Alergia

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Alergia
Urticária resultado de uma alergia
Classificação e recursos externos
CID-10 T78.4
CID-9 995.3
DiseasesDB 33481
MedlinePlus 000812
eMedicine med/1101
MeSH D006967
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A Alergia é uma resposta exagerada do sistema imunológico a uma substância estranha ao organismo, ou seja uma hipersensibilidade imunomediada a um estímulo externo específico.

O organismo capaz de apresentar uma reação de hipersensibilidade diz-se estar sensibilizado. As reações alérgicas, sendo reações imunológicas, são extremamente específicas, reagindo o organismo sensibilizado exclusivamente ao determinante antigênico usado como imunógeno ou uma estrutura semelhante. As reações de hipersensibilidade foram bem cedo separadas em dois tipos diferentes, de acordo com o tempo decorrido entre o contato do organismo sensibilizado com o antígeno e a visualização macroscópica do fenômeno alérgico. Assim, enquanto as chamadas reações de hipersensibilidade imediata exigem apenas minutos para seu aparecimento, as reações de hipersensibilidade tardia só se desenvolvem depois de muitas horas. Hoje, embora esse critério de tempo de aparecimento continue válido para a classificação das reações de hipersensibilidade, sabe-se que diferenças mais importantes separam os dois tipos. Assim, enquanto as reações do tipo imediato incluem todas as reações reproduzíveis por um ou outro dos vários tipos de anticorpos presentes no soro e, consequentemente, podem ser transferidas de um indivíduo para o outro por anti-soro, as reações do tipo tardio dependem de linfócitos e, portanto, não são transmissíveis por anti-soro, mas somente por células. A transferência por meio de células de um estado de imunidade denomina-se imunização adotiva, porque o organismo receptor adota as células do doador, as quais lhe conferem a imunidade adquirida no outro organismo. No caso de transferência por células de um estado de hipersensibilidade, diz-se haver sensibilidade adotiva. Tanto a imunidade quanto a sensibilização adotiva somente são possíveis entre indivíduos isogênicos.(É possível à transferência de células alogênicas que, entretanto, sobrevivem por um período curto.) Note-se que, enquanto a hipersensibilidade tardia é transferível por anticorpos ou células.

Classificação[editar | editar código-fonte]

O esquema adiante resume a classificação dos diversos tipos de hipersensibilidade. As reações de hipersensibilidade imediatas incluem a anafilaxia, as reações citotóxicas e as reações devidas a determinados tipos de complexos antígeno-anticorpo em consequência qual produzem-se alterações nos tecidos. Note-se que, enquanto na anafilaxia o anticorpo está associado às células provando respostas dessas ao reagirem com o antígeno, nas reações citotóxicas, o antígeno é que se encontra associado às células. Nas reações devidas a complexos antígeno-anticorpo, nem o antígeno o anticorpo se encontram previamente associados às células, ocorrendo a reação após combinação do antígeno com o anticorpo livre. Além disso, enquanto as duas reações dependem da reação de complemento, as reações anafiláticas acontecem sem a participação desse sistema. Existem evidências demostrando que, em quase todas as reações, a resposta do organismo é divida à ação de substâncias formadas ou liberadas do tecido pela reação do antígeno-anticorpo. Essas substâncias, que usualmente possuem intensa atividade farmacológica, são denominadas mediadores farmacológicos químicos ou simplesmente mediadores.

Reações de Hipersensibilidade
Mediadas por anticorpos
Mediadas por Linfócitos T
anafilaxia
Reações por complexos imunes
Devidas as infecções bacterianas, vírus e parasitos.
Devido a proteína purificada
Devido a substância química simples(dermatite de contato)

Imunoglobulina E[editar | editar código-fonte]

A imunoglobulina é uma proteína que exerce importante papel no corpo humano. É ela que vai dar início a um complexo sistema de defesa contra infecções e ataques de vírus e bactérias. A imunoglobulina tem função de mensageira. Liberada na circulação sanguínea, ela percorre o organismo e ao deparar-se com o agente agressor para o qual ela foi especificamente feita, fixa-se nele e promove a liberação de histamina, que é a responsável pelos sintomas.

Sintomatologia[editar | editar código-fonte]

O alérgico pode apresentar um ou vários dos sinais abaixo, conforme a patologia.

Asma


Rinite


Dermatite Atópica

  • Lesões descamativas, principalmente em locais de dobras do corpo (anterior do cotovelo, posterior do joelho e pescoço) e couro cabeludo.


Alimentos, ferroadas de himenópteros, medicamentos e látex.


Dermatite de Contato níquel, cobalto, cosméticos e outros.

Diagnóstico de Alergia[editar | editar código-fonte]

O diagnóstico de alergia é um diagnóstico eminentemente clínico, que pode ser auxiliado pelos testes cutâneo-alérgicos e por exames laboratoriais. Os testes cutâneo-alérgicos são rápidos e práticos e podem ser feitos no próprio consultório do médico especialista em Alergia e Imunologia e geralmente são suficientes para confirmar o diagnóstico. Quando por qualquer razão, não trouxerem as informações necessárias, o especialista pode solicitar exames laboratoriais complementares.[1] As análises de alergia no sangue podem ajudar a confirmar/excluir alergia e, consequentemente, reduzir reações adversas limitando a evicção e medicação desnecessárias. [2] [3] Um diagnóstico correto, com aconselhamento e medidas de evicção baseados em resultados válidos de testes de alergia, ajudarão a reduzir a incidência de sintomas bem como a medicação e a melhorar a qualidade de vida[4] . O profissional de saúde pode utilizar os resultados dos testes para identificar alergénios específicos, que possam contribuir para os sintomas. Com esta informação, juntamente com a história clínica e o exame físico, o médico pode diagnosticar a causa dos sintomas e definir o tratamento que ajudará o doente a sentir-se melhor. Um resultado negativo pode ajudar o médico a excluir determinadas alergias, de modo a explorar outras possibilidades. Excluir alergias é tão importante como confirmá-las, de modo a reduzir a evicção e preocupação desnecessárias bem como o impacto social negativo[5]

Em geral, todas as crianças com “sintomas alérgicos” persistentes/recidivantes/graves, ou indivíduos com necessidade de tratamento contínuo, devem realizar análises de alergia no sangue, independentemente da idade da criança[6] . Os sinais e sintomas podem incluir manifestações relacionadas com:

  • a pele (ex. eczema, prurido, eritema, urticária aguda ou angioedema)
  • o trato gastrointestinal (ex. inchaço dos lábios/língua, náuseas, cólicas abdominais, diarreia, vómitos)
  • o trato respiratório (ex. prurido nasal, espirros, nariz entupido, tosse, compressão torácica, sibilância, falta de ar)
  • sinais ou sintomas de anafilaxia ou outras reações alérgicas sistémicas

As diretivas emitidas pelo National Institute for Health and Clinical Excellence (NICE), em fevereiro de 2011, oferecem aconselhamento de boas práticas no tratamento de crianças e adolescentes até aos 19 anos de idade, com suspeita de alergias alimentares. As diretivas NICE estabelecem que todas as crianças e adolescentes com suspeita de alergia alimentar IgE mediada devem realizar uma análise de alergia no sangue, bem como o doseamento de anticorpos IgE específicos[7] .

A importância dos testes de monitorização[editar | editar código-fonte]

A alergia muda de forma dinâmica ao longo do tempo, e os doentes podem superar ou adquirir novas alergias. Recomenda-se o rastreio regular dos alergénios relevantes, pois fornece informação sobre se e como a abordagem do doente deve ser alterada, de modo a melhorar a sua saúde e qualidade de vida. As análises anuais são importantes para determinar se as alergias a leite de vaca, ovo, soja e trigo foram superadas; no caso de alergia a amendoim, frutos secos, peixe e crustáceos, o intervalo entre testes é alargado para 2 a 3 anos[8] . Os resultados dos testes de monitorização podem ajudar a decidir se é seguro introduzir ou reintroduzir alimentos alergénicos na alimentação, ou quando será o melhor momento para o fazer[9] . O intervalo para reavaliação depende do alimento específico a que o indivíduo é alérgico, da idade e história clínica do doente.

Análises de alergia[editar | editar código-fonte]

As diretivas NIH para diagnóstico e abordagem da alergia alimentar e da asma, recomendam as análises de alergia no sangue ou testes cutâneos para determinar com segurança a sensibilização alérgica[10] [11] (1, 5). Ambos os testes são muito precisos e têm valor de diagnóstico similar, em termos de sensibilidade e especificidade[12] [13] . Os avanços e aperfeiçoamentos da tecnologia nas análises de alergia no sangue melhoraram a sensibilidade e a exatidão do teste, ao ponto de as análises de alergia no sangue e os testes cutâneos serem considerados intermutáveis[14] .

Para uma análise de alergia no sangue, uma amostra do sangue do doente é levada para o laboratório. O médico examina os resultados do teste para determinar se o doente é alérgico.

Os testes cutâneos envolvem a introdução de uma pequena quantidade de um extracto de alergénio padronizado na camada superior da pele, habitualmente no antebraço. A resultante libertação de mediadores provoca uma pápula característica e uma reação cutânea no doente sensibilizado. O tamanho da pápula é avaliado pelo médico para determinar se o doente é alérgico ou não.

Segundo as Diretivas NICE e os dados de economia na área da saúde os testes cutâneos e as análises ao sangue (doseamento dos anticorpos IgE) são igualmente económicos em termos de custo-benefício face à não realização dos mesmos[15] . Para além disso, diagnósticos mais precoces e precisos poupam custos, ao reduzirem as consultas de clínica geral, o encaminhamento a cuidados secundários, erros de diagnóstico e hospitalizações de urgência[16] .

Análises de alergia no sangue[editar | editar código-fonte]

Uma análise de alergia no sangue é rápida e simples e pode ser solicitada por um profissional de saúde habilitado, por ex. um alergologista, clínico geral ou pediatra. Ao contrário dos tradicionais testes cutâneos, a análise pode ser realizada independentemente da idade, condição de pele, medicação, sintomas, doenças ou gravidez. Adultos e crianças de qualquer idade podem realizar uma análise de alergias no sangue. Em bebés e crianças muito pequenas, uma única picada para uma análise ao sangue é muito menos cruel do que vários testes cutâneos.

Uma análise de alergia no sangue está disponível na maioria dos laboratórios. Uma amostra de sangue do doente é levada para o laboratório para análise e os resultados são dados poucos dias depois. É possível detetar múltiplos alergénios com uma única amostra de sangue. O profissional de saúde aprova os resultados e, juntamente com os sintomas e a história clínica do doente, determina se o doente é alérgico ou não.

As Diretivas NIH estabelecem que: “os testes de quantificação de IgE específica são úteis para identificar alimentos potencialmente causadores de reações alérgicas alimentares IgE mediadas, e os valores de normalidade específicos, definidos como valores preditivos de 95%, são possivelmente mais preditivos que os testes cutâneos com reatividade clínica, em determinadas populações”. Estabelecem ainda que “as análises de IgE específica são muito úteis para detetar a presença de anticorpos IgE específicos, indicando a existência de sensibilização alérgica. Os ensaios com anticorpos marcados por fluorescência possuem sensibilidade comparável aos testes cutâneos, e os níveis absolutos de anticorpos IgE específicos podem estar diretamente relacionados com a verosimilhança da reatividade clínica, comparativamente a testes de provocação oral para identificação de alimentos causadores de alergias alimentares IgE mediadas” [17] .

As análises de alergia no sangue (como ImmunoCAP) realizam-se sem alterações ao procedimento e a padronização de resultados é excelente[18] . Por outro lado, os reagentes e métodos para realização dos testes cutâneos não estão padronizados[19] [20] . Em “Evidence-based Allergy Diagnostic Tests”, Portnoy afirma:

“Embora os testes cutâneos de alergia sejam sensíveis e específicos, são também altamente variáveis. Os resultados dos testes cutâneos num individuo podem diferir consoante a pessoa que o executa, e tendem a variar consoante a altura do dia e a estação do ano, localização do teste no corpo do doente, instrumento utilizado, fonte do extrato e concentração do mesmo. Infelizmente, há muita tradição em torno dos procedimentos para realização e interpretação dos testes cutâneos. Por exemplo, as técnicas podem divergir dependendo do local de formação do clínico e de quem o formou, pois alguns locais realizam apenas testes cutâneos, outros só realizam testes intradérmicos, e outros ainda realizam ambos os testes”. [21]

Tratamento Alergia[editar | editar código-fonte]

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O tratamento das reações alérgicas deve ser direcionado aos sintomas, ao afastamento do paciente do alérgeno e, em casos selecionados, a indução de tolerância oral (em Alergia Alimentar) ou Imunoterapia Específica ou (em Alergias Respiratórias e Alergia aos Insetos Himenópteros). Pode-se dividir o tratamento naquele da fase aguda e da fase crônica. Esta divisão é aplicada as reações alérgicas agudas IgE mediadas.

Tratamento sintomático[editar | editar código-fonte]

O tratamento sintomático é feito com anti-histamínicos e corticóides por via endovenosa ou intramuscular. Nos casos de alergias respiratórias pode ser necessário nebulização com beta-adrenérgicos. Medicamentos sintomáticos são prescritos conforme a necessidade de cada pessoa. É necessário também afastar a pessoa do agente que está causando a alergia. No caso de anafilaxia a primeira opção é sempre Epinefrina via intramuscular.

Tratamento curativo[editar | editar código-fonte]

O tratamento curativo é a Imunoterapia Específica ou Dessensibilização. A Dessensibilização é uma forma de imunoterapia onde o paciente recebe doses inicialmente mínimas que gradualmente vão aumentando, com doses progressivas do produto alergênico em questão ou do alérgeno modificado (alergóide)[22] .

A Imunoterapia Específica é o único tratamento curativo capaz de modificar o curso natural da doença.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui multimídias sobre Alergia


Referências

  1. Bernstein, I. L., Li, J. T., Bernstein, D. I., Hamilton, R., Spector, S. L., Tan, R., et al. (2008). Allergy diagnostic testing: an updated practice parameter. Ann Allergy Asthma Immunol, 100(3 Suppl 3), S1-148.PubMed
  2. Boyce J et al. Guidelines for the Diagnosis and Management of Food Allergy in the United States: Report of NIAID-Sponsored Expert Panel. J Allergy Clin Immunol 2010; 126: S1–S58.
  3. NICE Diagnosis and assessment of food allergy in children and young people in primary care and community settings 2011. http://guidance.nice.org.uk/CG116/Guidance.
  4. NICE Diagnosis and assessment of food allergy in children and young people in primary care and community settings 2011. http://guidance.nice.org.uk/CG116/Guidance.
  5. Sampson H et al. Utility of food-specific IgE concentrations in predictin symptomatic food allergy. J Allergy Clin Immunol 2001; 107: 891–6.
  6. Høst. A et al. Allergy testing in children: why, who, when and how? Allergy 2003;58:559–569
  7. NICE Diagnosis and assessment of food allergy in children and young people in primary care and community settings 2011. http://guidance.nice.org.uk/CG116/Guidance.
  8. Boyce J et al. Guidelines for the Diagnosis and Management of Food Allergy in the United States: Report of NIAID-Sponsored Expert Panel. J Allergy Clin Immunol 2010; 126: S1–S58.
  9. NIH Guidelines for the Diagnosis and Management of Food Allergy in the United States. Report of the NIAID- Sponsored Expert Panel, 2010, NIH Publication no. 11-7700.
  10. Boyce J et al. Guidelines for the Diagnosis and Management of Food Allergy in the United States: Report of NIAID-Sponsored Expert Panel. J Allergy Clin Immunol 2010; 126: S1–S58.
  11. NIH Guidelines for the Diagnosis and Management of Food Allergy in the United States. Report of the NIAID- Sponsored Expert Panel, 2010, NIH Publication no. 11-7700.
  12. Boyce J et al. Guidelines for the Diagnosis and Management of Food Allergy in the United States: Report of NIAID-Sponsored Expert Panel. J Allergy Clin Immunol 2010; 126: S1–S58.
  13. Cox, L. Overview of Serological-Specific IgE Antibody Testing in Children. Pediatric Allergy and Immunology. 2011.
  14. Boyce J et al. Guidelines for the Diagnosis and Management of Food Allergy in the United States: Report of NIAID-Sponsored Expert Panel. J Allergy Clin Immunol 2010; 126: S1–S58.
  15. NICE Diagnosis and assessment of food allergy in children and young people in primary care and community settings 2011. http://guidance.nice.org.uk/CG116/Guidance.
  16. Food allergy in children and young people.Costing report. Implementing NICE guidance, 2011. http://guidance.nice.org.uk/CG116/CostingReport/pdf/English.Jay
  17. NIH Guidelines for the Diagnosis and Management of Food Allergy in the United States. Report of the NIAID- Sponsored Expert Panel, 2010, NIH Publication no. 11-7700.
  18. Hamilton R et al. Proficiency Survey-Based Evaluation of Clinical Total and Allergen-Specific IgE Assay Performance. Arch Pathol Lab Med. 2010; 134: 975–982
  19. Boyce J et al. Guidelines for the Diagnosis and Management of Food Allergy in the United States: Report of NIAID-Sponsored Expert Panel. J Allergy Clin Immunol 2010; 126: S1–S58.
  20. Jay A. Lieberman & Scott H. Sicherer, Diagnosis of Food Allergy: Epicutaneous Skin Tests, In Vitro Tests, and Oral Food Challenge. Curr Allergy Asthma Rep. Published online: 05 October 2010.
  21. M. Portnoy, MD, and Mercedes Amado, MD, Evidence-based Allergy Diagnostic Tests. Current Allergy and Asthma Reports 2006, 6:455–461
  22. Olivier CE, Lima RPS, Pinto DG, Santos RAPG, Silva GKM, Lorena SLS, Villas-Boas MB, Netto FM, Zollner RL: In search of a tolerance-induction strategy for cow's milk allergies: significant reduction of beta-lactoglobulin allergenicity via transglutaminase/cysteine polymerization. CLINICS. 2012, 67(10):1171-1179.pdf


Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bier Imunologia, básica e aplicada, Wilmar Dias da Silva, Ivam Mota, 5º Edição, Guanabara Koogan, 2003.

Ver também[editar | editar código-fonte]