Bule de chá de Russell

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O bule de chá de Russell, eventualmente chamado de bule celestial, é uma analogia criada pelo filósofo Bertrand Russell (1872–1970) que tem por finalidade mostrar que a dificuldade de desmentir uma hipótese não torna esta verdadeira, e que não compete a quem duvida desmenti-la, mas quem acredita nela é que deve provar sua veracidade.

Russell aplicou sua analogia especificamente no contexto de religião. Ele escreveu que, se ele afirmasse, sem oferecer provas, que um bule de chá estivesse orbitando o Sol em algum lugar entre a Terra e Marte, ele não poderia esperar que ninguém acreditasse nele somente pelo fato de sua afirmação não poder ser desmentida.

O bule de chá de Russell é utilizado até hoje em discussões concernentes à existência de Deus, e influenciou diversos campos e mídias.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Num artigo chamado "Existe um Deus?",[1] Russell escreveu:

Em 1958, Russell elaborou sobre a analogia:

Eu tendo a me considerar um agnóstico; mas, para todos os propósitos práticos, sou um ateísta. Eu não vejo a existência do Deus Cristão como sendo nem um pouco mais provável que a existência dos Deuses do Olimpo ou de Valhalla. Ilustrando de outra forma: ninguém pode provar que não existe, entre a Terra e Marte, um bule de porcelana girando em uma órbita elíptica, e no entanto ninguém vê este fato como provável o suficiente para ser levado em conta na prática. Eu vejo o Deus Cristão como igualmente improvável.

Uso contemporâneo[editar | editar código-fonte]

Em seu livro O Capelão do Diabo, de 2003, Richard Dawkins desenvolveu esta analogia do bule de chá celestial:

"A razão da religião reagir contra esta ideia, ao contrário da crença no Bule de Chá de Russell, é porque a religião é poderosa, influente, se autoexime e sistematicamente é passada para crianças que são jovens demais para se defenderem sozinhas. Crianças não são compelidas a passar seus anos de alfabetização lendo livros insanos sobre bules de chá. Escolas públicas não excluem crianças cujos pais preferem formatos diferentes de bule. Os crentes no bule de chá não ameaçam com a morte quem não crê no bule, quem duvida do bule ou quem blasfema contra o bule. Mães não aconselham seus filhos a se casarem com mulheres que creem no bule de chá celestial, tal como todos os seus parentes se casaram. Pessoas que misturam leite no chá não têm suas pernas quebradas por quem prefere o chá puro."

Em seus livros O Capelão do Diabo e Deus, um Delírio, Dawkins usa o bule de chá como uma analogia de um argumento contra o que ele chamou de "conciliação agnóstica". Se a ciência não tem nenhuma maneira de estabelecer a existência ou a não-existência de Deus, acreditar ou não acreditar é uma questão de gosto para o conciliador agnóstico. Então, acreditar ou não acreditar merece o mesmo respeito. Dawkins apresenta o bule de chá como uma redução ao absurdo dessa posição: se agnosticismo respeita igualmente a crença e a não crença num ser supremo, então deve respeitar igualmente a crença no bule de chá celestial, já que a existência do bule é cientificamente tão plausível quanto a existência de um ser supremo.[2]

Peter Atkins disse que o ponto principal do Bule de Chá de Russell é mostrar que um cientista não pode provar a negação, e então a Navalha de Occam demanda que a teoria mais simples (na qual não há ser supremo) deve prevalecer à teoria mais complexa (que há um ser supremo). Argumento análogo é apresentado por Carl Sagan mediante a estória O Dragão em Minha Garagem conforme relatada em O Mundo Assombrado pelos Demônios: "Sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é, de forma alguma, a mesma coisa de provar que ela é verdadeira."

O conceito do bule de chá de Russell tem sido explorado com humor, mais explicitamente do que paródias como a do Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível ou do Monstro do Espaguete Voador.

Referências

Ver também[editar | editar código-fonte]