Aristágoras

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Aristágoras
Αρισταγόρας ο Μιλήσιος
Nascimento século VI a.C.
Mileto
Morte 497 a.C.
Trácia

Aristágoras (em grego: Αρισταγόρας ο Μιλήσιος) foi o líder de Mileto no final do século VI a.C. e início do século V a.C.

Juventude[editar | editar código-fonte]

Aristágoras serviu como vice-governador de Mileto, uma pólis na costa ocidental da Anatólia por volta de 500 a.C. Era filho de Molpágoras, e genro (e sobrinho) de Histieu, a quem os persas haviam nomeado para ser o tirano de Mileto. Aristágoras controlou Mileto durante o tempo em que Histieu foi apoiado pelo imperador persa Dario I em Susa.[1] Aristágoras foi o principal articulador da Revolta Jônica, quando as poleis gregas da Jônia, na costa leste do Mar Egeu se uniram para se rebelar contra o governo do Império Persa.

Naxos[editar | editar código-fonte]

Alguns cidadãos exilados de Naxos foram até Mileto em busca de refúgio. Pediram para Aristágoras abastecê-los com soldados, a fim de que pudessem recuperar o controle de sua terra natal. Aristágoras tinha esperança de ao fornecer as tropas, fosse se tornar governante de Naxos, e fez então um acordo com os líderes de Naxos.[2] Alegou que não tinha homens o bastante, mas que Artafernes, irmão de Dario, e sátrapa persa da Lídia, que comandou um grande exército e marinha na costa da Ásia, pudesse ajudar a fornecer os soldados. Os exilados de Naxos consentiram que Aristágoras fizesse as negociações com Artafernes e lhe deram dinheiro. E assim Aristágoras foi até Sárdis, pediu para Artafernes atacar Naxos e trazer de volta os exilados com a certeza de que Artafernes ficaria depois no controle do território. Contou que Naxos "era uma ilha muito agradável e fértil, perto da costa jônica, e rica em tesouros e escravos"[3] Aristágoras prometeu que além de financiar a expedição, daria a Artafernes uma quantia em dinheiro. Encorajou também Artafernes acrescentando que a captura da ilha colocaria outras poleis das Cíclades sob seu controle, o que poderia servir de base para atacar a Eubeia.[4] Artafernes concordou e prometeu enviar duzentos navios. Na primavera seguinte, Aristágoras e os exilados de Naxo navegaram com a frota. Infelizmente para a invasão, Aristágoras havia brigado com o almirante Megabates, que então informou aos habitantes da ilha que a frota estava chegando. Com isso, Naxos teve tempo suficiente para se preparar para um cerco. Quatro meses depois, o cerco ainda permanecia, os persas estavam sem suprimentos, e restavam poucas provisões. A expedição fracassou, e eles navegaram de volta para casa.[5]

Revolta Jônica[editar | editar código-fonte]

Após seu fracasso em Naxos, a posição política de Aristágoras ficou abalada. Em uma tentativa para se livrar da represália da Pérsia, começou a planejar uma revolta com a população de Mileto e de outros locais da Jônia. Enquanto isso, Histieu, ainda retido em Sárdis, tatuou uma mensagem na cabeça raspada de um escravo. Quando o seu cabelo cresceu novamente, ele o enviou para Aristágoras. A mensagem incentivava Aristágoras a iniciar a revolta. Histieu, ansioso para ver Mileto novamente, esperava que Dario o enviasse para lidar com a revolta em Naxos. Aristágoras, que já havia proposto a revolta, conversou com um conselho de seus partidários, que concordaram com uma rebelião em Mileto em 499 a.C. Aristágoras tinha o apoio da maioria dos cidadãos, com exceção do historiador Hecateu. Enviou homens para Mios a fim de capturar os comandantes da frota persa no local. Uma vez que sua rebelião teve início, Aristágoras "pôs-se a prejudicar Dario de todas as maneiras possíveis".[6] Para ganhar apoio, depôs os déspotas das outras cidades-Estados jônicas, e alegou que iria também acabar com sua tirania, para permitir a criação de um governo popular.[7] Aristágoras ordenou que todas as cidades-Estados criassem um conselho de generais para governar, dando início assim à Revolta Jônica. Depois, partiu para Lacedemom em busca de um aliado.

Assistência de Esparta[editar | editar código-fonte]

Aristágoras apelou para o rei espartano, Cleômenes I, solicitando ajuda para se libertar do jugo persa. Elogiou a qualidade dos guerreiros espartanos, e argumentou que uma invasão preventiva da Pérsia facilitaria a conquista desse objetivo. Alegou que os persas seriam facilmente derrotados, uma vez que lutavam de "calças e turbantes", um claro sinal de que não eram bons guerreiros.[8] Incentivou-o também falando sobre as riquezas persas. Cleômenes pediu para que Aristágoras esperasse dois dias por uma resposta. Quando voltaram a se encontrar, Cleômenes perguntou quanto tempo levaria para chegar até Susa, e ao ser informado de que seria uma viagem de aproximadamente três meses de duração, resolutamente se recusou a fornecer assistência de Esparta, dizendo que não enviaria suas tropas para tão longe. Na época, Esparta se preocupava com um possível ataque de Argos.[9] O historiador grego Heródoto afirmou que Aristágoras tinha a intenção de subornar Cleômenes, até que a jovem filha do rei o advertiu de que Aristágoras tentaria corrompê-lo.[10] Aristágoras partiu, e mais outra tentativa havia falhado.

Incêndio de Sárdis[editar | editar código-fonte]

Aristágoras seguiu para Atenas, onde fez um discurso convincente, prometendo "tudo o que lhe veio à cabeça, até conseguir seu objetivo".[11] Ganhou a causa, os atenienses enviaram navios para a Jônia, e Aristágoras partiu antes deles, com a única intenção de provocar Dario.[12] Os atenienses chegaram em Mileto com vinte trirremes e cinco outros trirremes que pertenciam aos eretrianos. Quando todos os seus aliados chegaram, Aristágoras colocou seu irmão Charopino para comandar a expedição, e todo o contingente se dirigiu para Sárdis, a capital persa na Jônia. Utilizando Éfeso como sua base, o exército por terra seguiu para Sárdis, onde capturou a cidade sem qualquer oposição e forçou o sátrapa Artafernes e suas tropas a recuarem para a acrópole. Os jônios incendiaram a cidade, queimando acidentalmente o templo da deusa lídia Cibele, incidente que os persas mais tarde usaram como desculpa para a queima de templos gregos. Os jônios recuaram para o monte Tmolo quando os reforços persas começaram a chegar.[13] Os reforços perseguiram os jônios, os atacaram perto de Éfeso e os derrotaram.[14]

Depois desta batalha, os atenienses se recusaram a continuar lutando na Revolta Jônica e retornaram para Atenas. Entretanto, por causa de sua participação nesta batalha, o rei persa, Dario, jurou vingança contra Atenas e mandou um servo repetir para ele três vezes todos os dias no jantar, "Mestre, lembre-se dos atenienses".[15]

Após o incêndio de Sárdis, os jônios continuaram em sua campanha, ganhando o controle de Bizâncio e das cidades circunvizinhas, bem como da maior parte da Cária e do Cauno. Quase todos de Chipre também se rebelaram contra os persas. Onesilo, irmão mais novo de Gorgo, o governante de Salamina, tentou convencer seu irmão a se rebelar contra a Pérsia e participar da Revolta Jônica. Mas seu irmão continuamente se recusou, Onesilo então esperou até o momento dele deixar a cidade e, em seguida, fechou-lhe as portas. Gorgo fugiu para a proteção dos persas, enquanto Onesilo assumiu o governo e convenceu os cipriotas a aderirem à revolta. Passaram então a sitiar a cidade de Amato.[16]

Amigos ou inimigos?[editar | editar código-fonte]

Durante a Batalha de Sárdis, Dario manteve o cargo de Histieu de conselheiro real. Quando questionado sobre as ações de Aristágoras, seu vice-governador, Histieu alegou não ter qualquer conhecimento prévio de seus planos e jurou pôr fim à rebelião, caso Dario lhe permitisse voltar à Jônia. Dario consentiu e Histieu, a quem Heródoto alegou não ter a intenção de pôr fim à rebelião, voltou para a Jônia a fim de ajudar Aristágoras.

Muitos estudiosos frequentemente assumem que Aristágoras e Histieu trabalharam fielmente juntos como coautores na guerra contra os persas. Outros estudiosos, como P. B. Manville, sugerem que, enquanto lutavam contra os persas, Histieu e Aristágoras também brigaram entre si pelo controle de Mileto e poderiam ser mais bem descritos como rivais ou até mesmo inimigos.[17] Enquanto Histieu esteve afastado servindo a Dario, Aristágoras atuou em seu lugar como vice-governador de Mileto, onde, argumenta-se, trabalhou para garantir seu próprio poder. A primeira indicação disso foi sua expedição a Naxos. Ele não pediu permissão a Histieu e, em vez de recorrer a sua ajuda, Aristágoras foi procurar Artafernes, que tinha muito ciúmes de Histieu. Quando a expedição fracassou, Histieu enviou seu escravo tatuado até Aristágoras, não como um incentivo para a revolta, mas como um ultimato. Histieu ordenou que Aristágoras desistisse de seu governo ou sofresse as consequências. No entanto, neste momento Histieu ainda estava em Susa e, apesar de sua ameaça, não seria capaz de fazer qualquer coisa caso Aristágoras se revoltasse. Aristágoras percebeu que esta seria sua última chance de ganhar o poder e rebelou apesar da ameaça de Histiaeus. Quando Aristágoras fingiu desistir de seu poder, já que todos os outros tiranos jônios foram depostos, ocorreu também a deposição de Histieu. Histieu em seguida, tentou formar uma aliança com Artafernes para depor este usurpador e recuperar seu poder em sua terra natal. Artafernes, embora estivesse no momento em guerra aberta contra Aristágoras, recusou, porém, logo depois Aristágoras foi morto na Trácia.[18]

Consequências[editar | editar código-fonte]

Embora a revolta tenha começado bem para os jônios, a maré logo virou a favor dos persas. Depois de apenas um ano, os cipriotas foram mais uma vez forçados a se submeter à Pérsia. As cidades ao redor do Helesponto caíram uma após a outra perante as tropas de Daurises, genro do rei Dario. As forças da Cária lutaram contra os persas no rio Meandro e foram derrotadas com grandes baixas. Aristágoras viu sua grande rebelião se despedaçar a sua volta e procurou uma maneira de escapar da fúria de Dario. Após convocar uma reunião dos seus apoiadores, Aristágoras decidiu que o melhor lugar para se esconder seria em Mircino. Pitágoras, o descreve com "um homem de distinção", a serviço de Mileto e que partiu para a Trácia, onde tentou fundar uma colônia às margens do [rio Struma]], no mesmo local da atual Anfípolis.[19] Ganhou o controle do território, mas depois, enquanto sitiava uma cidade vizinha, foi morto pelos trácios.[20]

Concluindo, Aristágoras teve muitas tentativas fracassadas. Falhou na conquista e controle da cidade de Naxos. Não conseguiu convencer Esparta para se juntar a ele na revolta jônica. Foi também incapaz de liderar uma rebelião bem sucedida contra os persas. Porém, essas tentativas fracassadas ainda tiveram consequências duradouras. A raiva de Dario e o desejo de vingança contra os atenienses por sua participação na revolta foi uma causa que contribuiu para as Guerras Médicas.

Heródoto como fonte[editar | editar código-fonte]

Grande parte das informações sobre Aristágoras e de suas ações é baseada nos escritos do antigo historiador Heródoto. Embora Heródoto, em muitos aspectos, represente alguns dos melhores da historiografia antiga, no entanto, alguns estudiosos têm sido cada vez mais críticos no que diz respeito ao seu valor como fonte histórica, especialmente em relação à Revolta Jônica. Como observa Mabel Lang, um dos problemas com a descoberta da veracidade histórica no relato de Heródoto é "que o fracasso da revolta não só deu destaque a cada aspecto e evento que explicaria, justificaria ou anteciparia os resultados desastrosos, mas também lança na sombra quaisquer intenções que mereciam um destino melhor e todos os sucessos temporários durante o curso da guerra."[21] Além disso, Oswyn Murray argumenta que grande parte da discussão da Revolta por parte de Heródoto é dependente da tradição oral jônica, que seja talvez suspeita, devido a sua derrota.[22] Como prova dessa insegurança, Murray afirma que a revolta jônica não foi motivada por desejos de acabar com a tirania, como Heródoto sugere, mas sim que foi motivada pelas consequências econômicas da expansão persa.[23] Apesar destas limitações potenciais, alguns estudiosos recentes tentaram reabilitar Heródoto como fonte para obter informações sobre a Revolta Jônica. Pericles Georges em particular, tentou contestar as afirmações de Murray, argumentando que não apenas a expansão persa trouxe prosperidade econômica para os jônios, e que o relato da política jônica feita por Heródoto é consistente com outras fontes contemporâneas.[24]

Notas

  1. Heródoto, The Histories, tradução de Aubrey de Sélincourt, (Londres: Penguin Books, 1954), 320.
  2. Heródoto, The Histories, 320.
  3. Heródoto, The Histories, 321.
  4. Heródoto, The Histories, 321.
  5. Heródoto, The Histories, 322-323.
  6. Heródoto, The Histories, 324.
  7. Heródoto, The Histories, 324.
  8. Heródoto, The Histories, 328.
  9. I. E. S. Edwards, The Cambridge Ancient History, Cambridge [Inglaterra]: Cambridge University Press, 1970, 482.
  10. Edwards, The Cambridge Ancient History, 329- 330.
  11. Edwards, The Cambridge Ancient History, 351.
  12. Edwards, The Cambridge Ancient History, 351.
  13. Edwards, The Cambridge Ancient History, 352-353.
  14. Edwards, The Cambridge Ancient History, 483.
  15. Heródoto, The Histories, 354.
  16. Heródoto, The Histories, 353.
  17. P.B. Manville, “Aristagoras and Histiaios: The Leadership Struggle in the Ionian Revolt,” The Classical Quarterly 27 (1977): 80-91. http://www.jstor.org/stable/638371, 80-81.
  18. Manville, "Aristagoras and Histiaios", 82-90.
  19. Heródoto, The Histories, 359
  20. Heródoto, The Histories, 357-360.
  21. Mabel Lang, "Herodotus and the Ionian Revolt," Historia: Zeitschrift für Alte Geschichte 17, no. 1 (1968): 24.
  22. Oswyn Murray, "The Ionian Revolt," Cambridge Ancient History IV, 2ª edição (Cambridge: Cambridge University Press, 1988), 470.
  23. Murray, "The Ionian Revolt", 475.
  24. Pericles B. Georges, "Persian Ionia Under Darius: The Revolt Reconsidered," Historia: Zeitschrift für Alte Geschichte 49, no. 1 (2000): 1-39.

Referências

  • Este artigo incorpora texto da Encyclopædia Britannica (11ª edição), publicação em domínio público.
  • Wikisource-logo.svg  "Aristagoras". Encyclopædia Britannica (11th). (1911). 
  • Edwards, I. E. S. The Cambridge Ancient History. Cambridge [Inglaterra]: Cambridge University Press, 1970.
  • Georges, Pericles B. "Persian Ionia Under Darius: The Revolt Reconsidered." Historia: Zeitschrift für Alte Geschichte 49, no. 1 (2000): 1-39.
  • Heródoto. The Histories. Traduzido para o inglês por Aubrey de Sélincourt. Londres: Penguin Books, 1954.
  • Lang, Mabel. "Herodotus and the Ionian Revolt." Historia: Zeitschrift für Alte Geschichte 17, no. 1 (1968): 24-36.
  • Manville, P.B. “Aristagoras and Histiaios: The Leadership Struggle in the Ionian Revolt.” The Classical Quarterly 27 (1977): 80-91. http://www.jstor.org/stable/638371.
  • Murray, Oswyn. "The Ionian Revolt." Cambridge Ancient History IV. 2ª edição. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. 461-490.