicadores técnicos. Que, por este motivo eram impraticáveis para o uso em negociações de curto prazo, pois trabalhosa de fazer mesmo para os indivíduos que as conheciam por haverem-na estudado, e portanto quando disponibilizadas pelas corretoras, o era apenas aos clientes de maior porte e que pagavam em separado por estas análises então diferenciadas.[14]
Hoje em dia, todo o trabalho pesado e rotineiro de processamento de dados para cálculo e estatística da montagem de Médias Móveis e uma variedade de Indicadores técnicos, e depois a transposição destes dados já calculados e analisados estatisticamente para a forma gráfica, é processada em tempo real por softwares e algoritmos específicos.[15]

No entanto, além dos acima citados, o número de outros recursos que a análise gráfica possui: linhas de suporte e resistência, projeções Fibonacci,[16] Bandas de Bollinger, triângulos de Gann, vários outros indicadores, osciladores, pontos pivots, entre muitos recursos disponíveis (todos programáveis), não só por vezes parece ser infinito,[17] como o fascínio por tal variedade de recursos e possibilidade de criação e ajustes dos mesmos, aliado aos vieses de confirmação e de atribuição, faz com que não raro analistas, práticos e críticos[18] da análise gráfica passem a focar exclusivamente nesta, buscando na mesma um caráter preditivo, na forma de um "indicador perfeito"; perdendo assim a visão geral, de que tanto a análise gráfica é apenas um campo da análise técnica, como por sua vez, esta última é uma análise de probabilidades, não de previsão.[19] [20]

Incerteza & Aplicação[editar | editar código-fonte]

O principal viés de utilização de qualquer modalidade de análise nos mercados financeiros (seja técnica, quantitativa ou fundamentalista), incertos por natureza devido a serem movidos constantemente por inúmeros participantes que se utilizam de variadas e contraditórias estratégias e táticas em tempos distintos,[21] se dá pela aversão dos participantes do mercado em geral a 3 fatores: à incerteza, às perdas e ao erro.
O que, por várias razões de ordem cognitiva acaba induzindo os participantes tanto a confundir análise de probabilidades com "previsão de certeza" (termo que por si já é uma contradição),[22] como também a, mesmo quando não o fazem, a não seguirem os sinais de indicação da análise técnica (inclusive quando estes são claros)[23] para abortar, abrir ou encerrar uma negociação. [24]
Outro erro se dá no campo de sua aplicação fora de contexto, já que como qualquer especulador experiente que a utilize pode atestar, se a análise técnica, em especial a gráfica pode ser uma heurística eficiente se aplicada sobre ativos financeiros direcionais como Ações e índices futuros (especialmente no médio e longo prazo, se aliada à uma boa gestão de risco); em relação a ativos não-direcionais, como opções, ativos de baixa liquidez e moedas, além de ineficaz, ela é contraproducente.[25] Para análise de ações voltados para cenários de incerteza no longo prazo, que dependem mais fundamentos contábeis e financeiros, a análise técnica pode ser usada como um complemento da análise fundamentalista, tanto para ações blue chips quanto para ações small caps[26] .

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Elder; Alexander "Como se tornar um Operador e Investidor de Sucesso" 1ª edição na língua original ("Trading for a Living") 1993. Edição traduzida Campus Elsevier 2004 pág. 5
  2. Ibidem Elder 1993
  3. Max Gunther; "Os Axiomas de Zurique", 1ª edição na língua original 1985. Editora Record 2006 v. 4º & 5º Axiomas ISBN 8501033502
  4. Ibidem Elder 1993 Capítulo X "Gestão do Risco"
  5. Douglas; Mark "Trading in the Zone" (em Inglês) New York Institute of Finance/Prentice Hall Press 2000, Capítulo 7 "The Trader's Edge: Thinking in Probabilities" ISBN 0735201447
  6. Treat; John Elting "Energy Futures; Trading Opportunities" (em inglês) PennWell Corporation 2000, Página 145, 2º parágrafo
  7. | Investopedia/Tape reading
  8. Lefevre; Edwin "Memórias de 1 operador da Bolsa" - 1ª edição na língua original ("Reminiscences of a Stock Operator") 1923 - Campus Elsevier 2008 ISBN 8535228799
  9. Ibidem Lefevre 1923
  10. | Quadro de cotações do simulador FolhaInvest gratuito para cadastrados
    | simulador gratuito que também dá acesso, mediante cadastro, ao Quadro de cotações das ações do Ibovespa
  11. | Aba "Monitor" - Quadro de cotações do site ADVFN; gratuito para cadastrados (já a versão de dados em tempo real, disponível somente para assinantes pagos)
  12. 2, entre vários exemplos de sites que disponibilizam dados gratuitamente neste sentido são o da | Advfn e o da | InvestCharts
  13. Downes & Goodman "Dicionários de termos financeiros e de investimento" Editora Nobel 1993 pág. 382 ISBN 9788521307747
  14. Bazin; Décio "Faça Fortuna com Ações; antes que seja tarde" Livro II, Parte I, Capítulo IV "Tecnomania, essa praga" Ed. JMJ 1992 - Crítica ácida porém bem humorada à análise técnica.
    No entanto, é bom frisar que, ao contrário de outra referência "Os Axiomas de Zurique", que é uma obra crítica imparcialmente em relação ao viés de previsão contido em todo tipo de análise, "Faça Fortuna com Ações" contém forte viés de previsão fundamentalista
  15. Ibidem Elder 1993 Capítulo IV "Análise Técnica Computadorizada"
  16. Carlos Alberto Debastiani "Análise Técnica de Ações",(2008), Novatec
  17. Niederhoffer; Victor "Practical Speculation" (em inglês) John Wiley & Sons 2003 - Capítulo 3 "The Hydra Heads of Technical Analysis"
  18. Ibidem Niederhoffer 2003
  19. Elder; Alexander "Aprenda a Operar no Mercado de Ações" Campus Elsevier 2006, Capítulo 5 ("Método - Análise Técnica"), seção "Indicadores - Cinco Balas no Tambor" Pág. 91 ISBN 8535218980
  20. Ibidem Elder 1993 Pág. 249, 4º parágrafo e Capítulo X
  21. Watts; Duncan J. "Tudo é Obvio; desde que você saiba a resposta (como o senso comum nos engana)" Editora Paz & Terra 2011 Parte I, Capítulo 6 "O sonho da previsão" do último parágrafo, pág. 135 ao final do capítulo
  22. Ibidem Gunther 1985
  23. | Imagem que resume de forma clara, sinais de entrada para compra e venda de ações (em inglês).
    Enfase no caráter ilustrativo da mesma, já que na maioria das vezes tais percepções só são faceís de visualizar apenas em retrospectiva, à esquerda dos gráficos
  24. Ibidem Elder 1993 Introdução + 1º & 2º Capítulos "Psicologia Individual" e "Psicologia de Massas"
  25. Linchen; Newton & Peres; Tarcísio S. "Lucrando com os tubarões - As armadilhas da Bolsa e como usá-las a seu favor" Editora Novatec 2011 ISBN 8575222880
  26. Rojo, C. A. Investimento em Small Caps: cenários do mercado brasileiro. Relatório de pesquisa de pós-doutorado FEA/USP. eBook Kindle Amazon.com.br. Cascavel: Assoeste, 2014. ISBN 9788599994436

Ver também[editar | editar código-fonte]

Leitura adicional recomendada[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • Vídeo educacional sugerido: "Parem de usar a Análise Gráfica como Bola de Cristal!" Canal Bastter YouTube