Artigo (gramática)

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São muitas as palavras formadas por uma única sílaba, e elas também podem ser tônicas ou átonas, de acordo com a intensidade com que são pronunciadas em uma frase.

Pronunciado fracamente, o monossílabo átono, na prática, se junta à palavra que vem antes ou depois dele.

Exemplo: Esse é um problema de cada um de nós.

Note que os dois "de" quase são pronunciados como se fosse um "di" e forma uma espécie de sílaba átona da palavra anterior: "dicada" e "dinós" (as tônicas estão em negrito).

Na mesma frase, entretanto, encontramos monossílabos tônicos: "é" e "nós", cuja pronúncia é fortemente marcada.

Dá-se o nome de artigo às palavras que se antepõem aos substantivos para indicar se esses têm um sentido individual, já determinado pelo discurso ou pelas circunstâncias, chamados definidos, ou se os substantivos não são determinados, chamados indefinidos. [1] [2] [3]

Por exemplo, quando se diz o príncipe, o artigo o indica que o substantivo [Nota 1] príncipe deve ser tomado em um sentido individual, que a circunstância do Reino e da Nação, em que vive o autor da frase, o determina. [1]

Por outro lado, quando se diz um príncipe é digno de casar com uma princesa, ou um crime tão horrendo merece a morte, etc, o artigo um indica que se fala, no primeiro caso, de um indivíduo e, no segundo caso, de um crime individual, porém o sentido é vago, e não se deseja nomear este príncipe ou este crime. [1]

Os artigos devem concordar com substantivo em gênero e grau. [1]

Os artigos são:[1]

Artigo definido
São: o, a, os, as.
Artigo indefinido
São: um, uma, uns, umas.

O artigo indefinido não deve ser confundido com o numeral um, que é usado para expressar quantidade. Nos exemplos um homem da corte/uma mulher da corte tem mais espírito e viveza que um aldeão, um vassalo deve obedecer ao rei, um rei deve ser o pai de seu povo, um homem de juízo deve ser senhor de suas paixões, António é um Cícero, Cícero é um bom orador, o artigo um pode, em alguns casos, ser substituído pelo artigo o, porém nunca pela expressão exatamente um. [Nota 2] [1]

Usos do artigo[editar | editar código-fonte]

Significado restrito[editar | editar código-fonte]

Todo substantivo [Nota 3] cujo significado é restringido, tanto pelo discurso, ou por algum adjetivo, exceto quando forem usados determinativos especiais,[Nota 4] deve ser precedido de um determinativo geral, ou seja, de um artigo, utilizando-se o artigo definido para dizer que aquele nome tem um significado individual determinado, e o artigo indefinido para indicar que, apesar de único, seu significado é vago e indeterminado. [1]

Exemplo: Pedro foi tratado com honra. Neste caso, honra não necessita de artigo, porque a palavra está sendo usada em seu sentido geral. Porém, quando ocorre uma restrição, ou seja, Pedro foi tratado com honra devida ou Pedro foi tratado com honra devida a seu merecimento, é preciso utilizar o artigo: Pedro foi tratado com a honra devida, se a honra foi determinada e certa, ou Pedro foi tratado com uma honra devida, se a honra é qualquer e indeterminada. [1]

Determinação do substantivo em relação ao sujeito da oração[editar | editar código-fonte]

Nenhum substantivo pode ser sujeito de qualquer oração sem ser determinado, expressa ou implicitamente, por algum determinativo, geral ou especial. Utiliza-se o artigo definido quando se fala de um indivíduo certo, ou o indefinido quando se fala de um indivíduo vago. [1]

Exemplos: O príncipe justo, que nos governa, é também pio e indulgente, Um príncipe, que é justo, também deve ser pio e indulgente. [1]

Modificação por gênero e número[editar | editar código-fonte]

O artigo definido o, não modificado por gênero e número, seguido do verbo substantivo ser ou outro equivalente traz à memória a oração antecedente, de qualquer gênero e número. Exemplo: Há verdades, que a nós não parecem, não por não o serem, mas (etc) (H. Pinto), Ia todos os dias ver a sepultura do seu irmão, e que o havia de ser sua (Lobo), As feias nem por o serem, deixam de ter partes estimáveis. Segundo Barbosa, este uso do artigo neutro e indeclinável é muito elegante e frequente. [1]

Substantivação[editar | editar código-fonte]

O artigo definido substantiva qualquer parte da oração e orações inteiras, para que sejam o sujeito ou objeto do discurso. [1]

Substantiva o adjetivo: o lícito e o ilícito, o justo e o injusto.
Substantiva o verbo, não só nas formas impessoais, como em A natureza fez o comer para o viver, A gula faz o comer muito para o viver pouco, mas também nas formas pessoais, como em O gabares-te de sábio mostra seres ignorante
Substantiva as preposições: O amor não está no por isso, mas no porque
Substantiva os advérbios: Não sabemos o quando, o como, o quanto
Substantiva orações inteiras: Pelo que, do que se segue, (etc), Nunca o que de sua natureza é bom pode perder, ou danar-se por muito, Nem o que é mau melhorar por pouco. [1]

Se usado com nomes próprios, o artigo definido indica familiaridade, mas trata-se de uso opcional, podendo também ser omitido: "O João não veio hoje", "A Ana está sempre presente nos encontros dominicais". [4]

Colocação diante de um nome próprio[editar | editar código-fonte]

O artigo indefinido, se colocado diante de um nome próprio, muda seu sentido para um apelativo: Este homem é um Cícero, João de Barros é o livro português, Camões é o Homero lusitano. Neste sentido também usa-se em expressões como os Brasis, as Angolas, as Goas, as Málacas, os Macaus, etc. O uso do artigo faz estes substantivos próprios serem transformados em substantivos comuns. [1]

Quando não devem ser usados artigos[editar | editar código-fonte]

Sentido geral[editar | editar código-fonte]

Quando o substantivo tem sentido geral. Em O macaco não é homem, Onde há homens há cobiça, os substantivos homem, homens e cobiça não tem artigo, porque estão sendo usados em sentido geral e indeterminado. [1]

Determinativo especial[editar | editar código-fonte]

Quando o substantivo vem precedido de um determinativo especial, de qualidade ou de quantidade, que os determinam, não como indivíduo, não precisam de artigo. Meu pai, Minha mãe, Seu pai, Sua mãe, Nossos pais, Vossos avós, Este homem, Aquele sujeito, Muitos homens, Alguns homens, Um/dois/três homem/homens, etc. [1]

Algumas exceções são mesmo e qual, que sempre levam artigo: o mesmo homem, a mesma mulher, o qual homem, a qual mulher. O demonstrativo conjuntivo que não admite artigo exceto no gênero neutro, como em O que de sua natureza é bom (etc). Quando se diz Os que, As que, sempre se entende como Os homens que, As mulheres que. [1]

Vocativo[editar | editar código-fonte]

Quando os substantivos são usados no vocativo. Neste caso, são determinados, na segunda pessoa, e são usados pela interjeição vocativa O, ou pelos pronomes pessoais Tu, Vós. [1]

Demonstrativo de quantidade[editar | editar código-fonte]

Os demonstrativos de quantidade toda e toda, quando usado no sentido de cada, não é usado com artigo: Todo homem, Toda parte. Quando é um universal coletivo, usa-se artigo: Todos os homens, Todas as partes. O cardinais Dois, Três, Quatro, etc, não tem artigo, exceto quando for necessário individualizar, como em Os dois exércitos inimigos, As três armadas combinadas. Os ordinais Primeiro, Segundo, etc, tem artigo, quando precedem aos substantivos, como em O primeiro século, O segundo século, porém não tem, quando seguem o substantivo, como em D. João primeiro. Tirando estas exceções, os demais adjetivos determinativos não são usados com artigo. [1] [Nota 5]

Nomes próprios[editar | editar código-fonte]

Os nomes próprios de divindades, homens, cidades, vilas e lugares, não tendo antes de si modificativo algum, estão determinados e individualizados, por isto não precisam de artigo. Dizemos Deus, Alexandre, Augusto, Portugal, Lisboa, etc, e com eles O bom Deus, O grande Alexandre, O Imperador Augusto, O rico Portugal, A nobre Lisboa, etc, porque aqui o artigo não cai sobre o nome próprio, mas sobre o adjetivo. [1]

Em alguns casos, o uso consagrou o uso de artigo para alguns nomes de regiões, províncias, ilhas, cidades, montes; e os nomes de rios sempre vem com artigo. Exemplos: A Europa, A Ásia, A África, A América, O Brasil,[Nota 6] O Algarve, O Alentejo, A Extremadura, A Beira, O Minho, A Madeira, O Funchal, O Porto, A Guarda, O Mogadouro, A Golegã, O Tejo, O Douro, O Mondego, O Guadiana, etc. Isto acontece porque estes nomes eram, inicialmente, comuns, e foi necessário apropriá-los com artigo, ou porque há elipse do nome comum que os entende. [1]

Para alguns nomes, pode-se usar o artigo ou não, como em A Espanha, A França, A Inglaterra, e Vou para Espanha, Fazendas de França, Venho de Inglaterra. Isto também vale para os metais: O Ouro, A Prata, O Cobre, Caixa de ouro, Estojo de prata, Pagar em cobre. Usa-se também no caso de personificação: O poder da França, etc. [1]

Notas e referências

Notas

  1. No texto de Barbosa (1830), em vez de substantivo está escrito nome comum.
  2. No texto de Barbosa (1830), a expressão usada é um certo; no português de quase 200 anos depois, um certo tem o sentido equivalente ao artigo indefinido um.
  3. No texto de Barbosa (1830), Todo o nome Apellativo.
  4. De acordo com Barbosa (1830), os determinativos são dois grupos, os determinativos gerais são os artigos, e os demais são especiais. Neste último grupo estão os pronomes possessivos, demonstrativos, etc.
  5. No texto de Barbosa (1830), não existe numeração para estes casos, sendo o caso seguinte numerado como 4-, etc.
  6. No texto de Barbosa (1830), tratado como uma província de Portugal.

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v Barbosa, Jeronymo Soares. (1830). Grammatica philosophica da lingua portugueza: ou Principios da grammatica geral applicados à nossa linguagem.
  2. Cunha, Celso. Gramática do Português Contemporâneo. 7 ed. Belo Horizonte: Bernardo Álvares, 1978. p. 144.
  3. Caudas Aulete, Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 3 ed. Rio de Janeiro: Delta, 1974. p. 359. vol. 1.
  4. Bechara, Evanildo, 1928. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006. p. 154; 23 cm.