Bolama (cidade)

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Bolama
Viagem de Bissau para Bolama, Guiné-Bissau – 2018-03-02 – DSCN0996.jpg
Nome local
Bolama
Geografia
País
Província
Província Sul (en)
Subdivisões
Sector
Localização geográfica
Capital de
Área
65 km2Visualizar e editar dados no Wikidata
Altitude
0 mVisualizar e editar dados no Wikidata
Coordenadas
Demografia
População
4 819 hab. ()Visualizar e editar dados no Wikidata
Densidade
74,1 hab./km2 ()
Gentílico
bolamense
Funcionamento
Estatuto
Diocese
Membro de
Geminações
identidade
Línguas oficiais
Crioulo da Guiné-Bissau, português, Bijago language (en)Visualizar e editar dados no Wikidata

Bolama é uma cidade da Guiné-Bissau pertencente ao sector de mesmo nome, capital da região de Bolama. A parte central da cidade está localizada na ilha que também recebe o nome de Bolama.

Segundo o censo demográfico de 2009 o sector possuía uma população de 10 206 habitantes,[1] sendo que 4 819 habitantes somente na zona urbana da cidade de Bolama, distribuídos numa área territorial de 450,8 km².[2][3]

A história desta localidade, que confunde-se com a própria história da Guiné, servindo como capital da Guiné Britânica e depois da Guiné Portuguesa, foi vital para a formação da Guiné-Bissau como Estado-nação tal qual se observa na atualidade.

História[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Questão de Bolama

Primeiras investidas coloniais[editar | editar código-fonte]

Rua Governador Cattela, em 1892.

A primeira investida colonial de facto sobre a ilha de Bolama ocorreu em 4 de abril de 1753, quando o capitão-mor de Cacheu parte em embarcações para tomar posse da ilha. O ato foi meramente cerimonial, pois não ergueu povoação ou fortificação em Bolama.[4]

A fraca presença presença portuguesa na área fez com que, em 10 de maio de 1792, dois oficiais da Armada Britânica, os tenentes Philip Beaver e Henry Dalrymple, que conheciam a região por ali terem participado em operações navais, lançassem em Londres uma subscrição destinada a fundar uma colónia-modelo na ilha de Bolama, ao tempo escassamente habitada e aparentemente disponível para colonização europeia.[5][6]

Após a desistência de Darlymple, o primeiro governante da Guiné Britânica, outro britânico, Filippe Beaver, em 27 de julho de 1792, comprou as terras de Bolama do rei de Canhabaque. Após a aquisição, funda uma feitoria com 275 britânicos, na Ponta Oeste, actual Bolama de Baixo. Em 29 de novembro do mesmo ano ele e os colonos abandonam a povoação. Bolama passa a servir como costa de paragem dos navios britânicos que navegavam entre a Gâmbia e Serra Leoa.[4]

Em 1816 Joseph Scott monta uma expedição para povoação de Bolama, mas, para sua surpresa, encontra tenaz resistência de bijagós que haviam começado a repovoar a ilha, seguindo para a Serra Leoa.[4]

Fixação colonial[editar | editar código-fonte]

O cais do porto de Bolama, em 1912.

Em 24 de junho de 1827 o governador colonial britânico da Serra Leoa Neil Campbell, numa expedição a ilha de Bolama e ao Rio Grande de Buba, assina com os régulos de Bolola e Guínala tratados de ratificação da posse de Bolama. Porém, em oposição aos britânicos, menos de um ano depois, em 12 de julho de 1828, o régulo Damião, de Canhabaque, e representantes do régulo Fabião, dos beafadas, assinam um tratado que autoriza a ocupação de Bolama pelos portugueses. Em 9 de maio de 1830 Joaquim António de Mattos inicia a ocupação militar portuguesa de Bolama, a primeira colónia permanente lusitana na ilha. Esta colónia dá espaço para a montagem de feitorias escravagistas na ilha. A colonização portuguesa e o comércio de escravos gera grandes protestos dos britânicos.[4]

Entre 1838 e 1859 os britânicos atacam seguidamente as feitorias portuguesas, as embarcações de escravos e as posições militares, gerando a Questão de Bolama, um conflito diplomático sobre a anexação da região às possessões coloniais britânicas na Serra Leoa. Alguns desses ataques conseguiram ocupar brevemente a ilha, ora libertando escravos, ora aprisionando soldados portugueses, numa escalada de conflitos sem precedentes nas relações entre Portugal e a Grã-Bretanha, superada posteriormente somente pela contenda do Mapa Cor-de-Rosa.[4]

Em fevereiro de 1859 os britânicos fizeram seu último e mais destruidor ataque às fortificações e feitorias lusitanas em Bolama, fazendo os portugueses abandonarem a ilha. Assim, em 10 de maio de 1860, o governador colonial britânico da Serra Leoa proclama a restauração da Guiné Britânica, porém sob administração da Colônia e Protetorado de Serra Leoa. Em 3 de dezembro de 1860 Stephen Hill, governador da Serra Leoa, visita Bolama e estabelece um contingente militar fixo. Em 14 de dezembro de 1861 a colônia britânica de Bolama é inaugurada.[4]

Em 1 de dezembro de 1869 o sistema das capitanias é substituído por uma nova divisão administrativa, ocorrendo a criação de dois distritos e quatro concelhos: Cacheu, Buba, Bissau e Bolama. Bolama fica jurisdicionada ao distrito de Bissau.[7] Assim, de jure Bolama ainda era parte da Guiné, embora de facto possessão britânica.[4]

A arbitragem e a elevação a capital[editar | editar código-fonte]

O governo britânico concorda em submeter a questão de Bolama à arbitragem em 1868, porém foi somente em 21 de abril de 1870 que tal contenda foi resolvida por sentença arbitral do presidente norte-americano Ulysses S. Grant e que valeria o título de duque de Ávila e Bolama a António José de Ávila.[8] Em 1 de outubro de 1870 a bandeira britânica é ariada e a portuguesa içada, sinalizando o encerramento da questão.[4]

Em 18 de março de 1879 a Guiné Portuguesa torna-se separada administrativamente do Cabo Verde Português, havendo a transferência da capital de Bissau para Bolama. A transferência seria também um ato para minar qualquer outra pretensão colonial, seja britânica, francesa, americana ou espanhola. A vila de Bolama moderniza-se muito após tornar-se capital, ganhando edifícios magníficos e estruturas importantes. Embora capital da colónia, ainda fica, para fins administrativos, sob jurisdição do distrito de Bissau.[4]

A partir de 3 de setembro de 1906 Bolama torna-se cumulativamente capital do distrito de Bolama; embora capital colonial (1879) e distrital (1906), somente ganhou estatuto de cidade em 4 de agosto de 1913.[4]

Quatro equipamentos sociais importantes são instalados na cidade: o Hospital Militar e Civil de Bolama, ainda no século XIX; em 1 de maio de 1930 torna-se a segunda cidade guineense a ganhar eletrificação;[4] em 13 de fevereiro de 1967 passa a funcionar a "Escola de Habilitação de Professores do Posto de Bolama General Arnaldo Sachutz", a mais antiga instituição de formação superior da Guiné ainda em funcionamento (instituída pelo decreto-lei 45908, de 10 de setembro de 1964) que, em 1975, tornou-se a Escola Nacional Amílcar Cabral, atualmente uma das componentes da Universidade Amílcar Cabral, e; o Liceu de Bolama, na década de 1960, que atualmente chama-se Liceu Regional José Martí.[9][10][11]

Mesmo com todas essas transformações, em 29 de abril de 1941 é devolvido a Bissau o título de capital colonial. A cidade, porém, permanece como capital distrital de Bolama (atual região de Bolama).[4]

Geografia[editar | editar código-fonte]

A maior parte da cidade de Bolama é insular, ou seja, está localizada na ilha de Bolama, uma das ilhas do arquipélago dos Bijagós. Sua parte continental está resumida ao bairro de São João, que separa-se do centro da cidade pelo Canal de Bolama.[12]

Economia[editar | editar código-fonte]

A economia local baseia-se na pesca, com grande expressão para a artesanal, além de uma pífia pesca industrial-mecanizada. Além disso, há ainda extrativismo de mariscos. Na agricultura, a cidade e seus arredores produzem quantidades razoáveis de mancarra, batata, milho, mandioca e caju, além de cultura de arroz.[12][13]

Bolama foi selecionada para servir como a primeira zona franca da Guiné, a Zona Franca de Bolama (ZFB), onde pretende-se construir plantas agroindustriais e um grande porto de águas profundas, além de reestruturar as habitações da cidade.[14]

Infraestrutura[editar | editar código-fonte]

Transportes[editar | editar código-fonte]

Bolama dispõe, na região central, de um porto de calado mediano com uma ponte-cais,[15] que faz a principal ligação por balsa com as cidades de Bissau e Bubaque. Do outro lado do Canal de Bolama, no bairro de São José, há um pequeno porto atracadouro de balsas, que liga a região insular e a região continental do sector.

O bairro de São João é conectado por rodovia à vila-secção de Nova Sintra pela Estrada Regional nº 8 (R8). Além da R8, a cidade Bolama conecta-se com o restante do território da ilha de Bolama pela Estrada Local nº 36 (L36), que possui término na vila-secção de Bolama de Baixo, na Ponta Oeste.[16]

Anteriormente a cidade possuía o Aeródromo de Bolama-Sucuto, porém o mesmo está abandonado, embora que com previsão de ser reabilitado.[14]

Educação[editar | editar código-fonte]

A cidade possui um campus-polo da Escola Nacional Amílcar Cabral (ENAC), instituição componente da Universidade Amílcar Cabral. A ENAC oferta basicamente licenciatura em ensino/formação para o primeiro e segundo ciclo.[17]

Cultura e lazer[editar | editar código-fonte]

O magnífico edifício dos Paços do Concelho de Bolama, em 2007.

O centro da cidade é marcado por edifícios de origem colonial portuguesa, alguns em avançado estado de degradação. Contudo alguns edifícios estão em fase de restauro, mantendo o estilo original, como é exemplo do Palácio do Governador, situado perto do porto.

Dentre as construções mais portentosas estão:

Referências

  1. «Guinea Bissau Census Data, 2009 - Série Temporal de População Total Residente - Sector de Bolama». Instituto Nacional de Estatística. 15 de janeiro de 2016. Consultado em 19 de outubro de 2020 
  2. Estudo: Guiné-Bissau. Lisboa: ANEME, 2018.
  3. «Boletim Estatístico da Guiné-Bissau: Guiné-Bissau em Números 2015» (PDF). Instituto Nacional de Estatística. 2015 
  4. a b c d e f g h i j k l Gomes, Américo. (2012). «História da Guiné-Bissau em datas.» (PDF). Lisboa 
  5. Philip Beaver, African Memoranda Relative to an Attempt to establish a British Settlement on the Island of Bolama in the year 1792. London, 1805.
  6. Benzinho, Joana; Rosa, Marta (2018). Guia Turístico - À Descoberta da Guiné-Bissau. Coimbra: Afectos com Letras, UE. 16 páginas 
  7. «Colonização da Guiné: 1837-1844». Blog História da Guiné - Descoberta Colonização e Guerras. 27 de abril de 2016 
  8. Ribeiro, Luiz Gonzaga. A Questão de Bolama. 2016.
  9. Indalá, Samuel. Sistema Educativo e Formação de Professores na Guiné-Bissau. In: IV Congresso Nacional de Formação de Professores e XIV Congresso Estadual Paulista sobre a Formação de Educadores, 2018, Águas de Lindóia, Anais...São Paulo: Água de Lindóia, 2018, p. 101.. 2018.
  10. Augel, Moema Parente. Desafios do ensino superior na África e no Brasil: a situação do ensino universitário na Guiné-Bissau e a construção da guineidade. Estudos de Sociologia. Rev, do Progr. de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE. v. 15. n. 2, p. 137-159.
  11. Furtado, Alexandre Brito Ribeiro. Administração e Gestão da Educação na GuinéBissau: Incoerências e Descontinuidades. Aveiro: Universidade de Aveiro/Departamento de Ciências da Educação, 2005.
  12. a b The Editors of Encyclopaedia Britannica (14 de outubro de 2011). «Bolama». Encyclopædia Britannica. Consultado em 14 de outubro de 2020 
  13. The Editors of Encyclopaedia Britannica (4 de novembro de 2008). «Bolama, region». Encyclopædia Britannica. Consultado em 14 de outubro de 2020 
  14. a b A Infraestrutura. Zona Franca de Bolama. 2017.
  15. «Trilhas Ecoturisticas - Arquipelagos dos Bijagos». IBAP - Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas. 2018. Consultado em 21 maio 2018 
  16. Mapa Rodoviário da Guiné-Bissau. Direcção Nacional de Estradas e Pontes. Outubro de 2018.
  17. Onde Estamos: Guiné-Bissau. Instituto Camões. 2020.